segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Adoração ou êxtase?


No mundo cristão, no ambiente das igrejas, o conceito de adoração está reduzido a demonstrações de êxtase e misticismo. Pessoas fazem expressões de estado de consciência sobrenatural consentindo num frenesi, geralmente escoltado de música agitada a qual leva a muito movimento e pouca meditação. Sem o referido estado de coisas, os crentes pensam não poderem se aproximar de Deus. Tais manifestações são fanaticamente falsas. Em nenhum momento nos relatos sagrados há menção de êxtase na adoração dos primeiros cristãos, quer da parte dos discípulos ou dos membros da primeira igreja. Então, qual o conceito bíblico de adoração?

O profeta Isaías é a referência para entendermos melhor o assunto. Um dos capítulos mais voltado para adoração é o 58, onde o profeta define inequivocamente o que Jeová espera do seu povo quando está reunido no templo nos sábados: “CLAMA em alta voz, não te detenhas, levanta a tua voz como a trombeta e anuncia ao meu povo a sua transgressão...” Qual é a transgressão do povo? O profeta responde: “que soltes as ligaduras da impiedade, que desfaças as ataduras do jugo e que deixes livres os oprimidos, e despedaces todo o jugo?  Porventura não é também que repartas o teu pão com o faminto, e recolhas em casa os pobres abandonados; e, quando vires o nu, o cubras, e não te escondas da tua carne? Então romperá a tua luz como a alva, e a tua cura apressadamente brotará, e a tua justiça irá adiante de ti, e a glória do SENHOR será a tua retaguarda.  Então clamarás, e o SENHOR te responderá; gritarás, e ele dirá: Eis-me aqui. Se tirares do meio de ti o jugo, o estender do dedo, e o falar iniquamente; E se abrires a tua alma ao faminto, e fartares a alma aflita; então a tua luz nascerá nas trevas, e a tua escuridão será como o meio-dia. E o SENHOR te guiará continuamente, e fartará a tua alma em lugares áridos, e fortificará os teus ossos; e serás como um jardim regado, e como um manancial, cujas águas nunca faltam”. Ora, se adoração tem a ver com ser ouvido por Deus, e se o que Deus comanda para ser encontrado é o que o profeta declarou, então, por que as igrejas insistem em êxtases?

As declarações de Isaías apelam para uma religião onde os crentes devem cooperar uns com os outros, ou seja, crentes unidos em vontade e ação. Porém, a busca pelo êxtase não atende ao comando da cooperação, uma vez que êxtases são experiencias individuais. Então, como poderão os crentes criar estruturas de cooperação quando estão envolvidos num mundo de vontades individuais?

Há três maneiras nas quais empenhamos pessoas a fazerem o que queremos que façam: 1) Poderemos pagá-las para fazerem, neste caso estamos lançando mão da economia de mercado. 2) Força-las para que façam, todavia usaremos o mundo do poder ou do Estado; em nenhum dos casos, os indivíduos abdicam dos seus interesses e desejos privados. 3) A terceira maneira é trazer os indivíduos a unirem-se em uma aliança, em uma responsabilidade coletiva e fidelidade mútua. Este não é um mundo do eu em busca de seus interesses. É um mundo de um coletivo “nós”, no qual unimos nossa identidade em algo maior que nós, o qual define quem somos e que nos obriga a um conjunto de empreendimentos pelos quais escolhemos livremente estar vinculados. Este é o mundo do pacto, e sobre ele a Bíblia fala.

Voltando ao profeta Isaías, melhor seria compreender o conceito de adoração que há nas suas recomendações, tais como: Que soltes as ligaduras. Entre os judeus, as práticas religiosas tinham se tornado um manto para ocultar a opressão dos fracos, o roubo às viúvas e aos órfãos, e todas as formas de suborno, engano e injustiça (Is 1:17, 23; Os 4:2; Am 2:6; 3:10; 4:1 ; 5:11; 8:4-6; Mq 6:11, 12). O verdadeiro propósito da religião é libertar o ser humano dos fardos do pecado, eliminar a intolerância e a opressão e promover justiça, liberdade e paz. Deus queria que Seus filhos fossem livres, mas os líderes de Israel os estavam convertendo em escravos e mendigos, à semelhança dos líderes religiosos atuais. A verdadeira religião é prática. Sem dúvida, inclui os ritos e as cerimônias da igreja, mas é na atitude perante o próximo que se manifesta a presença ou a ausência da verdadeira religião. Não é tanto uma questão de se abster do alimento quanto o é de compartilhar o alimento com o faminto. A bondade na prática é o único tipo de religião reconhecida no juízo divino (Mt 25:34-46). É interessante perceber que muitas das declarações mais conhecidas dos profetas do Antigo Testamento sobre justiça e injustiça, na realidade, foram feitas no contexto das instruções sobre adoração. Como veremos, a verdadeira adoração não é algo que acontece apenas durante um ritual religioso, mas é também compartilhar do interesse de Deus pelo bem-estar dos outros, buscando elevar os oprimidos e negligenciados a uma condição mais digna e justa.

Em relação ao comportamento religioso do antigo Israel, o profeta Isaías declarou que não estavam andando na verdade. A bondade, a misericórdia e o amor não eram praticados. Enquanto apresentavam uma aparência de tristeza por seus pecados, estavam acariciando o orgulho e a avareza. No próprio momento em que estavam mostrando uma humilhação exterior, exigiam trabalhos forçados de seus subalternos ou empregados. O mesmo se dá hodiernamente com os crentes.

Há uma preocupação que aflige a mente dos crentes, aqueles que são interessados em satisfazer os padrões comandados por Deus. Pelo que vimos acima, o padrão moral na adoração é muito alto, por esse motivo, alguns se desesperam porque a alma humana parece menor e sem possibilidades. A avareza é o nosso conforto, a ajuda ao próximo é o nosso desconforto. Para o crente fiel, essa luta é quase inglória. Por que Deus nos obriga a um padrão para o qual não nos parece fácil alcançar?

A resposta a esse quase paradoxo é que fomos criados à semelhança de Deus. Nesta condição, Ele não nos está comandando a algo improvável. Em Levítico 19:2, Deus diz a Moisés: “Fala a toda a congregação dos filhos de Israel, e dize-lhes: Santos sereis, porque eu, o SENHOR vosso Deus, sou santo”. Na Bíblia, o conceito de santidade é o mesmo do de justiça, ou seja, o santo é o justo, ora, se Deus é justo conosco, manda-nos o sol e a chuva, mantém a natureza trabalhando para manutenção da própria vida, então, as criaturas feitas à Sua semelhança também deverão ser justas, e consequentemente santas.

De outro lado, Deus é um ente relacional, logo, necessita estar em contato com as criaturas. Porém, amigos estão relacionados por graus de semelhanças, significando que pessoas muito diferentes não consentem o estado de comunhão, exatamente por não partilharem os mesmos pressupostos de base. Tal fato leva a interpretações divergentes sobre o mundo, dificultando o companheirismo. Se os homens pensam egoisticamente, mas Deus é um ente de justiça, o relacionamento entre ambos está prejudicado. Assim, a solicitação de Deus quanto a santidade para a humanidade é a condição sine qua para haver relacionamento. Logo, adoração não pode lançar mão do êxtase por tratar-se de uma subjetividade.

O profeta Isaías no capítulo 5, verso 16, diz que “...o SENHOR dos Exércitos será exaltado em juízo; e Deus, o Santo, será santificado em justiça”. Isto é, honrado e vindicado em Seus atos de justiça. Os atos do Senhor Lhe trazem honra e glória diante de todo o universo. Se Deus for submetido a um inquérito sobre os seus atos na condição de rei e administrador do universo, não serão encontrados nenhum ato de injustiça. O povo escolhido deve ter o caráter de Deus. O Israel simbólico, os crentes atuais, perderam de vista o fato de que Deus é santo, portanto, falham em compreender a importância e o significado da justiça. Logo, não conseguem com seus cultos e festas, preenchidos pelo egoísmo, adorar ao Deus santo, mimetizando santidade com êxtase.

A justiça de Deus é, em primeiro lugar, simplesmente parte de quem Ele é – um componente essencial de Seu caráter. “Deus não procede maliciosamente; nem o Todo-Poderoso perverte o juízo” (Jó 34:12). Deus é justo e Se interessa pela justiça – essa é uma razão para adorá-Lo e louvá-Lo.

Em segundo lugar, a justiça de Deus é vista em Seus atos justos e retos em favor de Seu povo e de todos os pobres e oprimidos. Sua justiça jamais é uma mera descrição de Seu caráter. Ao contrário, a Bíblia retrata um Deus que “ouviu o lamento dos aflitos” (Jó 34:28); que age e anseia corrigir os erros tão evidentes no mundo. Em última análise, isso será completamente realizado no juízo final de Deus e em Sua recriação do mundo. Logo, os que o adoram devem trazer diante dele seus atos de justiça, porque quando os profetas explicaram a relação entre adoração e justiça, recomendaram insistentemente outro passo: que o interesse em socorrer os pobres, os oprimidos e os necessitados fosse parte importante da adoração. Isaías 58 torna essa relação evidente.

O mais elevado valor moral não pode ser conseguido sem a perfeição da sociedade. O bem-estar da alma só pode ser obtido depois que o corpo estiver seguro. É absurdo supor que as pessoas possam alcançar alturas espirituais se lhes faltam as necessidades materiais mais básicas. Uma pessoa que sofre fome, sede, calor ou frio, não pode compreender uma ideia, ainda que comunicada por outros, muito menos pode chegar a ela por seu próprio raciocínio. Assim, uma sociedade sadia é a condição prévia da espiritualidade. Isso requer, em primeiro lugar, remover toda a violência do nosso meio, e em segundo, ensinando a todos excelência moral a qual deve produzir um estado social excelente. Uma sociedade baseada na responsabilidade coletiva, ou seja, nós, o povo, sob a soberania de Deus. A boa sociedade depende de indivíduos com elevado senso espiritual. Tal sociedade está baseada na justiça ou equidade, a qual está baseada na memória coletiva e chamado ativo, o qual se dá nas celebrações no templo.

sexta-feira, 19 de julho de 2019

Paganismo no cristianismo


Um dos livros mais importantes da Bíblia é Deuteronômio. Foi escrito a partir dos discursos proferidos por Moisés, antes da entrada dos israelitas na terra prometida. Segundo o Comentário Bíblico Adventista (SDA Bible Commentary), “No primeiro dia do 11 o mês do 40° ano do êxodo, Israel acampou-se em Sitim, do lado oposto de Jericó, nas planícies de Moabe ao leste do Jordão (Nm.25: 1; Dt 1:1-3). Durante os dois meses em que eles permaneceram ali (Dt 1:3; cf. Js 3: 1, 2, 5, 7; 4:1 9), foram feitos preparativos para a ocupação de Canaã, e Moisés proferiu o discurso que constituiu o resumo do livro de Deuteronômio”.

