terça-feira, 15 de novembro de 2022

Se Jesus prometeu regressar sem demora, por que não voltou?


Um pouco antes da ascensão de Jesus aos céus, disse aos discípulos que não permitissem turbações porque logo ele voltaria para receber seus fiéis e estar com eles (João 14:1-3). Outra vez, em Apocalipse 3:11 Jesus repete que viria sem demora. Torna a repetir em Apocalipse 22. Desde que Jesus assuntou já passaram 2022 anos. Cada geração, por seu turno, esperou no seu lapso de tempo, a volta de Jesus. Como explicar a noção de brevidade nas promessas? Os apóstolos e os demais membros da primeira igreja almejavam ver Jesus. A geração que nos trouxe ao mundo também esperava a volta de Jesus, a nossa geração idem. Então, como entendemos a afirmação de Jesus dizendo que voltaria sem demora?

Podemos buscar uma resposta através da 2ª carta de Pedro, no capítulo 3. Ali estão argumentos para erguer a esperança de judeus e gentios que aderiram ao cristianismo na Asia menor. Para os comentaristas, essa epístola é considerada de cunho universal, logo, também infunde esperança à sequência de gerações e, portanto, interessa à igreja atual.

Pedro começa dizendo a todos que devem lembrar “[...] das palavras que primeiramente foram ditas pelos santos profetas, e do nosso mandamento, como apóstolos do Senhor e Salvador”. Em seguida lembra que “nos últimos dias virão escarnecedores, andando segundo as suas próprias concupiscências, e dizendo: onde está a promessa da sua vinda? porque desde que os pais dormiram, todas as coisas permanecem como desde o princípio da criação” O adjetivo escarnecedor traz consigo, no texto de Pedro, a qualificação destes: andam segundo as próprias concupiscências. Em outras palavras, homens que não têm nenhum domínio sobre si mesmos. Como qualificou Cristo seriam tais como os antediluvianos.

Pedro prossegue descrevendo que Deus criou o céu e a Terra por sua palavra e está preservando-os “[...]pela mesma palavra se reservam como tesouro, e se guardam para o fogo, até o dia do juízo, e da perdição dos homens ímpios”. Depois ele conclui informando que a aparente demorar se dá por nossa incompreensão do tempo, determinando que: “não ignoreis uma coisa, que um dia para o Senhor é como mil anos, e mil anos como um dia”. Pedro está se apoiando no Antigo Testamento (Salmos 90:4) onde está afirmado que o transcurso do tempo não significa nada para um Deus eterno e que o lapso de uma vida, por mais longevo que seja, não é mais que um dia em comparação com a eternidade de Deus. Portanto, o regresso de Jesus, para cada indivíduo, não demora mais que um breve tempo, o lapso de uma vida. Quando morremos perdem-se todas as percepções porque não há atividade mental. Neste sentido, se Jesus ainda demorar mil anos, e depois ressuscitar os salvos, para estes, a sensação é de que esperaram somente o tempo em que tiveram existência. Porém, durante o período da existência de um fiel, a expectante esperança do encontro com Jesus parece demorar e durar mil anos, em virtude do imediatismo humano. É como se o apóstolo estivesse montando um raciocínio circular. Enquanto esperamos, devemos lembrar do que disseram os profetas e apóstolos.

Ao dizer que viria sem demora, Jesus também afirma que não se deve descurar na manutenção das virtudes essenciais cristãs, considerando que o período da história pertencente a cada geração é demasiadamente solene, porque é única a oportunidade para demonstrar ao universo, de forma singular, a eficácia da lei de Deus. No entanto, muitas gerações passaram desde a ascensão de Jesus. Se considerarmos que cada geração significa 25 anos, então teremos desde Cristo até agora 80 gerações. Muitas pessoas esperaram a volta de Jesus. Então, por que parece retardar, embora a Bíblia diga que não (II Pedro 3:9)? Por qual razão esperamos ainda?

Há uma explicação na parábola das dez virgens. Jesus avisa que o noivo tarda. Consequentemente, as virgens dormem. Quando dormem, o tempo parece não passar, então é anunciada a chegada do noivo.

Depois da ressurreição de Jesus e a ressurreição especial dos mortos de todas as eras representando o penhor da promessa da vida eterna, Jesus apareceu aos discípulos em Jerusalém e lhes ordenou não dispersassem e esperassem pelo batismo do Espírito Santo. A aparência gloriosa de Jesus alimentava nos apóstolos a sensação de que agora o reino físico e político do Messias seria finalmente implantado e perguntaram: “Senhor, restaurarás tu neste tempo o reino a Israel?” ao que Jesus lhes reponde dizendo: “Não vos pertence saber os tempos ou as estações que o Pai estabeleceu pelo seu próprio poder. Mas recebereis a virtude do Espírito Santo, que há de vir sobre vós; e ser-me-eis testemunhas, tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria, e até aos confins da terra” (Atos 1:7-8).

A resposta de Jesus carrega muita informação. Ele afirma que o tempo é um mistério que pertence a Deus quem mantém o tempo sob seu poder. Aqui está subjacente a luta entre o bem e o mal. O esclarecimento de toda amplitude dos estragos morais provocados pela existência do mal exige um tempo que não pode ser entendido através da nossa compreensão do tempo que é marcado pelos astros que estão no nosso céu. Há interesse universal no esclarecimento do mal, porém, a contagem do tempo não está considerando apenas nosso sistema solar. Há miríades de galáxias e não sabemos quantos planetas habitados há e que sistema de tempo os comanda. Logo, o tempo necessário para que o mal fique patentemente esclarecido de forma universal é um mistério para os homens e foi estabelecido pelo poder e sabedoria do Pai.

