domingo, 19 de julho de 2020

Abrindo as janelas da alma à luz da fé



Li uma entrevista com um pastor evangélico falando sobre o Covid19, na qual ele dizia: “Nessas provações extremas há necessidade vital de encontrar a paz da alma, e isso é experimentado por pessoas secularizadas tanto ou mais que qualquer outra pessoa. Ajudemos aqueles que ainda se debatem nas trevas da dúvida a manter abertas as janelas da alma à luz da fé”. Pensando um pouco nas palavras acima, dá-nos a impressão de que se quer dizer alguma coisa efetivamente concreta, mas as palavras carregam subjetividade desconcertante.

Como identificar aqueles que se debatem nas trevas? Como manter abertas as janelas da alma à luz da fé?

As perguntas acima usam palavras que são parte do jargão utilizado pelos cristãos. Todavia, tais palavras são aparentemente ilusórias, porque parecem falar de sentimentos que pertencem a sujeitos e consciências, não sendo uma percepção coletiva. Portanto, no campo das hipóteses.

Todavia, a Bíblia, a palavra autoritativa de Deus, informa que há uma liderança à qual chama de inimigo ou Satanás, buscando ou procurando destruir outra liderança reconhecida como O Senhor. Neste ambiente, pessoas estão sendo cooptadas.

O Inimigo destrói pessoas colocando-as perigosamente em um campo oposto ao do Senhor, do qual vem toda a vida. Logo, seria oportuno perguntar como ocorre essa destruição e quem são os perdidos?

Está-se falando do valor de uma vida ou sobre a singularidade da vida humana. Homens foram criados conforme afirma a Bíblia (Gênesis 1:27). São seres autoconscientes, capazes de olharem para si mesmos questionando sobre a sua criação. Podem examinar-se e admiram-se com a sua própria complexidade. Observam a natureza, descobrem sistemas, veem criaturas e percebem a expressão da sabedoria e do poder de Deus codificado na natureza. Porém, os homens têm ainda a capacidade de comunicarem-se entre si utilizando a sua mente; também podem se comunicar com o Criador através da mesma mente.

O fato de terem sido criados por Deus à sua imagem sugere que os humanos devem ser um reflexo do caráter do seu criador; são moralmente semelhantes a Deus. Logo, claramente há um sistema moral construído por Deus, muito diferente ao sistema moral proposto pelo inimigo.

No capítulo 1 do livro das Gênesis Deus é apresentado como criador, mas, é também descrito como pessoa que está trabalhando e criando, portanto, é criativo. Se os seres humanos são Seu reflexo, estes deverão ser criativos e produtivos. A produtividade no reino de Deus está definida na própria semana da criação. Em seis dias fez Deus. Assim, aos homens foi solicitado que deviam ser produtivos durante seis dias, mas, no sétimo dia deveriam descansar para que em comunhão com a mente de Deus pudessem garantir enriquecimento mental para sua própria criatividade, mas, especialmente para produzirem enriquecimento na existência de todas as criaturas. A vida humana é atualizada através da criatividade e produtividade. Essas qualidades visam (no ambiente do Reine de Deus) beneficiar os outros e glorificar a Deus. Esse é o papel singular da vida humana.

Voltando à pergunta feita acima, a destruição provocada pelo inimigo anula a produtividade exigida por Deus. Se todos os homens foram criados com a especial tarefa de enriquecer a existência dos outros, negar essa condição significa destruí-los. Logo, aos cristãos é dada a missão de ajudar na salvação da humanidade, restaurando nas pessoas a sua capacidade cooperativa.

As igrejas cristãs, de um modo geral, inspiradas pela teologia católica, compreendem que ajudar na salvação é ensinar o catecismo, ou seja, o conjunto dos princípios essenciais de uma religião. Mas, a Bíblia não é um catecismo, ela é a palavra de Deus escrita aos homens, contendo instruções para que voltem a ver o potencial dado por Deus a cada pessoa. Tal potencial é sua capacidade cooperativa para enriquecimento da vida de outros. Na Bíblia estão descritos o comportamento dos homens antes da queda moral provocada pelo inimigo, a experiência humana como participantes do conflito entre o sistema moral de Deus e o do inimigo, e o vitória final do sistema moral de Deus. Neste contexto, as instruções de Deus são autoritativas e devem ser obedecidas. Porém, a humanidade, inspirada pelo sistema inimigo, criou catecismos com níveis profundos de subjetividade que embaraçam o claro assim diz o Senhor. Por essa razão, veio Jesus Cristo, o homem que cumpriu integralmente o sistema moral de Deus, tornando-se por consequência, o exemplo a ser seguido pelos que desejam voltar ao sistema moral de Deus. Logo, aprender o método de Jesus e desdobrar a verdade do caminho da salvação é a forma de revelar o retorno ao sistema moral de Deus.

As igrejas cristãs deveriam revelar os mistérios do Reino de Deus e não seus catecismos. Se no comportamento de Jesus estão os mistérios acima, então, estamos diante da verdade tal qual é. Jesus (Mateus 4:23-24) andava fazendo o bem e tornando melhor a vida de todos quantos entrava em contato. O apóstolo Pedro (I Pedro 4:19) recomenda que: “Portanto também os que padecem segundo a vontade de Deus encomendem-lhe as suas almas, como ao fiel Criador, fazendo o bem”. Nas palavras de Pedro está o dever dado aos cristãos: copiar a Jesus Crista e socorrer os pobres, cuidar dos doentes, confortar os aflitos e os que sofrearam perdas, instruir os ignorantes, aconselhar os inexperientes. Cada cristão deve estar alinhado ao poder de persuasão, ao poder da oração e ao poder do amor de Deus; esta obra jamais ficará sem frutos.

O dever das igrejas, ou seja, dos fiéis, é advertir a humanidade para que sigam a Cisto, copiem o seu comportamento estudando a Sua vida. Tal conduta significa aceitar a Jesus. Assim, os que aceitam a Cristo, tendo a mente unida a Dele, terão olhos de compaixão a todos os outros homens. O sistema moral de Reino de Deus impõe que os cristãos levem a palavra de misericórdia, que tirará das travas os perdidos, através do serviço pessoal. A viúva, o órfão, o moribundo etc., sempre precisarão ser ajudados. Estas são as oportunidades para proclamar o evangelho, o qual nada mais é do que apontar esperança e consolo a todos os homens. Quando os sofrimentos do corpo tiverem sido aliviados, e tivermos demonstrado o mais vivo interesse pelos aflitos, o coração se abrirá, e poderemos verter nele o bálsamo celestial. O proselitismo parece ser um produto secundário e não um objetivo comunitário das igrejas.

Manter abertas as janelas da alma à luz da fé significa crer em Jesus Cristo como o modelo o qual, se copiado, abrirá o caminho para entrar no sistema moral de Deus e deixar de debater nas trevas morais onde a competição (sistema moral inimigo) produz insegurança, dor, desalento, aflição e morte. Foi Jesus quem disse: Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim (João 14:6). Em outro momento disse Jesus: Eu sou a luz que vim ao mundo, para que todo aquele que crê em mim não permaneça nas trevas (João 12:46).

quarta-feira, 1 de julho de 2020

Covid 19 e Adoração


A pandemia que assolou o mundo neste início de 2020 trouxe consigo muitas tristezas, perplexidades aos montões, discussão de novos alinhamentos sociais, deixou a descoberto mazelas econômicas e morais, expondo especialmente políticos oportunistas e corruptos, mas, sobretudo, causou muita reflexão religiosa.

Lemos muitos textos de analistas que previram coisas sensatas e concluíram alguns absurdos. Muitos clérigos aproveitaram para capitalizar a fidelidade dos membros das igrejas apregoando terror, todavia, a pandemia expôs muitos milagreiros, charlatões evangélicos, que não tiveram poder para curar nenhum doente.

Através da história pode-se ver que, em grandes rasgos, depois da era cristã, há uma pandemia a cada 100 anos. Há cruzamentos de variáveis que informam algumas relações de causa e consequência, como por exemplo, todas as vezes em que a economia mundial está forte, produzindo estabilidade social e homeostase orbital também ocorre uma calamidade como a que presenciamos recentemente. Tais verificações parecem mostrar que há um controle específico sobre a autossuficiência humana.

