segunda-feira, 7 de setembro de 2020

Ainda nos falta uma coisa

 


Nossa mais venerada e magnificente esperança é, um dia, não muito no futuro, receber o dom da vida eterna. Aliás, essa é a procura mais persistente em todas as almas humanas. O homem não foi criado para morrer, assim, a ideia de vida longa é a mais grata e querida esperança de quem nasceu.

As religiões prometem vida eterna, quer seja por reencarnações infindáveis, quer por mérito pessoal, ou através de um salvador. Mas, de qualquer forma, essa noção vem com a humanidade desde sempre.

A justa causa dessa esperança, no trivial da concepção humana, é poder vencer tudo que faz cessar a atividade de uma pessoa, dando-lhe possibilidade de respirar, falar, andar, pensar, realizar, sem o vislumbre de ter que cessar tudo mais a frente. Todavia, na Bíblia, a vida não é a possibilidade do movimento perpétuo, e sim a virtude de poder interagir com os semelhantes enriquecendo a experiencia de outrem. Logo, vida eterna é a possibilidade ininterrupta de interagir infindavelmente, sempre buscando melhorar a existência de outros seres. O fundamento desta visão de vida está no próprio sistema divino da cooperação. Qualquer ente que trave o referido sistema terá que desimpedir a rede de cooperação, ou seja, sair de circulação, a morte. Segundo a Bíblia, toda a transgressão e desobediência recebeu a justa retribuição (Hebreus 2:2), além disso, o salário do pecado é a morte (Romanos 6:23). Lembrando que pecado é cobiça, fato que contraria o sistema de cooperação.

Em Mateus 19:16 encontramos um relato muito elucidativo dessa esperança de vida eterna. “E eis que, aproximando-se dele um jovem, disse-lhe: Bom Mestre, que bem farei para conseguir a vida eterna?”. Trata-se de um príncipe que ocupava posições na hierarquia judaica e tinha grandes haveres. O príncipe havia assistido a demonstração de amor manifestada por Jesus às crianças e, o coração do príncipe enchera-se de desejo de ser discípulo do grande Mestre.

O príncipe tinha a si mesmo em grande conta por supor ser justo e, nessa condição, não pensava que lhe faltasse nada, considerando-se apto para receber as bençãos. Na verdade, ainda sentia que havia uma necessidade difusa em sua alma. Jesus lhe informou que havia a necessidade da guardar os mandamentos, pré requisito para a vida eterna, ao que o príncipe respondeu que guardava a lei desde a mocidade. Todavia, Jesus sondou-lhe o caráter ansiando dar-lhe a paz que buscava e disse-lhe: “Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; e vem, e segue-me”.

Seguir a Cristo significa bem mais do que estar em uma religião, ainda que seja a verdadeira. É necessário mudança no sentido de abandonar o que é mundano. Mas, quais coisas são mundanas? Em Marcos 10:21 está relatado que “Jesus, olhando para ele, o amou e lhe disse: Falta-te uma coisa”. Cristo apresentou ao príncipe os únicos termos que poderiam colocá-lo em condições de aperfeiçoar o caráter; aceitá-las e obedecer era a única esperança de salvação. Sua elevada posição e suas muitas posses o estavam influenciando para o mal. Se continuasse a acariciar esses dons, suplantariam a Deus, diminuindo-lhe a força moral, uma vez que posição e riquezas são sonhos mundanos. Se as coisas desse mundo são nutridas na alma, tornar-se-ão cruéis feitores. Infelizmente o príncipe, embora apto a discernir o que Jesus dissera, ficou triste. Preferiu abrir mão da santidade que lhe fora oferecida pelo próprio Deus. Tivera o privilégio de tornar-se um filho de Deus, mas, não quis tomar a sua cruz e seguir na vereda da abnegação. Renunciou à vida eterna.

Em Mateus 25:1-13 há uma explicação ainda mais didática sobre o que nos falta. Dez virgens esperavam um noivo com lâmpadas acesas. A demora as fez dormir e, quando o aviso da vinda do noivo penetrou o silêncio da noite, cinco delas se deram conta de que estavam sem azeite para acender suas lâmpadas. Sabemos que o azeite é o Espírito Santo. Mas, como contextualizar o que acontecera?

Em Apocalipse 2:4-5, o anjo da igreja que está em Éfeso avisa: “tenho, porém, contra ti que deixaste o teu primeiro amor. Lembra-te, pois, de onde caíste, e arrepende-te, e pratica as primeiras obras; quando não, brevemente a ti virei, e tirarei do seu lugar o teu castiçal, se não te arrependeres”. Aqui vemos que há uma advertência lembrando que Éfeso, a primeira igreja, deveria retrover onde havia caído e arrepender-se. Então, onde foi que Éfeso caiu?

Éfeso, quanto ao seu comportamento, está descrita em Atos 2: 42-47: “E perseveravam na doutrina dos apóstolos, e na comunhão, e no partir do pão, e nas orações. E em toda a alma havia temor, e muitas maravilhas e sinais se faziam pelos apóstolos. E todos os que criam estavam juntos, e tinham tudo em comum. E vendiam suas propriedades e bens, e repartiam com todos, segundo cada um havia de mister. E, perseverando unânimes todos os dias no templo, e partindo o pão em casa, comiam juntos com alegria e singeleza de coração, Louvando a Deus, e caindo na graça de todo o povo. E todos os dias acrescentava o Senhor à igreja aqueles que se haviam de salvar.

Ora, se o comportamento ou o caráter dos crentes em Éfeso era a comunhão, no partir do pão e nas orações, ou seja, havia preocupação com as obras de misericórdia, e se o anjo do capítulo 2 de Apocalipse recomenda que Éfeso deveria retrover seu comportamento para arrepender-se, de modo que não fosse retirado o castiçal (lâmpada), então, o que faltou às cinco virgens foram as obras de misericórdia; o resultado da ação do Espírito Santo. Na primeira carta de João (I João 1:6-7) lemos: “Se dissermos que temos comunhão com ele, e andarmos em trevas, mentimos, e não praticamos a verdade. Mas, se andarmos na luz, como ele na luz está, temos comunhão uns com os outros [...]”. Como pode-se facilmente entender, a falta de azeite e, consequente extinção da luz é ausência de atos de misericórdia produzidos pelo conhecimento ou graça de Jesus, ministrada pelo Santo Espírito.

A Entrega do próprio eu é a essência dos ensinos bíblicos. É por vezes apresentada em linguagem autoritária porque não há outro modo de salvar os homens senão cortando fora as coisas que, mantidas, envilecerão todo o ser.

Voltemos à vida eterna. Jesus conta outra parábola no capítulo 25 de Mateus (Mateus 25:14-30) relatando o comportamento de três servos que receberam talentos. Dois multiplicaram os talentos, um, porém, enterrou o único que havia recebido. Há dois conceitos importantes: multiplicar e enterrar.