Deuteronômio é composto por quatro discursos ainda importantes na atualidade (ou três, de acordo com alguns especialistas), falando sobre obediência voluntária, mas inteligente, à Torá, com notas que conectam os discursos. Ainda o Comentário Bíblico Adventista explica o seguinte: “O primeiro discurso anuncia a saída de Moisés do ofício de líder. Tem início com uma pesquisa histórica e termina com uma exortação para se guardar a lei. O segundo discurso reafirma o decálogo como a base para a aliança entre Deus e Israel - e adverte Israel a obedecê-lo. O corpo do discurso consiste de um recital das exigências da legislação civil, social e religiosa. O terceiro discurso é sobre o ritual da benção e da maldição. Moisés atinge um nível de oratória incomparável na literatura. O quarto discurso apresenta outra vez, com um breve resumo histórico, uma exortação para se guardar a lei e explica a aliança”.

É muitíssimo importante observar que “na oratória de Deuteronômio, Moisés apela ao povo para que viva de acordo com a vontade de Deus. Obediência significa vida; desobediência significa morte. Moisés emprega fatos históricos como base para sua exortação e reforça a mensagem, apelando para o amor e a gratidão de Israel a Deus e sua dignidade como o povo escolhido. Ciente dos perigos da idolatria e do risco de se substituir o espírito religioso essencial pelo formalismo, o líder enfatiza a supremacia de Yahweh e de Sua lei, a natureza espiritual do culto e do serviço a Deus, e Sua fidelidade em fazer aliança com Israel e com todas as nações” (SDA Bible Commentary).

No capítulo 14 de Deuteronômio, Moisés exorta sobre o respeito que todos devem ter sobre a aquisição feita por Jeová quando elegeu um povo para representá-lo perante o mundo. Moisés estabelece um claro contraste entre ser um povo distinguido e ser um povo adquirido. Em Isaías 1:2 Deus adverte o erro de interpretar estrabicamente o conceito de povo adquirido: “Ouvi, ó céus, e dá ouvidos, tu, ó terra; porque o SENHOR tem falado: Criei filhos, e engrandeci-os; mas eles se rebelaram contra mim”. Deus chama como testemunhas os seres inteligentes que não pecaram em relação a postura dos habitantes da Terra especificamente os filhos de Israel. Ele fez grandes coisas, tendo a rejeição como resposta. Diante do universo, o povo rebelde de Deus é culpado, e a atitude que Ele está prestes a tomar contra os rebeldes é justificada. A relação entre Deus e o povo é como a de pai e filho. Tudo que um pai poderia fazer por seus filhos, Deus fez por Seu povo. Como objetos de Seu cuidado paternal, o povo de Deus deveria ter aceitado as responsabilidades de filhos bem como os privilégios. Estão revoltados. Eles recusavam se submeter à autoridade do Pai celestial e ignoravam o que Ele requeria deles.

As advertências proferidas por Moisés no texto inicial do capítulo 14 de Deuteronômio, são para que não houvesse qualquer semelhança com comportamentos pagãos, incluindo rituais de mutilações e costumes dietéticos. Por exemplo, o cozinhar carne no leite. Cozer os cabritos dos sacrifícios no leite de sua mãe era uma prática dos cananeus. Provavelmente, esta ordem foi dada para evitar que esse rito pagão, proibido por Deus, fosse realizado entre Seu povo. Na verdade, o exemplo serve como advertência para adoção de qualquer semelhança ritual com cerimônias e costumes pagãos. Está-se falando de vestimentas, dietas, rituais, comportamentos sociais e religiosos, músicas, literatura, entre outros.

Ora, se Jeová deu instruções sobre como evitar idolatrias, os religiosos inteligentes devem procurar seguir tais instruções. No caso das igrejas cristãs, o desconhecimento da Torá (o cristianismo reduziu a nada a importância do Antigo Testamento) levou a práticas espúrias, sendo que na música e no comportamento social há evidente assimilação pagã. No ambiente evangélico, a permissividade baniu a prudência exigida em Deuteronômio. Há de tudo entre os crentes. Mutilam seus corpos levados pela pressão da chamada inteligência coletiva. Homens e mulheres furam as orelhas e penduram símbolos pagãos. Há uma onda social favorável ao uso de tatuagens e mutilações com piercing, a qual está assimilando aos jovens e adultos no cristianismo. Tal comportamento, com aparência de algo prosaico, é rebeldia contra Jeová. Significa adesão aos conceitos pagãos, e consequente quebra da aliança com Deus. Sendo que não há neutralidade, a quebra da aliança com Deus joga-os no seio do inimigo; são súditos de Satanás.

Em relação à música, há como que uma guerra contra a instrução divina. Até mesmo no âmago das religiões cristãs mais ortodoxas, foram introduzidos instrumentos próprios do culto pagão, numa tentativa de habituar Jeová com a música que os rebeldes gostam. Em algumas congregações passaram a usar o cajón, um tipo de tambor disfarçado de caixa para marcar o ritmo, como que ludibriando Jeová. Em outras congregações, não há desfaçatez, baterias são exibidas no mesmo lugar onde a Bíblia é aberta. Qual o problema com a percussão? Tambores são próprios dos cultos pagãos. Jamais, em qualquer ocasião onde anjos são convocados a anunciarem realizações, há o concurso de tambores, mas, sempre há toque de trombetas, os instrumentos preferidos por Deus. Trazer para o ambiente eclesiástico instrumentos do culto pagão é semelhante ao cozer carne em leite.

Mas, há ainda o uso de roupas inadequadas para o culto a Jeová. Inadequações relacionadas ao vestuário são facilmente reconhecidas quando colocadas vis-à-vis as tradições sociais ocidentais, por exemplo. É completamente inadequado um juiz sem toga, um médico sem jaleco, uma noiva de bermuda, um advogado sem terno etc. Roupas representam muito nas convenções sociais humanas, e representam muito nos rituais religiosos. Deus procurou instruir Moisés minuciosamente sobre a vestimenta adequada ao sacerdote comum, assim como ao sumo sacerdote. Se a roupa não significasse tanto, Deus não teria exigido tantos pormenores. A roupa diz muito do nosso interior, das nossas contemplações, das nossas convicções, das nossas ideologias e da nossa visão de mundo. Roupas como as do universo pagão, se usadas pelos cristãos, joga-os no seio do paganismo. Ora, se usam as mutilações pagãs, a música pagã, as roupas pagãs etc., como podem querer as bençãos de Jeová.

Há inúmeras tentativas de assimilação pelos cristãos de comportamentos espúrios, que são pressionados pela inteligência comum ou social. Se todos usam, então não há problemas para os crentes assimilarem tais usos. Todavia, os cristãos são aquisição de Jeová, povo santo, sacerdócio real, chamado para anunciar as qualidades ou virtudes dAquele que os tirou das trevas para sua maravilhosa luz (I Pedro 2:9). Se o dever, ou melhor, o privilégio dos cristãos é dar a conhecer as virtudes de Deus, como podem querer se deixar assimilar pelas virtudes do príncipe das trevas? Tal paradoxo deve ser impedido pelos cristãos. Só há um meio de impedi-lo: através do estudo da Torá. A preocupação de Moisés nos momentos que antecederam à entrada do povo escolhido na terra da promessa é a mesma que deve orientar os cristãos momentos antes do segundo advento de Jesus, quando a esperança da nova terra será realizada. Cristãos avante!

segunda-feira, 15 de julho de 2019

O amor é muitíssimo superior ao egoísmo


Nos idos dos anos 1990, conheci em Manaus, Amazonas, o Pastor Selso Kern, um gaúcho carismático que veio liderar uma igreja em Manaus. Com energia, liderança e delicadeza, começou um trabalho que envolveria toda a comunidade tornando-a rediviva. Conforme o tempo passou, pessoalmente, pude avançar conhecendo melhor o Pastor Selso e sua família (esposa dois filhos e uma filha), e logo solidificamos uma bela amizade que, por mercê de Deus, perdura até o momento. Muitas experiencias vivemos juntos, entretanto, por causa das curvas que o mundo dá, outras igualmente nos afastaram fisicamente. Todavia, os laços de fraternidade nunca enfraqueceram.

No início de 2019, o Pastor Selso fez contato por telefone convidando-me para estar presente nas comemorações das suas bodas de ouro, marcadas para 07 de julho de 2019, na cidade de Rio Pardo, Rio Grande do Sul. Assim que recebi o convite comecei a preparar a viagem, pois era um acontecimento singular. O Pastor Selso informou que convidaria apenas alguns amigos, pessoas que ele avaliava terem assinalado sua experiencia pessoal. Diante dessa informação, tomei o propósito de prestigiar esse momento e torná-lo marcante para meu amigo e esposa. Assim que, todos os esforços foram envidados para que pudesse estar ali na data apontada.

Com o passar dos dias, e ao aproximar-se a data, tudo já estava quase completo para viajar. Assim, saí de Manaus dois dias antes do evento, pensando em toda logística para chegar em Rio Pardo. A viagem entre Manaus e Porto Alegre foi realizada em duas etapas. Manaus-Rio de Janeiro, com saída às 02:00 horas, foi um trecho de três horas e meia, muito tranquilo. Logo, às 07:30 horas tomamos a conexão para Porto Alegre, um voo com duas horas de duração. O comandante do voo era muito simpático e descreveu a viagem apontando os principais pontos de sobrevoo, fato que tornou aquela etapa muito animadora. Quando começou o procedimento para descida, o capitão foi descrevendo cada passo, apontando as cidades dentro da rota e descrevendo o procedimento de aterrisagem. Foi uma viagem muito divertida e descontraída.