Do ponto de vista terrestre, a humanidade que se volta para o bem e para Deus, guardando a lei dos dez mandamentos, será a testemunha dos feitos amorosos de Deus, que para nós se materializaram especificamente por Cristo. A geração que viveu o processo civilizatório no tempo de Jesus tinha um meio ambiente social muito diferente da geração que viveu o segundo século e, sucessivamente, cada geração em séculos subsequentes teve processo civilizatório muito diverso, portanto, o mal também experimentou novos comportamentos sociais e pode adaptar-se de modo a demonstrar nuances e novos tons que não estavam a descoberto para gerações mais antigas. Há aqui uma ideia muito rica da necessidade de gerações para que o mal possa se mostrar sob seus mais variados ângulos. Quanto tempo será necessário para que o universo não caído perceba através da humanidade todas as multiformes maneiras em que o mal pode se apresentar, nos ambientes sociais em sucessão evolutiva nas várias eras? A resposta está na frase de Jesus aos discípulos: “Não vos pertence saber os tempos ou as estações que o Pai estabeleceu pelo seu próprio poder”.

É importante perceber que o processo civilizatório vai se modificando, com novas tecnologias, e estas sempre induzem a novos crimes. Há aspectos criminalistas que não seriam possível pensar sem a internet, não é verdade? No século XVI, as navegações tornaram possível entrar em regiões da terra que não eram conhecidas até então, como consequência, a pirataria marítima passou a ser um meio de enriquecimento patrocinado, em muitos casos, pelos governos da época,  que consideravam o mar um espaço sem legislação; um crime oficial. Mais recentemente, as viagens espaciais trouxeram novas tecnologias que deixaram à amostra tipos de crimes que não eram cogitados no século XIX, sabotagens, tecnologias espaciais não completamente dominadas e que ceifaram a vida de astronautas, tudo capitaneado pela cobiça. A pandemia do Covid 19 trouxe um aspecto novo da disputa comercial que, publicou a moral imunda dos políticos e escancarou crimes que tiraram a vida de muitos. O mal se mostrou mesclado com a medicina e com vacinas sem eficácia. Quanto tempo ainda será necessário para que o mal apareça com todo o seu séquito de consequências?  Neste contexto, somente o Pai sabe quando todo o mal estará universalmente exposto.

De outro lado, pode-se pensar que Deus poderia estar sacrificando muitas gerações para demonstrar a abrangência do mal. Isso pode soar injusto. Todavia, para cada geração também houve toda exposição dos princípios do bem. Por exemplo, Adão viveu quase um milênio e sua principal atividade foi explicar, às várias gerações (pelo menos 40 gerações), as consequências do mal. Era Adão uma testemunha viva à geração antediluviana. Tal geração se perdeu, mas não por falta de esclarecimento, uma vez que juntamente com Adão, outros patriarcas foram os defensores e pregadores da justiça.

Quando Jesus diz que os discípulos seriam testemunhas, nesta afirmativa está incluído todo o universo que não pecou, mas, ouviu a acusação de satanás. Estamos nós, os humanos, os que aceitamos os princípios celestes, com a responsabilidade de demonstrar a efetividade da obediência à lei de Deus em contraste com a humanidade que escolheu desobedecer. Do mesmo modo como o mal se adapta e alcança novas formas de produzir seus efeitos nos vários processos civilizatórios, o bem também sofre adaptações nos vários ambientes sociais das múltiplaseras da humanidade. Muitas formas novas de demonstrar o bem são encontradas para atender demandas civilizatórias. O Rabino Jonathan Sacks, em sua obra “Uma letra da Torá” explica que a Torá não está concluída, porque cada geração a reinterpreta para utilizar os princípios do bem no ambiente social de cada geração e de cada era. Portanto, se o mal é adaptável e tem muitas formas que somente se mostram na evolução da humanidade, do mesmo modo o bem. Quanto tempo ainda será necessário para que ambos, mal e bem, fiquem cabalmente demonstrados? Não vos pertence saber os tempos ou as estações que o Pai estabeleceu pelo seu próprio poder.

quinta-feira, 10 de novembro de 2022

Congregações legitimamente cristãs enobrecerão seus membros

 

A humanidade não percebe, nem de longe, o cruel conflito entre o bem e o mal. O fato de termos origem estruturalmente e moralmente no planeta que protagoniza a rebeldia contra o que o céu chama de bem, torna quase impossível perceber os cinquenta tons de cinza do mal.

A partir da segunda geração de humanos, o homicídio (físico ou moral) tem sido o propelente social mais importante, a crônica que nos faz identificar e reconhecer o que é o sucesso. Neste planeta, o bem-sucedido sempre é o mais suplantador.

Jesus Cristo, quando indagado pelos discípulos sobre qual deles seria o maior no eventual reino terrestre de Cristo, respondeu dizendo: “O maior dentre vós será vosso servo. E o que a si mesmo se exaltar será humilhado; e o que a si mesmo se humilhar será exaltado” (Mateus 23:11-12). A vida do Cristo foi uma vida de serviço. Trabalhou incansavelmente para restauração física e moral dos seus contemporâneos. Na cruz, operou para restauração moral não somente dos homens da sua época, mas, assegurou liberdade moral aos homens das gerações futuras, além de confirmar a redenção àqueles de eras passadas que sofreram opressão moral, porém mantiveram o padrão celeste de liberdade.

Pormenorizando a obra redentora de Cristo: cada pessoa limitada em sua liberdade física por impedimentos anatômicos era sempre libertada pela cura. Os relatos bíblicos sempre descrevem a volta do vigor varonil e do rubor da saúde. Neste contexto, todas as possibilidades se abriam novamente àquele a quem Cristo havia curado. Removidos todos os entraves físicos, estava, portanto, devolvido todo exercício de suas atividades. Por outro lado, a cura da alma (alma significa volição) ou dos impedimentos morais também era oferecida. Na cura de um paralítico em Nazaré, Jesus ofereceu também a cura moral: “Filho, tem bom ânimo, perdoados te são os teus pecados (Mateus 9:2). Seja qual seja a má prática que vem sendo alimentada por longa condescendência que acorrenta a alma, Jesus é capaz de libertar-nos, e anseia fazê-lo comunicando vida à pessoa morta em seus delitos. Libertará qualquer humano fraco e prisioneiro das pesadas cadeias do pecado.

A obra restauradora de Cristo alcançou o zênite no sacrifício da crucificação. Ellen White em sua obra ‘Fundamentos da Educação Cristã’ diz que Cristo: “sofreu tudo isso para que pudesse erguer, purificar, refinar e enobrecer a cada homem, e colocá-los sobre seu trono como coerdeiros Dele mesmo”. Na verdade, uma redenção estruturadora que nos tira de uma situação irremediável, transferindo escravos do pecado à condição de libertos morais.