Claramente, uma das pilastras mais importantes, na qual a humanidade sempre se apoiou, é a economia. A outra é a religião. Assim, sempre que a economia parece sustentar a altivez dos homens, algo sinistro parece dizer que nossa confiança na competência humana é estreitamente limitada e não oferece segurança. Tudo ficou muito claro na falta de lucidez com que as autoridades mundiais e locais lidaram com a pandemia. Agora que já há experiência científica adquirida com o tempo, alguns protocolos médicos estão prevalecendo e diminuindo as perdas, mas, tudo é incerto e como no caso brasileiro, a doença se transformou em aproveitamento econômico e exacerbações de correntes políticas.

A quem recorrer quando a altivez e o conhecimento humano estão em teste?

Na Bíblia, o profeta Isaías, no capítulo 58:7-8 diz: “Porventura não é também que repartas o teu pão com o faminto, e recolhas em casa os pobres abandonados; e, quando vires o nu, o cubras, e não te escondas da tua carne? Então romperá a tua luz como a alva, e a tua cura apressadamente brotará, e a tua justiça irá adiante de ti, e a glória do SENHOR será a tua retaguarda”.

O texto informa que a injustiça social acarreta adoecimento. Assim, sempre que a economia está forte, poucos enriquecem e muitos são injustiçados. Tal situação estava sendo a realidade brasileira. Cerca de 500 parlamentares e políticos estavam acumulando riqueza às custas de 200 milhões que pagam seus impostos. Então, veio juízo sobre alguns que chefiavam esquemas corruptos e, em seguida, o povo foi assolado também, considerando que o próprio povo não pratica a justiça social. Ficou evidente a iniquidade popular quando o governo ofereceu o benefício de R$600,00 (seiscentos Reais) para os informais e transparentes à economia formal. Muitos aproveitaram para auferir um benefício do qual não necessitavam, ou usaram de falsidade ideológica para conseguir vantagens.

É importante salientar que, embora possa parecer que o governo planetário está nas mãos humanas, quando Jesus ressuscitou fez a declaração de que todo o poder lhe fora dado no Céu e na Terra. Em I Pedro 3:22 lemos: “O qual está à destra de Deus, tendo subido ao céu, havendo-se-lhe sujeitado os anjos, e as autoridades, e as potências”. Logo, os governos terrestres são uma concessão divina. Embora haja leis formuladas pelos parlamentos das nações, a que prevalece é a lei do Reino dos Céus. Considerando que a injustiça social é a quebra da lei de Deus, sempre que a economia se fortalece, há aumento da injustiça, assim, juízos podem ser aplicados.

Para as comunidades cristãs, o covid 19 pode oferecer aprimoramentos comportamentais mais consentâneos com a realidade do Reino de Deus, a qual está expressa na Bíblia. O fechamento dos templos não trouxe isolamento social para os crentes. Estes passaram a ter reuniões virtuais e estudos bíblicos em pequenos grupos. Tal procedimento propiciou maior justaposição (ainda que virtual) trazendo aquecimento social com maior preocupação com o bem estar dos semelhantes. Intimidade, apesar da distância, foi a aquisição vantajosa, pois trouxe mais oportunidade para conhecer as alegrias e as lutas dos companheiros de adoração.

O fechamento dos templos não interrompeu a adoração. Esta é, segundo o profeta Isaías, em realidade, uma forma de pensar e, especialmente, uma atitude, não um momento. Assim, a adoração em grupos menores é um incentivo ao cuidado mútuo. Logo, maior proximidade com as exigências de Isaías 58. As reuniões virtuais trouxeram a dimensão da intimidade e também da responsabilidade pela espiritualidade, pois ajudou a aumentar a cooperação para edificação do semelhante por consequência das reuniões domiciliares. Eram igrejas nos lares, as quais podem se tornar uma tendência depois da covid 19.

Vi um vídeo publicado no Youtube com observações sobre a monotonia dos cultos nos templos. Aquele que reclamava dizia que a adoração estava carregada de coisas aborrecíveis e pouco atraentes. Certamente, a adoração nos templos está carregada de preocupações humanas que são muito distintas da verdadeira adoração. Conforme Isaías, adorar tem a objetividade de ser uma resposta ao incrível amor de Deus. Se estou feliz e plenamente satisfeito com o carinho de Deus, sendo criado à imagem de Deus, procurarei realizar serviços que tornem felizes e satisfeitos outros semelhantes, refletindo assim, o amor, a graça e a compaixão que têm origem em Deus, de quem eu mesmo provenho.

Salmos 85:8 diz: “Escutarei o que Deus, o SENHOR, falar; porque falará de paz ao seu povo, e aos santos, para que não voltem à loucura”. Talvez essa última epidemia tenha trazido a oportunidade de criar um ambiente onde a nossa história e a expectativa de Deus se encontrem. Se estamos percebendo que as desigualdades (iniquidades) estão prevalecendo, que as nações agem com todo o rigor que o sistema econômico egoísta requer, inclusive aproveitando situações de fragilidade para aumentar seus lucros; na condição de estudiosos das Escrituras Sagradas fica obvio ver que o covid 19 pode representar juízo. Mas, nossa atitude em relação a esse momento deve ser de escutar ao Senhor e não procurar mais a loucura.

Agora começaram as negociações para a reabertura dos templos. Sem emitirmos qualquer juízo de valor, deveríamos buscar ver se os líderes religiosos estão alertas para os resultados dessa pandemia e quais as lições que deveriam ser incorporadas na realidade das igrejas. O simples voltar aos templos não implica em adoração. Pode ser que a maior preocupação seja a questão econômica. Se for esse o motivo da reabertura dos templos, nada foi aprendido com o juízo que assistimos. Juízo? Isto é verdade?

Terminamos com o seguinte texto que achamos na internet:
“Na edição eletrônica da Advent Review do último 4 de abril, Melchor Ferreyra fez menção a uma carta escrita por Ellen White, em 13 de agosto de 1894, a Stephen N. Haskell, apresentando profunda preocupação com as pessoas que estavam morrendo por causa do vírus influenza. Ela escreveu: “Em Nova Gales do Sul, fomos provados e testados com a epidemia de gripe. Quase todas as famílias foram atingidas nas cidades e no campo. Alguns estão agora muito, muito doentes. Suas vidas estão penduradas por um fio. Oramos pelos enfermos e fizemos o que pudemos financeiramente e agora esperamos o resultado. […] Em um só dia, na semana passada, houve onze funerais. […] Fui severamente atacada e não posso participar de reuniões há quatro semanas; mas não desisti de levantar cada dia. Escrevi minha cota de páginas quase todos os dias, apesar de tossir, espirrar e sangrar pelo nariz. Quase todo mundo ao redor sofreu, mas agradeço ao Senhor por estar melhorando e tenho boa coragem no Senhor. Faremos tudo o que pudermos em nome do Senhor. […] O povo de Deus está sendo provado e testado e que Deus me conceda ser capaz de ajudá-los durante esse tempo. […] Que eu possa me apegar a Jesus com mais firmeza do que nunca” (Carta 30, 13 de agosto de 1894)”.

segunda-feira, 8 de junho de 2020

Sola Scriptura



O princípio Sola Scriptura deve ser considerado e observado, mas sobretudo entendido. A razão para o referido princípio é que a Bíblia não é apenas mais um livro, ou ainda, um livro escolhido entre tantos, para servir de base ao cristianismo. Essencialmente, é o único livro contendo a verdade. O problema é saber de qual verdade falamos?

Uma pergunta que todos fazem: o que é a verdade? Essa pergunta é respondida somente pela Bíblia. Esta toma como ponto de partida o primeiro versículo do primeiro capítulo de Gênesis, o qual explica as origens e, logo, esclarece qual cosmologia deve ser seguida.

Neste mundo há duas visões cosmológicas. Deu um lado, Deus é o criador; todas as coisas têm uma origem divina. De outro lado, o universo conhecido é produto do acaso. Dependendo da cosmologia assumida, seremos colocados frente a uma verdade ou uma fábula, porque ambas cosmologias são excludentes.

Para os cristãos, as origens estão no livro de Gênesis; Deus criou todas as coisas no princípio. Se Ocorreu a chamada criação Ex nihilo (do nada), então, toda explicação contida na Bíblia fala de uma realidade que transcende à Terra. Consequentemente, toda e qualquer literatura é inferior a Bíblia, considerando que descer na Lua foi a maior incursão que um homem pode fazer no universo alcançando apenas um apêndice da própria Terra. Assim, por não conhecermos nada do restante do universo, a Bíblia, que fala deste universo, tanto do ponto de vista físico, como do ponto de vista moral, torna-se a única referência ou fonte descritora da realidade terrestre e ulterior. Qualquer outra literatura pretendendo descrever tais realidades o fará necessariamente baseada em aspectos terrenos, se forem descritos fatos físicos, mas, se forem descritos fatos morais, também falarão sobre razões terrenas, simplesmente porque os humanos não conhecem nada além do seu próprio planeta.

