A onisciência de Deus sempre me fascina. Realmente, há muito mais entre o Céu e a Terra do que pensamos. A onisciência de Deus pode ser vislumbrada nos escritos proféticos. Vejamos um exemplo:
Na Palavra
de Deus, vemos o poder que estabeleceu os fundamentos da Terra e que estendeu
os céus. Unicamente ali podemos encontrar a história da nossa espécie, não
contaminada pelo preconceito ou orgulho humano. Ali estão registradas as lutas,
as derrotas e as vitórias das maiores pessoas que este mundo já conheceu. Ali
os grandes problemas do dever e do destino são desvendados. O véu que separa o
mundo visível do invisível se ergue, e contemplamos o conflito das forças
opostas do bem e do mal, desde a entrada do pecado, no princípio, até o triunfo
final da justiça e da verdade. E tudo isso é apenas uma revelação do caráter de
Deus. Na contemplação reverente das verdades apresentadas em Sua Palavra, a
mente do estudante é conduzida à comunhão com a mente infinita. Tal estudo não
somente purifica e enobrece o caráter, mas também amplia e renova as
capacidades intelectuais. (Ellen White, Refletindo a Cristo, 11de abril)
O parágrafo
apresenta uma cadeia lógica muito consistente com a própria estrutura da
Bíblia. Sua tese central não é apenas que a Bíblia contém informações
religiosas, mas que ela oferece uma interpretação da realidade: criação,
história humana, conflito cósmico, caráter de Deus e transformação da mente
estão ligados numa única sequência.
Podemos
reconstruir a lógica assim: Deus é o Criador → Deus se revela → a Bíblia
interpreta a história → revela o conflito invisível → revela o caráter de Deus →
o homem contempla essa revelação → sua mente e caráter são transformados.
Será de grande valia ver como as informações
do parágrafo de Ellen White contêm verdades que, se não forem escavadas e
lapidadas passam sem efeito pedagógico. Vejamos:
“Na Palavra de Deus, vemos o poder que estabeleceu os fundamentos da
Terra e que estendeu os céus”
A afirmação
começa pela criação, exatamente como a Bíblia. “No princípio, criou Deus
os céus e a terra” (Gn 1:1). O universo não é apresentado como realidade
autônoma, mas como resultado da ação de
Deus: “Os céus por sua palavra se fizeram” (Sl 33:6). “Pela fé, entendemos que
foi o universo formado pela palavra de Deus” (Hb 11:3).
Portanto: Palavra
divina → criação → ordem da realidade.
Isso é
importante porque significa que a Escritura começa fornecendo ao ser humano uma
cosmovisão: antes de explicar quem somos, explica de onde procede a
realidade.
“Unicamente ali podemos encontrar a história da nossa espécie, não
contaminada pelo preconceito ou orgulho humano”
Aqui não
precisamos entender a frase como se a Bíblia fosse um manual completo de
história universal. A ideia é mais profunda: ela oferece a interpretação
teológica da história humana.
A Bíblia
não idealiza seus personagens. Noé se embriaga (Gn 9:20-21). Abraão demonstra
fraqueza e medo (Gn 12:10-20). Moisés falha (Nm 20:7-12). Davi adultera e
provoca a morte de Urias (2Sm 11). Pedro nega Cristo (Mt 26:69-75). Ou seja, os
grandes personagens bíblicos não são transformados em heróis impecáveis.
Paulo
explica a razão pedagógica desse registro: “Estas coisas lhes sobrevieram como
exemplos e foram escritas para advertência nossa” (1Co 10:11).
A lógica é:
história real → falha humana revelada → ação de Deus → aprendizado das gerações
posteriores.
É uma
história que frequentemente desmonta o orgulho humano.
“Ali estão registradas as lutas, as derrotas e as vitórias”
Hebreus 11
praticamente constrói esse panorama. Há pessoas que:
- venceram reinos;
- praticaram a justiça;
- fecharam a boca de leões;
- sofreram perseguição;
- foram presas;
- morreram mantendo a fé.