O cristianismo é uma escola que toma o exemplo de Cristo e transcreve-o como material didático para ser utilizado como código de conduta por aqueles que são formados na referida escola. Há, no entanto, o perigo de haver deriva de conteúdo, uma vez que, no decorrer das eras, o cristianismo como que se transformou numa franquia. Muitas correntes religiosas usam a chancela do cristianismo, mas se utizam apenas  de aspectos estéticos externais sem, contudo, se estribarem nos reais princípios cristãos. Tal qual realizaram os judeus com a Torá, quase que substituindo-a por regras oriundas da tradição humana, tornando sem eficácia os ritos e as cerimônias exigidas na Torá, assim também, muitas alas religiosas ditas cristãs estão atulhadas de tradições distantes do conceito central do cristianismo, qual seja, observar o comportamento de Cristo e imitá-lo.

Em sua maioria, os ramos cristãos veem realizadas ou cumpridas as promessas bíblicas totalmente e somente nesta vida cotidiana. Entendem que recompensas materialistas são a realização das promessas. Mas, o cristianismo primitivo não esperava por recompensas materiais, mas, a ressurreição e a esperança de poder viver aqui um sistema social justo e, no futuro, uma nova terra onde habitará a justiça.

O sistema social justo aqui pressupõe que as pessoas devem ter a liberdade para acessar os meios que lhe permitam ter igualdade de oportunidades. Não existe nenhum outro modo de alcançar essa esperança se não for através de um processo de aprimoramento das pessoas.

Vimos acima que Jesus se sacrificou para erguer, purificar, refinar e enobrecer a cada homem. Essas são ações virtuosas que o cristianismo demanda dos seus prosélitos, e não o auferir de recompensas materialistas. Sistemas religiosos que estimulam rituais que prometem a salvação, explicando que a salvação advém de atos que o indivíduo deve realizar, desde que sejam beatos e repetitivos, estão advogando a negação dos princípios fundamentais do cristianismo, a abnegação, com outrem em seu foco de preocupações e não consigo mesmo.

Neste raciocínio, todo cristão bem formado terá consciência de que sua tarefa é a de erguer, purificar, refinar e enobrecer seu semelhante (Tiago 1:27). Este é necessariamente o comportamento daquele que vive em liberdade, defendendo-a. A melhor apologia à liberdade é promover a liberdade do outro. Todo ramo verdadeiro do cristianismo sempre estruturará um vigoroso sistema educacional. E toda congregação local legitimamente cristã procurará enobrecer seus membros.   

segunda-feira, 7 de novembro de 2022

A morte nivela a todos, mas a ressurreição é específica


Uma das questões mais intrigantes é a discussão sobre qual a diferença entre o destino humano e destino dos animais. Ambos morrem. Ambos têm seu corpo degradado e nada sobra de ambos. O que sucede a um sucede ao outro. Todos vão para um lugar; todos foram feitos do pó, e todos voltarão ao pó. No livro de Eclesiastes, Salomão questiona se o destino humano é diferente do dos animais (Eclesiastes 3). Ele inquire da seguinte maneira: “quem sabe que o fôlego do homem vai para cima, e que o fôlego dos animais vai para baixo da terra?”. No entanto, Salomão percebe que a morte (Eclesiastes 4) pode ser uma benção porque cessam “todas as opressões que se fazem debaixo do sol”; Salomão vê que a vida tem mais lágrimas do que consolos, porque a “força estava do lado dos seus opressores”; os oprimidos não tinham consolador. Assim, Salomão conclui que a situação dos mortos pode ser melhor do que a dos vivos, que têm uma experiencia quase miserável, ajuizando que melhor ainda é a situação dos que não nasceram e, portanto, não conheceram as más obras que se fazem debaixo do sol.

Se nossa perspectiva for apenas construída através da janela desta vida terreal, melhor é não nascer. Porém, a vida é muito diferente na perspectiva do criador da vida.

É certo que a morte nivela a todos, mas a ressurreição torna notável o destino dos mortos justos. Embora tenhamos experimentado opressões que podem causar injúrias deformadoras ou desfigurações morais e físicas, ao Deus ressuscitar seus escolhidos, estes virão à vida no corpo ressurreto e glorioso, não mais sujeito às deformidades morais de agora, mas, perfeitamente capazes de viver num ambiente justo sem opressões; a deformidade moral que os aprisionava está vencida pela morte. O pecado é como a síndrome de Down, não há como livrar-se, a não ser morrendo.  Na segunda vinda os mortos em Cristo, que lutaram com auxílio divino para vencer a escravidão moral ouvirão a voz de Deus, saindo para uma vida imortal e gloriosa. Esta perspectiva real está assegurada por causa da ressurreição de Jesus.

A deformidade moral adquirida pelo pecado tem sua cura assegurada porque Jesus, o cordeiro de Deus, foi morto desde a fundação do mundo. O problema moral que aflige a humanidade, se tratado pelo próprio homem, torna-se incurável. Nada que possamos fazer muda nossa situação (pode um leopardo mudar as suas manchas?), porque nascemos com distorção congênita. Porém, a morte e a ressurreição de Jesus, trouxe uma medicação que melhora nossa condição.

Jesus explicou a Nicodemos como nossa deformidade congênita poderia ser minorada: Necessitamos nascer outra vez. Nascer da água e do Espírito e não mais da carne. Claramente, Jesus advoga a necessidade do batismo por imersão, um simbolismo muito crítico que implica na morte moral para os erros anteriores, o abandono dos padrões pecaminosos mundanos e o ressurgimento para assumir o padrão moral celeste.

Por causa da degradação trazida pelo pecado, tornou-se impossível à humanidade andar em harmonia com a pureza e a bondade. O egoísmo é o resultado da desobediência à lei dos dez mandamentos. Por Adão ter aderido à rebelião da serpente, é possível se pensar que experimentou alterações no DNA, as quais foram transferidas à descendência. Se um problema moral afeta o DNA, então, um bom exemplo moral sadio também pode afetar o DNA.

