quinta-feira, 23 de abril de 2020

Coisa espantosa e horrenda se anda fazendo na terra



Cristãos envolvidos na pregação do segundo advento de Jesus Cristo, entendem que é sua missão pregar essa mensagem. Nas palavras do Pastor Erton Köhler “Há uma bênção especial no envolvimento missionário e essa não é uma descoberta recente nem o resultado de alguma estratégia nova. É a mensagem da Bíblia e o enfoque de um ministério de 70 anos e 100 mil páginas manuscritas de Ellen White. Essas mensagens inspiradas ainda ajudam a igreja a se lembrar de que tudo o que possuímos e somos deve ser usado na preparação de pessoas para que se encontrem com o Senhor”.
Conforme o entendimento de Köhler, a preparação de pessoas para o retorno de Jesus passa pelo envolvimento dos membros na missão missionária e, citando Ellen White alerta que “A eles foi confiada a última mensagem de advertência a este mundo a perecer”.
Percebe-se que há necessidade de avisar o mundo de um iminente perigo, posto que está a perecer. Se o mundo agoniza, está gravemente ameaçado. Seria a volta de Jesus uma ameaça? Em muitos sentidos sim. Todavia, qual é o problema ameaçando ao mundo? Por que o regresso de Jesus é perigoso para o mundo? Qual a advertência dada pela Bíblia a qual se tornou a missão dos crentes?
Para boa parte dos cristãos, incluindo o clero, deve-se intensificar o proselitismo, a catequese. Almas se perderão se não forem batizadas. Até aqui, nenhuma observação equivocada, uma vez que o evangelista Marcos afirma que “quem crer e for batizado será salvo; mas quem não crer será condenado” (Marcos 16:16). Porém, a questão colocada por Marcos não se exaure no batismo, mas se cumpre no crer, e Marcos considera que o não crer condena. Logo, a advertência ou missão dada aos crentes é a de produzir pessoas que creem. A pergunta seguinte é: crer em que? Se tal pergunta fosse dirigida aos crentes e ao clero, apressadamente responderiam que a crença é em Cristo. Certamente estariam seguros. Mas, o crer que Cristo existe, e que está nos céus e retornará é o suficiente?
Há uma ameaça pairando sobre o mundo. Em Apocalipse 14:7, há um aviso muito enfático soando: “Dizendo com grande voz: Temei a Deus, e dai-lhe glória; porque é vinda a hora do seu juízo. E adorai aquele que fez o céu, e a terra, e o mar, e as fontes das águas”. O texto expõe firmemente a necessidade de temer a Deus por causa do juízo. Então, a ameaça que desestabiliza o mundo não é o regresso de Jesus propriamente dito, e sim o juízo.
A principal causa para uma condenação é que o mundo não adorou aquele que fez o céu, e a terra, e o mar, e as fontes das águas. Em Apocalipse 19:5 há outra advertência: “E saiu uma voz do trono, que dizia: Louvai o nosso Deus, vós, todos os seus servos, e vós que o temeis, assim pequenos como grandes”. Aqui o adorador é advertido sobre o louvor. Portanto, a ameaça que paira sobre o mundo está ligada ao temer Deus e ao dar glória, porque é vindo o juízo. Então, é a missão dos crentes ensinar ao mundo ameaçado, como temer a Deus e dar-lhe glória. Neste contexto, o batismo apenas não nos parece suficiente.
Quando alguém é levado a juízo é necessária a clara demonstração de que tal pessoa cometeu um crime, o qual é tipificado como toda ação cometida com dolo, ou infração contrária aos costumes, à moral e à lei. Um crime se estrutura por seus elementos material (objetivo) e moral (subjetivo). O elemento material evidencia-se na ação; o elemento moral na culpa do ato praticado, com o qual se violou a lei. No caso do juízo aplicado por Deus, o elemento material é o ato de o mundo não ter agido na demonstração do temor a Deus, sendo que se violou o primeiro artigo da lei do céu: “não terás outros deuses diante de mim”. Logo, o elemento moral é a culpa por ter outros deuses como objeto de temor. Assim, a ameaça pairando sobre o mundo é demonstrada e deve ser intensamente alardeada, pois há um juízo necessário prestes a acontecer.
A palavra adoração no hebraico é עֲבוֹדָה (AVODAH). A raiz da palavra “avodah” é AVOD, que significa “servir, serviço, trabalhar”. A palavra para “adorar a Deus é a mesma para Trabalho”. O que quer dizer que adoração é SERVIÇO A DEUS, trabalhar para Deus. Logo, o juízo investigará e tornará culpado aquele que não trabalhou para Deus. Então, é necessário definir  o trabalho a Deus.
A adoração é todo serviço que as criaturas fazem para Deus. E quando é que operamos em favor de Deus? Quando cuidamos dos nossos filhos, cuidamos do nosso trabalho, cuidamos do nosso semelhante, tudo isso é adoração. É exatamente o que recomenda a Torá. As leis sociais que ordenavam a convivência social israelita tinham a preocupação da aplicação da justiça em relação aos pobres e desafortunados, além dos deveres para com Deus. O profeta Isaías no capítulo 58 adverte enfaticamente sobre a adoração, quando salienta que Deus requer o serviço social e a guarda do sábado. Ali o profeta demonstra a lógica da adoração e os algoritmos (para usar um termo moderno) que devem ser entendidos para ultimar a adoração. Isto parece ratificado por Tiago 1:27 “A religião pura e imaculada para com Deus, o Pai, é esta: Visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações, e guardar-se da corrupção do mundo”.
Quando o mundo dá maior importância às obras humanas, cultuando-as - entendendo que ídolos esculpidos e venerados como deuses são obras humanas – quer seja o conhecimento gerado nos ambientes acadêmicos, quer seja o conhecimento gerado nos porões religiosos, incorporando-os às liturgias eclesiásticas, então, o Senhor dos Céus, Jeová, é preterido e substituído. O profeta Jeremias, falando como arauto de Deus avisou: “E eu pronunciarei contra eles os meus juízos, por causa de toda a sua malícia; pois me deixaram, e queimaram incenso a deuses estranhos, e se encurvaram diante das obras das suas mãos” (Jeremias 1: 16). Na sequência, o profeta informa que não há inteligência, mas que Deus providenciará conhecimento: “E dar-vos-ei pastores segundo o meu coração, os quais vos apascentarão com ciência e com inteligência” (Jer. 3:15). Importante que se demarque ciência e inteligência oriundas da Torá. Além disso, o profeta alerta sobre a ausência da justiça quando diz: “Dai voltas às ruas de Jerusalém, e vede agora; e informai-vos, e buscai pelas suas praças, a ver se achais alguém, ou se há homem que pratique a justiça ou busque a verdade; e eu lhe perdoarei[...] Engordam-se, estão nédios, e ultrapassam até os feitos dos malignos; não julgam a causa do órfão; todavia prosperam; nem julgam o direito dos necessitados.  Porventura não castigaria eu por causa destas coisas? diz o SENHOR; não me vingaria eu de uma nação como esta? Coisa espantosa e horrenda se anda fazendo na terra.” (Jeremias 5:1; 28-30).
Destacamos a última frase do texto de Jeremias acima. Coisa espantosa e horrenda se anda fazendo na terra. Esse é o perigo que paira sobre o mundo; se estriba no conhecimento humano e não pratica a justiça. Obviamente que se o juízo é por causa desses crimes, o regresso de Jesus não será um evento feliz para os que não forem avisados, mas também para os que mesmo avisados não levaram a advertência a sério.
Por seu turno, o profeta Ezequiel analisa o não cumprimento da missão dada aos crentes. “Quando eu disser ao ímpio: Certamente morrerás; e tu não o avisares, nem falares para avisar o ímpio acerca do seu mau caminho, para salvar a sua vida, aquele ímpio morrerá na sua iniquidade, mas o seu sangue, da tua mão o requererei” (Ez.3: 18). O texto está mostrando que o proselitismo, como um fim, não é suficiente, sendo necessário que os crentes ensinem o que o céu exige para que os homens sejam salvos. Ter o nome no rol de uma igreja não torna seguro ninguém, em relação ao juízo. Entretanto, às igrejas será atribuída a culpa por não terem realizado a missão de ensinar a justiça, quer seja aos membros, quer seja aos não crentes.
Aliás, o apóstolo Pedro insiste em que a missão dos crentes não é apenas fazer prosélitos, quando diz: “ Mas vós sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido, para que anuncieis as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz” (Pedro 2:9). Novamente, a missão é anunciar as virtudes, ou seja, o caráter impressionantemente glorioso de Deus. Ele adquiriu a igreja como sua especial possessão, a fim de que seus membros possam refletir seus preciosos traços de caráter em suas vidas, e possam proclamar a bondade e a misericórdia de Deus a todos os homens, da mesma forma como Jesus o fez.
Antes do regresso de Jesus haverá um julgamento, conforme Apocalipse 14:7 divulga. O resultado desse julgamento será uma ação de selamento naqueles que não serão atingidos pela ira de Deus, do mesmo modo que os israelitas foram poupados no dia em que saíram do Egito. Antes de qualquer juízo da parte de Deus há sempre uma investigação e uma ação de selamento. O profeta Ezequiel mostra o que determina o selamento: “Então me gritou aos ouvidos com grande voz, dizendo: Fazei chegar os intendentes da cidade, cada um com as suas armas destruidoras na mão. E eis que vinham seis homens a caminho da porta superior, que olha para o norte, e cada um com a sua arma destruidora na mão, e entre eles um homem vestido de linho, com um tinteiro de escrivão à sua cintura; e entraram, e se puseram junto ao altar de bronze. E a glória do Deus de Israel se levantou de sobre o querubim, sobre o qual estava indo até a entrada da casa; e clamou ao homem vestido de linho, que tinha o tinteiro de escrivão à sua cintura. E disse-lhe o SENHOR: Passa pelo meio da cidade, pelo meio de Jerusalém, e marca com um sinal as testas dos homens que suspiram e que gemem por causa de todas as abominações que se cometem no meio dela. E aos outros disse ele, ouvindo eu: Passai pela cidade após ele, e feri; não poupe o vosso olho, nem vos compadeçais. Matai velhos, jovens, virgens, meninos e mulheres, até exterminá-los; mas a todo o homem que tiver o sinal não vos chegueis; e começai pelo meu santuário. E começaram pelos homens mais velhos que estavam diante da casa” (Ezequiel 9:1-6). Os selados serão aqueles “que suspiram e que gemem por causa de todas as abominações que se cometem no meio dela”. Agora faça uma ligação desta lógica com a de Jeremias 5, citada acima.
Estamos vivendo em tempos nos quais há muitíssima confiança nas tradições dos homens e no conhecimento científico. Nas congregações, a contaminação da verdade com as tradições tornou-se lugar comum. Há inversões do tipo usar dos costumes dos ímpios para atrair ímpios. Todavia, esta metodologia está provocando adesão dos crentes às tradições; deriva de foco, perigo assustador. Uma fonte estatística oficial diz que em 2018, 44% dos batizados deixaram a congregação. Os números representam muitas variáveis, porém, podem estar dizendo que tal desistência pode estar relacionada com a falta de novidade de vida. Se tudo é igual ao mundo, por que assumir responsabilidades com regras, sendo que se parecem com o restante da sociedade?  Talvez, aquele que nos comprou e nos tirou das trevas, faça uma intervenção, para que não resulte o que disse o profeta Jeremias: “Passou a sega, findou o verão, e nós não estamos salvos” (Jeremias 8:20).