O multiplicar está explicado no livro Parábolas de Jesus (p.190), onde Ellen White afirma que por todo sacrifício sincero no serviço do Mestre, nossas faculdades aumentarão. O desenvolvimento de todas as nossas faculdades é a primeira obrigação que devemos a Deus e a nossos semelhantes. Nunca devemos abaixar a norma de justiça com o fim de acomodar à prática do mal, tendências herdadas ou cultivadas. Requer o Senhor de todo cristão crescimento em eficiência e capacidade em todo ramo. Quanto mais procurar comunicar luz, mais luz receberá. Olhando para Cristo adquirimos visão mais brilhante e distinta de Deus, e pela contemplação somos transformados. A benignidade e o amor para com nossos semelhantes tornam-se um instinto natural. Desenvolvemos caráter que é uma cópia do divino. Crescendo à Sua semelhança, ampliamos nossa capacidade de conhecer a Deus. Mais e mais entramos em comunhão com o mundo celeste, e temos poder incessantemente crescente de receber as riquezas do conhecimento e sabedoria da eternidade.

Pelo acima exposto podemos definir o enterrar como sendo justamente o oposto do acima; a conformidade com o mundo. Se a comunhão com os semelhantes é luz, o servo que enterrou o talento não procurou desenvolvê-lo retirando o talento da rede de cooperação divina, proibindo outros de serem abençoados. A situação do mau servo é a mesma das cinco virgens sem óleo, não acumularam tesouros no céu depositando obras de misericórdia.

Em Tiago 2:8 encontramos o que segue: “Todavia, se cumprirdes, conforme a Escritura, a lei real: Amarás a teu próximo como a ti mesmo, bem fazeis”. O verso 13 do mesmo capítulo afirma: “Porque o juízo será sem misericórdia sobre aquele que não fez misericórdia; e a misericórdia triunfa do juízo”.

As igrejas cristãs apresentam aos fiéis um evangelho místico, onde os crentes ajuízam que os ritos são todo suficientes para assegurar vitória no juízo. No entanto o apóstolo Tiago adverte: “Porventura o nosso pai Abraão não foi justificado pelas obras, quando ofereceu sobre o altar o seu filho Isaque? Bem vês que a fé cooperou com as suas obras, e que pelas obras a fé foi aperfeiçoada. E cumpriu-se a Escritura, que diz: E creu Abraão em Deus, e foi-lhe isso imputado como justiça, e foi chamado o amigo de Deus. Vedes então que o homem é justificado pelas obras, e não somente pela fé. E de igual modo Raabe, a meretriz, não foi também justificada pelas obras, quando recolheu os emissários, e os despediu por outro caminho? Porque, assim como o corpo sem o espírito está morto, assim também a fé sem obras é morta”.

domingo, 9 de agosto de 2020

Pais são juízes e sacerdotes


Os pais, a parte masculina de um matrimônio, são, em condições normais de temperatura e pressão, juízes e sacerdotes com funções muito específicas no ambiente do lar. Um juiz tem a função de aplicar a justiça, equilibrar assimetrias, consertar iniquidades. Também é papel do juiz esclarecer sobre a lei e os direitos e deveres, ser o guardião e o baluarte da doutrina moral, papel crucial para a manutenção de uma sociedade sadia. Já ao sacerdote cabe a função de ensinar, educar, elevar o senso de cidadania, preservar a prática de bons procedimentos que desenvolvam senso moral superior, mostrar a noção exata do relacionamento com a espiritualidade (prática do bem, amor a Deus e ao próximo).

Faz exatamente oito anos que meu pai nos deixou. Porém, a sua presença é sentida porque ele plasmou a sua alma na minha alma. Na condição de juiz, foi um grande incentivador da justiça. A lembrança mais remota que tenho do meu pai era a sua preocupação em ser justo com os filhos. Sempre trazia um presente ao regressar de uma viagem. Com esse gesto parecia compensar a sua ausência, mas, fazia-nos acreditar que éramos parte do seu mundo. Era sempre um ato de justiça para conosco, por sermos a sua alegria ele nos alegrava. Jamais vi meu pai discordar das medidas corretivas aplicadas pela minha mãe. Também, nunca o vi dar uma contra ordem a qualquer decisão doméstica assumida por minha mãe, quer fosse em relação à administração da casa, quer fosse em relação à educação dos filhos. Na verdade, jamais presenciei uma discussão dos meus pais, nenhuma querela ou discordância. É claro que houve momentos de desacordo, mas, jamais na presença dos filhos. Havia um juiz em nossa casa que esclarecia a doutrina moral, com maior evidência, através do exemplo.

Na função de juiz, fixava em nós princípios morais indispensáveis, especialmente o da cooperação. Por exemplo, sempre na sexta feira, meu pai engraxava os sapatos de todos. Ele gostava de sapados limpos e polidos e, a mim especialmente, chamava para acompanhar aquele ritual de cooperação. Por seu exemplo, aprendi a cuidar dos calçados. Também me incentivava a lavar o carro na sexta feira, para que no sábado, todos pudessem ser transportados sem dificuldades higiênicas. Era um serviço justo, porém, uma aula semanal sobre o cuidado com o patrimônio familiar. Por outro lado, sempre tínhamos roupas elegantes e limpas para vestir, um ato justiça para com os filhos. Meu pai era muito exigente consigo em relação às roupas, e assim o era com o guarda roupa dos filhos.

Na função de Pastor, levava-me para assistir seu trabalho social aos membros da sua paróquia. Quando distribuía roupas e alimentos arrecadados de muitas fontes, os distribuía, sempre aos domingos, reunindo a todos, desde os mais necessitados até os que não eram carentes, estes o ajudavam na distribuição; eu assistia tudo na condição de aprendiz da justiça.

Em casa, minha mãe sempre nos ensinou respeitar o nosso pai com gestos muito educativos. Jamais era servido o almoço, para qualquer pessoa morando em nossa casa, antes da chegada do nosso pai, uma clara demonstração de respeito e justiça com o chefe e o provedor. Também, à mesa, a primeira porção era do meu pai, lições de reverência e mais valia ensinadas sem palavras, onde a hierarquia era demonstrada.

Um fato que marcou minha experiência na infância foi a construção de nossa casa. Meu pai fez um esforço gigantesco para construí-la. Via a sua resiliência no enfrentamento das condições econômicas de um Pastor, o quanto confiava na providência de Deus, e como prosseguia sem saber se concluiria. O resultado foi que tínhamos um teto confortável e digno, o qual permitia uma sensação de segurança familiar e na liderança do patriarca. Meu pai entendia ser justo que nossa família tivesse abrigo sem as oscilações de um teto alugado. Aquela fora uma lição importante para mim, logo que pude comprei uma casa também.