Por essa razão, Jesus, que era igual a Deus, encarnou para completar duas missões: i) demonstrar aos doentes como era Deus que criou os homens semelhantes a Ele; ii) através da sua vida humana, ensinar como obedecer a lei dos dez mandamentos que fora contestada e comunicar força divina para se unir com o esforço humano.

A imanência de Deus foi também materializada através do santuário terrestre, um edifício portátil que se destinava à morada do Altíssimo entre os humanos. A partir do santuário eram emanados comandos que os fariam moralmente diferentes propondo recuperação e conduzindo os homens à expiação ou à colocação de ordem no caos das relações entre Deus e os homens. O tabernáculo prefigurava a vinda do Messias que habitaria conosco, o Emanuel.

Ao viver entre a humanidade, Jesus oferece um modelo de vida muitíssimo diferente do modelo mundano. Jesus derrota toda opressão causada pelas injustiças (iniquidades) vivendo para servir, um modelo de vida que contraria o egoísmo e demonstra como Deus é em seu dia a dia no comando do universo. Se a humanidade observasse Jesus, chegaria ao arrependimento e, pela fé no modelo Jesus, os caídos filhos de Adão poderiam mais uma vez tornarem-se filhos de Deus.

O batismo das águas é a porta que se abre para que deixemos a condição de filhos de Adão e passemos à condição de filhos de Deus. Há em Deus amor e bondade tais que jamais compreendemos, em virtude de nossa incapacidade de ver e conhecer locais no universo nos quais a justiça é o motor das ações dos seres inteligentes criados. O batismo nas águas simboliza a morte do homem que é segundo a carne ou filho de Adão. Ao ressurgir das águas, o novo homem está livre da imposição do egoísmo e pode, por cópia do exemplo de Jesus, o Emanuel, tornar-se semelhante a Deus, ou filho de Deus, o que significa nascido do Espírito. É bom lembrar que a obra do Espírito é: “quando vier o Consolador, que eu da parte do Pai vos hei de enviar, aquele Espírito de verdade, que procede do Pai, ele testificará de mim” (João 15:26).

Toda humanidade, ainda está sujeita à morte. Porém, os que morrem na condição acima, segundo Jesus, não estão mortos, mas, dormem. A ressurreição de Jesus garante a ressurreição dos que dormem. Agora, devemos entender a razão da ressurreição e da promessa da vida eterna. Jesus encarnou, viveu entre nós, morreu evitando a nossa morte eterna. Para que?

Não sabemos, por absoluta ignorância, qual o significado da vida eterna (no contexto celeste parece estar além da simples ausência da morte) no planejamento governamental de Deus. Morre uma pessoa humana e nós lamentamos, mas, entendemos que ela poderá e deverá ser substituída por outra pessoa. O valor de uma vida, nas circunstâncias deste mundo, não é visto como imprescindível, porque na visão egoísta, uma vida a mais sempre concorre com nossos interesses. Porém, se pensarmos que cada ser humano é produto de uma combinação genética única, jamais ocorrendo de novo, e que essa individualidade carrega uma capacidade única para desempenhar propósitos que ninguém poderá satisfazer de forma semelhante, em virtude daquela combinação única que produz DNA exclusivo, portanto, capacidade individual criticamente única, com dons peculiares. O que deve ser visto é que uma pessoa sempre fará, de forma individual, tarefa que outros também podem fazer, mas, nunca da forma como aquela única combinação de DNA pode desempenhar. Um exemplo do que se está discutindo é o profeta Jonas. O poder de persuasão dele era único. Deus não contava com outro ser humano com esse dom tão devidamente explorado. Jonas não podia ter morrido sem cumprir a missão que somente ele poderia desempenhar a contento. O poder de persuasão de Jonas pode converter 120 mil pessoas em três dias. Qual orador conhecemos hoje que usa a argumentação com o mesmo poder?

Todos nós temos individualidade vertiginosamente única. Há, nos planos de Deus, um propósito que somente a nossa mistura de DNA poderá satisfazer. Se usarmos nossa individualidade para satisfazer nossos interesses egoístas estaremos nos aprisionando na condição de filhos de Adão. No entanto, se usarmos nossa individualidade para servir a outros, no sentido de construir seres humanos, transcenderemos a condição de filhos de Adão, nos assemelhando aos filhos de Deus.

A morte e ressurreição de Jesus assegurou que poderemos nascer, ainda neste mundo, no reino de Deus. Porém, a dimensão da vida eterna nos remete para outro patamar no uso das nossas individualidades. Uma pessoa, que é única, produto de uma combinação exclusiva de DNA, e que carrega, por consequência, dons particulares, tende a melhorar sua capacidade, na medida em que passa o tempo. Podemos imaginar o poeta Davi, com seu dom singular de escrever salmos, vivendo eternamente. se a vida fosse eterna, quanta sabedoria ainda poderia adquirir para escrever com cada vez mais capacidade e precisão sobre como as criaturas devem louvar a Deus.

À humanidade, no futuro, quando todo pecado for superado, caberá a tarefa de garantir a estabilidade do governo de Deus. Como assim? Aos salvos está reservada a missão de ensinar sobre o amor de Deus e demonstrar os efeitos do pecado, para quem jamais experimentou a situação de opressão e desilusão que só a humanidade salva conhece. Nossa tarefa pela eternidade será educar sobre o sistema de Deus que deve permanecer para felicidade do universo. A vida eterna nos dará a oportunidade de ensinar cada vez mais e melhor sobre o amor de Deus. Isaias (65:20) explica que na nova terra, quem tem cem anos é menino. Nenhum outro conjunto de seres inteligentes diferentes dos humanos, têm o dom de ensinar essa dimensão do amor de Deus. Um dom específico.

 

quarta-feira, 28 de setembro de 2022

Relatos desastrosos de pessoas dissimuladas

Nosso limite histórico-temporal impõe algumas aflições intelectuais. Não sabemos nada sobre a origem do universo, por exemplo, temos algumas suposições apenas. Em razão de que a mente humana não aceita que perguntas fiquem sem respostas, em muitos casos, inventam-se fábulas; o big bang ou a explosão inicial é uma destas fábulas. Por que são fábulas? Porque não há registro testemunhal. Nenhum ser humano ou ET esteve no início,  para trazer um relato testemunhal. 