terça-feira, 24 de março de 2020

Deus e a hostilidade humana




Os esboços proféticos do livro de Daniel alertam com muita clareza sobre as altas estratégias usadas, especialmente pelos homens insuflados por Lúcifer, para disseminar a ideia de que não precisamos de Deus para a solução dos nossos problemas e dilemas, aqueles que ameaçam nossa paz e sobrevivência.

Durante todas as eras, em muitas ocasiões, imensas ameaças mortais foram enfrentadas pela humanidade. Nestas ocasiões, a tecnologia humana foi evocada com razoável sucesso, dando a ilusão de que nossa desenvolvida ciência sempre dará fim aos perigos que enfrentamos e não necessitamos de ajuda externa ou mística originada nas religiões, porque estas são também produtos da imaginação humana. Evidentemente, há nas religiões fatias imensas de filosofia humana, tradições que acabam por cristalizarem-se em dogmas, os quais são pura imaginação, nada tendo a ver com a realidade.

Qual é a realidade?

Como cidadãos da parte ocidental do nosso planeta, fomos instruídos nos cânones do modelo filosófico judaico-cristão. É muito importante ter ciência dessa dimensão construtiva do nosso pensamento e da nossa ética. Por esse motivo, acreditamos num Deus supremo e aceitamos a Bíblia como sendo Sua revelação sobre a realidade, a espinha dorsal da nossa lógica existencial. Através da Bíblia, é-nos desvelada a cortina do universo e, um fato histórico importante nos conta de uma guerra no céu (Apoc.12:7-9). A partir dessa informação, nos damos conta de uma realidade beligerante entre a divindade e o seu arqui inimigo, a chamada luta entre o bem e mal. Essa realidade não está muito clara para a esmagadora maioria das religiões. Porém, para judeus e parte dos cristãos sim.

A Bíblia nos informa que Deus permitiu ao inimigo desenvolver suas ideias, de modo que este pudesse ser avaliado e julgado com justiça por Deus e pelo universo. A Terra é, neste momento, um teatro onde são expostos os princípios do governo de Deus e os pressupostos dos argumentos do inimigo. Não vamos explicar agora por que a Terra, considerando que isso é, por si só, assunto para um compêndio. Mas, a Terra e seus habitantes são protagonistas que ensinarão ao universo sobre Deus e seu inimigo e, segundo a Bíblia, Deus sairá vencedor com reconhecimento de todo universo. Com esse pano de fundo vamos olhar um pouco a geopolítica durantes as várias eras da civilização humana.

No processo civilizatório há sempre um poder humano que, em determinado período, exerce comando sobre as nações, influenciando-as, educando os jovens, comandando a ética sócio-política, ditando comportamento socioeconômico, impondo sua cultura especialmente através de sua língua. Quando observamos a geopolítica através das lentes bíblicas, é-nos oferecida oportunidade de ver aspectos do grande conflito entre o bem e o mal.

Há quase três mil anos atrás, Deus desvelou ao profeta Daniel o panorama geopolítico desde os seus dias até o final da história terrestre. Importante dizer que a referida revelação se deu 600 anos antes de Cristo, portanto, as informações que foram reveladas ainda estavam no futuro. Nos capítulos 2, 7, 8, 9, 11, do livro de Daniel, são dadas sequências históricas explicativas do modo como Satanás operaria através dos homens a sua guerra contra Deus. Mostra-se nos referidos textos a superioridade divina por sua onisciência, ao descortinar o que ainda estava encoberto e no futuro. Para quem está atentamente observando a narrativa e se depara com a onisciência de Deus, vem inevitavelmente a pergunta: por que Deus, sendo onisciente, deixou seu inimigo agir? A resposta é inequívoca. Era necessário que o inimigo revelasse cabalmente sua estratégia e suas intenções, de modo que o julgamento final fosse justo. Afinal de contas, o universo está também observando quem está com a razão. Estamos partindo da premissa de que os leitores conhecem os motivos da guerra no céu.

Os reinos universais, são uma estratégia para levar os homens para dentro das ideias de Satanás. Tais reinos são a máxima hostilidade humana contra o governo divino. A essa altura de nossa conversa, é importante lembrar algumas promessas de Satanás. No Éden, ele ofereceu a Eva a oportunidade de ser igual a Deus (Gên.3:5). Tal promessa envolve muita coisa, mas é notável que Eva acreditou que iria ter um aperfeiçoamento mental (Gên.3:6-7) e, dizem os profetas que ela se sentiu mentalmente superior. Desde então, os homens, sempre estimulados por Satanás, buscam descobrir os segredos do universo, na tentativa de controlá-lo e, consequentemente, tornarem-se deuses. Essa perspectiva é que deve ser focada quando se estuda a história humana. Os reinos que conquistaram o mundo são a arrogância humana, de acordo com o plano de Satanás.

O Primeiro grande momento narrado na Bíblia sobre a arrogância humana está em Gênesis 11, quando os pós-diluvianos resolveram fazer uma torre que sobressaísse a lâmina de água resultante das chuvas e assim estariam a salvo. Além disso, propuseram elevar a torre até as nuvens, onde se formaram as chuvas, deste modo poderiam estudar como se produz chuva e poderiam interferir no fenômeno impedindo-o. Tal soberba desafiava a Deus, sendo que houve uma drástica intervenção que os tornou incapazes de coesões futuras. Nunca mais a humanidade seria capaz de produzir integrações. As nações atuais resultam dessa incapacidade de coesão.

os reino universais foram construídos na impossibilidade harmônica. Em cada momento histórico, um poder esteve protagonizando a arrogância humana contra Deus. Os governos humanos sempre estiveram em guerras, e tal espírito beligerante é exarcerbado porque transgridem as leis, mudam os estatutos e quebram as alianças eternas. Porém, “Bem-aventurados os que guardam os Seus mandamentos” (Apoc. 22:14). Todos os reis, todos os governadores, todas as nações, são Seus e estão sob o domínio e autoridade do Senhor Deus onipotente. (Comentários de Ellen G. White, no Comentário Bíblico Adventista do Sétimo Dia, v. 6 p. 1081). Ainda que sejam os homens arrogantes, o planeta pertence ao Deus do céu (Salm.24:1).

O primeiro reino universal foi Babilônia de Nabucodonosor. Foi definido por Deus como “cabeça de ouro”. Sua influência perdura até os dias atuais, uma vez que a matemática dos caldeus foi a base para a matemática ocidental. Os estudos em astronomia foram muitíssimos importantes para ciências aplicadas tais como, agronomia, navegação, entre outras. Todavia, sua arrogância contra Deus foi fatal. O neto de Nabucodonosor foi julgado e sentenciado por Deus, sendo substituído em seu domínio pelos persas e os medos.

O segundo reino foi uma coalisão entre a Média e a Pérsia. Neste período Daniel com 80 anos foi lançado na cova dos leões, como consequência de ter desafiado um decreto que colocava o soberano acima de Deus. Daniel era o responsável por um sistema de auditoria que desbaratou desvios de recursos no reinado de Dario. Logo, os que foram prejudicados buscaram apanhá-lo em alguma falta, sem lograrem êxito. Assim, propuseram um decreto dando ao rei status divino e, espionaram a vida de Daniel porque sabiam que este orava ao Deus Altíssimo. Conforme vimos acima, tudo está sob o domínio e autoridade do Senhor dos céus. Numa fantástica demonstração de onipotência e onipresença, Deus livra Daniel e julga seus acusadores, mortos na mesma armadilha montada para Daniel. Os medos e persas fizeram grandes contribuições à ciência ajudando a formar a ideia da arrogância humana. Eram grandes na medicina, na engenharia, astronomia, matemática. Sua ciência alcançou o apogeu muito depois no chamado império Bizantino, quando grandes contribuições em todos os ramos do conhecimentos foram aportados e registrados na história. Por força do intelecto bizantino, as ciências contemporâneas alcançaram novas compreensões transformadas em tecnologias em uso atual.