A Bíblia é uma revelação do caráter daquele que fez os céus e a Terra. A motivação para a efetiva escrita do texto bíblico está no âmbito do grande conflito: “E houve batalha no céu; Miguel e os seus anjos batalhavam contra o dragão, e batalhavam o dragão e os seus anjos” (Apocalipse 12:7). O que resultou desse conflito foi a existência de dois sistemas morais que são antagônicos. Cada qual demonstra o caráter de quem o idealizou. A consequência da batalha está no que segue: “Mas não prevaleceram, nem mais o seu lugar se achou nos céus. E foi precipitado o grande dragão, a antiga serpente, chamada o Diabo, e Satanás, que engana todo o mundo; ele foi precipitado na terra, e os seus anjos foram lançados com ele” (Apocalipse 12:8-9). Logo, o sistema moral imposto à Terra foi o do dragão.

A Bíblia contém o sistema moral de Deus, o qual não tem nada em comum com o outro sistema. Ao sistema de Deus a Bíblia chama de luz e não há nenhuma comunhão, ou seja, partes superpostas, entre luz e trevas (II Coríntios 6:14). Por essa razão, a Bíblia é única, reveladora de uma verdade que não é parte da realidade terrestre, sendo o grande instrumento para transformação dos caracteres daqueles que noutro tempo eram trevas, mas agora são da luz (Efésios 5:8). Com tal compreensão, qualquer outro livro, escrito por homens limitados no espaço, não poderá conter a verdade tal qual está na Bíblia. Recebidas as verdades bíblicas, estas elevarão a mente e promoverão retidão interior, firmeza de princípios, habilidade para resistir os apelos do sistema moral do dragão.

Os cinco primeiros livros da Bíblia (Torá) contêm todo sistema moral de Deus. Ali percebe-se, por contraste, o antagonismo que há nos dois sistemas.

O ambiente social ensinado e exigido pela Torá promove uma rede de cooperação que atua em todos os níveis das relações humanas. Regula, especialmente, as transações comerciais, as ligações religiosas e as composições familiares. Em todas as operações sociais estão as digitais de Deus, definidas em I João 4:8 : “Aquele que não ama não conhece a Deus; porque Deus é amor”. João define o sistema de Deus cuja base é o amor, ou seja, a doação ao outro. Obviamente, o sistema mundano é o egoísmo. Este princípio regula as transações terrestres. A cosmologia do dragão impõe a competição. Os seres vivos competem por espaço, manutenção, procriação etc. Também o sistema social é fortemente competitivo; a máxima no sistema do dragão é a sobrevivência do mais apto. Incompatibilidade entre luz e trevas. Jesus explicou esse antagonismo afirmando: “[...] porque se aproxima o príncipe deste mundo, e nada tem em mim” (João 14:30).

Há inúmeras publicações de cunho teológico tentando inserir mecanismos comportamentais baseados no conhecimento humano, no sistema moral de Deus. Muitos aspectos da chamada psicologia são evocados e colocados como pré-requisitos para o reino de Deus. Por exemplo, dizem alguns autores que é necessário que uma pessoa primeiro atenda a si mesma para que possa proporcionar qualquer tipo de aceitação ou ministração ao próximo. Esse é o princípio da psicologia, ame primeiro a você para poder amar ao outro. Esse tipo de conhecimento é baseado puramente em observações do próprio comportamento humano, o qual é formatado por homens que nunca saíram da Terra. Ora, se a Terra promove a cosmovisão do dragão, como a teologia (conhecimento de Deus) poderá apoderar-se do conhecimento que não transcende esse planeta?

O princípio bíblico é justamente o oposto. “Porventura não é este o jejum que escolhi, que soltes as ligaduras da impiedade, que desfaças as ataduras do jugo e que deixes livres os oprimidos, e despedaces todo o jugo? Porventura não é também que repartas o teu pão com o faminto, e recolhas em casa os pobres abandonados; e, quando vires o nu, o cubras, e não te escondas da tua carne? Então romperá a tua luz como a alva, e a tua cura apressadamente brotará, e a tua justiça irá adiante de ti, e a glória do SENHOR será a tua retaguarda. Então clamarás, e o SENHOR te responderá; gritarás, e ele dirá: Eis-me aqui. Se tirares do meio de ti o jugo, o estender do dedo, e o falar iniquamente; E se abrires a tua alma ao faminto, e fartares a alma aflita; então a tua luz nascerá nas trevas, e a tua escuridão será como o meio-dia” (Isaías 58:6-10).

Ora, a Bíblia descreve uma realidade que não é terrena, logo, é única. Outros livros de teologia tenderão a explicar o sistema moral de Deus buscando explicações na realidade terrestre, porém, não há comunhão entre luz e trevas. Nessa conjuntura, a Bíblia passa a ter caráter autoritativo.  Ela não se utiliza de fábulas, mas fala da realidade ontológica, à qual os homens não estão familiarizados, portanto, não autorizados a explicá-la. Porém, como explicar que homens escreveram a Bíblia?

Profetas são homens especiais aos quais a realidade moral do sistema de Deus foi revelada. Se Deus não a revelasse, dificilmente seria vista, decifrada e descrita. Profetas são pessoas distintas, com dotações singulares da parte de Deus: “Porque a profecia nunca foi produzida por vontade de homem algum, mas os homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo (II Pedro 1:21).

O texto acima fala de inspiração. Isto significa que aos homens santos (vivendo o sistema moral de Deus) foi revelada a realidade moral do sistema de Deus. Ato contínuo, deveriam contextualizar o que viram de modo a tornar aquela realidade celeste favorável aos homens. Mas, o fato observado é muitíssimo mais elevado que a realidade dos homens, veja o que disse o apóstolo Paulo: “Foi arrebatado ao paraíso; e ouviu palavras inefáveis, que ao homem não é lícito falar” (I Coríntios 2:9). Outra vez disse Paulo: “Mas, como está escrito: As coisas que o olho não viu, e o ouvido não ouviu, E não subiram ao coração do homem, São as que Deus preparou para os que o amam” (II Coríntios 12:4).

Aqueles que pensam tornar claras as dificuldades supostas das escrituras, utilizando conhecimento humano ou ciências terrestres finitas, melhor fariam em cobrir o rosto, pois na Bíblia, encontram a presença de Deus, o qual tem comunicado por séculos a luz aos homens, desdobrando diante deles uma realidade emocionante à qual suas mentes não atinam.

Agora, seria interessante olharmos o método de Deus para demonstrar o seu sistema. A Bíblia está dividida em duas partes, Velho e Novo Testamentos. No Velho Testamento, está a Torá com suas instruções e admoestações. Também estão os profetas e os escritos narrando a odisseia humana, a relação humana com os ensinamentos divinos. Não há, praticamente, histórias de sucesso. No Velho Testamento há muito relato de derrotas e fracassos em relação a expectativa divina, com finais onde a morte é sempre o pagamento pela desobediência. Tais relatos quando lidos com a perspectiva do sistema moral do dragão, desenham um Deus vingativo e sem amor.

O Novo Testamento começa com quatro evangelhos descrevendo a vida do homem que fez da Torá e seus ensinamentos o motivo para sua vida vencedora. Jesus demonstrou e viveu todos os princípios da Torá, mesmo sendo um homem igual aos demais homens. Além de Jesus, há outros homens que, ensinados por Ele, viveram de forma semelhante a Jesus, sendo vencedores no sistema moral de Deus. Na verdade, o Novo Testamento é o cumprimento do Velho Testamento. Se não conhecermos a Tora, jamais compreenderemos a vida de Jesus e dos apóstolos, entre outros vencedores. Se no Antigo Testamento poucos foram os vencedores, no Novo Testamento, por causa do exemplo de Jesus, guiados por Ele, muitos alcançaram viver o sistema moral de Deus. “Mas esta é a aliança que farei com a casa de Israel depois daqueles dias, diz o SENHOR: Porei a minha lei no seu interior, e a escreverei no seu coração; e eu serei o seu Deus e eles serão o meu povo” (Jeremias 31:33).

Deus confiou ao homem finito um guia para que os habitantes deste mundo escuro, caído, pudessem estudar as suas requisições e obedecê-las, de modo a que saíssem das trevas e andassem na luz. Neste sentido, nenhum outro livro, a não ser a Bíblia, guardada por um miraculoso poder, poderá mostrar o caminho para uma realidade que os homens não conhecem.