Para os cristãos Deus tem sua existência à parte do universo. Nem poderia ser confundida a existência de Deus com o universo, pois Deus o criou, portanto, Deus mesmo não é parte do universo. Comentaristas dizem que Deus entrou no universo para poder interagir com a sua gloriosa criação. Portanto, Deus fez uma concessão tornando-se imanente ao universo.

O limite intelectual humano sobre as origens do universo e outros assuntos somente é ultrapassado na Bíblia, livro que o cristianismo afiança ser dado por Deus como revelação formal, sendo a única fonte de informações sobre momentos históricos nos quais não há testemunho humano porque simplesmente não existiam humanos.

Um desafio intelectual gigantesco, mesmo tendo a Bíblia, é a origem do pecado. A própria Bíblia chama de mistério do pecado. O relato bíblico diz que um anjo muito elevado, chamado de querubim cobridor, originou o mal no céu (Ezequiel 28:13-19). Como aconteceu? o que sabemos é apenas o relato do profeta Ezequiel: “Elevou-se o teu coração por causa da tua formosura, corrompeste a tua sabedoria por causa do teu resplendor; [...] pela multidão das tuas iniquidades, pela injustiça do teu comércio profanaste os teus santuários[...]”. Então, o elevado status do querubim o fez pensar que ele era superior, constituindo a iniquidade no céu. Também o texto informa que pela injustiça ocorreu a profanação ‘dos santuários’, ou seja, houve a transgressão de princípios e regras, violação e infração dos valores do reino de Deus.

Bom, por que um querubim se torna o violador mor dos valores? O  texto do profeta Ezequiel diz que foi por causa da posição exercida por esse querubim, ele era o querubim cobridor. Era o mais excelso dos seres criados, e o mais elevado incumbido de revelar os propósitos de Deus para o universo. Temos uma noção da tarefa do querubim cobridor, olhando para os dois anjos que estavam na tampa que cobria a arca da aliança no tabernáculo israelita, o propiciatório. As asas estendidas simbolizavam a proteção oferecida à lei que estava dentro da arca. Para aquele querubim estava reservada a tarefa de explicar os propósitos de Deus e o alcance da lei do governo divino. Por essa razão, Deus havia dotado ao querubim cobridor de muita sabedoria. Porém, o texto de Ezequiel explica que o referido querubim tomou como inerente a si mesmo toda virtude originada por Deus, tornando-se, consequentemente, a iniquidade original. Passou então a cobiçar a posição de comandante supremo.

O universo fora criado tendo como fundamento a justiça. Portanto, não se achou mais lugar para o querubim que cobria ou protegia o fundamento do Reino de Deus.

No entanto, a expulsão de Lúcifer não ocorreu sem que houvesse a demonstração de justiça e do amor por parte de Deus. Por seu turno, Lúcifer não deixou que sua cobiça fosse percebida por seus comandados, os outros anjos. A dissimulação foi usada para que não percebessem o real caráter que o querubim cobridor havia cultivado. Deus, todavia, percebera a transformação, e esperou até que as ideias e o caráter do querubim estivessem patentes. A dissimulação é a pior situação em que a criatura pode estar. Em tal circunstância, o mal age para produzir descontentamento e revolta. Orgulho, egoísmo, ódio, inveja, ciúme, obscurecem o poder perceptivo porque são deméritos dissimulados e travestidos de bondade e progresso; tal ambiente é profundamente ofensivo a Deus. O texto de Ezequiel capítulo 28 informa que Lúcifer foi tornado cinza e nunca mais subsistirá.

Na Bíblia há relatos desastrosos de pessoas dissimuladas. Um desses relatos descreve a juventude de Jacó (filho de Isaque e Rebeca), cobiçando a primogenitura. Dissimulou-se diante do pai fazendo-se parecer Esaú. O resultado não foi promissor. Porém, depois de alguns anos, Jacó, no regresso à sua terra natal, pede a Deus que o cure do grave problema moral nutrido há muito, e que ainda lhe abençoe com a virtude da integridade.

Outro forte exemplo de dissimulação veio do rei Saul. O texto bíblico narra que Saul era de porte formoso, mas de intelecto muito pequeno e deficiente em conhecimento. Deus concedeu ao rei o Espírito Santo e instruções específicas e, como consequência, ele obteve melhor compreensão política e mais capacidade de análise tática e militar. Saul, entretanto, pensou que as virtudes desenvolvidas eram produto de sua capacidade mental e passou a pensar e decidir de forma autossuficiente, sem consultar a Deus e ao profeta Samuel. Todos os comandos de Deus tiveram sua análise pessoal e foram reformulados ou não cumpridos. Saul resolveu realizar serviços sacerdotais em Gilgal ultrapassando as fronteiras do cargo real como resultado da avaliação pessoal sobre o que estava acontecendo. Não satisfeito com as ordens dadas através do profeta, se atreveu à exaltação própria e desonrou a Deus pela incredulidade e desobediência. Completado um ano de reinado aconteceu a rejeição de Saul por Deus para o cargo, morrendo em seguida em batalha. Saul dissimulava obediência e persistiu obstinadamente na justificação própria.

A dissimulação leva à separação de Deus. A tarefa de todo cristão é buscar a integridade. Orações precisam ser encaminhadas a Deus para que a virtude da integridade possa ser adquirida. Sempre ocorrerá tragédia enquanto persistir a dissimulação. Enganar é diametralmente oposto ao sistema de Deus. Engano sempre leva a prejuízo, logo, não pode haver solidariedade ao semelhante porque o engano proíbe dependência recíproca.

A escritora Ellen White explica que satanás é cheio de maldade e dissimulação (História da Redenção, p.45), e informa que não deve haver abrandamento da verdade bíblica nem dissimulação pois esse método é satânico (Evangelismo, p.230). Então, tentar atrair pessoas com dissimulações, mudança de identificação, abrandamento dos ritos religiosos pode causar desastre e desonra a Deus. Pior, uma adesão ao caráter do inimigo de Deus. Em tal situação, muitos poderão ser rejeitados.