Na condição de sacerdote, meu pai foi insuperável. Ele era um erudito que sempre demonstrou por palavras e atos que a educação é o caminho para a liberdade. Meu pai era formado em Contabilidade, Filosofia e História e Teologia. Além disso, falava inglês e gostava de literatura. Em nossa casa havia uma estante com todos os clássicos da literatura. Isso despertou em mim gosto pelos livros. Embora possuidor de grande conhecimento nas humanidades, era a Teologia que o fascinava. Gostava de escrever sermões e amava estar no ambiente eclesiástico.

Em nossa casa era invariável o culto doméstico diário. Lembro-me da família sentada à volta da mesa das refeições e meu pai lendo a lição da Escola Sabatina e minha mãe os textos bíblicos. Depois, nos sábados, via a forte figura do meu pai fazendo os sermões. Ficava fascinado com o culto e a Escola Sabatina, de modo que ao chegar em casa, depois do almoço, pegava as bonecas da minha irmã e as fazia sentar, como se estivessem na igreja, para que me ouvissem repetir o que havia visto. Nenhuma metodologia é tão aderente e tão eficaz para educar como o exemplo.

O amor do meu pai pelas coisas sagradas, seus posicionamentos, sua disposição em ajudar, seu carinho com as pessoas, seu modo de falar das coisas eternas, são fortes exemplos que jamais desaparecerão e nunca deixarão de ser balizas importantes.

Pessoalmente, fui intensamente impressionado pelos meus pais em relação às coisas espirituais. Sempre as considerei relevantes e imperativas. Por ter essa concepção, sempre que posso incentivo pessoas a enxergarem o valor moral das Sagradas Escrituras. Penso que tenho ajudado muitos a verem mais do que o mundo físico, cujo valor é vertiginosamente menor do que os valores espirituais. Todavia, foi na casa dos meus pais onde aprendi a notar o justo valor das Escrituras. Neste sentido meu pai foi excelente sacerdote.

Muitos jovens de famílias da igreja moraram em nossa casa. Lembro de quase todos. Meus pais educavam e albergavam esses jovens, ajudando-os naquela fase das suas vidas. Eram tratados como filhos. Como consequência, esses jovens ataram laços indissolúveis de amizade e gratidão. Muitos ainda preservam a amizade com os filhos. Pessoalmente, tenho carinho por todos. Agora que a vida já mostrou a mim muito, posso aquilatar o enriquecimento social elevado que meus pais outorgaram aos que puderam privar de um tempo com eles, ou seja, na condição de sacerdote, meu pai foi além da sua própria paternidade, ensinou outros jovens mais o valor das boas práticas.

Hoje as lembranças continuam indeléveis. Depois que amealhei algum saber, meu pai, num dos inesquecíveis momentos de intimidade disse-me: gostaria de ter a sua cabeça, meu filho. Essa frase foi expressa por causa da sabedoria que torna aos seus possuidores humildes. Porém, eu sou nada mais do que o reflexo do meu pai, e neste sentido, somente posso agradecer a Deus por ter sido agraciado com a benção de ter tido o meu pai.

quinta-feira, 23 de julho de 2020

Inúteis embates: convivência com a certeza


Por estarmos vivendo no planeta rebelde, o sistema moral aqui fixado nos escraviza. Não conhecemos a cooperação, somente a competição. Em tal circunstância, todas as nossas concepções morais estão afetadas pela competição.

No seio familiar, há sempre a sensação de que irmãos não são estimados de forma semelhante, o que provoca conflito entre irmãos. Na relação matrimonial sempre há competição, quer seja por supremacia de comando, de prestígio, até competição por favorecimento econômico quando um dos cônjuges busca vantagens.

O sistema educacional mundial está delineado para a competição. Os pais educam os filhos para rivalizarem. O conceito de sucesso está ligado à capacidade de concorrer por posições e por benefícios econômicos; nesta escalada, muitos ficam para trás, com surgimento de desigualdades sociais, às vezes profundas e perigosas. Escolas promovem o ranqueamento dos alunos, havendo sempre vantagem para os que são mais competitivos, e sem muita preocupação com percepções individuais que oportunizem àqueles com ritmos menos concorrentes. Esse aprendizado desemboca em aviltamentos posteriores, quando no mercado de trabalho pessoas traem ou atropelam para conseguir liderança. Sempre enxergamos a competição como algo benéfico, mas, na maioria dos casos, essa estrutura moral causa conflitos. A consequência é a incerteza, a desconfiança, a insegurança, a dor, a morte.

Apesar de que na Bíblia o sistema moral seja o da cooperação, as religiões desenvolveram seus credos baseados na competição. Enxergam as bençãos como negócios, alimentando o imaginário dos fiéis com ideias de que é necessário concorrer para ganhar a salvação. O sistema econômico nos templos ensina que quem mais pode mais chance tem, logo, mais atuação monetária, mais aplicação aos ritos e mais presença aos cultos provocam o olhar positivo da divindade, a qual é compreendida como muito aborrecível e sempre esperando que os mais fiéis atuem para satisfazer seus padrões de exigências, sob pena de a divindade desencadear desgraças.

A infeliz concepção acima está demonstrada num artigo publicado em uma revista religiosa, onde autor (Pastor) diz que “crer em Deus é um risco calculado para tempos de certeza...”. Claramente, este líder anuncia que o sistema é o da competição, já que o crer é um risco.

Todavia, Paulo falando de fé diz que é “a certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que se não veem”. Logo, no sistema moral da cooperação, incertezas são substituídas por enriquecimento de vidas, resultando em equilíbrio social, diminuição da desconfiança e da concorrência, ausência de infelicidade (esta provocada pela insegurança), mais vida e em abundância.

No sistema da cooperação, a divindade não é aborrecível, “Nós o amamos a ele porque ele nos amou primeiro” (I João 4:19). A divindade não está esperando que corramos em busca de atender as suas exigências. Muito pelo contrário, já estamos recebendo o amor da divindade e, consequentemente, ela nos ajudará enriquecendo (oferecendo sua sabedoria ou graça) a nossa vida até que alcancemos os padrões muito altos do sistema moral divino. Se percebemos essa metodologia, traremos à divindade nossa gratidão traduzida em assiduidade aos ritos, alegria nas ofertas, amor aos nossos irmãos, na direção de esclarecê-los das vantagens da cooperação. Neste sentido, assim como a divindade nos enriqueceu a vida, também enriqueceremos outras vidas.

A incerteza e ansiedade provocadas pelo sistema moral da competição devem ser cambiadas pela harmonia e estabilidade do sistema da cooperação. Não devemos aceitar que a vivência humana tenha como decorrência a ansiedade, e esta como parte inevitável da vida, sendo necessário desenvolver resiliência e bem-estar em meio a incerteza.

O sistema moral cooperativo é muitíssimo estável, o próprio Jesus afirmou, “Mas, buscai primeiro o reino de Deus, e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas” (Mateus 6:33), significando que não haverá necessidade de desenvolver resiliência para aceitar incertezas.