Quando desembarcamos em Porto Alegre, a temperatura estava em 04°C. Estava preparado para a diferença de temperatura em relação a origem, mas é sempre um choque. Tinha feito reservas no hotel IBIS para esperar o Pastor que somente viria na manhã do dia seguinte, assim que aproveitei o dia para conhecer um pouco a cidade e realizar umas compras para enfrentar melhor o frio. A noite foi chegando e os termômetros assinalavam queda de temperatura para 2°C. Dentro do hotel era confortável por causa da calefação. Quando amanheceu o dia, o vento uivava e o frio castigava. Esperei a chegada do meu amigo e logo estávamos na estrada percorrendo os quase 200 Km que separam Porto Alegre de Rio Pardo. A paisagem é bonita; há muitos vales amplos onde plantam-se arroz. Eu ainda não conhecia essa parte do imenso Brasil, e fui me inteirando das belezas gaúchas. A conversa era agradável e versava sobre muitos temas; com meu amigo Pastor, o tema imperante era teologia. Logo chegamos a Rio Pardo. Esse município tem extenso território, mas a cidade propriamente dita é pequena, porém muito acolhedora. Conta com infraestrutura suficiente para atender as demandas dos munícipes, mas, nada muito aprimorado.

O meu amigo mora na zona rural da cidade, uma bela propriedade de aproximadamente dois hectares. A casa é muito confortável e aconchegante, com um item importante para enfrentar o frio: uma lareira. Ali ficamos de sexta-feira (05.07.19) a segunda-feira (08.07.19). Meu amigo e esposa esmeram-se no acolhimento. Desfrutamos momentos de conversas amenas e deliciosas lembranças dos momentos passados juntos. Todos os assuntos foram abordados, especialmente as notícias sobre amigos comuns e acontecimentos. No sábado (06.07.19) fomos conhecer uma das duas igrejas locais, onde proferi o sermão sabático. O tema foi o regresso de Jesus; uma pergunta foi analisada: por que Jesus ainda não voltou? Compreendi que a pequena comunidade de cerca de 60 pessoas estava sedenta por ouvir. Por outro lado, os irmãos ali eram muito amáveis e gentis, logo nos enturmaram e nos sentimos imediatamente ente amigos. Passamos momentos muito aprazíveis e de aprendizado. Para mim, foi uma experiencia singular; conhecer o interior do Rio Grande do Sul, sua gente, sua paisagem. E como sói acontecer nos interiores brasileiros, sempre as pessoas são muito solícitas. À tarde, depois do almoço, ficamos numa roda de conversa muito animada. Estavam na casa, além do Pastor e esposa, Eliana Fonseca, Nazaré Mota, e depois chegaram Davi e Maria Luciene, cinco visitas de Manaus. Rodeando a lareira papeamos a tarde toda em animadas discussões sobre variados assuntos. Depois fizemos um nutritivo lanche e a conversa rolava solta. Momentos inesquecíveis regados com abundante e forte amor fraternal. Com o cair da noite, a temperatura desabou para zero; graças a lareira suportamos bem. Vale salientar o espírito voluntarioso do povo local. Os vizinhos do Pastor, sabendo da nossa chegada, ofereceram muitas frutas. A da época é a bergamota, uma espécie de tangerina que tem a casca solta; esta fruta não faltou nenhum dia.

No domingo (07.07.19) pela manhã a temperatura estava em -1°C. Havia nevado na região serrana gaúcha, mas em Rio Pardo não havia neve. Em tais circunstâncias é dificílimo acordar e tomar banho. Mas, era o grande dia das bodas de ouro. Havia uma atmosfera de festa e alegre expectativa. Saliento que a comunidade adventista onde meu amigo congrega partilha um espírito fraterno muito desenvolvido, uma comunidade construída no mais amplo sentido cristão. Em uma atitude de união, realizaram todas as etapas da comemoração das bodas de ouro do meu amigo. Decoraram a igreja, alugaram um salão onde fora servido o almoço e todos contribuíram com os pratos do cardápio. Além disso, organizaram toda a dinâmica do almoço, com apresentação de pequenos filmes e todo cerimonial. Pude observar como amor é muito superior ao egoísmo. Presenciei uma lição de segurança social, inclusão, fraternidade, paz e alegria inusitados. Todos os irmãos envolveram-se para presentear o meu amigo e sua esposa com uma festa sem precedentes. Havia alegria evidente em todos os que se doavam e alegria ainda mais explícita em quem recebia. Percebi que uma atmosfera de cooperação é sempre mais transformadora e saudável, contagiando até aos que não participaram diretamente na consecução do evento. Em raríssimas ocasiões pude sentir o que o amor, o compartilhamento e a cooperação são capazes de realizar, muitíssimo diferente dos ambientes onde há disputa e supremacia. Penso que Deus me brindou com uma aula viva sobre amor.
A festa aconteceu em dois momentos. O primeiro se deu na igreja central, onde os irmãos realizaram um culto em ações de graças, tendo como orador o Pastor Edir Wolf, quem proferiu um sermão muito adequado. Depois do sermão, uma linda menina, vestida angelicalmente, trouxe as alianças e, depois da troca das alianças, tive o privilégio de proferir a oração de benção para a nova de vida do casal; aliás, realizava-se um jubileu significando mudança de tempo. Foi uma cerimônia simples, mas com um profundo significado. O segundo momento foi o almoço. Um fartíssimo buffet de saladas, massas, carnes e pratos regionais, além de sobremesa diversificada. Uma organização primorosa ordenou tudo. Sempre lembrando que tudo fora realizado pela comunidade, incluindo todos os custos. A confraternização prolongou-se até ao final da tarde, quando regressamos para a casa do meu amigo. Ali, presenciei outro ato oriundo do amor fraternal; parte do alimento que sobejou da festa foi entregue ao meu amigo, levado pelos irmãos à sua residência. Foi um ato de carinho e cuidado. Assim, o Pastor e sua esposa, além dos cinco visitantes, tiveram um jantar que prolongou a festa até à noite. Jogamos muita conversa fora e nos divertimos com toda aquela demonstração de amizade e cooperação. Pude perceber a força do amor, a qual, como acima assinalado, é muitissimamente superior ao egoísmo. Meu cérebro ficou completamente impregnado com tudo o que vi, quedando-me desejoso de viver tal realidade em minha comunidade no Amazonas, e de forma contínua.

Na manhã seguinte voltei para Porto Alegre. A conversa no decorrer do caminho girava em torno daquela contagiante cooperação que acontecera no dia anterior. A temperatura ambiente estava em torno dos 4°C. A viagem transcorreu sem nenhum percalço.  Logo avistamos Porto Alegre e fomos direto ao hotel. Depois saímos para almoçar e nos despedimos daqueles agradáveis e felizes momentos proporcionados pelo amor que vem de Deus.

Dormi aquela noite e, no dia seguinte, por volta do meio dia, parti para o aeroporto encarando a jornada de volta a Manaus. A viagem também estava dividida em dois trechos, sendo o primeiro de Porto Alegre a Brasília. Duas horas de voo tranquilas. No aeroporto de Brasília buscamos a conexão para Manaus. Esta estava logo à mão num portão bem próximo do nosso desembarque. O novo aeroporto em Brasília ampliou sua área embarque, com muitas opções para comidas e compras. Logo tomamos o voo para Manaus e, como o mundo é pequeno, encontrei vários amigos que também retornavam a Manaus de outras viagens. Assim, chegamos de volta a nossa querida cidade, quente e úmida, uma urbe acolhedora que nos abraçou desde o primeiro momento. Fiquei muito agradecido a Deus por me ter proporcionado uma bela oportunidade de rever amigos e fazer novos, além da aula prática sobre fraternidade.

quarta-feira, 24 de abril de 2019

Um coral de homens e anjos em Manaus



 
A noção cristã de que o céu e a terra são unidades muitíssimo separadas e distantes uma da outra interfere em nossa compreensão da dinâmica do governo divino. Da mesma forma, o entendimento de que Deus é um ser místico quase inacessível, torna a prática religiosa misteriosa e sem aplicabilidade pragmática. Mas, na realidade, o Deus do cristianismo é um sistema de governo que administra o universo, sendo a Terra uma das unidades administrativas do referido governo. Se é assim, então é possível reconhecer ações administrativas ocorrendo em nosso dia a dia, onde agentes do governo celeste misturam-se com os humanos para realizar consecuções. 

Há muitas histórias bíblicas onde o envolvimento de anjos (mensageiros) com as ações humanas estão vividamente relatadas. Porém, por causa do entendimento de que a Terra é distante do céu, olha-se tais histórias como acontecimentos místicos. 

Hodiernamente, há muitos relatos de ações de anjos em parcerias com atos humanos. Dois desses acontecimentos ocorreram em Manaus, Estado do Amazonas, Brasil. Um grupo de pessoas oriundas de várias comunidades de Adventistas do 7º Dia que, por 27 anos mantiveram atividades missionárias incluindo assistência social, assistência médica, religiosa, educacional, e que utilizava o canto coral como elemento atrativo e aglutinador, experimentou um momento singular com a parceria de anjos, quando fazia uma visita a uma comunidade Adventista do bairro do Morro da Liberdade na primeira década dos anos 2000.

Num sábado, à tarde, após realizarem trabalho de assistência social e religiosa através de visitas a famílias com algumas carências, retornaram à sede da comunidade, onde havia uma igreja Adventista e fizeram uma apresentação utilizando o canto coral. Durante a reunião, relatos sobre as necessidades encontradas foram realizados e a comunidade foi envolvida e tocada pelos apelos para ajudar aos necessitados. O auditório da igreja estava repleto com religiosos e o ambiente, a certa altura da reunião, pareceu envolvido com alguma presença, além dos membros já conhecidos. Em dado momento, depois de explanações e adesões por parte dos ouvintes ao trabalho em favor dos necessitados, o coral cantou uma música (Com o Som de trombetas - J.W.Peterson) a qual não soou como de costume. O volume resultante da somatória das vozes que cantavam não correspondia àquele de 40 pessoas que compunham o coral, mas soava como se fora resultante de mais de uma centena de vozes. Notou-se que havia outros cantores que não estavam visíveis aos presentes, mas que se somavam aos cantores visíveis. O impacto daquela melodia em volume tão denso impressionou de forma crítica a todos ali naquela sala. Fez-se solene o momento. Todos permaneceram concentrados e estáticos por causa do fenômeno que ouviram. Eram 40 pessoas cantando e produzindo resultante sonora correspondente a mais de uma centena.