Voltemos à experiência de Jacó quando trabalhava para seu tio Labão. Jacó sofreu por ser seu tio dissimulado, áspero, enganoso, causando grandes prejuízos emocionais e materiais a Jacó. Um dos maiores pecados no mundo cristão é a dissimulação no trato com Deus. Tomam nas mãos responsabilidades que não são satisfeitas, como se responsabilidades diante de Deus não impusessem nenhuma obrigação. Esta falta de integridade é prevalecente tornando cristãos indignos do nome. “Em verdade te digo que de maneira nenhuma sairás dali enquanto não pagares o último ceitil” (Mateus 5:26), é a sentença que no juízo final se ouvirá se não se buscar a integridade e a veracidade.

A dissimulação tem causado prejuízos às comunidades cristãs através dos tempos. Há pessoas que parecem estar operando em reciprocidade, mas, estão agindo por autossuficiência e exaltação. Muitas vezes paralisam projetos importantes e impedem o progresso geral. Operam no planejamento satânico, em muitos casos, sem se darem conta de estarem cooperando com os poderes das trevas. Desde que foi expulso do céu, Satanás e seu exército de confederados têm sido inimigos declarados de Deus em nosso mundo, guerreando constantemente contra a causa da verdade e justiça. Tal empenho tem levado homens a agirem em favor da rebelião contra Deus e tem ganho o mundo para o seu lado. Mesmo as igrejas professadamente cristãs se têm posto ao lado do primeiro grande apóstata. Facções no interior das igrejas são alimentadas, e além disso, cisões e partidarismos são provocados e, às vezes, desastres morais tão intensos que não permitem restaurações. Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça...

domingo, 18 de setembro de 2022

Tradições passadas de geração a geração

A igreja cristã está necessariamente ligada à saga dos filhos de Deus em manter viva a chama da verdade através das eras. Cada geração dos filhos de Deus resolveu manter-se ligada aos princípios celestes e manteve seu amor à verdade, fato que levou a geração seguinte a aprender a amar a Deus. Nenhuma geração está obrigada a seguir os critérios da anterior porque é livre para determinar sua própria visão de mundo. Há somente uma força que torna possível que uma nova geração suceda a anterior. O amor com que a antiga geração viveu a sua verdade e, por seu exemplo, ensinou-a aos seus filhos, de modo que eles decidiram segui-la.

Em outras palavras, se fosse perguntado aos atuais filhos de Deus, por que são cristãos? A resposta teria que ser: Nossos antepassados eram cristãos porque seus pais o eram também, assim, nossos avós e os avós dos avós eram cristãos. Por essa razão nosso amor pela verdade cristã sobreviveu e chegou até nós; herdamos uma tradição religiosa daqueles que nos antecederam e vamos segui-la e transmiti-la aos que vêm depois de nós. Ser cristão é ser um dos elos de uma corrente que liga gerações.

Entende‑se a tradição como um conjunto de sistemas simbólicos que são passados de geração a geração e que tem um caráter repetitivo. A tradição deve ser considerada uma orientação para o passado e uma maneira de organizar o mundo para o tempo futuro. Herança ou legado passado de uma geração para outra. A Tradição é conhecimento deixado por Jesus Cristo e que vem sendo lembrado às várias gerações pelo Espírito Santo quem tem tornado possível a continuidade da experiência das origens.

A principal diferença entre cultura e tradição é que cultura são as ideias, costumes e comportamento social de um determinado grupo social, localizado no tempo e no espaço. Enquanto que a Tradição é a transmissão de uma geração para outra de costumes e crenças originados por causa da graça divina, mas que não estão limitadas no tempo e no espaço.

Os significados acima são importantes por causa do pensamento que desde o renascimento vem formatando a visão de mundo ocidental, ou seja, acreditar que a partir do momento em que escolhemos como viver, estamos livres para nos desvincular do passado.  Pensadores como David Hume (século XVIII), Immanuel Kant (final do século XVIII início do século XIX) e Jean-Paul Sartre (século XX) impuseram uma ótica quase axiomática de que o ser não poderia, em instância alguma, implicar dever. Fala-se de autonomia no centro da vida moral, ou que a escolha da identidade é pessoal e livre de qualquer vínculo com o passado. Para os membros atuais da humanidade a história não determina nosso papel.

A Bíblia diz que o contato que temos com Deus se dá através da palavra. Logo, a Bíblia é nossa fonte autoritativa das tradições. Assim, somos informados que para os cristãos a história de uma única geração não é toda a história. Tal como em música, uma melodia é mais do que uma reunião de notas, assim como um quadro é mais do que um conjunto de pinceladas, a sequência da história compõe um todo, sendo que as vidas individuais escrevem partes do todo, sendo a somatória das vidas formadora do drama em andamento, cujo começo está nas gerações ancestrais e deverá continuar com as gerações futuras, ou seja, o cristianismo é a insistência de que a história tem um significado. Por esse motivo, cada geração e cada indivíduo tem um significado preciso dentro da história do plano da redenção. Somos indivíduos devotados a certas ideias e não átomos flutuando livremente no espaço. Facilmente podemos entender que a geração atual de cristãos tem a solene responsabilidade de não descontinuar a história que ainda não está concluída. Filhos deverão ser ensinados “assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e deitando-te e levantando-te” (Deut.6:7). A razão para tal preocupação é que cada geração faz parte de universos culturais característicos de cada país, mas, nascemos cristãos, consequentemente, somos herdeiros da história dos nossos antepassados e responsáveis pelo destino que une nossas vidas com as dos antepassados. Não importa onde estamos, mas, o que somos. O fato de termos nascido cristãos não é um fato qualquer, pois somente pode ter acontecido porque dezenas de gerações ancestrais resolveram permanecer cristãs, assim transmitindo nossa identidade aos descendentes, uma notável história de continuidade.