Por estarmos com limites visuais compactos provocados pelo degenerado sistema moral da competição, enxergamos que é pelo trauma que crescemos. Os teólogos usam até as histórias traumáticas de José e de Jó, por exemplo, para confirmar a teoria de que os embates (competições) nos fortalecem. Porém, essa não é a verdade bíblica. O profeta Isaías informa que o alívio dos sofrimentos e opressões alheios, o repartir o pão com o faminto (cooperar), o encobrir a nudez do desamparado sempre resultará em cura, em estabilidade emocional e bençãos divinas que garantem permanência e solidez quando afirma que “[...] e a tua justiça irá adiante de ti, e a glória do SENHOR será a tua retaguarda” (Isaías 58:6-8).  

Os embates somente serão uteis se o sistema moral assumido for aquele oriundo da árvore da ciência do bem e do mal. O sistema da árvore da vida é o da paz. “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como o mundo a dá. Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize” (João 14:27).

domingo, 19 de julho de 2020

Abrindo as janelas da alma à luz da fé



Li uma entrevista com um pastor evangélico falando sobre o Covid19, na qual ele dizia: “Nessas provações extremas há necessidade vital de encontrar a paz da alma, e isso é experimentado por pessoas secularizadas tanto ou mais que qualquer outra pessoa. Ajudemos aqueles que ainda se debatem nas trevas da dúvida a manter abertas as janelas da alma à luz da fé”. Pensando um pouco nas palavras acima, dá-nos a impressão de que se quer dizer alguma coisa efetivamente concreta, mas as palavras carregam subjetividade desconcertante.

Como identificar aqueles que se debatem nas trevas? Como manter abertas as janelas da alma à luz da fé?

As perguntas acima usam palavras que são parte do jargão utilizado pelos cristãos. Todavia, tais palavras são aparentemente ilusórias, porque parecem falar de sentimentos que pertencem a sujeitos e consciências, não sendo uma percepção coletiva. Portanto, no campo das hipóteses.

Todavia, a Bíblia, a palavra autoritativa de Deus, informa que há uma liderança à qual chama de inimigo ou Satanás, buscando ou procurando destruir outra liderança reconhecida como O Senhor. Neste ambiente, pessoas estão sendo cooptadas.

O Inimigo destrói pessoas colocando-as perigosamente em um campo oposto ao do Senhor, do qual vem toda a vida. Logo, seria oportuno perguntar como ocorre essa destruição e quem são os perdidos?

Está-se falando do valor de uma vida ou sobre a singularidade da vida humana. Homens foram criados conforme afirma a Bíblia (Gênesis 1:27). São seres autoconscientes, capazes de olharem para si mesmos questionando sobre a sua criação. Podem examinar-se e admiram-se com a sua própria complexidade. Observam a natureza, descobrem sistemas, veem criaturas e percebem a expressão da sabedoria e do poder de Deus codificado na natureza. Porém, os homens têm ainda a capacidade de comunicarem-se entre si utilizando a sua mente; também podem se comunicar com o Criador através da mesma mente.

O fato de terem sido criados por Deus à sua imagem sugere que os humanos devem ser um reflexo do caráter do seu criador; são moralmente semelhantes a Deus. Logo, claramente há um sistema moral construído por Deus, muito diferente ao sistema moral proposto pelo inimigo.

No capítulo 1 do livro das Gênesis Deus é apresentado como criador, mas, é também descrito como pessoa que está trabalhando e criando, portanto, é criativo. Se os seres humanos são Seu reflexo, estes deverão ser criativos e produtivos. A produtividade no reino de Deus está definida na própria semana da criação. Em seis dias fez Deus. Assim, aos homens foi solicitado que deviam ser produtivos durante seis dias, mas, no sétimo dia deveriam descansar para que em comunhão com a mente de Deus pudessem garantir enriquecimento mental para sua própria criatividade, mas, especialmente para produzirem enriquecimento na existência de todas as criaturas. A vida humana é atualizada através da criatividade e produtividade. Essas qualidades visam (no ambiente do Reine de Deus) beneficiar os outros e glorificar a Deus. Esse é o papel singular da vida humana.

Voltando à pergunta feita acima, a destruição provocada pelo inimigo anula a produtividade exigida por Deus. Se todos os homens foram criados com a especial tarefa de enriquecer a existência dos outros, negar essa condição significa destruí-los. Logo, aos cristãos é dada a missão de ajudar na salvação da humanidade, restaurando nas pessoas a sua capacidade cooperativa.

As igrejas cristãs, de um modo geral, inspiradas pela teologia católica, compreendem que ajudar na salvação é ensinar o catecismo, ou seja, o conjunto dos princípios essenciais de uma religião. Mas, a Bíblia não é um catecismo, ela é a palavra de Deus escrita aos homens, contendo instruções para que voltem a ver o potencial dado por Deus a cada pessoa. Tal potencial é sua capacidade cooperativa para enriquecimento da vida de outros. Na Bíblia estão descritos o comportamento dos homens antes da queda moral provocada pelo inimigo, a experiência humana como participantes do conflito entre o sistema moral de Deus e o do inimigo, e o vitória final do sistema moral de Deus. Neste contexto, as instruções de Deus são autoritativas e devem ser obedecidas. Porém, a humanidade, inspirada pelo sistema inimigo, criou catecismos com níveis profundos de subjetividade que embaraçam o claro assim diz o Senhor. Por essa razão, veio Jesus Cristo, o homem que cumpriu integralmente o sistema moral de Deus, tornando-se por consequência, o exemplo a ser seguido pelos que desejam voltar ao sistema moral de Deus. Logo, aprender o método de Jesus e desdobrar a verdade do caminho da salvação é a forma de revelar o retorno ao sistema moral de Deus.

As igrejas cristãs deveriam revelar os mistérios do Reino de Deus e não seus catecismos. Se no comportamento de Jesus estão os mistérios acima, então, estamos diante da verdade tal qual é. Jesus (Mateus 4:23-24) andava fazendo o bem e tornando melhor a vida de todos quantos entrava em contato. O apóstolo Pedro (I Pedro 4:19) recomenda que: “Portanto também os que padecem segundo a vontade de Deus encomendem-lhe as suas almas, como ao fiel Criador, fazendo o bem”. Nas palavras de Pedro está o dever dado aos cristãos: copiar a Jesus Crista e socorrer os pobres, cuidar dos doentes, confortar os aflitos e os que sofrearam perdas, instruir os ignorantes, aconselhar os inexperientes. Cada cristão deve estar alinhado ao poder de persuasão, ao poder da oração e ao poder do amor de Deus; esta obra jamais ficará sem frutos.