O terceiro reino foi a Grécia, à qual se dispensa muitos comentários sobre a sua capacidade influenciadora e formatadora do pensamento ocidental hodierno. A arrogância grega é enorme por conta da sua influente filosofia. No ocidente são mais conhecidos autores como Sócrates, Platão e Aristóteles, este último com marcante incursão no pensamento cristão. Todavia, há importantes nomes de filósofos pré-socráticos que formaram toda a base lógica da ciência atual. Todo o raciocínio lógico ocidental moderno ainda é grego, tal a força dessa civilização. Do ponto de vista do conflito entre o bem e o mal, buscaram destruir a influência judaica criando um conjunto de crenças na evolução natural, reencarnação, imortalidade da alma, entre outras questões, numa demonstração de independência cultural distanciada da Torá judaica. Foram sofisticadamente arrogantes diante dos céus, criando um raciocínio que torna a filosofia e a ciência suficientes para explicar todas as causas, dando ao homem uma dimensão de absoluta dominância sobre a natureza. Tal arrogância determinou seu desaparecimento do cenário da liderança mundial, sendo a Grécia atual apenas um endereço turístico.

O quarto reino é Roma. Estamos colocando no presente porque este império está em andamento. Roma antiga dominou um vasto território que englobava muitas nações. Governava com uma característica ímpar: não destruía as culturas conquistadas. Todos poderiam consolidar sua cultura, desde que pagassem impostos ao rei de Roma. Por esse motivo o povo judeu, conquistado por Roma, manteve seu templo, seu sistema religioso e político. Roma atual não é a capital do mundo, posto que esta é a cidade de Washington nos Estados Unidos da América. Mas, em Roma está o Vaticano, uma espécie de reserva moral para o orbi. Todavia, são os Estados Unidos da América os que detém a liderança política e econômica no mundo. Ora, se o quarto reino ainda está vivo, como se explica a liderança americana?

Os símbolos americanos são os mesmos de Roma. A águia, por exemplo, era também o símbolo de Roma. O latim originou muitas expressões inglesas; a diplomacia utilizada por Roma na vivência com os conquistados é a mesma empregada pelos americanos no processo civilizatório atual, sendo que os países sob seu domínio diplomático usam a língua inglesa como idioma comercial, tal qual Roma utilizava o latim. Atualmente, a arrogância contra Deus se dá na confiança mundial nas tecnologias geradas nos Estados Unidos, uma sensação de que qualquer problema humano poderá ser resolvido pelos cientistas americanos. Porém, o sistema religioso criado por Roma é a referência ética para o mundo. O Papa é igual a Deus, sendo essa arrogância discutida pelo profeta Daniel. Toda essa construção humana está destinada à destruição final. Irá prevalecer o reino do Altíssimo Deus, conforme está demonstrado na Bíblia.

A escritora Ellen White diz que "Na história das nações o estudante da Palavra de Deus pode contemplar o cumprimento literal da profecia divina. Babilônia, fragmentada e por fim quebrantada, passou porque em sua prosperidade seus governantes tinham-se considerado independentes de Deus, atribuindo a glória do seu reino a realizações humanas. O domínio medo-persa foi visitado pela ira do Céu porque nele a lei de Deus tinha sido calcada a pés. O temor do Senhor não encontrou lugar no coração da grande maioria do povo. Prevaleciam a impiedade, a blasfêmia e a corrupção. Os reinos que se seguiram foram ainda mais vis e corruptos; e desceram cada vez mais na escala da dignidade moral. O poder exercido por todos os governantes da Terra é concedido pelo Céu; e seu sucesso depende do uso que fizerem dessa concessão". (Profetas e Reis, p.254)

O livro do profeta Daniel apresenta o grande conflito entre o bem e o mal em dimensões amplas, demonstrando também as estratégias de Deus ao lidar com o referido conflito. Os homens estão em franca adesão à proposta de Satanás. Se articulam a despeito da não unidade imposta por Deus. Porém, as coalisões humanas são frágeis e dependem de lideranças impostas pela força, uma forma de impor unidade improvável. O modelo de liderança humana é inspirado no sistema de competição pensado por Satanás, como sendo a alternativa ao conceito de governo celeste. A competição é a base da filosofia humana, ou seja, as explicações sobre as causas dos fenômenos captados pelo consciente humano. Assim, prevalece o mais forte e o mais apto. Essa ideia é a que move o comércio, é a base do sistema educacional humano, é a meta de vida de todos sendo aceita também pelas religiões. Essa ideia do mais forte fornece a percepção do homo deus aos habitantes da Terra. Tal ideia ofende o Deus Altíssimo que julgará os homens e tornará prevalecente o homem justo. O injusto, ou seja, o que é arrogante será aniquilado. Aqui vimos que Deus tolera a arrogância humana para poder esclarecer ao universo inteiro sobre a sua justiça e a excelência do seu sistema de governo. É absolutamente esclarecedor ter essa compreensão a respeito do meio que nos cerca. A leitura bíblica assume um colorido deslumbrante, pois elucida sobre as posições assumidas pelos políticos contemporâneos. Os homens estão envolvidos num conflito inteligentíssimo e serão obrigados a um posicionamento que dependerá de usarem os óculos corretos que permitirão discernir de que lado ficarão. O livro de Daniel é uma narrativa da odisseia humana. Os filhos de Deus capturados pelo inimigo e submetidos a situações de humilhação e desespero serão finalmente resgatados por Miguel; era necessária certa demora para que ficasse cabalmente demonstrado o mal; todo universo se regozijará porque a justiça de Deus será finalmente demonstrada.



quinta-feira, 5 de março de 2020

O grande conflito possui formatos que podem não estar perceptíveis



O grande conflito que se desenvolve em toda orbe possui formatos que podem não estar perceptíveis a todos os envolvidos. A questão religiosa está formatada em de dois sistemas contemplativos, os quais são os portais utilizados, pelos humanos, para interação com elementos considerados transcendentais. Há o sistema proposto por Deus, com dispensações que abrangeram os chamados patriarcas bíblicos, depois o judaísmo e por fim o cristianismo. Também há o sistema que faz a contrafação ao sistema de Deus, dissimulado e de difícil demarcação. Para as duas últimas dispensações, o conflito aparece em nuances que, quando analisadas cuidadosamente, permitem ver estratégias semelhantes a ambas dispensações para descaracterizações das ordens de Deus.

A principal estratégia do segundo sistema é a introdução de confusão na interpretação bíblica, causando a simplificação para introdução de tradições humanas no sistema de Deus, tirando a pureza das ordens divinas, descentralizando Deus e colocando homens como mediadores, dando às tradições humanas como que força divina, tornando o sistema religioso centrado na Terra e não no céu. E nem poderia ser diferente, uma vez que o inimigo está restrito ao planeta desde a sua precipitação, conforme Apocalipse 12:9.
É também muito importante verificar como esse conflito ocorreu em tempos anteriores ao judaísmo. Uma das maneiras de analisar é buscando ver os acontecimentos da torre de Babel. Depois que as águas do dilúvio secaram, algum tempo após, os homens planejaram superar qualquer futura ameaça de inundação construindo uma torre, cuja altura deveria ultrapassar a altitude à qual as águas alcançaram no dilúvio (Gênesis 11). Porém, resolveram que isso não era suficiente, e propuseram alcançar as nuvens, uma vez que a chuva veio das nuvens, logo, poderiam estudar como conter as chuvas e, consequentemente, surpreender Deus impedindo outro dilúvio. Aliás, essa é a razão por que as nações investem em pesquisas científicas. Sabendo das causas, poderão administrar a natureza, ou seja, poderão antever desvantagens, mas também, aproveitar fenômenos benéficos provocando as suas causas. Essa arrogância humana é uma das consequências do pecado, pois a inobservância da Lei de Deus significa independência Dele. E assim caminha a humanidade. O sistema científico mundial busca dar à humanidade capacidade para transgredir as ordens divinas. Porém, a concepção da filosofia científica inebria a humanidade quando quer garantir que os humanos devem e podem, por si mesmos, buscar as soluções para suas mazelas. Em muitos casos, a ciência tem se mostrado, em sua altivez, ser capaz de resolver muitas questões, sendo que está até mesmo propondo a imortalidade para 2050 (https://canaltech.com.br/saude/imortalidade-sera-alcancada-em-2050-dizem-cientistas-108478/).

Porém, no caso da torre de Babel, a arrogância humana foi abatida pela onipotência divina. Os sábios da época foram tolhidos na sua mais importante ferramenta, a fala ou a capacidade de comunicação. É importante lembrar que a fala é uma das características próprias de Deus, com a qual Ele abençoou a coroa da criação, mas foi na fala que Deus interferiu para mostrar que os homens não possuem nada de si mesmos e que estão sob controle divino. Desde esse episódio em diante, não mais a humanidade obteve unanimidade. Tal fato, conteve a arrogância, em muitos aspectos.

Durante a dispensação judaica, mesmo que a Torá estivesse em domínio de Israel, a chamada consciência coletiva, ou seja, as tradições próprias somadas às tradições dos povos vizinhos, atuaram como óculos que vedaram uma visão pura das ordens divinas. As tradições acabaram por colimar interpretações da Torá eivadas de egoísmo (a principal “virtude” do sistema do inimigo), transformando os ritos em obrigações que objetivavam aplacar a ira de Deus e conceder méritos aos usuários. Os ritos são interfaces de ensino sobre como transpor o impedimento (devido ao pecado) entre Deus e a humanidade, além de demonstrações humanas de fé e humildade no trato com os céus, nada concedendo em relação ao mérito humano e consequente salvação.

Assim, os judeus criaram um sistema religioso com abundância de regras, as quais eram ensinadas pelos sábios, mas que somente eles as entendiam. O povo ficava aturdido e errava, por exemplo, em achar que o sistema sacrifical, o próprio templo com suas cerimônias e ritos eram suficientes para expiar seu pecaminoso procedimento. Foi exatamente contra essa situação que Jesus se colocou, ofendendo aos sábios que buscaram matá-lo. Todo o sistema judaico estava contaminado com as tradições humanas, um resultado da sutil introdução dos princípios egoístas do sistema religioso criado pelo inimigo, dando a este desafortunada supremacia. 