              


quarta-feira, 3 de junho de 2020

O poder não emana do povo



Nosso Brasil está experimentando tempos de muita inquietação por força da situação política. Há um duelo entre esquerdistas (autodenominados progressistas) e direitistas (chamados pelos esquerdistas de conservadores), o qual, se não for resolvido, terminará de forma imprevisível. No horizonte há nuvens cujas cores são indefinidas. A tendência é que as cores se carreguem de chumbo.

Toda situação do país advém de uma urdidura esquerdista planejada ao longo de décadas, em cujo programa estão a destruição de pilares cristãos, a quebra de conceitos morais, a degradação da pessoa humana, bem como de instituições dadas por Deus para conter a cobiça, tais como o casamento, o trabalho honesto. Neste ambiente de insalubre convivência social, instalou-se o egoísmo, a corrupção, a desafeição. Estamos numa sociedade doente.

O cenário acima afeta todas as transações humanas. Afeta, com muita ênfase, o trabalho de instituições que, em situações mais amenas, estariam voltadas ao bem estar social. Entre essas instituições estão as igrejas cristãs, cujo patrono é Cristo Jesus, o (sol) paladino da justiça. Todavia, neste ambiente maléfico, as igrejas tornam-se contaminadas. Há uma liderança que abraçou as iniquidades vigentes, travestindo-as com o nome de técnicas para conversão de almas.

Em muitas igrejas cristãs a cobiça transfigurou-se em evangelho. O interesse pelas almas é interpretado por lucro. O serviço a Deus é transformado em diversão; os crentes adoram a si mesmos. Às construções de templos chamam de centros de influência. Estes servem para atração de pessoas em busca de serviços, e nesse afã, transformam as igrejas em locais onde ao invés de os homens girarem em torno Deus e sua lei, é Deus quem gira em torno dos membros. Denominam a esses espaços de comunidades, ou locais onde o centro é o homem e Deus corre atrás deles.

Assim se passa com a política. Numa democracia, o poder emana do povo. Porém, no caso brasileiro, os políticos inverteram a equação, sendo que o povo, aquele que detém o poder é o que gira em torno do governo, aquele a quem o povo elege porque tem o poder. Esse modelo está contaminando as igrejas. Deus, o todo poderoso, corre atrás dos membros. Estes, por sua vez, por saberem que Deus os busca, transformam os princípios celestes em arranjos humanos pensando que Deus serve a eles e tudo suportará por eles.

Entenderemos melhor esse cenário se buscarmos um paralelo na Bíblia. Tal paralelo está no episódio do bezerro de ouro. Aliás, esse ocorrido do passado é esclarecedor para muitos fatos atuais. Naquela ocasião Moisés, chamado por Deus, sobe ao monte Sinai para receber os mandamentos escritos pelo próprio dedo de Deus. Enquanto lá no cimo do monte, o tempo no pé da elevação passa e o povo começa a sentir insegurança pela demora de Moisés.

Entre os israelitas estavam muitos egípcios que, com medo do poder presenciado durante as 10 pragas, resolveram acompanhar os israelitas. Aqueles não israelitas saíram sem terem seus olhos limpos das contaminações do Egito. Por essa razão, começaram a murmurar dizendo que possivelmente Moisés não retornaria, poderia ter morrido, dada a demora. Mesmo tendo visto o poder com que Deus retirara seu povo, não estavam acostumados a servirem a um Deus invisível. No Egito, todos os deuses eram materializados, e como consequência, viram-se desamparados sem Moisés e sem compreenderem um Deus invisível.

Logo contaminaram aos israelitas com pouco conhecimento. Quando a quantidade dos descontentes aumentou, chamaram a Arão e pressionaram pelo retorno ao Egito e por segurança religiosa. Necessitavam da proteção de um Deus visível. Arão, não confiou em Deus e, com medo de perder sua vida, ordenou que trouxessem ouro. Pensava ele que o povo não aportaria o ouro, mas enganou-se. Assim, Arão forjou um ídolo que representava a Deus, porém, com as características de um deus egípcio. O bezerro representava Jeová, mas a forma de culto era egípcia.

Quando Moisés desceu para ver o que estava ocorrendo, chamou o irmão e este, desculpando-se da prevaricação, disse-lhe: “E Moisés perguntou a Arão: Que te tem feito este povo, que sobre ele trouxeste tamanho pecado? Então respondeu Arão: Não se acenda a ira do meu senhor; tu sabes que este povo é inclinado ao mal; E eles me disseram: Faze-nos um deus que vá adiante de nós; porque não sabemos o que sucedeu a este Moisés, a este homem que nos tirou da terra do Egito. Então eu lhes disse: Quem tem ouro, arranque-o; e deram-mo, e lancei-o no fogo, e saiu este bezerro” (Êxodo 32:21-24).

Arão tentou enganar a Moisés (como se o pudesse) dizendo: lancei o ouro no fogo e saiu este bezerro, querendo fazer crer que ocorrera um milagre. Aquele ídolo era um ídolo, mas produto de um milagre. Arão quis desculpar a idolatria. Porem, não tinha desculpa, porque vira a manifestação da glória de Deus e esta não tinha a forma de um bezerro, fora Arão quem transformara a glória de Deus em formato de um boi. Por esse motivo, a ira de Deus levantou-se contra Arão para destruí-lo. Afortunadamente, a intercessão de Moisés somada ao profundo arrependimento de Arão o conservou vivo.

Note-se que o espírito condescendente de Arão e seu desejo de agradar cegaram-lhe os olhos a um crime. Ao emprestar sua influência ao pecado de Israel, causou a morte de milhares. Sim, foram mortos três mil homens pela espada dos levitas. Tal punição ocorreu para testemunho às nações, ou seja, para nosso testemunho.

Há na Bíblia um relato um pouco diferente, quando um pecado pareceu ficar sem punição. Caim teve a sua vida poupada, mesmo tendo matado ao irmão e desafiado a Deus. Aqui está o que a Bíblia diz sobre este caso: “O SENHOR, porém, disse-lhe: Portanto qualquer que matar a Caim, sete vezes será castigado. E pôs o SENHOR um sinal em Caim, para que o não ferisse qualquer que o achasse”(Gênesis 4:15). O que vemos parece um paradoxo. Seria Deus injusto em relação ao pecado de Israel? Teria Deus escondido ou permitido o delito de Caim mas não o de Israel?

O tempo é o senhor da razão. Deus não executou imediatamente a Caim para que o universo pudesse observar o resultado de permitir que o pecado ficasse sem punição. A influência exercida sobre os descendentes por causa dos ensinos e do exemplo de Caim determinou o estado de corrupção que exigiu a destruição do mundo pelo dilúvio. Uma vida longa de pecados não se torna uma benção, pois quanto mais vivem os homens, mais corruptos se tornam.

Atualmente, o tempo parece passar e tudo permanece igual. As igrejas cristãs em sua vivência com a corrupção humana, parecem esperar vida longa e sem punições. Dezenas de sacerdotes enganam por lucro e centenas de crentes adotam a dinâmica corrupta como sua norma. As igrejas mais progressistas estão infiltradas de pessoas com pensamento político esquerdista, cultuando ao bezerro de ouro. Querem que a igreja represente a Deus, mas as manifestações são egípcias.

Os chamados centros de influência adotam as manifestações esquerdiformes e afrontam a Deus tirando a sua autoridade. A Bíblia é interpretada e ensinada em consonância com as tradições humanas. Há um sentimento esquerdiforme de que Deus é amor, logo, não haverá qualquer punição, embora haja um sentimento de que tudo está mudado. Na medida em que Deus é quem orbita em torno do povo e não o povo em torno de Deus, tudo pode ser mudado o quanto o povo quiser, sem qualquer cometimento. 

Assim, passam-se os dias. Porém, foi o próprio Deus quem avisou: “E, como aconteceu nos dias de Noé, assim será também nos dias do Filho do homem (Lucas 17:26). As palavras do Salmo 25:14 parecem adequadas para encerrar este texto: “O segredo do SENHOR é com aqueles que o temem; e ele lhes mostrará a sua aliança”.



segunda-feira, 11 de maio de 2020

Balizando fronteiras



 Justiça deriva do latim justitia, cuja raiz é justus=justo, aquele que é conforme o que é legítimo, próprio, adequado, equitativo. Assim, justiça exprime o que se faz conforme o direito, segundo as regres prescritas na lei. Como virtude, a justiça nos faz dar a Deus o que é Dele, e aos homens o que lhes é devido.