O dever das igrejas, ou seja, dos fiéis, é advertir a humanidade para que sigam a Cisto, copiem o seu comportamento estudando a Sua vida. Tal conduta significa aceitar a Jesus. Assim, os que aceitam a Cristo, tendo a mente unida a Dele, terão olhos de compaixão a todos os outros homens. O sistema moral de Reino de Deus impõe que os cristãos levem a palavra de misericórdia, que tirará das travas os perdidos, através do serviço pessoal. A viúva, o órfão, o moribundo etc., sempre precisarão ser ajudados. Estas são as oportunidades para proclamar o evangelho, o qual nada mais é do que apontar esperança e consolo a todos os homens. Quando os sofrimentos do corpo tiverem sido aliviados, e tivermos demonstrado o mais vivo interesse pelos aflitos, o coração se abrirá, e poderemos verter nele o bálsamo celestial. O proselitismo parece ser um produto secundário e não um objetivo comunitário das igrejas.

Manter abertas as janelas da alma à luz da fé significa crer em Jesus Cristo como o modelo o qual, se copiado, abrirá o caminho para entrar no sistema moral de Deus e deixar de debater nas trevas morais onde a competição (sistema moral inimigo) produz insegurança, dor, desalento, aflição e morte. Foi Jesus quem disse: Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim (João 14:6). Em outro momento disse Jesus: Eu sou a luz que vim ao mundo, para que todo aquele que crê em mim não permaneça nas trevas (João 12:46).

quarta-feira, 1 de julho de 2020

Covid 19 e Adoração


A pandemia que assolou o mundo neste início de 2020 trouxe consigo muitas tristezas, perplexidades aos montões, discussão de novos alinhamentos sociais, deixou a descoberto mazelas econômicas e morais, expondo especialmente políticos oportunistas e corruptos, mas, sobretudo, causou muita reflexão religiosa.

Lemos muitos textos de analistas que previram coisas sensatas e concluíram alguns absurdos. Muitos clérigos aproveitaram para capitalizar a fidelidade dos membros das igrejas apregoando terror, todavia, a pandemia expôs muitos milagreiros, charlatões evangélicos, que não tiveram poder para curar nenhum doente.

Através da história pode-se ver que, em grandes rasgos, depois da era cristã, há uma pandemia a cada 100 anos. Há cruzamentos de variáveis que informam algumas relações de causa e consequência, como por exemplo, todas as vezes em que a economia mundial está forte, produzindo estabilidade social e homeostase orbital também ocorre uma calamidade como a que presenciamos recentemente. Tais verificações parecem mostrar que há um controle específico sobre a autossuficiência humana.

Claramente, uma das pilastras mais importantes, na qual a humanidade sempre se apoiou, é a economia. A outra é a religião. Assim, sempre que a economia parece sustentar a altivez dos homens, algo sinistro parece dizer que nossa confiança na competência humana é estreitamente limitada e não oferece segurança. Tudo ficou muito claro na falta de lucidez com que as autoridades mundiais e locais lidaram com a pandemia. Agora que já há experiência científica adquirida com o tempo, alguns protocolos médicos estão prevalecendo e diminuindo as perdas, mas, tudo é incerto e como no caso brasileiro, a doença se transformou em aproveitamento econômico e exacerbações de correntes políticas.

A quem recorrer quando a altivez e o conhecimento humano estão em teste?

Na Bíblia, o profeta Isaías, no capítulo 58:7-8 diz: “Porventura não é também que repartas o teu pão com o faminto, e recolhas em casa os pobres abandonados; e, quando vires o nu, o cubras, e não te escondas da tua carne? Então romperá a tua luz como a alva, e a tua cura apressadamente brotará, e a tua justiça irá adiante de ti, e a glória do SENHOR será a tua retaguarda”.

O texto informa que a injustiça social acarreta adoecimento. Assim, sempre que a economia está forte, poucos enriquecem e muitos são injustiçados. Tal situação estava sendo a realidade brasileira. Cerca de 500 parlamentares e políticos estavam acumulando riqueza às custas de 200 milhões que pagam seus impostos. Então, veio juízo sobre alguns que chefiavam esquemas corruptos e, em seguida, o povo foi assolado também, considerando que o próprio povo não pratica a justiça social. Ficou evidente a iniquidade popular quando o governo ofereceu o benefício de R$600,00 (seiscentos Reais) para os informais e transparentes à economia formal. Muitos aproveitaram para auferir um benefício do qual não necessitavam, ou usaram de falsidade ideológica para conseguir vantagens.

É importante salientar que, embora possa parecer que o governo planetário está nas mãos humanas, quando Jesus ressuscitou fez a declaração de que todo o poder lhe fora dado no Céu e na Terra. Em I Pedro 3:22 lemos: “O qual está à destra de Deus, tendo subido ao céu, havendo-se-lhe sujeitado os anjos, e as autoridades, e as potências”. Logo, os governos terrestres são uma concessão divina. Embora haja leis formuladas pelos parlamentos das nações, a que prevalece é a lei do Reino dos Céus. Considerando que a injustiça social é a quebra da lei de Deus, sempre que a economia se fortalece, há aumento da injustiça, assim, juízos podem ser aplicados.

Para as comunidades cristãs, o covid 19 pode oferecer aprimoramentos comportamentais mais consentâneos com a realidade do Reino de Deus, a qual está expressa na Bíblia. O fechamento dos templos não trouxe isolamento social para os crentes. Estes passaram a ter reuniões virtuais e estudos bíblicos em pequenos grupos. Tal procedimento propiciou maior justaposição (ainda que virtual) trazendo aquecimento social com maior preocupação com o bem estar dos semelhantes. Intimidade, apesar da distância, foi a aquisição vantajosa, pois trouxe mais oportunidade para conhecer as alegrias e as lutas dos companheiros de adoração.

O fechamento dos templos não interrompeu a adoração. Esta é, segundo o profeta Isaías, em realidade, uma forma de pensar e, especialmente, uma atitude, não um momento. Assim, a adoração em grupos menores é um incentivo ao cuidado mútuo. Logo, maior proximidade com as exigências de Isaías 58. As reuniões virtuais trouxeram a dimensão da intimidade e também da responsabilidade pela espiritualidade, pois ajudou a aumentar a cooperação para edificação do semelhante por consequência das reuniões domiciliares. Eram igrejas nos lares, as quais podem se tornar uma tendência depois da covid 19.

Vi um vídeo publicado no Youtube com observações sobre a monotonia dos cultos nos templos. Aquele que reclamava dizia que a adoração estava carregada de coisas aborrecíveis e pouco atraentes. Certamente, a adoração nos templos está carregada de preocupações humanas que são muito distintas da verdadeira adoração. Conforme Isaías, adorar tem a objetividade de ser uma resposta ao incrível amor de Deus. Se estou feliz e plenamente satisfeito com o carinho de Deus, sendo criado à imagem de Deus, procurarei realizar serviços que tornem felizes e satisfeitos outros semelhantes, refletindo assim, o amor, a graça e a compaixão que têm origem em Deus, de quem eu mesmo provenho.