Hb 11:33-40
mostra algo particularmente importante: vitória bíblica não significa
necessariamente sucesso exterior. Alguns venceram escapando. Outros
venceram permanecendo fiéis mesmo morrendo. Portanto, a Escritura redefine
vitória:
Vitória ≠
simples êxito humano; mas Vitória = fidelidade a Deus.
“Ali os grandes problemas do dever e do destino são desvendados”
Aqui
aparecem duas perguntas fundamentais.
Dever: como
devo viver?
“Ele te
declarou, ó homem, o que é bom [...] que pratiques a justiça, ames a
misericórdia e andes humildemente com o teu Deus” (Mq 6:8).
“Teme a
Deus e guarda os seus mandamentos; porque isto é o dever de todo homem” (Ec
12:13).
Destino:
para onde a existência humana caminha?
Deuteronômio
coloca diante do homem: “A vida e a morte [...] escolhe, pois, a vida” (Dt
30:19). O Novo Testamento leva a questão ao seu desfecho: “Deus amou ao mundo
de tal maneira que deu o seu Filho unigênito...” (Jo 3:16). E Apocalipse 21–22
apresenta o destino final da história: restauração, vida e comunhão novamente
estabelecidas entre Deus e humanidade. Portanto: Origem → sentido → responsabilidade
→ destino.
“O véu que separa o mundo visível
do invisível se ergue”
Esta talvez
seja uma das afirmações mais profundamente bíblicas do texto. A Bíblia afirma
que a realidade que percebemos pelos sentidos não é toda a realidade. Um
exemplo extraordinário aparece em 2 Reis 6. O servo de Eliseu vê apenas o
exército inimigo. Eliseu ora: “Senhor, peço-te que lhe abras os olhos para que
veja” (2Rs 6:17). Então ele vê: “o monte estava cheio de cavalos e carros de
fogo”. A realidade não mudou. A percepção da realidade mudou.
Encontramos
a mesma estrutura em Jó 1–2. Jó experimenta sofrimento na Terra sem
inicialmente conhecer a dimensão celestial do conflito.
Daniel 10
mostra acontecimentos políticos terrestres relacionados a um conflito que
transcende aquilo que os olhos humanos percebem.
Paulo
resume: “A nossa luta não é contra sangue e carne, e sim contra [...] as forças
espirituais do mal” (Ef 6:12).
Temos,
portanto, dois níveis:
REALIDADE VISÍVEL (história, política,
sofrimento, decisões humanas)
REALIDADE INVISÍVEL (ação de Deus, conflito
espiritual, anjos, poderes do mal)
A revelação
conecta os dois.
“Contemplamos o conflito das forças opostas do bem e do mal”
Agora
chegamos àquilo que, em linguagem adventista, é chamado de Grande Conflito.
Sua semente aparece em Gênesis 3:15: “Porei inimizade entre ti e a mulher,
entre a tua descendência e o seu descendente.”
O conflito
atravessa a Escritura. E Apocalipse explicita sua dimensão cósmica: “Houve
peleja no céu. Miguel e os seus anjos pelejaram contra o dragão” (Ap 12:7).
A Bíblia
começa com: CRIAÇÃO PERFEITA, e depois apresenta: rebelião → pecado → conflito →
redenção → juízo → restauração.
No final: “E
não haverá mais morte, nem pranto, nem clamor, nem dor” (Ap 21:4). Assim,
Gênesis 1–3 e Apocalipse 20–22 formam as duas extremidades da mesma história.
“Tudo isso é apenas uma revelação do caráter de Deus”
Aqui está
provavelmente a afirmação teológica central de todo o parágrafo. A Bíblia não
revela simplesmente o que Deus fez. Ela revela quem Deus é.
Quando
Moisés pede: “Rogo-te que me mostres a tua glória” (Êx 33:18), Deus responde
proclamando Seu caráter: “Senhor, Senhor Deus compassivo, clemente e longânimo
e grande em misericórdia e fidelidade” (Êx 34:6).
Séculos
depois, João sintetiza: “Deus é amor” (1Jo 4:8). E Cristo torna esse caráter
visível: “Quem me vê a mim vê o Pai” (Jo 14:9). Portanto, toda a narrativa
converge para uma pergunta: Como Deus realmente é?