Jesus ensinava e demonstrava, através do seu comportamento, os princípios altruístas da Torá e, como consequência, a partir dos doze discípulos, surgiu a igreja cristã. Porém, na medida em que o tempo avançou, novamente as tradições humanas se impuseram. No capítulo 8 do livro de Daniel aparece um chifre pequeno que falava como homem e que tinha como meta mudar os tempos e a lei. Se Deus é o Senhor do tempo e a Sua lei é a base do Seu governo, quando o homem tenta ostentar tais responsabilidades, necessariamente afronta Deus. Logo, as tradições humanas que se elevam sobre a Torá, e as mudanças nas ordenanças legais de Deus conformam um sistema que tira de Deus o comando e a autoridade para salvar colocando o homem no centro, no lugar de Deus. Essa estratégia tem sido exitosa em todos os tempos.

A igreja cristã atual está dividida em muitos ramos, os quais foram surgindo exatamente por causa dos óculos das tradições humanas. A igreja adota a Palavra de Deus; mas as tradições transmitidas de geração a geração, e as interpretações humanas das Escrituras ocultam a verdade como é em Jesus. Perdeu-se a significação espiritual das Sagradas Escrituras. O tesouro de todo o conhecimento está revelado, mas os cristãos não o sabem.

Durante o percurso da história, Deus tem buscado descontaminar a verdade. Na era pós Jesus Cristo, no século XVI, Deus levantou o movimento da reforma, o qual teve Lutero como seu ícone. Ali verdades que estavam sepultadas pelo entulho das tradições foram resgatadas. Mas, outra vez o inimigo logrou êxito, por força da reintrodução das tradições humanas. Como consequência, apareceram as igrejas protestantes entulhadas de tradições. O inimigo assediou os crentes com a ideia de que o Antigo Testamento deveria ser entendido como válido para dispensação judaica e, os protestantes focaram no Novo Testamento. Porém, a interpretação das escrituras do Novo Testamento sem o auxílio e sem os conceitos da Torá e dos profetas, torna muito propício o ambiente para a entrada de interpretações humanas que sofrem reinterpretações a cada geração. Com êxito o inimigo transformou a limpeza realizada pelos reformadores em monturos de ensinamentos bíblicos entulhados com interpretações humanas. É importante que se diga que a Bíblia interpreta a si mesma. Para evitar a interpretação humana, Deus levantou os profetas, assim devemos nos concentrar na Torá e nos profetas e nada mais (Mateus 7:12; Atos 24:14; Romanos 3:21).

Em 1844, depois de quase três séculos de contaminação doutrinária, Deus levanta um novo profeta, a quem fora dada a tarefa de limpar a verdade da contaminação protestante acumulada. Deus concede a Ellen White o privilégio do dom profético. Todos os seus escritos são uma advertência aos cristãos em relação às tradições e interpretações da verdade. Ela escreve dizendo “[...] Pouco a pouco, a princípio de forma discreta e silenciosa e depois mais às claras, à medida que crescia em força e conquistava o domínio da mente das pessoas, o mistério da iniquidade levou avante sua obra de engano e blasfêmia. Quase imperceptivelmente, os costumes do paganismo ingressaram na igreja cristã. [...]E entrando o cristianismo nas cortes e palácios dos reis, ele deixou de lado a humilde simplicidade de Cristo e de Seus apóstolos em troca da pompa e do orgulho dos sacerdotes e governadores pagãos; e, em lugar das ordenanças de Deus, colocou teorias e tradições humanas. [...] A obra de corrupção progredia rapidamente. Embora parecesse que o paganismo tinha sido derrotado, tornou-se o vencedor. Seu espírito dominava a igreja. Suas doutrinas, cerimônias e superstições incorporaram-se à fé e ao culto dos professos seguidores de Cristo (O Grande Conflito, p. 49, 50).

Há atualmente dois sistemas através dos quais os cristãos buscam a salvação: o sistema puro, no qual os homens são salvos pela fé em Jesus, sendo que a fundamentação da vida do cristão é o comportamento demonstrado por Jesus, quando andou entre os homens. A cópia desse comportamento origina nos homens as boas obras. Estas serão examinadas no juízo final e serão alegadas como atenuante diante das exigências da Lei de Deus. Mas, é a fé em Jesus que na verdade salva, ou seja, acreditar nele, copiando o seu caráter, sendo que no juízo final, Jesus nos representará e nos aplicará as suas obras, daí a necessidade da fé Nele. De outro lado há o sistema contaminado, no qual os homens buscam ser salvos por seus méritos e sem mudança nenhuma nos seus caracteres. Quem pratica perseverantemente ritos tentando aplacar a ira de Deus, ou quem ajuda seus semelhantes em troca da salvação, ou quem paga para sistemas religiosos para obter perdão, todos estão no segundo sistema de salvação. O mais malévolo e agravante desse segundo sistema é a tentativa de transferir para a terra prerrogativas exclusivas de Deus, como por exemplo sacerdotes que podem perdoar pecados. “Quando as Escrituras são suprimidas e o homem passa a se considerar supremo, só podemos esperar fraudes, enganos e injustiça degradante. Com a elevação das leis e tradições humanas, ficou evidente a corrupção que sempre resulta de se deixar de lado a lei de Deus” (História da Redenção, p. 331, 332).

“A única segurança agora, é procurar como a tesouro escondido a verdade, exatamente como se acha revelada na Palavra de Deus. Os assuntos do sábado, da natureza do homem, e do testemunho de Jesus, eis as grandes e importantes verdades a ser compreendidas; estas se demonstrarão qual âncora para firmar o povo de Deus nestes tempos perigosos. A massa da humanidade, porém, despreza as verdades da Palavra de Deus, e prefere as fábulas. Porque não receberam o amor da verdade para se salvarem. E por isso Deus lhes enviará a operação do erro, para que creiam a mentira” (2Ts 2:10,11; Testemunhos Para a Igreja, v. 1, p. 300).




terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

A visão de mundo dos filhos de Deus


Uma das consequências da interpretação do sonho de Nabucodonozor , o qual é mencionado em Daniel 2, foi a proclamação, pela boca do referido rei, das três virtudes do Deus dos céus: no capítulo 4 do livro de Daniel está a mencionada declaração: “Quão grandes são os Seus sinais, e quão poderosas, as Suas maravilhas! O Seu reino é reino sempiterno, e o Seu domínio, de geração em geração” (Dn 4:3). A frase “Quão grandes são os Seus sinais, e quão poderosas, as Suas maravilhas!” atestam a onisciência e a onipotência de Deus, enquanto a frase “O Seu reino é reino sempiterno, e o Seu domínio, de geração em geração” atestam a Sua onipresença. O cabeça de ouro começa a conhecer Aquele que determina a história. Uma pergunta aparece quando se lê tal relato: por que o Deus do céu se revela ao monarca da Babilônia?

Nabucodonozor era o brilhante imperador a quem Deus entregara o reino de Judá. Os judeus não se tornaram esclarecidos quanto ao seu papel na primeira vinda do Messias, assim, falharam em ser a embaixada do governo celeste entre as nações da Terra. Do seu papel de influenciadores das nações para que estas se submetessem ao governo do Altíssimo, caíram para influenciados pelas nações pagãs, assim que Deus toma um rei icônico para que fosse motivo de cópia de outros reinos, e submete o próprio rei à influência de quatro príncipes israelitas cuja educação religiosa aprimorada seria influência avassaladora sobre um reino universal.

É de suma importância entender o ambiente no qual estava Nabucodonozor. Ele havia conquistado um vasto império e, tal feito o enchia de orgulho. No entanto, Deus o escolheu para ser protagonista no cenário geopolítico da grande controvérsia por uma característica: o rei era justo em muitos aspectos, porém, orgulhoso.

Orgulho tem sido um pecado insuportável porque leva invariavelmente à não dependência de Deus. Através do profeta Ezequiel, Deus explicou as implicações do orgulho: “Elevou-se o teu coração por causa da tua formosura, corrompeste a tua sabedoria por causa do teu resplendor; lancei-te por terra, diante dos reis te pus, para que te contemplem” (Ez 28:17). Há no texto a demonstração da misericórdia de Deus para com os homens: o anjo rebelde, com o seu orgulho fatal, foi lançado por terra, diante dos reis, para que seja contemplado e seu exemplo seja um estímulo grande contra o orgulho. Especialmente nos que amealham algum poder, o orgulho, ou seja, a independência de Deus, pode se manifestar avassaladora. Somos todos seres humanos caídos, dependentes de Deus para nossa existência. Esta é a visão de mundo dos filhos de Deus. Inteligentemente, deve-se perceber que todos os dons que temos, tudo o que realizamos com esses dons vêm somente de Deus. Portanto, como ousamos ser orgulhosos, jactanciosos ou arrogantes quando, na realidade, a humildade deveria dominar tudo o que fazemos? Essa visão de mundo é diametralmente oposta ao orgulho, ela nos dá a exata perspectiva da mordomia cristã.

Falando de Satanás, o Senhor declara que ele não se firmou na verdade, ou seja, para ele o que lhe fora dado por Deus e que estava à disposição, ele assumiu sendo seu próprio. Ele já foi belo, radiante de luz; sua vida era a aplicação dos princípios da Lei do céu, amor a Deus e amor ao próximo. Mas a Palavra de Deus declara a seu respeito: “Elevou-se o teu coração por causa da tua formosura” (Ez 28:17). Com este raciocínio, o inimigo de Deus e dos homens tem proclamado que aquilo que temos, nossos talentos e aptidões são nossos e, consequentemente, devemos usá-los para benefício próprio. Tal visão de mundo resultou numa construção social onde a concorrência e a competição levam à sobrevivência dos mais fortes. Essa era a visão de mundo de Nabucodonozor.