Salmos 85:8 diz: “Escutarei o que Deus, o SENHOR, falar; porque falará de paz ao seu povo, e aos santos, para que não voltem à loucura”. Talvez essa última epidemia tenha trazido a oportunidade de criar um ambiente onde a nossa história e a expectativa de Deus se encontrem. Se estamos percebendo que as desigualdades (iniquidades) estão prevalecendo, que as nações agem com todo o rigor que o sistema econômico egoísta requer, inclusive aproveitando situações de fragilidade para aumentar seus lucros; na condição de estudiosos das Escrituras Sagradas fica obvio ver que o covid 19 pode representar juízo. Mas, nossa atitude em relação a esse momento deve ser de escutar ao Senhor e não procurar mais a loucura.

Agora começaram as negociações para a reabertura dos templos. Sem emitirmos qualquer juízo de valor, deveríamos buscar ver se os líderes religiosos estão alertas para os resultados dessa pandemia e quais as lições que deveriam ser incorporadas na realidade das igrejas. O simples voltar aos templos não implica em adoração. Pode ser que a maior preocupação seja a questão econômica. Se for esse o motivo da reabertura dos templos, nada foi aprendido com o juízo que assistimos. Juízo? Isto é verdade?

Terminamos com o seguinte texto que achamos na internet:
“Na edição eletrônica da Advent Review do último 4 de abril, Melchor Ferreyra fez menção a uma carta escrita por Ellen White, em 13 de agosto de 1894, a Stephen N. Haskell, apresentando profunda preocupação com as pessoas que estavam morrendo por causa do vírus influenza. Ela escreveu: “Em Nova Gales do Sul, fomos provados e testados com a epidemia de gripe. Quase todas as famílias foram atingidas nas cidades e no campo. Alguns estão agora muito, muito doentes. Suas vidas estão penduradas por um fio. Oramos pelos enfermos e fizemos o que pudemos financeiramente e agora esperamos o resultado. […] Em um só dia, na semana passada, houve onze funerais. […] Fui severamente atacada e não posso participar de reuniões há quatro semanas; mas não desisti de levantar cada dia. Escrevi minha cota de páginas quase todos os dias, apesar de tossir, espirrar e sangrar pelo nariz. Quase todo mundo ao redor sofreu, mas agradeço ao Senhor por estar melhorando e tenho boa coragem no Senhor. Faremos tudo o que pudermos em nome do Senhor. […] O povo de Deus está sendo provado e testado e que Deus me conceda ser capaz de ajudá-los durante esse tempo. […] Que eu possa me apegar a Jesus com mais firmeza do que nunca” (Carta 30, 13 de agosto de 1894)”.

segunda-feira, 8 de junho de 2020

Sola Scriptura



O princípio Sola Scriptura deve ser considerado e observado, mas sobretudo entendido. A razão para o referido princípio é que a Bíblia não é apenas mais um livro, ou ainda, um livro escolhido entre tantos, para servir de base ao cristianismo. Essencialmente, é o único livro contendo a verdade. O problema é saber de qual verdade falamos?

Uma pergunta que todos fazem: o que é a verdade? Essa pergunta é respondida somente pela Bíblia. Esta toma como ponto de partida o primeiro versículo do primeiro capítulo de Gênesis, o qual explica as origens e, logo, esclarece qual cosmologia deve ser seguida.

Neste mundo há duas visões cosmológicas. Deu um lado, Deus é o criador; todas as coisas têm uma origem divina. De outro lado, o universo conhecido é produto do acaso. Dependendo da cosmologia assumida, seremos colocados frente a uma verdade ou uma fábula, porque ambas cosmologias são excludentes.

Para os cristãos, as origens estão no livro de Gênesis; Deus criou todas as coisas no princípio. Se Ocorreu a chamada criação Ex nihilo (do nada), então, toda explicação contida na Bíblia fala de uma realidade que transcende à Terra. Consequentemente, toda e qualquer literatura é inferior a Bíblia, considerando que descer na Lua foi a maior incursão que um homem pode fazer no universo alcançando apenas um apêndice da própria Terra. Assim, por não conhecermos nada do restante do universo, a Bíblia, que fala deste universo, tanto do ponto de vista físico, como do ponto de vista moral, torna-se a única referência ou fonte descritora da realidade terrestre e ulterior. Qualquer outra literatura pretendendo descrever tais realidades o fará necessariamente baseada em aspectos terrenos, se forem descritos fatos físicos, mas, se forem descritos fatos morais, também falarão sobre razões terrenas, simplesmente porque os humanos não conhecem nada além do seu próprio planeta.

A Bíblia é uma revelação do caráter daquele que fez os céus e a Terra. A motivação para a efetiva escrita do texto bíblico está no âmbito do grande conflito: “E houve batalha no céu; Miguel e os seus anjos batalhavam contra o dragão, e batalhavam o dragão e os seus anjos” (Apocalipse 12:7). O que resultou desse conflito foi a existência de dois sistemas morais que são antagônicos. Cada qual demonstra o caráter de quem o idealizou. A consequência da batalha está no que segue: “Mas não prevaleceram, nem mais o seu lugar se achou nos céus. E foi precipitado o grande dragão, a antiga serpente, chamada o Diabo, e Satanás, que engana todo o mundo; ele foi precipitado na terra, e os seus anjos foram lançados com ele” (Apocalipse 12:8-9). Logo, o sistema moral imposto à Terra foi o do dragão.

A Bíblia contém o sistema moral de Deus, o qual não tem nada em comum com o outro sistema. Ao sistema de Deus a Bíblia chama de luz e não há nenhuma comunhão, ou seja, partes superpostas, entre luz e trevas (II Coríntios 6:14). Por essa razão, a Bíblia é única, reveladora de uma verdade que não é parte da realidade terrestre, sendo o grande instrumento para transformação dos caracteres daqueles que noutro tempo eram trevas, mas agora são da luz (Efésios 5:8). Com tal compreensão, qualquer outro livro, escrito por homens limitados no espaço, não poderá conter a verdade tal qual está na Bíblia. Recebidas as verdades bíblicas, estas elevarão a mente e promoverão retidão interior, firmeza de princípios, habilidade para resistir os apelos do sistema moral do dragão.

Os cinco primeiros livros da Bíblia (Torá) contêm todo sistema moral de Deus. Ali percebe-se, por contraste, o antagonismo que há nos dois sistemas.

O ambiente social ensinado e exigido pela Torá promove uma rede de cooperação que atua em todos os níveis das relações humanas. Regula, especialmente, as transações comerciais, as ligações religiosas e as composições familiares. Em todas as operações sociais estão as digitais de Deus, definidas em I João 4:8 : “Aquele que não ama não conhece a Deus; porque Deus é amor”. João define o sistema de Deus cuja base é o amor, ou seja, a doação ao outro. Obviamente, o sistema mundano é o egoísmo. Este princípio regula as transações terrestres. A cosmologia do dragão impõe a competição. Os seres vivos competem por espaço, manutenção, procriação etc. Também o sistema social é fortemente competitivo; a máxima no sistema do dragão é a sobrevivência do mais apto. Incompatibilidade entre luz e trevas. Jesus explicou esse antagonismo afirmando: “[...] porque se aproxima o príncipe deste mundo, e nada tem em mim” (João 14:30).