A criação
responde. A Lei responde. Os profetas respondem. A cruz responde.O juízo
responde. A restauração final responde. E a resposta culminante é Cristo.
“A mente do estudante é conduzida à comunhão com a mente infinita”
Esta
afirmação também possui fundamento bíblico particularmente forte. Paulo diz: “Nós
temos a mente de Cristo” (1Co 2:16). Ele também ordena: “Transformai-vos pela
renovação da vossa mente” (Rm 12:2). Portanto, estudar a revelação não deveria
ser apenas: INFORMAÇÃO. O processo bíblico esperado é: Palavra → compreensão → comunhão
→ mudança da mente.
É
exatamente o que Jesus expressa em João 17:3: “A vida eterna é esta: que te
conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo...” Conhecimento
bíblico, portanto, pretende produzir conhecimento relacional de Deus.
“Tal estudo purifica e enobrece o caráter”
Jesus disse
aos discípulos: “Vós já estais limpos pela palavra que vos tenho falado” (Jo
15:3). E orou: “Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade” (Jo 17:17).
Paulo
acrescenta que a Escritura é útil: “para o ensino, para a repreensão, para a
correção, para a educação na justiça” (2Tm 3:16). E apresenta o resultado: “a
fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda
boa obra” (2Tm 3:17).
A sequência
é notável: verdade → correção da mente → mudança da conduta → formação do
caráter.
A Escritura
não pretende simplesmente aumentar o repertório intelectual. Pretende formar
um determinado tipo de pessoa.
“Também amplia e renova as capacidades intelectuais”
O Salmo 119
apresenta exatamente essa relação: “A revelação das tuas palavras esclarece e
dá entendimento aos simples” (Sl 119:130). E: “Compreendo mais do que todos os
meus mestres, porque medito nos teus testemunhos” (Sl 119:99).
Isso não
significa que estudar a Bíblia automaticamente transforme alguém em
especialista em matemática, física ou biologia. O princípio é outro: a Palavra
desenvolve categorias cognitivas fundamentais — discernimento, julgamento
moral, capacidade de estabelecer relações, reconhecimento de causas e
consequências, visão histórica e compreensão do sentido.
Por isso
Paulo relaciona transformação espiritual e transformação cognitiva: “Transformai-vos
pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa,
agradável e perfeita vontade de Deus” (Rm 12:2).
A arquitetura inteira do argumento
Podemos
agora colocar o parágrafo numa única cadeia:
CRIAÇÃO → Deus é a origem da realidade
↓
REVELAÇÃO → Deus torna a realidade
compreensível
↓
HISTÓRIA → a Bíblia mostra o drama humano sem
idealização
↓
GRANDE CONFLITO → o visível é inserido numa
realidade maior
↓
CRISTO → o caráter de Deus torna-se plenamente
visível
↓
PALAVRA → a revelação é preservada e
transmitida
↓
CONTEMPLAÇÃO → o ser humano entra em contato
intelectual e espiritual com essa verdade
↓
RENOVAÇÃO DA MENTE → Rm 12:2
↓
TRANSFORMAÇÃO DO CARÁTER → Jo 17:17
↓
RESTAURAÇÃO DA IMAGEM DE DEUS → cf. Cl 3:10;
2Co 3:18.
E 2
Coríntios 3:18 talvez seja o texto que melhor sintetize toda a passagem: “Contemplando
[...] a glória do Senhor, somos transformados, de glória em glória, na sua
própria imagem.”
A lógica é
extraordinariamente precisa: CONTEMPLAR → CONHECER → COMUNGAR → SER
TRANSFORMADO.
Isso também
esclarece algo importante para o nosso estudo sobre o dom de profecia: a
função última da revelação profética não é satisfazer curiosidade sobre
acontecimentos futuros. É tornar inteligível o governo de Deus dentro da
história, para que, conhecendo Seu caráter, o ser humano possa novamente
confiar nEle.
Por isso,
profecia, educação e restauração do caráter acabam se encontrando no mesmo
ponto: reconstruir no homem uma visão verdadeira de Deus.
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