Encerrou-se a atividade naquela tarde, mas as pessoas ali presentes não arredavam o pé do lugar, presos por uma atmosfera solene. Os próprios coristas estavam perplexos com o ocorrido. Todos sabiam que aquele resultado não poderia ter sido um efeito acústico ou a simples amplificação eletrônica do som produzido por 40 vozes porque não se utilizou equipamento amplificador. Algo havia acontecido e que não era místico, pois todos ouviram, sem exceção, o que resultou. 

As pessoas não conseguiam partir para suas casas, mesmo tendo passada uma hora desde o encerramento da reunião. Estavam mesmo impressionadas. Havia como que um sentimento de companheirismo incomum. Todavia, o grupo coral despediu-se e partiu. O assunto recorrente na viagem de volta foi o acontecimento que também impactou o coral.

Naquele sábado à tarde, o Pastor líder da comunidade não estivera presente. Porém, encontrou-se com os membros da sua igreja logo após o coral ter partido e, prontamente, sentiu que alguma coisa modificara o comportamento dos membros. Logo que pode ligou para o líder do coral perguntando o que ocorrera. Os membros da igreja estavam muito sensibilizados e o pastor preocupado. Ao ouvir o relato, o pastor raciocinou que anjos estiveram naquela reunião. Nenhuma explicação poderia ser dada, a não ser que a multiplicação do volume se desse por adição de outras vozes, mas que não estavam visíveis aos olhos presentes.

A parceria angélica não se dá por qualquer motivo, e nem por causa da mística que geralmente os religiosos costumam invocar. Ela se dá quando os homens se colocam à disposição do céu para realizar tarefas pertinentes, consentâneas com a expectativa do governo de Deus. Na medida em que saiu-se para atender necessidades de pessoas carentes, ação que nega o egoísmo natural e expande o reino celeste, os agentes celestes vieram para unir-se ao louvor sabático àquele em quem está centralizado o amor e cuja lei mantém o universo em cooperação. Naquela tarde o céu mostrou que a Terra não está abandonada aos homens e que existem parcerias em andamento.

Alguns anos mais tarde, em outro sábado, o mesmo grupo missionário estava visitando outra igreja, num município próximo de Manaus, Iranduba. Ali há uma comunidade Adventista representativa. O grupo estava para efetuar uma nova investida missionária. Eram 15:00 horas e começou uma daquelas chuvas amazônicas com pingos capazes de encher um copo. Logo tudo ficou inundado. Tudo conspirava para que desistissem do trabalho. Porém, havia cerca de trinta pessoas necessitando assistência médica, além de seis famílias demandando assistência social e espiritual. Por esse motivo, o grupo não desanimou e saiu para os atendimentos. O trabalho naquele dia esteve especialmente difícil. Os caminhos estavam encharcados e muita lama formada.

Para o grupo missionário, é de costume que o sábado seja encerrado na igreja. Assim, todos voltaram após o trabalho. Reunidos relataram as demandas encontradas e, nestas ocasiões, quando possível, recolhe-se uma oferta para ajudar problemas imediatos. Todas essas ações são educadoras, fazem recuar o sentimento egoísta.

O coral costuma cantar, no encerramento do sábado três ou quatro músicas para encerrar o dia com louvores a Deus. Assim, naquele sábado o coral também cantou. Entretanto, antes da apresentação da primeira música, uma das coristas pareceu não estar sentindo-se bem, ficou pálida e com seu semblante alterado. O regente pensou que era por causa da canseira do dia. Mas, ela continuou ali sem se afastar e cantou as músicas apresentadas, mas seu semblante parecia assustado. Assim que acabou a reunião, ela chegou perto do regente do coral e relatou que vira um grupo grande de anjos entrando na igreja pela porta principal. Avançando pelo corredor o grupo de anjos veio para perto do coral, tendo um deles se postado ao lado do regente. Aquela visão tinha provocado alteração nela. O regente pensou que se tratava de alguma alteração mental, mas disse-lhe que o céu e a Terra estão próximos. 

Entretanto, logo depois daquela conversa, o ancião da igreja relatou que também vira os anjos e ouvira o farfalhar das suas asas. Com este segundo relato, não restaram dúvidas sobre a presença angélica naquela tarde, depois da realização de um trabalho de atendimento a pessoas carentes. Novamente, os anjos haviam se unido ao grupo, ratificando que o governo do céu está fortemente ligado às ações humanas que fortalecem a ordenação exigida pela lei de Deus.

Mesmo que estas demonstrações tenham sido entendidas como aprovação por Deus ao trabalho realizado em favor dos semelhantes, alguns membros do grupo se afastaram e até deixaram a igreja. Outros continuam na igreja, mas deram ocasião ao egoísmo e partiram para atividades que aparentemente seriam para promoção do reino de Deus, mas promovem questões pessoais. No entanto, outros continuam nas atividades missionárias, sendo uma benção aos semelhantes.



segunda-feira, 15 de abril de 2019

Influência e Poder


Os seres humanos são dotados de um sistema nervoso central com poderes impressionantes. Um deles é o poder para influenciar outros humanos e criar, inclusive, redes de influência muito intensas, capazes de modificar comportamentos e de construir sociedades. Muitas vezes, esse poder de influência é usado para beneficiar pessoas, mas, por outro lado, pode ser utilizado para moldar negativamente comportamentos sociais que buscam beneficiar poucos grupos dominantes. De qualquer forma, o poder da influência é um atributo singular que também é exercido por animais que vivem em grupos sociais.

Na Bíblia encontram-se muitos exemplos nos quais o poder de influência determinou bênçãos ou maldições. Um dos relatos marcantes de uso da influência para provocar rebelião está no livro de Números, no capítulo 16. Três pessoas provocaram forte abalo social na recém-formada nação israelita. Vamos aos fatos.

Em Números 16:1-4 lemos o seguinte: “ E CORÁ, filho de Izar, filho de Coate, filho de Levi, tomou consigo a Datã e a Abirão, filhos de Eliabe, e a Om, filho de Pelete, filhos de Rúben.  E levantaram-se perante Moisés com duzentos e cinquenta homens dos filhos de Israel, príncipes da congregação, chamados à assembleia, homens de posição,  e se congregaram contra Moisés e contra Arão, e lhes disseram: Basta-vos, pois que toda a congregação é santa, todos são santos, e o SENHOR está no meio deles; por que, pois, vos elevais sobre a congregação do SENHOR?  Quando Moisés ouviu isso, caiu sobre o seu rosto”.

O relato descreve a ação de Corá, um homem da tribo de Levi, que influenciou a Datã e Abirão, dois outros da tribo de Ruben, além de outros 250 príncipes da congregação.  Esse grupo formou uma conspiração muito bem fundamentada, como resultado de um propósito decidido de subverter a autoridade dos líderes designados pelo próprio Deus Jeová. Quem era Corá? E quem eram Datã e Abirão?

A genealogia (Genesis 46:16; Exodo 6:16) indica que Corá era filho de Isar, que era filho de Coate, que era filho de Levi. Portanto, era primo de Moisés, o qual era filho de Anrão, irmão de Isar. O primo, segundo comentaristas (SDA Bible Commentary), alimentava inveja de Moisés e questionava sua liderança, por ser ele, Corá, homem que gozava de muita influência e versado orador. Pretendia ser o sumo sacerdote.  Datã e Abirão, eram da tribo de Ruben, o filho mais velho de Jacó e, por consequência, viam-se com direitos à liderança política porque detinham os direitos à primogenitura.
Corá era coatita, um grupo dos levitas designado por Deus para cuidar do transporte de partes do santuário, uma honraria que destacava os coatitas, juntamente com os gersonitas e meratitas, todos filhos de Levi. Essa distinção fora concedida por Deus após o relevante episódio do bezerro de ouro, no qual a tribo de Levi não tomou parte na adoração ao bezerro.

Embora Corá fosse designado para o serviço do tabernáculo, descontentara-se com sua posição, e aspirara à dignidade do sacerdócio. A concessão a Arão e sua casa do ofício sacerdotal, que anteriormente tocava ao filho primogênito de cada família, dera origem a inveja e dissabor, e por algum tempo Corá estivera secretamente a opor-se à autoridade de Moisés e Arão, se bem que não se arriscasse a um ato manifesto de rebelião. Finalmente concebeu o ousado plano de subverter tanto a autoridade civil como a religiosa. Era homem tido em alta estima na congregação e, envolvido na insurreição, tornou-a, assim, ainda mais séria. Era seu argumento que Moisés havia se autoproclamado líder político o qual, usando de nepotismo, pusera seu irmão Arão em destaque religioso, ocupando a posição máxima de sumo sacerdote.

Datã e Abirão eram rubenitas e esta tribo situava-se geograficamente próxima dos coatitas em relação à organização das tendas no acampamento israelita. O santuário era o edifício central tendo ao redor as tendas devidamente organizadas, cada qual ocupando seu lugar designado por Moisés, por instrução divina. Assim, na condição de vizinhos foram cooptados por Corá. Datã e Abirã, dois príncipes da tribo de Ruben, prontamente aderiram aos planos ambiciosos daquele. Sendo descendentes do filho mais velho de Jacó, pretendiam que a autoridade civil lhes pertencesse, e decidiram-se a dividir com Corá as honras do sacerdócio. É importante notar que os argumentos utilizados para apoiar a rebelião eram sofismas com base em aspectos da tradição que já fora modificada por Deus mesmo.