Há inúmeras publicações de cunho teológico tentando inserir mecanismos comportamentais baseados no conhecimento humano, no sistema moral de Deus. Muitos aspectos da chamada psicologia são evocados e colocados como pré-requisitos para o reino de Deus. Por exemplo, dizem alguns autores que é necessário que uma pessoa primeiro atenda a si mesma para que possa proporcionar qualquer tipo de aceitação ou ministração ao próximo. Esse é o princípio da psicologia, ame primeiro a você para poder amar ao outro. Esse tipo de conhecimento é baseado puramente em observações do próprio comportamento humano, o qual é formatado por homens que nunca saíram da Terra. Ora, se a Terra promove a cosmovisão do dragão, como a teologia (conhecimento de Deus) poderá apoderar-se do conhecimento que não transcende esse planeta?

O princípio bíblico é justamente o oposto. “Porventura não é este o jejum que escolhi, que soltes as ligaduras da impiedade, que desfaças as ataduras do jugo e que deixes livres os oprimidos, e despedaces todo o jugo? Porventura não é também que repartas o teu pão com o faminto, e recolhas em casa os pobres abandonados; e, quando vires o nu, o cubras, e não te escondas da tua carne? Então romperá a tua luz como a alva, e a tua cura apressadamente brotará, e a tua justiça irá adiante de ti, e a glória do SENHOR será a tua retaguarda. Então clamarás, e o SENHOR te responderá; gritarás, e ele dirá: Eis-me aqui. Se tirares do meio de ti o jugo, o estender do dedo, e o falar iniquamente; E se abrires a tua alma ao faminto, e fartares a alma aflita; então a tua luz nascerá nas trevas, e a tua escuridão será como o meio-dia” (Isaías 58:6-10).

Ora, a Bíblia descreve uma realidade que não é terrena, logo, é única. Outros livros de teologia tenderão a explicar o sistema moral de Deus buscando explicações na realidade terrestre, porém, não há comunhão entre luz e trevas. Nessa conjuntura, a Bíblia passa a ter caráter autoritativo.  Ela não se utiliza de fábulas, mas fala da realidade ontológica, à qual os homens não estão familiarizados, portanto, não autorizados a explicá-la. Porém, como explicar que homens escreveram a Bíblia?

Profetas são homens especiais aos quais a realidade moral do sistema de Deus foi revelada. Se Deus não a revelasse, dificilmente seria vista, decifrada e descrita. Profetas são pessoas distintas, com dotações singulares da parte de Deus: “Porque a profecia nunca foi produzida por vontade de homem algum, mas os homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo (II Pedro 1:21).

O texto acima fala de inspiração. Isto significa que aos homens santos (vivendo o sistema moral de Deus) foi revelada a realidade moral do sistema de Deus. Ato contínuo, deveriam contextualizar o que viram de modo a tornar aquela realidade celeste favorável aos homens. Mas, o fato observado é muitíssimo mais elevado que a realidade dos homens, veja o que disse o apóstolo Paulo: “Foi arrebatado ao paraíso; e ouviu palavras inefáveis, que ao homem não é lícito falar” (I Coríntios 2:9). Outra vez disse Paulo: “Mas, como está escrito: As coisas que o olho não viu, e o ouvido não ouviu, E não subiram ao coração do homem, São as que Deus preparou para os que o amam” (II Coríntios 12:4).

Aqueles que pensam tornar claras as dificuldades supostas das escrituras, utilizando conhecimento humano ou ciências terrestres finitas, melhor fariam em cobrir o rosto, pois na Bíblia, encontram a presença de Deus, o qual tem comunicado por séculos a luz aos homens, desdobrando diante deles uma realidade emocionante à qual suas mentes não atinam.

Agora, seria interessante olharmos o método de Deus para demonstrar o seu sistema. A Bíblia está dividida em duas partes, Velho e Novo Testamentos. No Velho Testamento, está a Torá com suas instruções e admoestações. Também estão os profetas e os escritos narrando a odisseia humana, a relação humana com os ensinamentos divinos. Não há, praticamente, histórias de sucesso. No Velho Testamento há muito relato de derrotas e fracassos em relação a expectativa divina, com finais onde a morte é sempre o pagamento pela desobediência. Tais relatos quando lidos com a perspectiva do sistema moral do dragão, desenham um Deus vingativo e sem amor.

O Novo Testamento começa com quatro evangelhos descrevendo a vida do homem que fez da Torá e seus ensinamentos o motivo para sua vida vencedora. Jesus demonstrou e viveu todos os princípios da Torá, mesmo sendo um homem igual aos demais homens. Além de Jesus, há outros homens que, ensinados por Ele, viveram de forma semelhante a Jesus, sendo vencedores no sistema moral de Deus. Na verdade, o Novo Testamento é o cumprimento do Velho Testamento. Se não conhecermos a Tora, jamais compreenderemos a vida de Jesus e dos apóstolos, entre outros vencedores. Se no Antigo Testamento poucos foram os vencedores, no Novo Testamento, por causa do exemplo de Jesus, guiados por Ele, muitos alcançaram viver o sistema moral de Deus. “Mas esta é a aliança que farei com a casa de Israel depois daqueles dias, diz o SENHOR: Porei a minha lei no seu interior, e a escreverei no seu coração; e eu serei o seu Deus e eles serão o meu povo” (Jeremias 31:33).

Deus confiou ao homem finito um guia para que os habitantes deste mundo escuro, caído, pudessem estudar as suas requisições e obedecê-las, de modo a que saíssem das trevas e andassem na luz. Neste sentido, nenhum outro livro, a não ser a Bíblia, guardada por um miraculoso poder, poderá mostrar o caminho para uma realidade que os homens não conhecem.

              


quarta-feira, 3 de junho de 2020

O poder não emana do povo



Nosso Brasil está experimentando tempos de muita inquietação por força da situação política. Há um duelo entre esquerdistas (autodenominados progressistas) e direitistas (chamados pelos esquerdistas de conservadores), o qual, se não for resolvido, terminará de forma imprevisível. No horizonte há nuvens cujas cores são indefinidas. A tendência é que as cores se carreguem de chumbo.

Toda situação do país advém de uma urdidura esquerdista planejada ao longo de décadas, em cujo programa estão a destruição de pilares cristãos, a quebra de conceitos morais, a degradação da pessoa humana, bem como de instituições dadas por Deus para conter a cobiça, tais como o casamento, o trabalho honesto. Neste ambiente de insalubre convivência social, instalou-se o egoísmo, a corrupção, a desafeição. Estamos numa sociedade doente.

O cenário acima afeta todas as transações humanas. Afeta, com muita ênfase, o trabalho de instituições que, em situações mais amenas, estariam voltadas ao bem estar social. Entre essas instituições estão as igrejas cristãs, cujo patrono é Cristo Jesus, o (sol) paladino da justiça. Todavia, neste ambiente maléfico, as igrejas tornam-se contaminadas. Há uma liderança que abraçou as iniquidades vigentes, travestindo-as com o nome de técnicas para conversão de almas.