No âmbito do Reino de Deus, no qual se entende que está a Sua igreja, a virtude da justiça é a norma áurea.  Por esse motivo, Jesus explicou deveríamos buscar em primeiro o reino de Deus, e a sua justiça e, como consequência, todas as coisas vos serão acrescentadas (Mateus 6:33). Sobre esta virtude, o profeta Isaías enfatizou que o reino de Davi deveria ser fortificado com juízo e com justiça, porque esse era o zelo do SENHOR dos Exércitos (Isaías 9:7).

Não é diferente na igreja. O apóstolo Paulo reitera que o reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo (Romanos 14:17). Assim, nada é mais urgente para a igreja do que o intuir os limites do conceito de justiça, mormente estando num mundo cruelmente injusto.

A prática da Justiça, para muitas mentes, é confundida com a realização dos ritos religiosos. Mas, Jesus, o grande mestre, ensinou que a preocupação com o direito de terceiros deve ser a principal inquietação. Tal raciocínio está também nas palavras do profeta Isaías (capítulo 58), bem como nas respostas aos discípulos quando Jesus explicou-lhes sobre as acusações alocadas sobre aqueles que serão julgados culpados no juízo final (Mateus 25:31-46). Portanto, é muitíssimo apropriado que sejam percebidos os limites da justiça para que operemos nossa própria salvação.

Algumas demarcações da justiça de acordo com a Bíblia
Em Deuteronômio (capítulo 21:1-9) encontramos um trecho do discurso de Moisés aos israelitas, um pouco antes da entrada na terra prometida. Ali Moisés levanta uma questão que, para os ocidentais, passa despercebida. Se uma pessoa for assassinada em uma estrada e não se souber quem a golpeou, devem-se tomar algumas medidas. Primeiramente, traçar uma linha reta entre o morto e as cidades ao redor. Aquela que estiver mais próxima ao morto será considerada culpada. Vê-se que se trata de uma questão coletiva. A cidade é a culpada. Logo, os anciãos (representantes) da cidade mais próxima do morto deverão comprovar que não são culpados. Para tal, deverão agir da seguinte forma: Os anciãos da cidade mais próxima do morto tomarão uma novilha da manada, que não tenha trabalhado, nem puxado com o jugo, e a trarão a um vale de águas correntes, que não foi lavrado, nem semeado; e ali, naquele vale, desnucarão a novilha. Chegar-se-ão os sacerdotes, filhos de Levi, porque o SENHOR , teu Deus, os escolheu para O servirem, para abençoarem em nome do SENHOR e, por Sua palavra, decidirem toda demanda e todo caso de violência. Todos os anciãos desta cidade, mais próximos do morto, lavarão as mãos sobre a novilha desnucada no vale e dirão: As nossas mãos não derramaram este sangue, e os nossos olhos o não viram derramar-se (Deuteronômio 21:4-7).

A cerimônia acima indicava que deveria haver um sacrifício para purificação e, ao lavarem as mãos, os representantes da cidade considerada culpada explicitavam sua inocência, sendo que deveria ficar formalmente notório que o povo das proximidades não poderia ser considerado culpado, porque tinham feito o que lhes era possível para que as estradas que levavam à sua cidade fossem seguras como deveriam.

O que vemos acima é aplicação da justiça no nível comunitário. Uma pessoa assassinada sem um culpado efetivo torna culpável a comunidade mais próxima, uma vez que o morto tinha direito à segurança. Todavia, essa abordagem também tem abrangência pessoal, ponderando que uma comunidade é formada por pessoas. Cada pessoa é um culpado em potencial e, neste caso, deveria ter realizado a sua parte individual para a segurança social. Em termos práticos, nossa sociedade não vislumbra culpa sobre qualquer comunidade por causa de um assassinato. Nosso entendimento é de que se não participamos, nada nos toca. Porém, esse é o raciocínio da távola rasa; indica uma condição em que a consciência é desprovida de qualquer conhecimento inato. Porém, a Torá está afirmando autoritativamente que mesmo que não tenhamos participação direta em um acontecimento desastroso a outrem, em realidade, temos uma parcela de culpa se não subministramos segurança.

No âmbito da igreja, o texto da Torá parece indicar que pessoas que morrem prematuramente, se  a causa determinada, por exemplo, for descuido com sua saúde, tal comunidade somente poderia lavar as mãos se tivesse alertado sobre o perigo e, ainda mais, se tivesse ministrado educação suficiente para evitar acidentes.

No nível familiar, a justiça possui nuances chamativas. A nenhum homem é permitido divorciar-se sem que a mulher receba o que lhe é justo. No caso dos filhos de um casamento desfeito, nenhum deve ser preterido em seus direitos a segurança, proteção, educação e herança. Filhos legítimos ou não, segundo a Torá terão os mesmos direitos.

Do ponto de visto dos irmãos, aquele que mais possui deverá amparar os de menores possibilidades. Um exemplo bíblico veemente é Jacó, quem roubou a primogenitura do irmão Esaú. Quando do seu regresso à terra de nascimento, teve um encontro com Deus e, a partir dali, devolveu ao irmão com generosidade tudo o que lhe pertencia. Todavia, a realidade atual do cristianismo é insuficiente, uma vez que os conceitos de convivência (obrigações) fraterna são deixados, sendo enfatizado o misticismo. Há, por parte dos líderes religiosos, afirmativas vagas tais como “vamos entregar nossa vida a Deus”, sendo que se os líderes forem indagados sobre como realizar a referida entrega, em verdade não saberiam o que ensinar. No entanto, a entrega a Deus é materializada através da aplicação da justiça. Ninguém está entregue a Deus se não promove o bem estar dos irmão de sangue e dos demais irmãos.

Para os filhos desobedientes, há conselhos na Torá, de modo a que não percam a vida (Deuteronômio 21:18-21), pois se forem desobedientes contumazes deverão ser levados pelos pais a julgamento, a fim de que, sentenciados descontaminem o mundo por causa das suas injustiças. Nestes casos, os pais também assumem suas culpas por não terem conseguido educar. A sociedade, depois da morte do desobediente, estará livre de uma influência negativa. Hoje, porém, o princípio acima parece desconsiderado, todavia, filhos desobedientes têm morte prematura, sendo que para os contemporâneos, a morte destes pode parecer natural, mas, trata-se de um julgamento.

Também, aos executados de morte, deve-se dar dignidade enterrando-os. A Torá ensina que não deverão ficar expostos, mas enterrados antes do por do sol, para que haja descontaminação e o novo dia chegue em ambiente moralmente são.

Os exemplos acima citados são apenas alguns dos marcos para aplicação da justiça. Servem para demonstração do quanto importa entender tais balizas, considerando que o Reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça.

No livro de Daniel é apresentado um poder político-religioso (chifre pequeno) que vincula um sistema de injustiças contra os chamados santos do Altíssimo. Tal sistema perdura até que Deus intervém e restaura a justiça (Daniel 7:22). Assim também ocorrerá no final dos tempos. Um juízo verificará quem são os justos e, ato contínuo, estes serão selados; toda injustiça praticada será condenada e punida, apenas os selados escaparão e possuirão o Reino. Essa informação nos permite compreender a função basilar da justiça no âmbito celeste. Porém, o cristianismo perdeu o interesse pelo Antigo Testamento, onde os princípios da justiça estão suficientemente explicados. Toda justiça do Novo Testamento tem sua raiz no Antigo Testamento. Jesus referindo-se à importância da justiça disse: “Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus” (Mateus 5:20), demonstrando que a justiça dos homens não é suficiente para assegurar absolvição no juízo final. Uma coisa é certa, os cristãos atuais consentem que se forem observadas as regras de justiça conciliadas por cada civilização, poder-se-á esperar meritocraticamente indulto no juízo final. Por essa razão, ninguém está preocupado com quem foi assassinado; se foi realizada alguma ação para oferecer segurança àquela vítima. Também, nas ações de divórcio, é muito comum que maridos cristãos deixem ao desemparo esposas rejeitadas. Porém, o crime alegado diante do justo juiz é o não cumprimento das ordenanças relativas à justiça, aquelas que estão claras no Antigo Testamento. “E será para nós justiça, quando tivermos cuidado de cumprir todos estes mandamentos perante o SENHOR nosso Deus, como nos tem ordenado” (Deuteronômio 6:25). “A justiça, somente a justiça seguirás; para que vivas, e possuas em herança a terra que te dará o SENHOR teu Deus” (Deuteronômio 16:20).