O entendimento dos pretextos da rebelião está no capítulo 14 de Números. Ali está relatado o que resultou do relatório dos espias que foram enviados para observar a terra que Deus entregaria aos israelitas. O povo murmurou contra Deus e Moisés, pediram um novo líder para que os conduzisse de volta ao Egito. Essa situação certamente estimulou Corá. Deus irou-se contra o povo e decidiu mata-los. Porém, com a intercessão de Moisés Deus os perdoou, mas condenou--os a morrer no deserto. Determinou que vagariam por 40 anos, um ano para cada dia do período da espionagem que fora de 40 dias.

Corá juntamente com Datã e Abirão estavam indispostos a sujeitar-se à terrível sentença pela qual todos deviam morrer no deserto, e daí o acharem-se prontos a apanhar qualquer pretexto para crer que não era Deus, mas Moisés que os estava guiando, e pronunciara a sua condenação.

O que vemos é a inveja corroendo a alma. Aproveitaram a oportunidade da murmuração e lançaram-se como a solução. Então Moisés falou a Corá, bem com a toda congregação, dizendo: “Amanhã pela manhã o SENHOR fará saber quem é seu, e quem é o santo que ele fará chegar a si; e aquele a quem escolher fará chegar a si. Fazei isto: Tomai vós incensários, Corá e todo seu grupo; E, pondo fogo neles amanhã, sobre eles deitai incenso perante o SENHOR; e será que o homem a quem o SENHOR escolher, este será o santo; basta-vos, filhos de Levi.  Disse mais Moisés a Corá: Ouvi agora, filhos de Levi:  Porventura pouco para vós é que o Deus de Israel vos tenha separado da congregação de Israel, para vos fazer chegar a si, e administrar o ministério do tabernáculo do SENHOR e estar perante a congregação para ministrar-lhe;  E te fez chegar, e todos os teus irmãos, os filhos de Levi, contigo? ainda também procurais o sacerdócio?  Assim tu e todo o teu grupo estais contra o SENHOR; e Arão, quem é ele, que murmureis contra ele?” (Números 16:5-11).

Moisés usa de toda prudência, propondo um período de 24 horas para que os rebeldes meditassem no que estavam propondo. Porém, solicita que tomem incensários, coloquem fogo e depois incenso e tragam ao Senhor. Com essa ordem Moisés os fez lembrar do episódio acontecido dias antes com os filhos de Arão, Nadabe e Abiú, quando queimaram inadvertidamente incenso diante do Senhor e morreram. Mas, não deram ouvidos. Nem sequer consideraram o juízo que caíra sobre Miriam, irmã de Moisés, por ter falado mal do irmão, oportunidade em que ficou leprosa.

Além disso, Moisés mandou chamar, particularmente, a Datã e Abirão, mas eles não quiseram vir a Moisés. Alegaram que a liderança era ilegítima e que também os tinha enganado com a promessa de uma terra que manava leite e mel. No entanto, como era uma liderança falsa, e por não ter garantido a posse da terra, os estava novamente enganando e submetendo-os a 40 anos de peregrinação. Com este ato, não reconheceram a autoridade de Moisés e, consequentemente, a autoridade de Deus.

Nos versos 16 a 19 do capítulo 16 de Números se repete a mesma sentença prolatada sobre Nadabe e Abiú. Com um agravante: Corá fez ajuntar contra Moisés e Arão todo o povo à porta da tenda da congregação; então a glória do SENHOR apareceu a toda a congregação. Ali o Senhor ordenou que Moisés e Arão e seus familiares se apartassem da congregação, porque esta seria consumida num momento. Mas, Moisés e Arão intercederam e o Senhor ordenou que a congregação se apartasse de Corá, Datã e Abirão, os quais estavam em frente as suas tendas com toda a família, numa postura de rebeldia explícita e perigosamente arrogante contra Deus.

Nos versos 25 a 33 lemos um relato muitíssimo solene que reflete o que acontecerá com os ímpios após o seu julgamento final. “Então Moisés levantou-se, e foi a Datã e a Abirão; e após ele seguiram os anciãos de Israel. E falou à congregação, dizendo: Desviai-vos, peço-vos, das tendas destes homens ímpios, e não toqueis nada do que é seu para que porventura não pereçais em todos os seus pecados. Subiram, pois, do derredor da habitação de Coré, Datã e Abirão. E Datã e Abirão saíram, e se puseram à porta das suas tendas, juntamente com as suas mulheres, e seus filhos, e suas crianças. Então disse Moisés: Nisto conhecereis que o SENHOR me enviou a fazer todos estes feitos, que de meu coração não procedem. Se estes morrerem como morrem todos os homens, e se forem visitados como são visitados todos os homens, então o SENHOR não me enviou. Mas, se o SENHOR criar alguma coisa nova, e a terra abrir a sua boca e os tragar com tudo o que é seu, e vivos descerem ao abismo, então conhecereis que estes homens irritaram ao SENHOR. E aconteceu que, acabando ele de falar todas estas palavras, a terra que estava debaixo deles se fendeu. E a terra abriu a sua boca, e os tragou com as suas casas, como também a todos os homens que pertenciam a Coré, e a todos os seus bens. E eles e tudo o que era seu desceram vivos ao abismo, e a terra os cobriu, e pereceram do meio da congregação”.

Lutavam contra um ordenamento divino; lutavam contra um inimigo fictício; lutavam por uma causa errada!

Se os coatitas armavam suas tendas logo após a cerca do santuário, assim como logo atrás dos coatitas estavam os rubenitas, a fenda na terra ocorreu bem nas proximidades do santuário, no seu lado sul. Logo após ter a terra tragado os líderes da rebelião, saiu fogo do Senhor e consumiu os 250 homens que ofereciam o incenso. Pereceram do mesmo modo que Nadabe e Abiú.

Há nesse episódio da rebelião muitas lições a aprender. Na insurreição de Corá, veem-se, em um cenário menor, os resultados do mesmo espírito que determinou a rebelião de Satanás no Céu. Foi o orgulho e a ambição que moveram Lúcifer a queixar-se do governo de Deus, e procurar subverter a ordem que fora estabelecida no Céu. O ciúme dera origem à inveja e a inveja à rebelião. Haviam discutido a questão do direito de Moisés à sua tão grande autoridade e honra, até que vieram a considerá-lo ocupante de uma posição muito invejável, que qualquer deles poderia deter tão bem quanto ele. Enganaram-se a si mesmos e uns aos outros, pensando que Moisés e Arão tinham por si mesmos assumido as posições que ocupavam. (Patriarcas e Profetas, p.292)

Os descontentes disseram que esses chefes se haviam exaltado sobre a congregação do Senhor, tomando para si o sacerdócio e o governo; mas sua casa não tinha direito à distinção de superioridade às outras de Israel; não eram mais santos do que o povo, e ser-lhes-ia bastante estar no mesmo nível de seus irmãos, que eram igualmente favorecidos com a presença e proteção especial de Deus (SDA Bible Commentary).

Toda geração, toda comunidade tem o seu Korach (transliteração correta do nome). Mas, é imprescindível lembrar que o povo de Deus é considerado a menina do seu olho (Deuteronômio 32:10; Zacarias 2:8). Nessa condição, é necessário verificar se movimentos oposicionistas ou surgimento de ações corretivas oriundas de grupos particulares, ou mesmo que tenham aprovação popular, como no caso de Corá, não estarão provocando diretamente a irritação de Deus.

A premissa básica que deve ser preservada é que Deus é o responsável por sua igreja, sendo ela a menina dos seus olhos. Com isso em mente, não temos como pensar que as ações humanas desenvolvidas por membros, pastores e/ou administradores da igreja não tenham consequências. Cada ação efetuada por quem detém responsabilidades, e especialmente aquelas com o peso de uma ordenação, para a qual Deus deu o seu aval, não podem deixar de ser auditadas pelo céu. Assim, ao observarmos que exageros estão ocorrendo, devemos perguntar a Deus até quando Ele permitirá tais atos.

O grande perigo que corremos é a tentação de tomar a justiça em nossas mãos. Não devemos faze-lo porque há um juiz no céu a quem pertence o julgamento e a aplicação de sansões. Agora, raciocinemos, alguém que faz voto de servir a Deus (a tribo de Levi o fez, assim como os pastores o fazem seriamente através da ordenação) e se utiliza dos princípios do inimigo (cobiça), estará em apuros, mais cedo ou mais tarde. Assim, por uma questão de inteligência, não devemos estimular qualquer exercício de justiça humana, porque estaremos tirando da mão do Grande Legislador a aplicação de autoridade que pertence a Ele.

Devemos enxergar as estratégias do inimigo e, com inteligência, desmonta-las. Uma dessas estratégias que têm atingido a muitos ao longo da história, é a tentação de tomar o lugar de Deus, assumir lideranças não planejadas por Deus julgando que Ele não está tão próximo e que não aplicará a justiça quando necessária. Quando cedemos nesse particular, incorremos no erro de Corá, o qual o impediu de entrar na terra prometida. Quando lideranças são apontadas por Deus, não são necessárias rebeliões, contendas e dissenções. Estas são necessariamente estratégias do inimigo. No ambiente divino há sempre cooperação. É sempre possível mudar situações cooperando. Neste caso, as alterações são duradouras.

Hoje, há muita dissidência na igreja, com formação de grupos independentes ou mesmo grupos que se mantém no seio da igreja, atirando as pedras da crítica e da desconfiança, sendo que essas pedras podem aniquilar muito mais almas do somente as da liderança. A estes grupos fica o conselho: observem se estão agindo por Deus. Se não, cuidado com as consequências; no caso de Corá foram consequências eternas.





sábado, 16 de fevereiro de 2019

A capacidade humana para atualizar e ampliar o sistema operacional criado por Deus


Sistemas operacionais

Desde que se tornou possível a conexão entre neurociência e inteligência artificial, muito se pode compreender sobre comportamento e relações de causa e efeito. Não é possível dizer que os computadores poderão substituir a inteligência humana, porque os Softwares de Inteligência Artificial tão somente conseguem imitar uma parte restrita do cérebro ligada à compreensão de causa e efeito e entendimento de processos lógicos, desde que sejam alimentados previamente com informações. Contudo, informações são o combustível mais importante para determinar comportamentos. As informações necessariamente precedem as tomadas de decisões, ou seja, um sistema de informações sempre será necessário para gerenciamento de qualquer iniciativa ou ambiente.