Atualmente parece haver incompreensão dessa jornada, uma vez que as igrejas estão buscando quebrar as tradições. Chama atenção a falta de compromissos assumidos por agentes de um passado recente e que às gerações atuais parece não significar nada. No Brasil, tem-se testemunhado o descompromisso constitucional, por exemplo. Tal situação é muito desequilibradora e causa aflição no presente e fortes suspeitas de infelicidade no futuro. A falta de compromisso com a história é avassaladora. Este clima está ambientando as igrejas também.

A morte da Rainha Elizabeth II do Reino Unido tem ensinado lições importantes sobre as tradições. O funeral de sua majestade consiste em um processual rigoroso. Mentes simples não conseguem aquilatar o significado de cada passo das exéquias. Parece que as ações são exageradamente realizadas com metodologia complexa e exata. No entanto, cada passo no processual reflete o nível civilizatório dos cidadãos do Reino Unido. Aquele tipo de ritual é absolutamente único e próprio da realeza britânica e não poderá ser achado em outros países. Tais tradições identificam os ingleses.

A tradição deve ser considerada uma orientação para o passado e uma maneira de organizar o mundo para o tempo futuro. Se para uma Rainha morta o processual é rigorosamente executado, o que diremos sobre o processual para um Deus que está vivo e que determinou como deseja ser cultuado? Será que a atual geração de cristãos tem o direito a mudar as tradições confundindo cultura com tradição? Confundindo modernidade com tradição? O que poderá resultar de ações que anulam as tradições cristãs? Há tradições sendo anuladas nos rituais dos cultos a Deus. Há tradições sendo anuladas na maneira como a geração atual ensina os filhos sobre as mesmas tradições. Há passos sendo tomados sem a sabedoria necessária para atender comandos divinos que são anulados porque as fábulas humanísticas-cientificas atuais são fascinantes e parecem mais adequadas que as tradições bíblicas. Difícil imaginar que a atual geração será a que anulará a tradição que vem senda tenazmente mantida pelas gerações anteriores, tornando-se responsável por um desastre.

 

domingo, 31 de julho de 2022

Dois corais, uma tarefa

 

Música é um idioma falado por pessoas que aprimoraram a mente. Muitos dizem que são músicos, todavia, nada sabem do porquê a nota dó assim se chama. Não entendem a razão das orquestras, nem tampouco sabem de como os instrumentos de cordas fornecem a harmonia estrutural, nem sabem qual a sequência lógica do agrupamento de notas que formam o acorde e mais, por que as notas que formam o acorde estão agrupadas daquela forma e não de outra forma? Alguns tomam a posição de liderança musical nas igrejas, sem qualquer entendimento teórico musical, faltando ainda aprofundamento teológico para gerenciamento do ambiente musical eclesial. A ausência de aprofundamento musical e teológico leva a deformações nas escolhas dos repertórios dos grupos, assim como à deriva das condições do louvor recomendadas por Deus.

A harmonia musical, uma ciência desprezada pela quase totalidade dos músicos nas igrejas, é o background que permite escolhas adequadas de arranjos que levam o ouvinte a ser tocado e a uma experiência de enlevo. Mesmo músicos que sabem ler partituras negligenciam o estudo da harmonia, tornando-se repetidores sem a inteligência para execução (eu sei que estou falando grego).

A música coral ou a polifonia no ambiente cristão deve ser vista como unidade didática para o aprendizado da cooperação. Mas, quase invariavelmente somente a arte é efetuada. Não é sem razão que nas ocasiões em que a música celeste foi ouvida por humanos, sempre o foi a partir de corais. Contudo, principalmente o trabalho de um coral aperfeiçoa a inteligência emocional para o trabalho em equipe, a razão da distribuição dos dons na igreja. Olhando mais de perto, um coral sempre está formado por pessoas muito diversas, mas, que estão empenhadas em emparelhar seus talentos para efetuarem um resultado. Necessariamente, um coral representa, em essência, o trabalho que deveria resultar da atividade de uma comunidade eclesial. Dependendo de quem ouve o coral, a música pode alcançar objetivos múltiplos. Porém, o trabalho em equipe representa o esforço de muitos para o deleite e o aperfeiçoamento daquele que ouve.

No sábado 30 de julho de 2022, no templo Adventista da Cachoeirinha, em Manaus, Amazonas, houve uma apresentação de dois corais e mais outros dois grupos musicais. Aliás, o canto coral deveria ser muitíssimo incentivado nas comunidades, pois essa atividade aproxima pessoas e desenvolve senso de comunidade. Ao redor de sessenta pessoas compunham os grupos musicais. A principal apresentação ficou a cargo do Coral Adventista de Manaus, um grupo de membros do templo Adventista Central do bairro da Cidade Nova. O grupo comemorava o 14º aniversário de atividades. Apresentaram algumas músicas individualmente, mas, uma das músicas foi em conjunto com o coral da Cachoeirinha, quem albergava o encontro.

Os dois corais fizeram seu melhor. Havia entusiasmo em ambos os corais em não falhar, mas, apresentar seu digno trabalho para o deleite dos ouvintes e, especialmente o louvor a Deus, quem distribui os dons. Na atmosfera que enchia o templo não se notava nenhuma iniciativa relacionada a disputas ou superioridades. Uma das músicas envolveu a participação da congregação e produziu ainda maior efeito de integração. É comum em ocasiões em que ocorre a comparação entre grupos vocais em templos, o surgimento de uma atmosfera que deixa transparecer a superioridade de algum grupo. Se Deus opera na harmonia, em situações em que alguém deixa aparecer superioridade, há também a desaprovação divina. Todavia, na apresentação dos corais em pauta, não estava presente o espírito de superioridade, por essa razão, ambos tiveram a chance de oferecer o seu melhor.

Uma nota soou dissonante. O templo da Cachoeirinha estava com assistência média, sendo a maioria das pessoas que assistiram visitantes de outras comunidades. É importante que os membros prestigiem essas ocasiões, pois o sentido de comunidade é desenvolver experiencias comuns; se não posso cantar, mas, pertenço a uma comunidade, devo apoiar. Há locais onde esse senso de comunidade é muito aguçado. Infelizmente não é o caso da Cachoeirinha. Os membros não prestigiam por não sentirem que devem aprender a ser um com os demais. É como se o esforço de alguns não dissesse nada aos outros, ou melhor, numa comunidade, qualquer esforço de uma fração das pessoas, deve ser encarado como pertencendo a todos. Esta compreensão fortalece o bem comum e cria tradições que enraízam adultos e jovens. Por outro lado, a música sacra produz um efeito educativo que reduz estresse, refina a alma, sendo parte essencial do polimento pessoal. Pessoas gentis, corteses e doces sempre estão associadas às artes. Pode ser que algum artesão seja rude, mas, trata-se de uma exceção.