 Deus concedeu a Nabucodonosor um segundo sonho. Neste, o rei tinha visto uma grande árvore que alcançava o Céu e um ser celestial ordenando que ela fosse cortada. Somente o toco e as raízes deveriam ser deixados na terra e seriam molhados com o orvalho do Céu. Mas o que deve ter perturbado Nabucodonosor foi a parte do sonho em que o ser celestial disse: “Seja mudado o seu coração, para que não seja mais coração de homem, e seja-lhe dado coração de animal; e passem sobre ele sete tempos” (Dn 4:16). As árvores são comumente usadas na Bíblia como símbolos de reis, nações e impérios (Ez 17; 31; Os 14; Zc 11:1, 2; Lc 23:31). Portanto, a grande árvore era uma representação apropriada de um rei arrogante. O Senhor havia concedido a Nabucodonosor domínio e poder; no entanto, ele persistentemente falhou em reconhecer que tudo o que possuía vinha de Deus. Nabucodonosor não aceitou a mensagem enviada do Céu. Um ano depois de ter sido assim advertido, quando passeava pelo palácio, disse de si para si: “Não é esta a grande Babilônia que eu edifiquei?” […] O Deus do Céu leu o coração do rei e ouviu os seus murmúrios de congratulações próprias. […] “Desceu uma voz do Céu: A ti se diz, ó rei Nabucodonosor: Já passou de ti o reino. Serás expulso de entre os homens, e a tua morada será com os animais do campo; e far-te-ão comer ervas como os bois, e passar-se-ão sete tempos por cima de ti, até que aprendas que o Altíssimo tem domínio sobre o reino dos homens, e o dá a quem quer. No mesmo instante, se cumpriu a palavra sobre Nabucodonosor” (Dn 4:30-33; Vidas Que Falam [MM 1971], p. 253).

Este episódio é altamente informativo. Nossa inteligência é uma dádiva de Deus. Por essa razão, a inteligência pode ser retirada por Deus. À luz da eternidade, será visto que Deus lida com os homens de acordo com a momentosa questão da obediência ou desobediência (Este Dia Com Deus [MM 1980], p. 350).

Mais uma vez o profeta Daniel é chamado para interpretar ao rei o sonho. Ele não apenas interpretou, mas também indicou uma solução: “Aceita o meu conselho e põe termo, pela justiça, em teus pecados e em tuas iniquidades, usando de misericórdia para com os pobres; e talvez se prolongue a tua tranquilidade” (Dn 4:27). Em outra versão lemos “Renuncia a teus pecados e à tua maldade, pratica a justiça e tem compaixão dos necessitados. Talvez, então, continues a viver em paz”. Compreender estas coisas, isto é, que “a justiça exalta as nações” (Pv 14:34); que “com justiça se estabelece o trono” (Pv 16:12), e “com benignidade” ele se “sustém” (Pv 20:28); reconhecer a ação desses princípios na manifestação de Seu poder que “remove os reis, e estabelece os reis” é compreender a filosofia da história.

Só na Palavra de Deus é que isso é claramente estabelecido. Nela é mostrado a nós que a força tanto das nações quanto dos indivíduos não se encontra nas oportunidades ou facilidades que parecem torná-los invencíveis, nem na grandeza de que tanto se orgulham. Ela é medida pela fidelidade com que eles cumprem o propósito de Deus (Profetas e Reis, p. 502).

O eloquente exemplo do nosso salvador é contrastante com a visão de mundo que estamos acostumados: Humilde, gentil, terno e compassivo, Ele andava fazendo o bem, alimentando os famintos, erguendo o abatido, confortando os tristes. Ninguém que a Ele viesse em busca de auxílio saía desapontado. […] Ele viveu a vida que quer que vivam todos os que creem Nele. Sua comida e bebida era fazer a vontade de Seu Pai. A todos que a Ele vinham buscar ajuda Ele comunicava fé, esperança e vida. Aonde quer que fosse levava bênção. A terna simpatia de nosso Salvador foi despertada em favor da humanidade caída e sofredora. Se vocês desejam ser Seus seguidores, devem cultivar a compaixão e a simpatia. A indiferença para com os infortúnios humanos deve ceder lugar ao vivo interesse pelos sofrimentos dos outros. As viúvas, os órfãos, os enfermos e os que estão a perecer, sempre necessitarão de auxílio. Eis uma oportunidade para proclamar o evangelho – para exaltar Jesus, a esperança e consolação de todos os homens. Quando o sofrimento do corpo é aliviado, abre-se o coração, e vocês podem derramar nele o bálsamo celestial. Se estão olhando para Jesus, e Dele tirando conhecimento, força e graça, podem comunicar a outros a Sua consolação, pois o Consolador está com vocês (Minha Consagração Hoje [MM 1953, 1989], p. 230).

Deus permitiu que Nabucodonosor fosse acometido por uma doença estranha, mas no fim Ele prontamente o restaurou a um estado mental sadio. Curiosamente, tudo mudou quando, ao final dos sete anos preditos pelo profeta, o rei enfermo levantou os olhos para o Céu (Dn 4:34). Numa proclamação pública admitiu sua culpa e a grande misericórdia de Deus em sua restauração” (Ellen G. White, Profetas e Reis, p. 520). Como o caso de Nabucodonosor ilustra, Deus concede uma chance após outra para nos restaurar a um relacionamento justo com Ele. Como Paulo escreveu muitos séculos depois, o Senhor “deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade” (1Tm 2:4). Vemos nessa história um exemplo poderoso dessa realidade.
Por meio de Jesus, foi a misericórdia divina manifesta aos homens; a misericórdia, no entanto, não pôs de parte a justiça. A lei revela os atributos do caráter de Deus, e nem um jota ou til da mesma se podia mudar, para ir ao encontro do homem em seu estado caído. Deus não mudou Sua lei, mas sacrificou-Se a Si mesmo em Cristo, para redenção do homem. “Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo” (2Co 5:19; O Desejado de Todas as Nações, p. 761, 762). Deve o povo de Deus adquirir experiência mais profunda e mais vasta nos assuntos da religião. Cristo é o nosso exemplo. Se, mediante fé viva e santificada obediência à Palavra de Deus, manifestamos o amor e a graça de Cristo, se demonstramos raciocínio afinado com as providências com que Deus dirige a Sua obra, manifestaremos ao mundo um poder convincente. Não é a posição elevada que nos confere valor aos olhos de Deus. O homem é medido pela sua consagração e fidelidade no cumprimento da vontade divina. Se o remanescente povo de Deus andar perante Ele com humildade e fé, Deus, por meio deles executará Seu eterno propósito, capacitando-os para trabalhar em harmonia para dar ao mundo a verdade tal qual é em Jesus (Testemunhos., v. 9, p. 274).


sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

A virtude intraduzível



Os textos anteriormente postados são sempre de autoria da pessoa responsável pelo blog; o texto abaixo abre uma exceção, pois trata-se da tradução de um dos capítulos do livro do Rabino Jonathan Sacks, que comenta sobre Deuteronômio. Achamos que o assunto é de importância capital e, por essa razão, traduzimos da língua inglesa, conforme abaixo:

Na Parashat Re’eh encontramos uma passagem que é a fonte de uma das mais majestosas instituições do judaísmo, o princípio do tzedaka:
Deuteronômio 15:7-11 LEMOS:”7 Quando entre ti houver algum pobre, de teus irmãos, em alguma das tuas portas, na terra que o SENHOR teu Deus te dá, não endurecerás o teu coração, nem fecharás a tua mão a teu irmão que for pobre; 8 Antes lhe abrirás de todo a tua mão, e livremente lhe emprestarás o que lhe falta, quanto baste para a sua necessidade. 9 Guarda-te, que não haja palavra perversa no teu coração, dizendo: Vai-se aproximando o sétimo ano, o ano da remissão; e que o teu olho seja maligno para com teu irmão pobre, e não lhe dês nada; e que ele clame contra ti ao SENHOR, e que haja em ti pecado. 10 Livremente lhe darás, e que o teu coração não seja maligno, quando lhe deres; pois por esta causa te abençoará o SENHOR teu Deus em toda a tua obra, e em tudo o que puseres a tua mão. 11 Pois nunca deixará de haver pobre na terra; pelo que te ordeno, dizendo: Livremente abrirás a tua mão para o teu irmão, para o teu necessitado, e para o teu pobre na tua terra.

Note que a passagem não usa a palavra tzedaka, a despeito do fato que a raiz TZ-D-K é uma palavra chave de Deuteronômio, aparecendo oito vezes. Tampouco está explicitamente tzedaka como tal. Ao invés disso, é sobre shemita, os sete anos nos quais as dívidas são canceladas. Explicaremos abaixo o porquê.

O amplo princípio do tzedaka está no coração da compreensão judaica das mitzvot bein adam lehavero, os deveres que temos com outras pessoas. Isto aparece em passagem chave em Gênesis, o único lugar no qual a Torá explica por que Deus destacou Abraão para ser o pai de uma nova fé:
Gênesis 18:17-19 “17 E disse o SENHOR: Ocultarei eu a Abraão o que faço, 18 Visto que Abraão certamente virá a ser uma grande e poderosa nação, e nele serão benditas todas as nações da terra? 19 Porque eu o tenho conhecido, e sei que ele há de ordenar a seus filhos e à sua casa depois dele, para que guardem o caminho do SENHOR, para agir com justiça e juízo; para que o SENHOR faça vir sobre Abraão o que acerca dele tem falado”.

O “caminho do Senhor” é definido aqui por duas palavras, tzedaka e mishpat. Ambas são formas de justiça, porém são diferentes em sua lógica. Mishpat significa justiça retributiva. Refere-se ao estado de direito, através do qual as disputas são resolvidas pelo direito e não pelo poder. A lei distingue o inocente do culpado. Estabelece um conjunto de regras, vinculativas para todos, através das quais os membros de uma sociedade agem de forma a perseguir os seus próprios interesses sem infligir os direitos e as liberdades dos outros. Poucas civilizações têm vestidos a lei com maior dignidade do que o judaísmo. É a mais básica instituição de uma sociedade livre. Não é coincidência que no judaísmo, Deus revela-se primariamente na forma de leis, uma vez que o judaísmo está preocupado não somente com a salvação (alma em seu relacionamento com Deus) mas também com a redenção (sociedade como um veículo para a presença divina) uma sociedade governada pela lei é um lugar de mishpat.