No caso dos computadores, os sistemas operacionais são as importantes e imprescindíveis bases para o entendimento e execução dos processos lógicos. Cada sistema operacional carrega uma determinada quantidade de informações utilizáveis para o cumprimento de funções primárias e secundárias. Em muitos casos, não há compatibilidade entre sistemas operacionais. Assim que, diferentes sistemas levam a diferentes resultados.

No caso humano, uma criança já nasce com um sistema operacional mínimo que a mantem interatuando com a lógica de causa e efeito do meio ambiente. Todavia, o complexo meio que a cerca vai, através da aprendizagem, atualizando e conformando o sistema operacional original. Assim, as relações de causa e efeito vão sendo reconhecidas e, na medida em que o tempo passa, será possível entender relações de causa e efeito cada vez mais complexas, o que torna o humano apto a conviver com seu ambiente. Porém, mesmo com a capacidade de entender relações de causa e efeito, essa evolução poderá acontecer ou não na razão direta da quantidade de informação adicionada, daí termos pessoas mais sofisticadas do que outras. Entretanto, é o sistema operacional que determina quais relações de causa e efeito serão compreendidas. Neste domínio, um excelente sistema educacional ajuda muitíssimo.

Os dois sistemas operacionais antagônicos

A visão de mundo judaico-cristã acolhe que nosso orbe, segundo a Bíblia, foi criado por Deus. Isto está fortemente determinado no primeiro capítulo de Gênesis, o primeiro livro da Torá. A descrição da criação grafada por Moisés é um primoroso texto que nos revela o quão capaz era Moisés para lidar com relações de causa e efeito ultra complexas. Assim, ele começa dizendo que Deus criou no princípio e, tal noção leva-nos a ver que a informação necessária para o estabelecimento de relações lógicas foi aportada imediatamente no primeiro dia da criação. A partir dali toda a lógica criacional e a lógica das relações de causa e efeito pode ser racionalizada.

Vamos mirar um pouco o primeiro dia da criação. “E disse Deus: Haja luz; e houve luz. E viu Deus que era boa a luz; e fez Deus separação entre a luz e as trevas. E Deus chamou à luz Dia; e às trevas chamou Noite. E foi a tarde e a manhã, o dia primeiro”.

Ora, pode haver a possibilidade de Deus criar sem que a perfeição esteja como consequência? Se não, então por que Deus examinou a luz que criara? Ele chega a conclusão “que era boa a luz”. Se a luz era boa, então poderia existir uma luz não boa? Essa questão só poderá ser respondida se soubermos a definição ou o conceito de luz, no contexto da criação, ou seja, no texto bíblico. Assim, será importante verificar como a luz está definida. Chama atenção o fato de Genesis definir luz como dia e as trevas (ausência da luz) como noite. No evangelho de João (8:12) Jesus ensina dizendo: “... Eu sou a luz do mundo; quem me segue não andará em trevas, mas terá a luz da vida”. Aqui Ele pondera que o modelo de comportamento que Ele projetava equivalia à luz; o antagonismo ao citado modelo equivalia à treva. Em outro momento, Jesus ensina que (João 9:5) “... Enquanto estou no mundo, sou a luz do mundo”. Logo, a luz no ambiente bíblico não é o agente físico que permite a visibilidade aos objetos e nem é uma energia eletromagnética radiante que pode ser captada pelo sentido da visão.  Mas sim, um sistema moral que determina comportamentos. Por essa razão, Jesus outra vez distingue também os seus seguidores como “...a luz do mundo” (Mateus 5:14), definindo um sistema moral que deveria estar prontamente visível, pois afirma que “... não se pode esconder uma cidade edificada sobre um monte...”.  Em sua primeira carta (I João 1:5-7) o apóstolo João define claramente o sistema moral dizendo que “E esta é a mensagem que dele ouvimos, e vos anunciamos: que Deus é luz, e não há nele trevas nenhumas. Se dissermos que temos comunhão com ele, e andarmos em trevas, mentimos, e não praticamos a verdade.  Mas, se andarmos na luz, como ele na luz está, temos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus Cristo, seu Filho, nos purifica de todo o pecado”.

O que se pode concluir de Genesis 1 é que a luz do primeiro dia não era energia eletromagnética radiante (esta parece mais explicitada no quarto dia da criação com o surgimento dos astros), mas o sistema operacional necessário para que as relações de causa e efeito posteriores pudessem operar na lógica do céu, ou seja, na lógica da eterna lei da cooperação contida na Torá. Como a criação da Terra aconteceu pós rebelião de Lúcifer e seus anjos, o exame da luz fora necessário. Deus estava diante de uma adulteração do Seu sistema provocada pela rebelião de Lúcifer, consequentemente, precisava examinar para atestar se a luz, ou seja, o sistema moral, estava em conformidade com a Sua lei; uma espécie de acreditação necessária, pois a Terra seria a demonstração universal das virtudes do sistema operacional divino (E.G.White, História da Redenção p.20).

Na Torá está especificado todo o sistema moral desejado por Deus. Todas as ordenanças e estatutos para a convivência social mostram uma única preocupação: a cooperação. Da mesma forma, na narrativa de Genesis capítulo 1, vemos na sequência da criação que cada ato criador pressupõe a existência de um ato anterior, fato observado pelo salmista quando exclama (Salmos 19: 1-4) “Os céus declaram a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra das suas mãos.  Um dia faz declaração a outro dia, e uma noite mostra sabedoria a outra noite. Não há linguagem nem fala onde não se ouça a sua voz. A sua linha se estende por toda a terra, e as suas palavras até ao fim do mundo. Neles pôs uma tenda para o sol...”. A última frase afirma que tudo estava voltado para a luz. Depois, nos versos 7 e 8 o salmista liga a criação com a lei: “A lei do SENHOR é perfeita, e refrigera a alma; o testemunho do SENHOR é fiel, e dá sabedoria aos símplices. Os preceitos do SENHOR são retos e alegram o coração; o mandamento do SENHOR é puro, e ilumina os olhos”. Novamente, na última frase ele chama o sistema moral de luz que ilumina os olhos, e estes são símbolo de inteligência no ambiente hebraico.

Se uma criança nasce com um sistema operacional mínimo o qual poderá ser aprimorado (Jer. 31:33 Porei a minha lei no seu interior, e a escreverei no seu coração), então o cabedal de informações que receberá determinará quais atualizações do seu sistema operacional serão permitidas. Daí o sábio Salomão dizer que se deve ensinar a criança para que, ao se tornar velho, não saia da vereda ensinada.

O sistema operacional de Deus

               Olhando o universo com cuidado vemos um muitíssimo elaborado conjunto de sistemas e subsistemas que formam um todo, cuja finalidade é proporcionar condições para existência da vida. Sistemas são conjuntos de partes ou entes justapostos em ordem única que, regidos por uma ordenação geral, operam de modo a produzir um resultado singular. Assim, no universo, tudo está finamente ajustado com precisão milimétrica, a qual é mantida por constantes primordiais sustentadas inalteradas a despeito de flutuações ambientais provocadas ou não. Por outo lado, observa-se uma misteriosa tendência da matéria para se organizar a si mesma, espontaneamente, para dirigir-se a estados incessantemente mais ordenados e complexos. Isto parece informar que o universo tem um eixo, um sentido. Se há no cosmo uma tendência do heterogêneo para o homogêneo, então há uma causa para essa harmonia topológica de cargas, uma inteligência. Por exemplo, há na química um princípio conhecido como estabilização topológica de cargas. Isto implica que as moléculas que suportam em sua estrutura cadeias de átomos em alternância (especialmente o carbono, o nitrogênio e o oxigênio) formem ao se reunirem, sistemas estáveis. Tais sistemas expõem a mecânica do ser vivo, os aminoácidos. Sempre segundo o mesmo princípio da afinidade atômica, os referidos elemento irão se reunir para formar os peptídeos. Tal processo leva a matéria numa irresistível espiral ascendente. As moléculas nitrogenadas associando-se aos fosfatos e aos açucares elaboram os protótipos dos nucleotídeos que, por sua vez, formam cadeias intermináveis dando emergência ao DNA. Em outras palavras, a natureza produz ordem.

Essa regulagem de precisão vertiginosa resulta de uma inteligência que transcende nossa realidade. Tudo o que se pode entender é que a mais simples obra da criação é formada por vários sistemas que, desempenhando funções diversas produzem um efeito que estava previsto para finalidade objetiva. A somatória dos vários sistemas da mesma espécie produz outro efeito com finalidade prevista. As várias espécies de sistemas formam gêneros e famílias de sistemas cada vez mais complexos e que, em cada nível de universalidade produzem efeitos também complexos e com finalidades vertiginosamente ou intencionalmente previstas. Há um conceito por traz de todos esses sistemas que monta a mais complexa unidade jamais vista. A isto chamamos universo.

Na superfície da Terra encontramos dois sistemas que chamamos de litosfera e biosfera e, acima destes sistemas está a atmosfera. São sistemas que interagem entre si de forma integral. A litosfera produz efeitos que agenciam a biosfera e ambas interferem na atmosfera. Um dos exemplos destas interações são os aerossóis, ou partículas sólidas que estão em suspensão na atmosfera. Essas partículas são oriundas da litosfera e da biosfera e causam a aglutinação de minúsculas gotas de água, em forma de vapor, que vão se unindo aos aerossóis para formar as nuvens. O pólem das plantas é um importante componente dos aerossóis. Onde a litosfera não está coberta pelo verde as chuvas são mais escassas. Como vimos, a interação entre os sistemas faz funcionar ciclos vitais, como o da água. É importante salientar que há um juízo de engenharia muito complexo, o qual muito dificilmente resultou do acaso, mas, foi produzido por uma inteligência que objetivou o conceito de unidade, o qual dá surgimento à cooperação.