A liderança nas comunidades cristãs deveria esforçar-se por tornar comum o interesse por todas as atividades dos comunitários. Tal comportamento aumenta a segurança da comuna, além de estabelecer a guarda da lei de Deus.

Depois de encerradas as apresentações, aos coristas e seus familiares foi oferecido um cocktail. O ambiente era de grande fraternidade e alegria. Duas comunidades estavam juntas e se alegravam em felicidade por causa da sensação de tarefa cumprida. Muita descontração e estreitamento de amizades. Foi um exercício de justiça e fraternidade. Justiça porque todos participaram de igual modo dos alimentos oferecidos, e de fraternidade considerando que houve sorteios, mas, os sorteados foram todos. 

quinta-feira, 21 de julho de 2022

Comunidades cristãs são janelas que deixam ver a multiforme sabedoria de Deus

 Começa-se com uma pergunta essencial: por que Deus instituiu a igreja? Por que indivíduos isolados não são suficientes?

No reino de Deus, a coletividade desempenha papel capital. A razão é que Deus fez os seres inteligentes à sua própria imagem. Porém, Deus possui (Efésios 3:10) sabedoria multiforme e esta somente poderá ser conhecida através da multiforme operação da comunidade criada por Deus, ou seja, a igreja. Multiforme significa com forma, aspecto e/ou estado diversos e numerosos. Deus é transcendente, excede os limites normais, está além da natureza física das coisas. Logo, mesmo que suas criaturas tenham semelhança com Ele, são menores e limitadas, não conseguem possuir multiformidade pessoal. Por esse motivo, a única forma de compreender a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade, e conhecer o amor de Deus, o qual excede a todo entendimento (Efésios 3:18-19), sendo que não vemos fisicamente a Deus, é através da multiforme distribuição dos dons dados à igreja que, quando vistos no seu conjunto, podem dar um vislumbre sobre a sabedoria de Deus. Os dons na igreja tornam possível alcançar a exaltada plataforma da verdade eterna – os mandamentos de Deus que determinam a cooperação, e a fé de Jesus, o homem que não suspeitou de Deus.

Através dos dons distribuídos (já que as criaturas não têm a multiforme sabedoria) Deus nos ensina a convergência ou a cooperação. Se os dons estão distribuídos, então, os membros da igreja não possuem a plenitude, assim devem aprender a cooperar, sendo que a convergência torna possível a multiformidade. Logo, não poderão estar em divergência, um crendo e operando de um jeito, movendo-se cada qual independentemente, o que torna impossível a fé por causa de posições opostas. A unidade da fé somente é alcançada quando entendemos que a multiformidade se manifesta na convergência dos dons.

As tentações sempre objetivam desagregar. Os filhos de Deus são instados/tentados a utilizar seus dons individualmente, ou mesmo que se agrupem, o fazem pela liderança de um indivíduo que usa a diversidade para si mesmo. Neste caso, há total impossibilidade para multiformidade.

A comunhão, ou seja, o ter algo em comum, significa que nosso alvo é demonstrar as virtudes daquele que nos tirou das trevas. Através da comunhão entramos no caminho estreito da obediência, porque ocorre o renovar de mentes, deixando para traz o egoísmo unindo-nos aos outros irmãos que possuem outros dons e a Deus. Tal unidade produzirá a multiformidade, e esta, proporcionará a fidelidade que será necessária até o fim.

Filhos de Deus serão habilitados com grande capacidade intelectual, rapidez de discernimento para que percebam as necessidades dos semelhantes e empatia (Atos dos Apóstolos, p.195), colocando-os em ligação com outros. Sua capacidade intelectual tornará possível despertar nos semelhantes sua melhor natureza, de modo a fazê-los lutar por uma vida mais relevante. Sempre um filho de Deus trabalhará para o erguimento e para a construção de pessoas mais dignas e justas, sendo que esta obra os colocará como soldados bem treinados no grande conflito.

A igreja é a menina dos olhos de Deus por força da sua função. Através dela, e somente através dela, é possível ver a imagem de Deus e sua multiforme sabedoria, se e somente se os filhos de Deus compreenderem que os dons distribuídos tornam criaturas limitadas capazes de transcenderem seus limites através da unidade e cooperação, assim, tornando possível como por um espelho, o reflexo da glória de Deus, sua multiforme sabedoria (2 Coríntios 3:18).

Imaginemos agora um grupo de crentes compreendendo o que significa uma comunidade, expressando concordância, concerto, harmonia. Os que pertencem à família da fé nunca devem negligenciar a comunhão. É o meio designado por Deus para levar seus filhos à unidade, pois é a forma única de ajudar, fortalecer e animar uns aos outros.

Sempre que membros das comunidades cristãs usam seus dons para notabilidade agradarão a Satanás e seu exército caído. Atualmente há muitas demonstrações de membros que trabalham seus dons para auferir lucros pessoais. Muitas lideranças há que discursam sobre a comunhão, mas operam seu próprio engrandecimento; na verdade fazem parte do que Jesus chamou de sinagoga de Satanás.

As comunidades dos filhos de Deus necessitam de uma experiência mais profunda no aprendizado da cooperação. Não sabem exatamente o que significa contemplar a glória de Deus e ser transformados de caráter em caráter. Quando novatos chegam nas comunidades veem os primeiros raios do alvorecer da glória de Deus, todavia, não se enchem de toda plenitude de Cristo, o sol da justiça. O fato é que as comunidades não operam a comunhão, não trabalham usando os dons em paralelo para que a multiforme sabedoria seja evidenciada. Na medida em que o fim se aproxima, as comunidades deverão ter aprofundamento na palavra para que, utilizando a multiplicidade dos dons haja fortalecimento da imagem de Deus na igreja.