Porém, mishpat sozinha não cria uma boa sociedade. Para tal deve-se adicionar tzedaka, a justiça distributiva. Pode-se imaginar uma sociedade que observa meticulosamente o Estado de Direito, mas ainda mantém tanta desigualdade que a riqueza está concentrada nas mãos de poucos, e muitos ficam sem os requisitos básicos para uma existência digna. Pode haver desemprego elevado e pobreza generalizada. Alguns podem viver em palácios, enquanto outros são sem teto. Este não é o tipo de ordem que a Torá contempla. Deve haver justiça não somente em como a lei é aplicada, mas também quanto ao significado da existência- riqueza como uma benção de Deus – deve ser distribuída. Isto é tzedaka.

Por que então é definida tão brevemente na própria Torá? A resposta é que a Torá é um conjunto atemporal de ideais que devem ser realizadas no decorrer do tempo, e nem todos os tempos são os mesmos.

O foco imediato da Torá a partir do Êxodo é a criação de uma sociedade na terra de Israel – a sociedade que realmente emergiu dos dias de Josué até o fim da era bíblica. Sua economia era principalmente agrícola, assim como todas as economias antigas. Portanto, a Torá define em grande detalhe o seu programa de justiça distributiva em termos de ordem agrária.

Havia o sétimo ano, quando os débitos eram cancelados. No sétimo ano de serviço, os israelitas escravos eram libertados. Havia o jubileu no qual as terras ancestrais retornavam aos seus proprietários originais. Havia o “canto do campo” o “molho esquecido” o respigar dos grãos e da colheita do vinho, além dos dízimos no terceiro e sexto anos, os quais eram dados aos pobres. Nessa forma e outras, a Torá estabeleceu a primeira forma da qual no século XX veio a ser conhecida como “estado do bem-estar” – com uma diferença significante. Não há dependência do Estado. Era parte da sociedade, implementada não pelo poder, mas pela responsabilidade moral, não pelo governo, mas pelos indivíduos da sociedade nas comunidades locais. Vemos como isto aconteceu na prática no livro de Ruth, no qual Boaz ajudou duas mulheres em necessidade. Isto era o que uma sociedade de aliança deveria ser. Era uma estrutura excepcionalmente bonita.

Mas, o genial da Torá é que não predica a sua visão para uma única era ou uma ordem econômica em particular. Ao lado das especificidades há uma ampla declaração de ideais atemporais. Esse é o papel dos versos citados acima, que serviram de base para a legislação rabínica sobre tzedaka. Tzedaka refere-se a mais do que presentes a partir de produtos. Inclui presentes em dinheiro, o meio de troca em todas as sociedades avançadas, não importando a sua base econômica. É por isso que nos tempos pós-bíblicos, quando Israel não era uma nação em sua própria terra, e a maioria do seu povo não vivia muito e trabalhava em fazendas, tzedaka assumiu novas formas, como presentes em dinheiro ou comida repartida ou outros recursos. A implementação mudou, mas o princípio permaneceu o mesmo.

Maimonides, em sua halakhic code o Mishneh Torah, faz uma fascinante observação: Nunca vimos ou ouvimos de uma comunidade judaica sem um fundo tzedaka. Nós somos obrigados a ser mais escrupulosos no cumprimento do mandamento do tzedaka do que outros mandamentos positivos porque a tzedaka é o sinal de retidão, a semente de Abraão nosso pai, como é dito, “por isso eu o tenho escolhido, porque instruirá seus filhos...para tzedaka. O trono de Israel e a religião da verdade são mantidos apenas pela tzedak como se diz “em tzedaka serás estabelecido” (Isa.54:14). Israel é redimido unicamente através da tzedaka conforme é dito “Sião será remida com juízo, e os que voltam para ela com tzedaka (justiça)”. (Isa.1:27)...todos os judeus e aqueles agregados a eles são como irmãos, tal como é dito “FILHOS sois do SENHOR vosso Deus” (Deut.14:1), e se um irmão não mostrar misericórdia ao seu irmão, quem então terá misericórdia dele?

Tzedaka era então, em ideal e realidade, constitutivo da vida da comunidade judaica, a ligação moral entre judeu e judeu (embora deva-se notar que a lei judaica também obriga os judeus a dar tzedaka a não judeus sob a rubrica dos caminhos da paz). É fundamental para o conceito de uma sociedade de aliança: sociedade como uma atividade ética é construída em base de responsabilidade mútua.

Até agora, deliberadamente, eu não traduzi a palavra tzedaka. Ela não pode ser traduzida, e isto não é acidental. Civilizações diferem uma da outra em suas estruturas de ideias, até mesmo em suas compreensões mais fundamentais da realidade. Não são maneiras diferentes de dizer ou fazer as mesmas coisas, por assim dizer, cobrindo os mesmos modos básicos de existência. Se procurarmos compreender o que torna uma civilização distinta, o melhor lugar são as palavras intraduzíveis.

Tzedaka não pode ser traduzida porque ela junta dois conceitos que, em outras línguas, são opostos, nominalmente, caridade e justiça. Suponhamos, por exemplo, que eu dê a alguém £100. Ou ele tem direito ou não tem. Se ele tem, então meu ato é uma forma de justiça. Se ele não tem, é um ato de caridade. Em inglês (como com os termos latinos caritas e iustitia) um gesto caridade não pode ser um ato de justiça, nem pode ser um ato de justiça ser descrito como uma caridade. Tzedaka é, entretanto, um termo não usual, porque significa ambos.

A ideia de tzedaka surge da teologia do judaísmo, a qual insiste na diferença entre possessão e propriedade. Finalmente, todas as coisas são de propriedade de Deus, Criador do mundo. O que possuímos não nos pertence – meramente mantemos em confiança para Deus. O claríssimo exemplo é a provisão em Levítico: “Também a terra não se venderá em perpetuidade, porque a terra é minha; pois vós sois estrangeiros e peregrinos comigo”. (Lev. 25:23).

Se houvesse propriedade absoluta, haveria uma diferença entre justiça (o que somos obrigados a dar aos outros) e caridade (o que damos aos outros por generosidade). O primeiro seria um dever legalmente exequível, o segundo, na melhor das hipóteses, o alerta de benevolência ou simpatia. No judaísmo, entretanto, porque não somos proprietários de nossas posses, mas, meramente guardiões da parte de Deus, estamos unidos por condições de tutela, uma das quais é que compartilhamos parte do que temos com outros em necessidade. Logo, a seguinte lei única: “alguém que não deseja dar tzedaka ou uma apropriada quantidade de tzedaka pode ser compelido a fazê-lo por força de uma corte de justiça judaica”. Caridade é sempre voluntária. Tzedaka é compulsória. Por essa razão, tzedaka não significa caridade. O que pode ser visto como caridade em outro sistema legal é, no judaísmo, um estrito requerimento da lei, executado pelas cortes.

O equivalente mais próximo a tzedaka no Inglês é a frase que veio a existência juntamente com a ideia de um Estado de bem-estar (welfare state), nominalmente, justiça social (significantemente, Friedrich Hayek considerou o conceito de justiça social como incoerente e autocontraditório). Atrás de ambos está a ideia de que ninguém estaria sem os requisitos básicos da existência, e que aqueles que têm mais do que necessitam devem compartilhar algo do supérfluo com os que têm menos. Isto é fundamental para o tipo de sociedade que os israelitas foram encarregados de criar, nominalmente, uma sociedade em que todos têm direito ao básico, a uma vida digna e ao mesmo valor como cidadão na comunidade da aliança sob a soberania de Deus.

Com sua combinação de caridade e justiça, tzedaka é uma instituição única. É profundamente humanitária, mas pode não existir sem o conceito essencialmente religioso da propriedade divina e aliança social. O profeta Jeremias diz do rei Josias, “Julgou a causa do aflito e necessitado; então lhe sucedeu bem; porventura não é isto conhecer-me? diz o SENHOR”. (Jer. 22:16). Conhecer a Deus é agir com justiça e compaixão, reconhecer Sua imagem em outra pessoa, e ouvir o clamor silencioso daqueles em necessidade.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

Uma igreja vertiginosamente ajustada para refletir o céu



Somos chamados por Deus para descrever e demonstrar ao mundo as virtudes daquele que nos tirou das trevas para sua maravilhosa luz. Aquele que nos tirou deste enegrecido mundo, no qual a cobiça é o núcleo de todos os códigos humanos.

A igreja de Deus foi vertiginosamente ajustada para refletir o funcionamento dos céus. Nela vemos o sistema de cooperação sobre o qual o universo está ancorado. Os seus membros são instados a cooperar de muitas formas, incluindo os dízimos e as ofertas. A premissa deste sistema é que Deus é o grande provedor de tudo o que há nos céus e na terra, e nesta condição, ele permite que suas criaturas tenham o usufruto de tudo o que foi criado. Considerando que todas as coisas vêm de Deus, então, num sistema de cooperação, aqueles que recebem deverão também doar para que haja continuidade na cooperação. 

O conhecimento do que foi explanado acima levou Jacob a Dizer: “E esta pedra que tenho posto por coluna será casa de Deus; e de tudo quanto me deres, certamente te darei o dízimo” (Gênesis 28:22). Ele claramente entendeu que aquilo que nos é fornecido, sem que tenhamos participação na elaboração, deve ser compartilhado, por esse motivo, sua vida foi próspera.

Tudo o que temos vem de Deus, por essa razão, Deus ordenou que Moisés instruísse aos sacerdotes e todos os levitas com o seguinte comando: “Também falarás aos levitas, e dir-lhes-ás: Quando receberdes os dízimos dos filhos de Israel, que eu deles vos tenho dado por vossa herança, deles oferecereis uma oferta alçada ao SENHOR, os dízimos dos dízimos” (Números 18:26).