O corpo humano é outro extraordinário exemplo de sistemas montados e finamente ajustados para produzir vida. Ali não são permitidas hipertrofias ou hipotrofias de quaisquer ordens, seja das células, dos órgãos ou dos sistemas. É necessariamente importante que todos operem harmoniosamente através de constantes, sem as quais não pode haver o que chamamos saúde. Tal conformidade não resulta do acaso. Há muita engenharia, o que pressupõe inteligência. Um pássaro, por exemplo, é um produto único de engenharia, onde todas as suas partes foram pensadas para produzir um efeito, o vôo. Todos os sistemas no corpo de um pássaro estão ajustados para que voe. Ossos leves com sacos aéreos, sistema circulatório com um coração capaz de bombear sangue para manter a musculatura das asas em ação, penas de vários formatos nas asas que, justapostas como são, facilitam o vôo ajudando na sustentação, além de permitirem as manobras no ar. Uma peça de engenharia ajustada de forma milimétrica para permitir o vôo, tudo negando peremptoriamente o efeito do acaso. Nos exemplos citados há insofismável demonstração de uma intenção para produzir cooperação e harmonia, o que pressupõe inteligência.

O sistema operacional de Deus no antigo Israel

Podemos enxergar unidade no sistema proposto à socio-economia israelita. Havia instruções, estatutos e leis para que a justiça fosse necessariamente presente nas relações sociais. Por exemplo, no sistema shemita (lê-se shemitá e significa deixar livre), a contagem de tempo obedecia ao sistema septuagenal.  Havia o shemita semanal, no qual cada sétimo dia da semana era deixado livre, assim como o shemita anual, no qual em cada sete anos o sétimo era deixado livre. Também, havia o shemita para períodos de 49 anos, ou seja, sete períodos de sete anos; o quinquagésimo ano era o jubileu e, portanto, deixado livre. Em todos esses shemitas no sétimo período algo era devolvido a Deus e aos semelhantes. Assim, a cada sete anos, no sétimo ano havia perdão de dívidas e libertação de escravos, além disso, os campos passavam ao domínio público durante o sétimo ano, significando que não haveria novo plantio com vistas ao comércio, mas a produção espontânea do que já estava era de todos; também a cada jubileu, todas as terras vendidas durante o período de 49 anos, voltavam aos donos originais, uma espécie de preservação do direito de uso à terra pela nova geração que não usufruiu do direito porque seus ancestrais a tinham vendido. Esse sistema de administração agrária promovia unidade entre a terra e as próximas gerações da família daquele que a possuía originalmente.

Vemos um complexo e inteligente sistema de unidade e justiça, quase inconcebível nos dias atuais, nos quais unidade é palavra em desuso, imperando a competição e separação por cobiça.  Todo a sistema religioso israelita tinha como pano de fundo a unidade entre os cidadãos e entre os cidadãos e Deus. Também o sistema comercial era gerenciado com a premissa da unidade. Por exemplo, era vedado emprestar dinheiro a juro, porque entre irmãos não era permitido exploração e ganância. Durante o reinado de Davi e nos primeiros anos do reinado de Salomão, o sistema de justiça estava em operação, produzindo anos de muita prosperidade. As tribos de Israel formavam um sistema de cooperação inteligente o qual era capitaneado pelo líder político, pelos líderes religiosos e pelos cabeças das famílias.

A igreja cristã atual e os dois sistemas operacionais

Na medida em que somos vítimas ou parceiros dos sistemas, há um perigo real quando tentamos operar sistemas operacionais excludentes. Esse é o caso da igreja cristã atual. Esta parece querer viver um sincretismo desastroso que traz um amalgama fatal de sistemas. Ratificamos aqui que sistemas são um conjunto de elementos que, unidos por um fio condutor, são mantidos conectados para provocar um determinado efeito. Assim, sistemas geralmente são excludentes por natureza, mas podem cooperar se os efeitos quando somados produzirem um bem superior. Esse tipo de cooperação somente é possível com sistemas baseados em princípios comuns. Se eventualmente se aproximam dois ou mais sistemas que não atuam por princípios únicos, a tendência é entropia e falência. Desta forma, o sincretismo religioso não pode ser prestigiado. Os princípios cristãos são diferentes dos princípios das religiões afro-asiáticas, e diferente das religiões de origem muçulmanas, etc., o que torna sua proximidade e cooperação inexistente. Neste aspecto, códigos morais, visões sociais e políticas divergem frontalmente. Ecumenismo será uma situação inaplicável e já temos um bom vislumbre através da incompatibilidade entre cristianismo e islamismo. Uma parcela considerável do terrorismo mundial provém dessa fundamental divergência.

Quanto ao cristianismo, sua premissa é amor a Deus e ao próximo (Mateus 22:37-40). Cada cristão é um elemento de um grande sistema cujo fio condutor é o amor e que, se bem compreendido, deverá produzir o excelente efeito da cooperação ou reprodução do caráter do criador. Assim, vemos, por exemplo, o efeito dessa cooperação no matrimonio. Um casal se une para produzir uma família, e esta é a base fundamental do sistema operacional da cooperação. Quando os filhos se casam, unem-se a outras famílias dando ensejo à multiplicação da cooperação. Quando os netos se casam aumentam muito o sistema familiar, ampliando a complexidade da cooperação que, ao longo dos anos e das gerações formam extensas cadeias multilaterais de cooperação. São dezenas de famílias, centenas de pessoas unidas. Dessa cooperação se origina o desenvolvimento, mas essa compreensão quase se perdeu. As religiões não cristãs também adotam o amor como premissa, porém buscam o amor como forma de desenvolvimento individual.

Na verdade, Deus criou seres inteligentes e (no caso do homem, muito semelhantes a Ele) com a capacidade de atualizar e ampliar o sistema operacional criado por Deus, tornando possível que a autoridade de Deus e a replicação do Seu caráter se consolidasse em todos os quadrantes do universo.
Na igreja cristã estão em mediação, desafortunadamente, dois sistemas operacionais. O de Deus, a cooperação, e o sistema proposto por Lúcifer, a competição. Neste, os elementos sempre conflitam. Tal concepção pressupõe que o choque gera o progresso. A igreja que deveria ser pura no tocante a um sistema , admite o sincretismo; a cooperação existe, mas em meio ao confronto. Eis a razão para tantas derivações cristãs. Mesmo em situações onde há maior entendimento das advertências dos profetas sobre unidade, a confrontação acaba sobrepujando a cooperação, tornando inaplicável o desenvolvimento por multiplicação cooperativa. Aliás, as muitas facções cristãs tem em comum uma origem por disputas filosóficas, doutrinárias ou até de poder.

O sistema proposto por Lúcifer foi o do desenvolvimento individual. Cada qual torne-se melhor que o outro, fato que deveria gerar progresso. Assim, o conceito do que é  melhor significa aquele que é mais forte, o mais sagaz, o mais ardiloso, o mais competitivo. A propósito, no mundo no qual vivemos, a competição, em muitos episódios, pode significar progresso. As empresas comerciais por causa da competição são capazes de gerar melhores serviços. A tecnologia avançou por causa das disputas políticas e militares, mas também por causa das disputas comerciais. A ciência tem seu principal motor na busca por novas formas de aproveitamento das riquezas naturais, impulsionada por ganas de maior poder para as nações. Portanto, uma nação é tanto mais poderosa quanto mais competitiva se torna.

O sistema da competição está demonstrado nas principais teorias antropológicas que assentem o que chamamos de ciência. A sobrevivência dos mais aptos é a premissa de vários saberes, incluindo a economia. Para o nosso planeta, competição é sinônimo de evolução que, por sua vez, gera sobrevivência. Estamos completamente envolvidos e acostumados a esse sistema que o queremos conosco em todo as atividades.

A força da competição como um sistema supostamente melhor para seres inteligentes foi exposta por Lúcifer quando apresentou os resultados a Jesus na terceira tentação ali no deserto. Os reinos foram exibidos a Cristo com todo seu esplendor, ou seja,  toda a sua capacidade de competição. Reinos são mais fortes na medida em que têm capacidade de absorver outros reinos. Foi como se o inimigo estivesse demonstrando um resultado francamente vitorioso e muito melhor. O principal argumento é que a cooperação gera igualdade, enquanto a competição gera progresso. Todavia, a competição também gera a morte. Tal consequência expõe a desigualdade dos dois sistemas. A morte é o resultado da competição fazendo cessar qualquer possibilidade de interação para que não haja outra vez competição e possibilidade de superação. Aquele concorrente está eliminado. Poderá haver outro concorrente, o qual deverá ser, da mesma forma, eliminado. Já no sistema de cooperação o progresso e a estabilidade está na associação que, quanto mais complexa, mais eficaz e mais justo se torna o sistema. Na cooperação, quanto mais cooperadores mais progresso, mais resistência e mais justiça.
O sistema da cooperação não tem como fazer sinergia com o da competição. Ambos operam através de princípios excludentes, gerando resultados não complementares. Deste modo, em ambientes onde um está o outro está proibido.