A nenhum crente é permitido defraudações ou espoliações. Aqueles que servem a Deus e sonegam deveres (um bom exemplo é a sonegação de impostos) – dai a César o que é de César – não poderão enfrentar o justo juiz; aqueles que roubam sem violência (por exemplo, plágios literários, ou sonegação de direitos autorais) também não estarão entre os assinalados ou selados. Por outro lado, pais que negam direitos aos filhos, ou ainda, órfãos que mourejam em comunidades, especificamente as cristãs, e que não são atendidos, podem ser tipificados como os assassinados com culpados ocultos. Mas em realidade, a cidade (comunidade) mais próxima é acusada pelo crime.

Finalmente, “Porque abominação é ao SENHOR teu Deus todo aquele que faz isto, todo aquele que fizer injustiça” (Deuteronômio 25:16).


quinta-feira, 23 de abril de 2020

Coisa espantosa e horrenda se anda fazendo na terra



Cristãos envolvidos na pregação do segundo advento de Jesus Cristo, entendem que é sua missão pregar essa mensagem. Nas palavras do Pastor Erton Köhler “Há uma bênção especial no envolvimento missionário e essa não é uma descoberta recente nem o resultado de alguma estratégia nova. É a mensagem da Bíblia e o enfoque de um ministério de 70 anos e 100 mil páginas manuscritas de Ellen White. Essas mensagens inspiradas ainda ajudam a igreja a se lembrar de que tudo o que possuímos e somos deve ser usado na preparação de pessoas para que se encontrem com o Senhor”.
Conforme o entendimento de Köhler, a preparação de pessoas para o retorno de Jesus passa pelo envolvimento dos membros na missão missionária e, citando Ellen White alerta que “A eles foi confiada a última mensagem de advertência a este mundo a perecer”.
Percebe-se que há necessidade de avisar o mundo de um iminente perigo, posto que está a perecer. Se o mundo agoniza, está gravemente ameaçado. Seria a volta de Jesus uma ameaça? Em muitos sentidos sim. Todavia, qual é o problema ameaçando ao mundo? Por que o regresso de Jesus é perigoso para o mundo? Qual a advertência dada pela Bíblia a qual se tornou a missão dos crentes?
Para boa parte dos cristãos, incluindo o clero, deve-se intensificar o proselitismo, a catequese. Almas se perderão se não forem batizadas. Até aqui, nenhuma observação equivocada, uma vez que o evangelista Marcos afirma que “quem crer e for batizado será salvo; mas quem não crer será condenado” (Marcos 16:16). Porém, a questão colocada por Marcos não se exaure no batismo, mas se cumpre no crer, e Marcos considera que o não crer condena. Logo, a advertência ou missão dada aos crentes é a de produzir pessoas que creem. A pergunta seguinte é: crer em que? Se tal pergunta fosse dirigida aos crentes e ao clero, apressadamente responderiam que a crença é em Cristo. Certamente estariam seguros. Mas, o crer que Cristo existe, e que está nos céus e retornará é o suficiente?
Há uma ameaça pairando sobre o mundo. Em Apocalipse 14:7, há um aviso muito enfático soando: “Dizendo com grande voz: Temei a Deus, e dai-lhe glória; porque é vinda a hora do seu juízo. E adorai aquele que fez o céu, e a terra, e o mar, e as fontes das águas”. O texto expõe firmemente a necessidade de temer a Deus por causa do juízo. Então, a ameaça que desestabiliza o mundo não é o regresso de Jesus propriamente dito, e sim o juízo.
A principal causa para uma condenação é que o mundo não adorou aquele que fez o céu, e a terra, e o mar, e as fontes das águas. Em Apocalipse 19:5 há outra advertência: “E saiu uma voz do trono, que dizia: Louvai o nosso Deus, vós, todos os seus servos, e vós que o temeis, assim pequenos como grandes”. Aqui o adorador é advertido sobre o louvor. Portanto, a ameaça que paira sobre o mundo está ligada ao temer Deus e ao dar glória, porque é vindo o juízo. Então, é a missão dos crentes ensinar ao mundo ameaçado, como temer a Deus e dar-lhe glória. Neste contexto, o batismo apenas não nos parece suficiente.
Quando alguém é levado a juízo é necessária a clara demonstração de que tal pessoa cometeu um crime, o qual é tipificado como toda ação cometida com dolo, ou infração contrária aos costumes, à moral e à lei. Um crime se estrutura por seus elementos material (objetivo) e moral (subjetivo). O elemento material evidencia-se na ação; o elemento moral na culpa do ato praticado, com o qual se violou a lei. No caso do juízo aplicado por Deus, o elemento material é o ato de o mundo não ter agido na demonstração do temor a Deus, sendo que se violou o primeiro artigo da lei do céu: “não terás outros deuses diante de mim”. Logo, o elemento moral é a culpa por ter outros deuses como objeto de temor. Assim, a ameaça pairando sobre o mundo é demonstrada e deve ser intensamente alardeada, pois há um juízo necessário prestes a acontecer.
A palavra adoração no hebraico é עֲבוֹדָה (AVODAH). A raiz da palavra “avodah” é AVOD, que significa “servir, serviço, trabalhar”. A palavra para “adorar a Deus é a mesma para Trabalho”. O que quer dizer que adoração é SERVIÇO A DEUS, trabalhar para Deus. Logo, o juízo investigará e tornará culpado aquele que não trabalhou para Deus. Então, é necessário definir  o trabalho a Deus.
A adoração é todo serviço que as criaturas fazem para Deus. E quando é que operamos em favor de Deus? Quando cuidamos dos nossos filhos, cuidamos do nosso trabalho, cuidamos do nosso semelhante, tudo isso é adoração. É exatamente o que recomenda a Torá. As leis sociais que ordenavam a convivência social israelita tinham a preocupação da aplicação da justiça em relação aos pobres e desafortunados, além dos deveres para com Deus. O profeta Isaías no capítulo 58 adverte enfaticamente sobre a adoração, quando salienta que Deus requer o serviço social e a guarda do sábado. Ali o profeta demonstra a lógica da adoração e os algoritmos (para usar um termo moderno) que devem ser entendidos para ultimar a adoração. Isto parece ratificado por Tiago 1:27 “A religião pura e imaculada para com Deus, o Pai, é esta: Visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações, e guardar-se da corrupção do mundo”.
Quando o mundo dá maior importância às obras humanas, cultuando-as - entendendo que ídolos esculpidos e venerados como deuses são obras humanas – quer seja o conhecimento gerado nos ambientes acadêmicos, quer seja o conhecimento gerado nos porões religiosos, incorporando-os às liturgias eclesiásticas, então, o Senhor dos Céus, Jeová, é preterido e substituído. O profeta Jeremias, falando como arauto de Deus avisou: “E eu pronunciarei contra eles os meus juízos, por causa de toda a sua malícia; pois me deixaram, e queimaram incenso a deuses estranhos, e se encurvaram diante das obras das suas mãos” (Jeremias 1: 16). Na sequência, o profeta informa que não há inteligência, mas que Deus providenciará conhecimento: “E dar-vos-ei pastores segundo o meu coração, os quais vos apascentarão com ciência e com inteligência” (Jer. 3:15). Importante que se demarque ciência e inteligência oriundas da Torá. Além disso, o profeta alerta sobre a ausência da justiça quando diz: “Dai voltas às ruas de Jerusalém, e vede agora; e informai-vos, e buscai pelas suas praças, a ver se achais alguém, ou se há homem que pratique a justiça ou busque a verdade; e eu lhe perdoarei[...] Engordam-se, estão nédios, e ultrapassam até os feitos dos malignos; não julgam a causa do órfão; todavia prosperam; nem julgam o direito dos necessitados.  Porventura não castigaria eu por causa destas coisas? diz o SENHOR; não me vingaria eu de uma nação como esta? Coisa espantosa e horrenda se anda fazendo na terra.” (Jeremias 5:1; 28-30).
Destacamos a última frase do texto de Jeremias acima. Coisa espantosa e horrenda se anda fazendo na terra. Esse é o perigo que paira sobre o mundo; se estriba no conhecimento humano e não pratica a justiça. Obviamente que se o juízo é por causa desses crimes, o regresso de Jesus não será um evento feliz para os que não forem avisados, mas também para os que mesmo avisados não levaram a advertência a sério.
Por seu turno, o profeta Ezequiel analisa o não cumprimento da missão dada aos crentes. “Quando eu disser ao ímpio: Certamente morrerás; e tu não o avisares, nem falares para avisar o ímpio acerca do seu mau caminho, para salvar a sua vida, aquele ímpio morrerá na sua iniquidade, mas o seu sangue, da tua mão o requererei” (Ez.3: 18). O texto está mostrando que o proselitismo, como um fim, não é suficiente, sendo necessário que os crentes ensinem o que o céu exige para que os homens sejam salvos. Ter o nome no rol de uma igreja não torna seguro ninguém, em relação ao juízo. Entretanto, às igrejas será atribuída a culpa por não terem realizado a missão de ensinar a justiça, quer seja aos membros, quer seja aos não crentes.
Aliás, o apóstolo Pedro insiste em que a missão dos crentes não é apenas fazer prosélitos, quando diz: “ Mas vós sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido, para que anuncieis as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz” (Pedro 2:9). Novamente, a missão é anunciar as virtudes, ou seja, o caráter impressionantemente glorioso de Deus. Ele adquiriu a igreja como sua especial possessão, a fim de que seus membros possam refletir seus preciosos traços de caráter em suas vidas, e possam proclamar a bondade e a misericórdia de Deus a todos os homens, da mesma forma como Jesus o fez.
Antes do regresso de Jesus haverá um julgamento, conforme Apocalipse 14:7 divulga. O resultado desse julgamento será uma ação de selamento naqueles que não serão atingidos pela ira de Deus, do mesmo modo que os israelitas foram poupados no dia em que saíram do Egito. Antes de qualquer juízo da parte de Deus há sempre uma investigação e uma ação de selamento. O profeta Ezequiel mostra o que determina o selamento: “Então me gritou aos ouvidos com grande voz, dizendo: Fazei chegar os intendentes da cidade, cada um com as suas armas destruidoras na mão. E eis que vinham seis homens a caminho da porta superior, que olha para o norte, e cada um com a sua arma destruidora na mão, e entre eles um homem vestido de linho, com um tinteiro de escrivão à sua cintura; e entraram, e se puseram junto ao altar de bronze. E a glória do Deus de Israel se levantou de sobre o querubim, sobre o qual estava indo até a entrada da casa; e clamou ao homem vestido de linho, que tinha o tinteiro de escrivão à sua cintura. E disse-lhe o SENHOR: Passa pelo meio da cidade, pelo meio de Jerusalém, e marca com um sinal as testas dos homens que suspiram e que gemem por causa de todas as abominações que se cometem no meio dela. E aos outros disse ele, ouvindo eu: Passai pela cidade após ele, e feri; não poupe o vosso olho, nem vos compadeçais. Matai velhos, jovens, virgens, meninos e mulheres, até exterminá-los; mas a todo o homem que tiver o sinal não vos chegueis; e começai pelo meu santuário. E começaram pelos homens mais velhos que estavam diante da casa” (Ezequiel 9:1-6). Os selados serão aqueles “que suspiram e que gemem por causa de todas as abominações que se cometem no meio dela”. Agora faça uma ligação desta lógica com a de Jeremias 5, citada acima.
Estamos vivendo em tempos nos quais há muitíssima confiança nas tradições dos homens e no conhecimento científico. Nas congregações, a contaminação da verdade com as tradições tornou-se lugar comum. Há inversões do tipo usar dos costumes dos ímpios para atrair ímpios. Todavia, esta metodologia está provocando adesão dos crentes às tradições; deriva de foco, perigo assustador. Uma fonte estatística oficial diz que em 2018, 44% dos batizados deixaram a congregação. Os números representam muitas variáveis, porém, podem estar dizendo que tal desistência pode estar relacionada com a falta de novidade de vida. Se tudo é igual ao mundo, por que assumir responsabilidades com regras, sendo que se parecem com o restante da sociedade?  Talvez, aquele que nos comprou e nos tirou das trevas, faça uma intervenção, para que não resulte o que disse o profeta Jeremias: “Passou a sega, findou o verão, e nós não estamos salvos” (Jeremias 8:20).