Ellen White, explicando como fora implantado o sistema de Deus na criação do mundo, diz: “Ora, o pecado manchou a perfeita obra de Deus, todavia permanecem os traços de Sua mão. Mesmo agora todas as coisas criadas declaram a glória de Sua excelência. Não há nada, a não ser o coração egoísta do homem, que viva para si. Nenhum pássaro que fende os ares, nenhum animal que se move sobre a terra, deixa de servir a qualquer outra vida. Folha alguma da floresta, nem humilde haste de erva é sem utilidade. Toda árvore, arbusto e folha exalam aquele elemento de vida sem o qual nenhum homem ou animal poderia existir; e animal e homem servem, por sua vez, à vida da folha, do arbusto e da árvore. As flores exalam sua fragrância e desdobram sua beleza em bênção ao mundo. O Sol derrama sua luz para alegrar a mil mundos. O próprio oceano, a origem de todas as nossas fontes, recebe as correntes de toda a terra, mas recebe para dar. Os vapores que lhe ascendem ao seio caem em chuveiros para regar a terra a fim de que ela produza e floresça”. (DTN, 9)

A autora assinala que “Mesmo agora todas as coisas criadas declaram a glória de Sua excelência”. A excelência de Deus a qual é também a sua glória ou caráter, é exatamente o compartilhamento, entre todas as suas criaturas, de tudo o que está na Sua posse. Jesus explicou como o pecado apagou tal excelência na humanidade contando a parábola do filho pródigo. Nos diálogos com os filhos, o pai fala do compartilhamento da sua riqueza, dizendo que os filhos possuem tudo o que é do pai. Porém, a cobiça pecaminosa aparece no querer do filho mais novo. Não havia nele a dimensão do compartilhamento.

O mesmo senso de cooperação é deparado nos anjos. A escritora Ellen White procura explicá-lo assim: “os anjos da glória acham seu prazer em dar — dar amor e infatigável cuidado a almas caídas e contaminadas. Seres celestiais buscam conquistar o coração dos homens; trazem a este mundo obscurecido a luz das cortes em cima; mediante um ministério amável e paciente operam no espírito humano, para levar os perdidos a uma união com Cristo, mais íntima do que eles próprios podem avaliar”. Assim, a tarefa dos anjos é ensinar e demonstrar o sistema de cooperação, de modo que a humanidade é convidada a aprender unindo-se a Cristo, ou seja, copiando o seu exemplo.

Conforme visto, a obra dos anjos é descontaminar as almas caídas trazendo luz ao mundo obscurecido. Significando que aos anjos cabe a missão de tornar possível o sistema de cooperação entre os humanos. Estes seres celestiais conquistam o coração das pessoas dirigindo-as para cuidarem de outras pessoas.

Porém, é em Cristo, o homem-Deus, que o sistema de cooperação está plenamente desenvolvido e demonstrado. Por essa razão, Ellen White descreve assim: “Volvendo-nos, porém, de todas as representações secundárias, contemplamos Deus em Cristo. Olhando para Jesus, vemos que a glória de nosso Deus é dar. “Nada faço por Mim mesmo” (João 8:28), disse Cristo; “o Pai, que vive, Me enviou, e Eu vivo pelo Pai”. João 6:57. “Eu não busco a Minha glória” (João 8:50), mas “a dAquele que Me enviou”. João 7:18. Manifesta-se nestas palavras o grande princípio que é a lei da vida para o Universo. Todas as coisas Cristo recebeu de Deus, mas recebeu-as para dar. Assim nas cortes celestes, em Seu ministério por todos os seres criados: através do amado Filho, flui para todos a vida do Pai; por meio do Filho ela volve em louvor e jubiloso serviço, uma onda de amor, à grande Fonte de tudo. E assim, através de Cristo, completa-se o circuito da beneficência, representando o caráter do grande Doador, a lei da vida.

A frase “através do amado Filho, flui para todos a vida do Pai” significa que o sistema de cooperação é o moto contínuo que mantém a vida. Significa ainda que, a cooperação cósmica construída por Deus o Pai, é a base física que mantém a vida; vida necessariamente pressupõe relacionamentos, interações, uma rede de criaturas unidas e transmitindo virtudes umas às outras; tal sistema é denominado vida, um conjunto de hábitos que caracterizam organismos cujo dinamismo determina o desenvolvimento. Uma complexa rede onde cada vórtice é um difusor de virtudes. Quanto mais virtudes são difundidas, mais vida é comunicada. Portanto, vida eterna significa constante difusão de virtudes, sendo a morte e a escuridão o oposto.

A quebra desse sistema cooperativo ocorreu em Lúcifer, antes da criação da Terra. Aliás, o próprio nome Lúcifer, o portador de luz, implica em que este ser era o promovedor da cooperação, uma vez que luz significa amor ao próximo (I João 1:7; I João 2:10-11). A pergunta que não quer calar é: como pôde surgir nele a cobiça?

Sobre este assunto, Ellen White diz: “No próprio Céu foi quebrantada essa lei. O pecado originou-se na busca dos próprios interesses. Lúcifer, o querubim cobridor, desejou ser o primeiro no Céu. Procurou dominar os seres celestes, afastá-los de seu Criador, e receber-lhes, ele próprio, as homenagens. Portanto, apresentou falsamente a Deus, atribuindo-Lhe o desejo de exaltação própria”.
É importante saber o que significa o adjetivo cobridor: Lúcifer era o querubim cobridor, o mais exaltado dentre os seres criados. Sua posição era a mais próxima do trono de Deus, e ele se achava intimamente vinculado e identificado com a administração do governo de Deus, havendo sido ricamente dotado com a glória de Sua majestade e poder. — The Signs of the Times, 28 de Abril de 1890.

A estratégia de Lucifer para criar um novo modelo foi tentar revestir o amorável Criador com suas próprias más características. Assim enganou aos anjos. Assim enganou aos homens. Levou-os a duvidar da palavra de Deus, e a desconfiar de Sua bondade. Como o Senhor seja um Deus de justiça e terrível majestade, Satanás os fez considerá-Lo como severo e inclemente. Assim arrastou os homens a se unirem com ele em rebelião contra Deus, e as trevas da miséria baixaram sobre o mundo.

Em outras palavras, Lúcifer ajuizou que o sistema de cooperação fora montado para exaltar a Deus. Na sua visão, Deus era injusto, mantendo todas as criaturas presas numa rede de serviços. Portanto, deveriam ser libertos pela proposição de um novo sistema. Ao invés de uma lei que os obrigava e aprisionava numa rede de cooperação, os seres criados deveriam ser livres, uma forma de adquirirem autodeterminação, evolução e conquistas morais e físicas. Todavia, fora de uma rede de cooperação a cobiça torna-se o motor das decisões. Mas, Lúcifer quis ser Deus, pensando que poderia sustentar o sistema criado, porém, motivado por um princípio oposto ao princípio celeste.

É necessário que vejamos João 1:3-4: “Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez. Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens”. Em outras palavras, somente Deus tem o poder para conservar a rede cósmica de cooperação em andamento, porque todas as coisas foram feitas por Ele. Essa rede é a vida, e os homens, se mantidos nessa rede, viveriam. Logo, a adesão ao sistema oposto ao celeste acarretou a morte.

A pretensa liberdade apregoada por Lúcifer trouxe a este mundo a cobiça. Cain cobiçou a posição do irmão matando-o. Jacob cobiçou a benção da primogenitura causando a separação. José teve na cobiça dos seus irmãos o motor para separação. A cobiça tem sido a causa da degradação moral e separação de povos, famílias, comunidades. A cobiça nos alcança, e por essa razão, temos separação no seio da igreja.

Separação implica em quebra na rede de cooperação, logo, morte.

A solução para esse problema foi a criação de um Estado onde os princípios celestes fossem o drive moral do crescimento social. Deus chama Abraão e, a partir dele forma a nação israelita. A sociedade hebraica foi pensada para operar um excelente sistema de cooperação. Vejamos alguns exemplos da vida cotidiana dos hebreus.

Faço lembrar aqui que Israel era uma nação onde o sistema político era centrado em Deus. Não havia nenhuma palavra, no mundo antigo, para definir este estado de organização política, assim, o historiador Flavius Josephus cunhou Teocracia. No entanto, esta palavra tem sido muito abusada e tomada para significar o que não é, nomeadamente, governo de clérigos, sacerdotes. Essa não era a realidade de Israel. Israel era uma nação Deus. Se qualquer palavra faz justiça à noção descortinada em Deuteronômio, esta não é teocracia, mas nomocracia, o reino das leis (Estado de direito), não reino de homens. Assim, as leis reinavam.

Em Deuteronômio 18:1-5, lemos o seguinte: “Os sacerdotes levitas, toda a tribo de Levi, não terão parte nem herança com Israel; das ofertas queimadas do SENHOR e da sua herança comerão. Por isso não terão herança no meio de seus irmãos; o SENHOR é a sua herança, como lhes tem dito. Este, pois, será o direito dos sacerdotes, a receber do povo, dos que oferecerem sacrifício, seja boi ou gado miúdo; que darão ao sacerdote a espádua e as queixadas e o bucho. Dar-lhe-ás as primícias do teu grão, do teu mosto e do teu azeite, e as primícias da tosquia das tuas ovelhas. Porque o SENHOR teu Deus o escolheu de todas as tuas tribos, para que assista e sirva no nome do SENHOR, ele e seus filhos, todos os dias”.

Agora, façamos um cotejo com o que está em Ezequiel 45:1-5: “Quando, pois, repartirdes a terra em herança, oferecereis uma oferta ao SENHOR, uma porção santa da terra; o seu comprimento será de vinte e cinco mil canas e a largura de dez mil. Esta será santa em toda a sua extensão ao redor. Desta porção o santuário ocupará quinhentas canas de comprimento, e quinhentas de largura, em quadrado, e terá em redor um espaço vazio de cinqüenta côvados. E desta porção medirás vinte e cinco mil côvados de comprimento, e a largura de dez mil; e ali estará o santuário, o lugar santíssimo. Esta será a porção santa da terra; ela será para os sacerdotes, ministros do santuário, que dele se aproximam para servir ao SENHOR; e lhes servirá de lugar para suas casas, e de lugar santo para o santuário. E os levitas, ministros da casa, terão em sua possessão, vinte e cinco mil canas de comprimento, para vinte câmaras.