A cooperação gera um tipo de progresso muito diferente, no qual as pessoas constroem a si mesmas e tornam-se agentes cooperadores com independência. Poderemos entender melhor analisando ajudas fornecidas a refugiados. Crianças filhas de pais migrantes quando acolhidas e expostas a oportunidades de educação, tornam-se cooperadoras que aportam mais segurança socioeconômica. A UNESCO (OECD/ILO (2018), How Immigrants Contribute to Developing Countries' Economies, ILO, Geneva/OECD Publishing, Paris, https://doi.org/10.1787/9789264288737-en.) demonstrou estatisticamente que pessoas oriundas de movimentos migratórios são positivamente cooperativas na economia dos países que as acolhem. Migrantes com altas aptidões educacionais ou não, tornam-se bem sucedidos, cooperam com o produto interno bruto dos países acolhedores, não causam impactos negativos nas oportunidades de empregos aos nativos, e abrem novas oportunidades para outros que também necessitam de ajuda. Isso demonstra que a competição é muito inferior em seus resultados (pois tem como produto final a morte) do que a cooperação que edifica indivíduos tornando-os capazes para ascensão social com consequente adensamento econômico e promoção de justiça social. Há sempre mais segurança na cooperação. Em ambientes tais, os mais fracos tem oportunidades para tornarem-se fortes e não serem eliminados. Um indivíduo transformado em forte adiciona mais estabilidade e resiliência ao sistema, podendo ele próprio ajudar outros indivíduos fracos.


segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

A sustentável leveza da gerência de Deus


Minha graduação foi concluída em Belém, Pará, na Universidade Federal do Pará (UFPA), naquele então, a melhor universidade do norte brasileiro. Prosseguir estudo de pós-graduação ainda não era muito comum, tampouco se falava muito em mestrado ou doutorado. Mas, como havia concluído Licenciatura Plena em Biologia, minha perspectiva de entrar para pesquisa científica era escassa, sem que investisse num mestrado. Durante a graduação tive apenas um professor com doutorado, o qual era norte americano e estava chegando para trabalhar no Museu Paraense Emilio Goeldi (MPEG). Ele me impressionou muito com seu saber e, desde meu primeiro contato com ele, percebi a diferença quando comparado aos outros professores. Assim, decidi que faria pós-graduação, sabendo das dificuldades. Embora não percebesse ainda, Deus estava promovendo minha carreira, colocando diante de mim vários modelos. Portanto, busquei saber as opções para os estudos avançados e tudo apontava para saída ao exterior. Todavia, o plano de Deus para minha vida passou a marcar meu percurso com firmeza, ainda que eu não o sentisse. Meu Pai conhecia o pró-reitor de ensino e pesquisa da UFPA, e numa das suas conversas ele disse ao meu Pai: por que seu filho quer ir para o exterior se há em Manaus, no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) um excelente programa de pós-graduação com docentes internacionais? Naquela ocasião, eu já havia buscado estágio de iniciação científica no MPEG. Meu orientador, um pesquisador bem jovem oriundo dos Estados Unidos, me deu todo suporte e, sem que eu demandasse, ele me chamou e declarou o seguinte: tenho observado seu desempenho e acho que posso lhe oferecer uma bolsa. Aqui está uma passagem para que você vá até o INPA, em Manaus, e fale com o diretor solicitando bolsa. Consequentemente, tomei um voo até Manaus e prontamente fui atendido pelo então diretor do INPA, o qual me concedeu a bolsa com o mesmo valor oferecido a um aluno de mestrado. Assim, percebi que meu orientador estava como que me fazendo assumir um compromisso de ser aprovado na próxima seleção ao mestrado do INPA.

Os meses se passaram, conclui a graduação e o edital para seleção ao mestrado do INPA foi finalmente publicado. Em dezembro de 1977, uma semana antes do natal, foi marcada a aplicação das provas. A referida seleção era aplicada em todo Brasil, assim como em alguns países, incluindo Canadá e Estados Unidos. Na verdade, o diretor do INPA, um cientista destacado no cenário científico, buscava pinçar uma elite cosmopolita de jovens que pudessem alavancar as pesquisas no Amazonas. As provas duravam três dias. Versavam sobre Matemática, Física, Química, Genética, Português, Inglês, além da prova específica da especialidade escolhida. Era como vestibular. No entanto, a data marcada para o início das provas coincidia com o sábado, assim que eu não poderia realizar os exames por minha fidelidade ao princípio da guarda do sábado. Informei ao meu orientador que não faria os exames, causando nele uma tristeza grande, em virtude do seu investimento. No dia da aplicação da primeira etapa não compareci. Fui à igreja para a celebração do sábado, como de costume, esquecendo-me daquele exame. Mal podia perceber que havia um plano em execução. Quando cheguei em casa de volta, o telefone tocou e, ao atende-lo, uma colega que também fizera sua inscrição me perguntou se eu estava ciente do corrido. Disse-lhe que não estava ao que ela me informou que a primeira etapa tinha sido adiada para a próxima segunda-feira, em virtude de um incidente: aos membros da banca que aplicariam os exames, a comunicação oficial do INPA determinava o início para 08:00 horas; para os candidatos, a comunicação dava o início das provas para 09:00 horas. Todavia, o edital assinalava que após 30 minutos do início nenhum candidato poderia ser admitido. Aconteceu que todos os candidatos chegaram além dos 30 minutos estipulados, provocando ausência de todos. Por esse motivo, alteraram a data inicial. Ao receber essa notícia, me dei conta que Deus estava agindo e entendi que Ele havia planejado minha ida para Manaus e para o INPA. Bem, concluídas as provas, logo depois veio o resultado: eu fora aprovado em primeiro lugar.

Embora não tivesse consciência cabal do que estava acontecendo em minha experiencia, meu primeiro ciclo de vida na casa dos meus pais e em Belém estava encerrando; começaria uma nova etapa.

Em fevereiro de 1978 cheguei ao INPA. Tomei um taxi no aeroporto de Manaus e me dirigi ao instituto onde fui recepcionado pelo diretor. Depois fui alojado em um dos apartamentos institucionais, no próprio campus do INPA. Logo em seguida, passei para uma das residências onde morei por dois anos. A comunidade de alunos era composta por brasileiros de muitos estados e estrangeiros sul-americanos, norte-americanos e europeus.

 No início do segundo ano, precisamente em abril de 1979, fui chamado pelo diretor, ocasião em que me ofereceu uma vaga como assistente de pesquisa. Fui tomado de surpresa porque não havia percebido que Deus queria que eu me fixasse em Manaus. Pensei um pouco e decidi aceitar, com a perspectiva de poder sair para outra experiência, caso essa não preenchesse minhas expectativas. Logo passei a ganhar um salário melhor e terminei o meu mestrado já na condição de pesquisador. Imediatamente comecei minhas gestões para o doutorado. Enquanto fazia o mestrado, conheci um pesquisador muito famoso, o qual viera do Smithsonian Institution, o melhor instituto de pesquisas do mundo. Este pesquisador perguntou-me se gostaria de fazer um doutoramento nos Estados Unidos sob sua orientação, assim que comecei a preencher os formulários e logo estava aceito para ir ao Smithsonian. Todavia, um plano superior estava em andamento, conforme dito acima, sem que eu percebesse Deus conduzia meu futuro. E sob essa ordem, os planos mudaram. Aconteceu que, após umas semanas, passava pelo INPA um outro famoso pesquisador brasileiro, docente na Universidade de São Paulo (USP), que assistiu um seminário por mim proferido e, ao final, do nada, ele disse-me que eu deveria me inscrever ao doutorado na USP. Argumentei que já estava aceito para o Smithsonian, mas ele foi enfático e quase obrigou-me a dar-lhe meus documentos para que ele me inscrevesse na USP. Assim, fiz o exame de admissão ao dourado na USP. Dos 14 inscritos passaram apenas 4 sendo eu um deles. Após isso, o professor que me levou à USP disse-me que a vinda para São Paulo somente seria entendida mais tarde. Assim, confiei e realizei minha matrícula. Deus estava dando andamento ao seu plano e o segui sem ter muita noção. Logo percebi que estava num ambiente de altíssima cognição.

A USP é uma universidade onde se respira vanguarda. Em todos os lugares ouvia de assuntos que jamais havia entrado em contato. Aquele ambiente me estimulou a buscar por informações que pudessem fornecer um lastro cognitivo mais denso. Gastei quatro anos com um ritmo acelerado de leitura, não perdendo nenhuma das oportunidades para ouvir grandes nomes da ciência, até mesmo para assuntos que não estavam relacionados diretamente com minha opção de estudo. Era muito diferente da UFPA, muito além do INPA. Neste ambiente fui construindo uma formação mais plural e, desta forma, aprendi a raciocinar com muitas variáveis, coisa muito nova para mim. Terminei meu doutorado com uma base cognitiva bastante diferente daquela que obtivera até o mestrado. Mas, ainda sentia que não estava pronto. Voltei ao INPA e não parei de estudar ciência, sua metodologia, sua lógica. Percebo hoje com clareza meridiana o que aconteceu comigo. Fui exposto a muita luz e, como consequência, não deixei de agradecer ao bom Deus e aos grandes mestres por esse inestimável privilégio. Alguns anos depois fui ao Smithsonian e, ao ver a realidade de brasileiros que faziam seu doutorado lá, pude comparar a minha formação com a deles. Eram bons técnicos, mas não haviam adquirido a experiencia por mim vivida na USP. Como vemos, às vezes o imediatismo pode ser prejudicial. Sempre pensamos que os Estado Unidos são necessariamente melhor opção do que o Brasil.

O que resultou por causa do respaldo cognitivo oferecido pela USP? Vários foram os resultados. Vou apenas citar um deles. Ao regressar ao INPA, fui procurado por pesquisador do Instituto Max Planck, uma das mais importantes instituições científicas da Alemanha. Na ocasião, desenvolviam um projeto em todo cinturão tropical do mundo, buscando verificar quais mecanismos estão envolvidos na manutenção da biodiversidade tropical. Manaus era um dos locais, assim que necessitavam um pesquisador para ser a contrapartida brasileira. Após as assinaturas começaram os trabalhos e uma equipe de pesquisadores alemães e brasileiros passou a visitar Manaus, na etapa de levantamento dos dados. Após quatro anos de trabalhos, o governo alemão galardoou-me com uma visita a Alemanha para assistir, em caráter extraordinário, as avaliações que o ministério da Ciência promove, com um rigoroso exame dos resultados alcançados pelos pesquisadores, os quais são avaliados por uma banca de decanos, uma espécie de prestação de contas ao recurso empregado, verificando se o retorno foi suficiente ou causou prejuízo, e nesse caso, com penalizações. A referida reunião é fechada sendo que eu fui o primeiro estrangeiro a participar, na condição de representante do governo brasileiro. Após as reuniões, fui agraciado com um prêmio que me deu a oportunidade de conhecer instituições de pesquisas em países europeus.

O objetivo deste texto é demonstrar a importância do servir a Deus. Na busca dos meus sonhos não preteri a Deus guardando os princípios celestes. Jamais transgredi o sábado. Deus ainda está no comando do seu plano para a minha vida. Sei que cuidará do meu futuro e, seja qual seja o desfecho, será sempre o melhor. Hoje posso retrover minha vida e reconheço a presença de Deus em todos os caminhos percorridos. Deus tem sido o meu escudo. Durante quase quarenta anos em Manaus, não sofri com nenhuma das doenças tropicais tão comuns na Amazônia. Alcancei nível de respeitabilidade entre meus pares e pude interferir na vida de outros que vieram a mim em busca de auxílio.