terça-feira, 24 de março de 2020

Deus e a hostilidade humana




Os esboços proféticos do livro de Daniel alertam com muita clareza sobre as altas estratégias usadas, especialmente pelos homens insuflados por Lúcifer, para disseminar a ideia de que não precisamos de Deus para a solução dos nossos problemas e dilemas, aqueles que ameaçam nossa paz e sobrevivência.

Durante todas as eras, em muitas ocasiões, imensas ameaças mortais foram enfrentadas pela humanidade. Nestas ocasiões, a tecnologia humana foi evocada com razoável sucesso, dando a ilusão de que nossa desenvolvida ciência sempre dará fim aos perigos que enfrentamos e não necessitamos de ajuda externa ou mística originada nas religiões, porque estas são também produtos da imaginação humana. Evidentemente, há nas religiões fatias imensas de filosofia humana, tradições que acabam por cristalizarem-se em dogmas, os quais são pura imaginação, nada tendo a ver com a realidade.

Qual é a realidade?

Como cidadãos da parte ocidental do nosso planeta, fomos instruídos nos cânones do modelo filosófico judaico-cristão. É muito importante ter ciência dessa dimensão construtiva do nosso pensamento e da nossa ética. Por esse motivo, acreditamos num Deus supremo e aceitamos a Bíblia como sendo Sua revelação sobre a realidade, a espinha dorsal da nossa lógica existencial. Através da Bíblia, é-nos desvelada a cortina do universo e, um fato histórico importante nos conta de uma guerra no céu (Apoc.12:7-9). A partir dessa informação, nos damos conta de uma realidade beligerante entre a divindade e o seu arqui inimigo, a chamada luta entre o bem e mal. Essa realidade não está muito clara para a esmagadora maioria das religiões. Porém, para judeus e parte dos cristãos sim.

A Bíblia nos informa que Deus permitiu ao inimigo desenvolver suas ideias, de modo que este pudesse ser avaliado e julgado com justiça por Deus e pelo universo. A Terra é, neste momento, um teatro onde são expostos os princípios do governo de Deus e os pressupostos dos argumentos do inimigo. Não vamos explicar agora por que a Terra, considerando que isso é, por si só, assunto para um compêndio. Mas, a Terra e seus habitantes são protagonistas que ensinarão ao universo sobre Deus e seu inimigo e, segundo a Bíblia, Deus sairá vencedor com reconhecimento de todo universo. Com esse pano de fundo vamos olhar um pouco a geopolítica durantes as várias eras da civilização humana.

No processo civilizatório há sempre um poder humano que, em determinado período, exerce comando sobre as nações, influenciando-as, educando os jovens, comandando a ética sócio-política, ditando comportamento socioeconômico, impondo sua cultura especialmente através de sua língua. Quando observamos a geopolítica através das lentes bíblicas, é-nos oferecida oportunidade de ver aspectos do grande conflito entre o bem e o mal.

Há quase três mil anos atrás, Deus desvelou ao profeta Daniel o panorama geopolítico desde os seus dias até o final da história terrestre. Importante dizer que a referida revelação se deu 600 anos antes de Cristo, portanto, as informações que foram reveladas ainda estavam no futuro. Nos capítulos 2, 7, 8, 9, 11, do livro de Daniel, são dadas sequências históricas explicativas do modo como Satanás operaria através dos homens a sua guerra contra Deus. Mostra-se nos referidos textos a superioridade divina por sua onisciência, ao descortinar o que ainda estava encoberto e no futuro. Para quem está atentamente observando a narrativa e se depara com a onisciência de Deus, vem inevitavelmente a pergunta: por que Deus, sendo onisciente, deixou seu inimigo agir? A resposta é inequívoca. Era necessário que o inimigo revelasse cabalmente sua estratégia e suas intenções, de modo que o julgamento final fosse justo. Afinal de contas, o universo está também observando quem está com a razão. Estamos partindo da premissa de que os leitores conhecem os motivos da guerra no céu.

Os reinos universais, são uma estratégia para levar os homens para dentro das ideias de Satanás. Tais reinos são a máxima hostilidade humana contra o governo divino. A essa altura de nossa conversa, é importante lembrar algumas promessas de Satanás. No Éden, ele ofereceu a Eva a oportunidade de ser igual a Deus (Gên.3:5). Tal promessa envolve muita coisa, mas é notável que Eva acreditou que iria ter um aperfeiçoamento mental (Gên.3:6-7) e, dizem os profetas que ela se sentiu mentalmente superior. Desde então, os homens, sempre estimulados por Satanás, buscam descobrir os segredos do universo, na tentativa de controlá-lo e, consequentemente, tornarem-se deuses. Essa perspectiva é que deve ser focada quando se estuda a história humana. Os reinos que conquistaram o mundo são a arrogância humana, de acordo com o plano de Satanás.