Nos dois trechos bíblicos vemos que os sacerdotes levitas recebiam o sustento de toda nação, além disso,  as terras foram distribuídas às tribos, mas, uma parte da terra deveria ser separada, à qual o texto sagrado chama de terra santa. Essa porção seria o espaço para o tabernáculo e para as casas dos levitas. Aqui vemos o pleno funcionamento do sistema de Deus; das terras das demais tribos saiu a porção que era para o santuário e para os levitas. Os que receberam de Deus deram aos que não tiveram porção. Tal sistema é novamente encontrado na entrega das primícias, dízimos e ofertas. Tudo era levado aos levitas para sustento. Porém, da parte que recebiam davam os levitas os dízimos dos dízimos, fechando um ciclo de cooperação.

Por outro lado, os levitas receberam ainda 48 cidades, e destas, seis eram as cidades de refúgio. Este sistema representava o quinhão dos levitas no interior das tribos, ou seja, o sistema sacerdotal não comparecia somente em Jerusalém (Silo) , mas estava próximo ao povo, por um sistema de capilaridade nacional.

O sacerdócio recebia o sustento dos seus irmãos e devolvia a eles em dízimos e serviços.

No ceio do tabernáculo um bem aparente sistema de cooperação exibia-se diariamente. Os sacrifícios, uma ordem de Deus, eram mantidos através do trabalho dos sacerdotes, os quais recebiam os insumos de toda Israel. Ofertas queimadas vinham dos rebanhos mantidos pelas tribos, assim como os cereais, frutos do campo, e tudo o que se plantava. Essa rede de cooperação era uma demonstração prática e didática do funcionamento do universo. Ellen White refere-se a essa dinâmica dizendo que “O Sol derrama sua luz para alegrar a mil mundos”. Figurativo ao sistema social para os filhos de Deus.

O sistema da expiação também demonstrava o princípio de Deus. Para os sacrifícios eram trazidos, pelos ofertantes, o gado apropriado, mas também todos os demais itens que compunham os sacrifícios. Eram três os tipos de sacrifícios que completavam o método da expiação: Oferta pelo pecado, Holocausto ou ofertas queimadas e ofertas pacíficas. Todo o sistema sacrifical demonstrava o princípio celeste da cooperação. Havia a parte de Deus e a parte do homem. Porém, tudo ficava mais evidente nas ofertas pacíficas. Estas eram a última parte do processo expiatório ou metodologia da expiação; depois de Deus ter realizado a parte que lhe cabia (oferta pelo pecado), o homem tendo realizado a sua própria parte (holocausto), então realizava-se a parte de encerramento do sistema da expiação com o oferecimento das chamadas ofertas pacíficas. Era uma cerimônia alegre, pois tratava-se de uma comemoração como consequência da realização das partes anteriores. Deus e o homem uniam-se para celebrar porque tudo estava em ordem. Na ocasião, o ofertante trazia animais, cereais no formato de pães e bolos, vinho, e convidava aos sacerdotes aos familiares e amigos para cearem unidos. Dava-se a celebração da cooperação Deus-homem e da cooperação homem-homem.

A metodologia da cooperação também foi exibida durante o nascimento de Jesus. É proposital o fato de Jesus ter nascido pobre. O rei do universo, a quem pertencem todas as coisas, torna-se homem dependente dos outros homens por causa da pobreza. É difícil imaginar que Deus o Pai tenha sido tão espartano com o próprio filho, assim, quando observamos as circunstâncias do nascimento de Jesus, sua vida, percebemos que o céu impôs que o salvador fosse atendido, em suas necessidades, pelos homens. Primeiramente, os presentes oferecidos pelos Reis orientais (ouro, incenso e mirra), os quais custavam bastante dinheiro, foram os recursos que os pais utilizaram para custear sua ida ao Egito. Os presentes não foram oferecidos para cumprir rituais éticos-sociais, tal como se presenteia atualmente, mas, foram parte do sistema de cooperação que estamos examinando aqui.

De outra forma, se olharmos com cuidado, os anjos anunciam o nascimento de Jesus não aos líderes hebraicos, ou aos membros do Sinédrio, ou aos mais abastados moradores de Belém, porém, aos pastores. Se poderia justificar o fato argumentando que, naquela noite, o grupo de pastores nas proximidades de Belém estava conversando sobre a vinda do Messias, e há muitos estudos salientando esse aspecto, mas, em realidade, o ofício do pastor é aquele que pratica mais acertadamente o método de cooperação celeste. ASSIM, AOS QUE ESTAVAM MAIS ATIVOS NA REDE DE COOPERAÇÃO FORA ANUNCIADO O NASCIMENTO DAQUELE QUE ORGANIZOU O REFERIDO SISTEMA.

A propósito, quando José, então governador do Egito, recebeu a família migrante, chamou aos irmãos e recomendou: Se o Faraó perguntar a vossa ocupação, dir-lhe-eis que sois pastores de ovelhas. José temia que o sistema do Egito engolfasse os irmãos, lançando-os fora do sistema de cooperação de Deus.

Com todos os exemplos acima, fica fácil concluir que a religião do céu não está ancorada em sacramentos cumpridos sem raciocínio, e que se tornam moedas de troca para apaziguar a ira de Deus ou acumular méritos para o homem. Jesus não escondeu que a entrada no Reino de Deus correspondia a aquisição de um comportamento de serviço. Explicou isso na parábola do bom samaritano, na oferta da viúva pobre e pediu ao jovem rico que vendesse as suas posses materiais e desse aos pobres, assegurando um tesouro nos céus. O contrário aparece na conduta de Ananias e Safira, mortos para exemplo, e para demonstração do resultado da cobiça. Eles não entenderam que a cooperação era o esperado.

Atualmente, a igreja Adventista funciona nos mesmos moldes da metodologia cooperativa. Os templos são construídos em terrenos doados, raramente comprados, e a construção do edifício do templo é responsabilidade dos membros, não do clero. Tal qual o foi no passado, conforme vimos acima. A manutenção do templo é realizada por causa das doações que os irmãos trazem à casa do tesouro. Assim, o comprometimento com as ofertas quer significar que o doador entendeu ser materializada, dessa forma, a sua entrada no sistema de Deus, através da manutenção da rede de cooperação, da qual cada membro é um vórtice que irradia energia aos outros vórtices. Ofertas não são esmolas, mas, a responsabilidade de manter o sistema de cooperação vivo, ou seja, a participação da metodologia que conserva constante a vida.

É claro que não estamos falando apenas de recursos financeiros, mas de uma preocupação em tornar cada membro uma benção.

Nossas relações sociais devem ser desenvolvidas de modo a atingir o ideal de não haver necessitados, nem tampouco dissensões por causa do egoísmo. Em Proverbio 6: 16-19 lemos: “Estas seis coisas o SENHOR odeia, e a sétima a sua alma abomina:  Olhos altivos, língua mentirosa, mãos que derramam sangue inocente, o coração que maquina pensamentos perversos, pés que se apressam a correr para o mal, a testemunha falsa que profere mentiras, e o que semeia contendas entre irmãos.

Em todos os deméritos apontados há a quebra do sistema de cooperação e, pelo que a Palavra de Deus ressalta, aqueles em quem estas coisas forem achadas, estarão perdidos. Aqui está revelada de forma explícita a nomocracia.

Há entre os crentes olhos altivos? estes são sinônimo de pessoas arrogantes; há entre nós língua mentirosa, ou seja, línguas que difamam justos e proferem falso testemunho?

Há entre as crentes mãos que derramam sangue? Aqui não somente estão incluídos os homicidas, mas os que matam moralmente, os que matam por participarem da dinâmica da política corrupta ou dos processos desmoralizados de enriquecimento.

Há entre os crentes alguém que maquina pensamentos perversos? Aqui se encontram os que fazem manobras, às vezes sutís, para não parecer que estão contra outros, mas estão agindo vertiginosamente para liquidar, por exemplo, reputações. Agem como boas pessoas, das quais ninguém é capaz de suspeitar que maquinam o mal, mas tornam-se destruidores de sistemas que buscam construir homens justos.

Seria o caso de haver entre os crentes pés que se apressam em correr para o mal? Lembrando que o mal é sempre o oposto da cooperação. Ou ainda, testemunhas que mentem porque não são testemunhas oculares? Estas coisas Deus odeia, ou seja, Deus sente aversão. Todavia, ao demérito que semeia desunião entre os irmãos, a esse Deus abomina, significando que repele com horror, com asco.

Estamos vivendo as primeiras horas de 2020. Tal momento não é trivial. Na cultura hebraica, o tempo é circular e sua representação física é uma espiral ascendente; significa que tudo recomeça, mas não mais no mesmo nível. Sendo espiral ascendente, a repetição do tempo não poderá ocorrer nas mesmas condições que as anteriores, mas, em qualidades mais elevadas. Por essa razão, fazemos planos para o tempo que se repetirá. É bom estarmos conscientes de que a repetição do tempo não deverá ser uma realidade para todos; alguns não estarão completando esta nova repetição. Assim, se não escrevemos uma boa escrita no tempo que se encerrou, é melhor tentar consertar tudo agora. Em virtude da incerteza da repetição do tempo.

Bom seria que realizássemos uma análise do nosso comportamento, em relação ao sistema de cooperação celeste. Se constatarmos que estamos bem, devemos então convocar o sacerdote e nossos amigos e comemorar juntos, oferecendo a Deus ofertas pacíficas. Em caso contrário, veja-se o exemplo de Zaqueu: recuperou a salvação quando consertou os fatos que o tiraram da rede de cooperação celeste.

Nisto reside o poder da verdade. A influência espontânea e inconsciente de uma vida santa é o mais convincente sermão que se pode fazer em favor do cristianismo.