Em muitas igrejas cristãs a cobiça transfigurou-se em evangelho. O interesse pelas almas é interpretado por lucro. O serviço a Deus é transformado em diversão; os crentes adoram a si mesmos. Às construções de templos chamam de centros de influência. Estes servem para atração de pessoas em busca de serviços, e nesse afã, transformam as igrejas em locais onde ao invés de os homens girarem em torno Deus e sua lei, é Deus quem gira em torno dos membros. Denominam a esses espaços de comunidades, ou locais onde o centro é o homem e Deus corre atrás deles.

Assim se passa com a política. Numa democracia, o poder emana do povo. Porém, no caso brasileiro, os políticos inverteram a equação, sendo que o povo, aquele que detém o poder é o que gira em torno do governo, aquele a quem o povo elege porque tem o poder. Esse modelo está contaminando as igrejas. Deus, o todo poderoso, corre atrás dos membros. Estes, por sua vez, por saberem que Deus os busca, transformam os princípios celestes em arranjos humanos pensando que Deus serve a eles e tudo suportará por eles.

Entenderemos melhor esse cenário se buscarmos um paralelo na Bíblia. Tal paralelo está no episódio do bezerro de ouro. Aliás, esse ocorrido do passado é esclarecedor para muitos fatos atuais. Naquela ocasião Moisés, chamado por Deus, sobe ao monte Sinai para receber os mandamentos escritos pelo próprio dedo de Deus. Enquanto lá no cimo do monte, o tempo no pé da elevação passa e o povo começa a sentir insegurança pela demora de Moisés.

Entre os israelitas estavam muitos egípcios que, com medo do poder presenciado durante as 10 pragas, resolveram acompanhar os israelitas. Aqueles não israelitas saíram sem terem seus olhos limpos das contaminações do Egito. Por essa razão, começaram a murmurar dizendo que possivelmente Moisés não retornaria, poderia ter morrido, dada a demora. Mesmo tendo visto o poder com que Deus retirara seu povo, não estavam acostumados a servirem a um Deus invisível. No Egito, todos os deuses eram materializados, e como consequência, viram-se desamparados sem Moisés e sem compreenderem um Deus invisível.

Logo contaminaram aos israelitas com pouco conhecimento. Quando a quantidade dos descontentes aumentou, chamaram a Arão e pressionaram pelo retorno ao Egito e por segurança religiosa. Necessitavam da proteção de um Deus visível. Arão, não confiou em Deus e, com medo de perder sua vida, ordenou que trouxessem ouro. Pensava ele que o povo não aportaria o ouro, mas enganou-se. Assim, Arão forjou um ídolo que representava a Deus, porém, com as características de um deus egípcio. O bezerro representava Jeová, mas a forma de culto era egípcia.

Quando Moisés desceu para ver o que estava ocorrendo, chamou o irmão e este, desculpando-se da prevaricação, disse-lhe: “E Moisés perguntou a Arão: Que te tem feito este povo, que sobre ele trouxeste tamanho pecado? Então respondeu Arão: Não se acenda a ira do meu senhor; tu sabes que este povo é inclinado ao mal; E eles me disseram: Faze-nos um deus que vá adiante de nós; porque não sabemos o que sucedeu a este Moisés, a este homem que nos tirou da terra do Egito. Então eu lhes disse: Quem tem ouro, arranque-o; e deram-mo, e lancei-o no fogo, e saiu este bezerro” (Êxodo 32:21-24).

Arão tentou enganar a Moisés (como se o pudesse) dizendo: lancei o ouro no fogo e saiu este bezerro, querendo fazer crer que ocorrera um milagre. Aquele ídolo era um ídolo, mas produto de um milagre. Arão quis desculpar a idolatria. Porem, não tinha desculpa, porque vira a manifestação da glória de Deus e esta não tinha a forma de um bezerro, fora Arão quem transformara a glória de Deus em formato de um boi. Por esse motivo, a ira de Deus levantou-se contra Arão para destruí-lo. Afortunadamente, a intercessão de Moisés somada ao profundo arrependimento de Arão o conservou vivo.

Note-se que o espírito condescendente de Arão e seu desejo de agradar cegaram-lhe os olhos a um crime. Ao emprestar sua influência ao pecado de Israel, causou a morte de milhares. Sim, foram mortos três mil homens pela espada dos levitas. Tal punição ocorreu para testemunho às nações, ou seja, para nosso testemunho.

Há na Bíblia um relato um pouco diferente, quando um pecado pareceu ficar sem punição. Caim teve a sua vida poupada, mesmo tendo matado ao irmão e desafiado a Deus. Aqui está o que a Bíblia diz sobre este caso: “O SENHOR, porém, disse-lhe: Portanto qualquer que matar a Caim, sete vezes será castigado. E pôs o SENHOR um sinal em Caim, para que o não ferisse qualquer que o achasse”(Gênesis 4:15). O que vemos parece um paradoxo. Seria Deus injusto em relação ao pecado de Israel? Teria Deus escondido ou permitido o delito de Caim mas não o de Israel?

O tempo é o senhor da razão. Deus não executou imediatamente a Caim para que o universo pudesse observar o resultado de permitir que o pecado ficasse sem punição. A influência exercida sobre os descendentes por causa dos ensinos e do exemplo de Caim determinou o estado de corrupção que exigiu a destruição do mundo pelo dilúvio. Uma vida longa de pecados não se torna uma benção, pois quanto mais vivem os homens, mais corruptos se tornam.

Atualmente, o tempo parece passar e tudo permanece igual. As igrejas cristãs em sua vivência com a corrupção humana, parecem esperar vida longa e sem punições. Dezenas de sacerdotes enganam por lucro e centenas de crentes adotam a dinâmica corrupta como sua norma. As igrejas mais progressistas estão infiltradas de pessoas com pensamento político esquerdista, cultuando ao bezerro de ouro. Querem que a igreja represente a Deus, mas as manifestações são egípcias.

Os chamados centros de influência adotam as manifestações esquerdiformes e afrontam a Deus tirando a sua autoridade. A Bíblia é interpretada e ensinada em consonância com as tradições humanas. Há um sentimento esquerdiforme de que Deus é amor, logo, não haverá qualquer punição, embora haja um sentimento de que tudo está mudado. Na medida em que Deus é quem orbita em torno do povo e não o povo em torno de Deus, tudo pode ser mudado o quanto o povo quiser, sem qualquer cometimento. 

Assim, passam-se os dias. Porém, foi o próprio Deus quem avisou: “E, como aconteceu nos dias de Noé, assim será também nos dias do Filho do homem (Lucas 17:26). As palavras do Salmo 25:14 parecem adequadas para encerrar este texto: “O segredo do SENHOR é com aqueles que o temem; e ele lhes mostrará a sua aliança”.