O Primeiro grande momento narrado na Bíblia sobre a arrogância humana está em Gênesis 11, quando os pós-diluvianos resolveram fazer uma torre que sobressaísse a lâmina de água resultante das chuvas e assim estariam a salvo. Além disso, propuseram elevar a torre até as nuvens, onde se formaram as chuvas, deste modo poderiam estudar como se produz chuva e poderiam interferir no fenômeno impedindo-o. Tal soberba desafiava a Deus, sendo que houve uma drástica intervenção que os tornou incapazes de coesões futuras. Nunca mais a humanidade seria capaz de produzir integrações. As nações atuais resultam dessa incapacidade de coesão.

os reino universais foram construídos na impossibilidade harmônica. Em cada momento histórico, um poder esteve protagonizando a arrogância humana contra Deus. Os governos humanos sempre estiveram em guerras, e tal espírito beligerante é exarcerbado porque transgridem as leis, mudam os estatutos e quebram as alianças eternas. Porém, “Bem-aventurados os que guardam os Seus mandamentos” (Apoc. 22:14). Todos os reis, todos os governadores, todas as nações, são Seus e estão sob o domínio e autoridade do Senhor Deus onipotente. (Comentários de Ellen G. White, no Comentário Bíblico Adventista do Sétimo Dia, v. 6 p. 1081). Ainda que sejam os homens arrogantes, o planeta pertence ao Deus do céu (Salm.24:1).

O primeiro reino universal foi Babilônia de Nabucodonosor. Foi definido por Deus como “cabeça de ouro”. Sua influência perdura até os dias atuais, uma vez que a matemática dos caldeus foi a base para a matemática ocidental. Os estudos em astronomia foram muitíssimos importantes para ciências aplicadas tais como, agronomia, navegação, entre outras. Todavia, sua arrogância contra Deus foi fatal. O neto de Nabucodonosor foi julgado e sentenciado por Deus, sendo substituído em seu domínio pelos persas e os medos.

O segundo reino foi uma coalisão entre a Média e a Pérsia. Neste período Daniel com 80 anos foi lançado na cova dos leões, como consequência de ter desafiado um decreto que colocava o soberano acima de Deus. Daniel era o responsável por um sistema de auditoria que desbaratou desvios de recursos no reinado de Dario. Logo, os que foram prejudicados buscaram apanhá-lo em alguma falta, sem lograrem êxito. Assim, propuseram um decreto dando ao rei status divino e, espionaram a vida de Daniel porque sabiam que este orava ao Deus Altíssimo. Conforme vimos acima, tudo está sob o domínio e autoridade do Senhor dos céus. Numa fantástica demonstração de onipotência e onipresença, Deus livra Daniel e julga seus acusadores, mortos na mesma armadilha montada para Daniel. Os medos e persas fizeram grandes contribuições à ciência ajudando a formar a ideia da arrogância humana. Eram grandes na medicina, na engenharia, astronomia, matemática. Sua ciência alcançou o apogeu muito depois no chamado império Bizantino, quando grandes contribuições em todos os ramos do conhecimentos foram aportados e registrados na história. Por força do intelecto bizantino, as ciências contemporâneas alcançaram novas compreensões transformadas em tecnologias em uso atual.

O terceiro reino foi a Grécia, à qual se dispensa muitos comentários sobre a sua capacidade influenciadora e formatadora do pensamento ocidental hodierno. A arrogância grega é enorme por conta da sua influente filosofia. No ocidente são mais conhecidos autores como Sócrates, Platão e Aristóteles, este último com marcante incursão no pensamento cristão. Todavia, há importantes nomes de filósofos pré-socráticos que formaram toda a base lógica da ciência atual. Todo o raciocínio lógico ocidental moderno ainda é grego, tal a força dessa civilização. Do ponto de vista do conflito entre o bem e o mal, buscaram destruir a influência judaica criando um conjunto de crenças na evolução natural, reencarnação, imortalidade da alma, entre outras questões, numa demonstração de independência cultural distanciada da Torá judaica. Foram sofisticadamente arrogantes diante dos céus, criando um raciocínio que torna a filosofia e a ciência suficientes para explicar todas as causas, dando ao homem uma dimensão de absoluta dominância sobre a natureza. Tal arrogância determinou seu desaparecimento do cenário da liderança mundial, sendo a Grécia atual apenas um endereço turístico.

O quarto reino é Roma. Estamos colocando no presente porque este império está em andamento. Roma antiga dominou um vasto território que englobava muitas nações. Governava com uma característica ímpar: não destruía as culturas conquistadas. Todos poderiam consolidar sua cultura, desde que pagassem impostos ao rei de Roma. Por esse motivo o povo judeu, conquistado por Roma, manteve seu templo, seu sistema religioso e político. Roma atual não é a capital do mundo, posto que esta é a cidade de Washington nos Estados Unidos da América. Mas, em Roma está o Vaticano, uma espécie de reserva moral para o orbi. Todavia, são os Estados Unidos da América os que detém a liderança política e econômica no mundo. Ora, se o quarto reino ainda está vivo, como se explica a liderança americana?

Os símbolos americanos são os mesmos de Roma. A águia, por exemplo, era também o símbolo de Roma. O latim originou muitas expressões inglesas; a diplomacia utilizada por Roma na vivência com os conquistados é a mesma empregada pelos americanos no processo civilizatório atual, sendo que os países sob seu domínio diplomático usam a língua inglesa como idioma comercial, tal qual Roma utilizava o latim. Atualmente, a arrogância contra Deus se dá na confiança mundial nas tecnologias geradas nos Estados Unidos, uma sensação de que qualquer problema humano poderá ser resolvido pelos cientistas americanos. Porém, o sistema religioso criado por Roma é a referência ética para o mundo. O Papa é igual a Deus, sendo essa arrogância discutida pelo profeta Daniel. Toda essa construção humana está destinada à destruição final. Irá prevalecer o reino do Altíssimo Deus, conforme está demonstrado na Bíblia.

A escritora Ellen White diz que "Na história das nações o estudante da Palavra de Deus pode contemplar o cumprimento literal da profecia divina. Babilônia, fragmentada e por fim quebrantada, passou porque em sua prosperidade seus governantes tinham-se considerado independentes de Deus, atribuindo a glória do seu reino a realizações humanas. O domínio medo-persa foi visitado pela ira do Céu porque nele a lei de Deus tinha sido calcada a pés. O temor do Senhor não encontrou lugar no coração da grande maioria do povo. Prevaleciam a impiedade, a blasfêmia e a corrupção. Os reinos que se seguiram foram ainda mais vis e corruptos; e desceram cada vez mais na escala da dignidade moral. O poder exercido por todos os governantes da Terra é concedido pelo Céu; e seu sucesso depende do uso que fizerem dessa concessão". (Profetas e Reis, p.254)

O livro do profeta Daniel apresenta o grande conflito entre o bem e o mal em dimensões amplas, demonstrando também as estratégias de Deus ao lidar com o referido conflito. Os homens estão em franca adesão à proposta de Satanás. Se articulam a despeito da não unidade imposta por Deus. Porém, as coalisões humanas são frágeis e dependem de lideranças impostas pela força, uma forma de impor unidade improvável. O modelo de liderança humana é inspirado no sistema de competição pensado por Satanás, como sendo a alternativa ao conceito de governo celeste. A competição é a base da filosofia humana, ou seja, as explicações sobre as causas dos fenômenos captados pelo consciente humano. Assim, prevalece o mais forte e o mais apto. Essa ideia é a que move o comércio, é a base do sistema educacional humano, é a meta de vida de todos sendo aceita também pelas religiões. Essa ideia do mais forte fornece a percepção do homo deus aos habitantes da Terra. Tal ideia ofende o Deus Altíssimo que julgará os homens e tornará prevalecente o homem justo. O injusto, ou seja, o que é arrogante será aniquilado. Aqui vimos que Deus tolera a arrogância humana para poder esclarecer ao universo inteiro sobre a sua justiça e a excelência do seu sistema de governo. É absolutamente esclarecedor ter essa compreensão a respeito do meio que nos cerca. A leitura bíblica assume um colorido deslumbrante, pois elucida sobre as posições assumidas pelos políticos contemporâneos. Os homens estão envolvidos num conflito inteligentíssimo e serão obrigados a um posicionamento que dependerá de usarem os óculos corretos que permitirão discernir de que lado ficarão. O livro de Daniel é uma narrativa da odisseia humana. Os filhos de Deus capturados pelo inimigo e submetidos a situações de humilhação e desespero serão finalmente resgatados por Miguel; era necessária certa demora para que ficasse cabalmente demonstrado o mal; todo universo se regozijará porque a justiça de Deus será finalmente demonstrada.