quarta-feira, 17 de julho de 2024

O Conflito dos Pressupostos: Humanismo e Iluminismo à Luz dos Princípios Bíblicos

 O texto abaixo, é uma continuação de um texto intitulado “O conflito: pressupostos”, o qual é parte do cervo deste blogue. Ali, analisamos o empenho satânico para represar o efeito causado pelo rio de informações nascido na Bíblia. Os movimentos que estão em análise no texto abaixo, são a inundação do vômito que saiu da boca do dragão (Apocalipse 12:15). Facilmente podemos discernir o grande conflito quando comparamos os pressupostos dos referidos movimentos com os propósitos bíblicos.

O humanismo e o iluminismo são dois movimentos intelectuais distintos, mas ambos tiveram um impacto significativo na história e na forma como as pessoas compreendem o mundo. O humanismo surgiu na Itália no século XIV, valorizando a antiguidade clássica e o conhecimento humano. Já o iluminismo foi um movimento cultural europeu dos séculos XVII e XVIII que buscava mudanças políticas, econômicas e sociais. As diferenças e convergências se dão nos seguintes aspectos:

O humanismo Defende o antropocentrismo, ou seja, a ideia de que o homem é a medida de todas as coisas e está no centro da natureza. Promove a educação e a razão como meios para atingir a grandeza humana.

Em razão da valorização do ser humano, o humanismo coloca o anthropos e suas capacidades no cerne do pensamento filosófico e cultural, enfatizando a dignidade e o valor intrínseco de cada pessoa (é evidente que estas ideias estavam no diálogo entre a serpente e Eva: “...serão como Deus...”). Neste caso, a racionalidade é a que leva ao livre arbítrio, este completamente alicerçado na capacidade humana de tomar decisões livres, o que promove a ideia de autodesenvolvimento e autoaperfeiçoamento, tendo como fundamento a valorização do estudo da literatura, filosofia, história e artes como meios para entender a condição humana e desenvolver virtudes. Essas noções são diametralmente opostas às instruções bíblicas. “Guia-me na tua verdade, e ensina-me, pois tu és o Deus da minha salvação; por ti estou esperando todo o dia” (Salmos 25:5); “Mas quem pratica a verdade vem para a luz, a fim de que as suas obras sejam manifestas, porque são feitas em Deus” (João 3:21).

Embora não seja necessariamente antirreligioso o secularismo, separação entre o Estado e as instituições religiosas, próprio do humanismo, tende a enfatizar a importância das realizações humanas fora do contexto religioso.

Por seu turno, o humanismo foca na capacidade humana de atingir grandeza por meio da educação e da razão, enquanto o iluminismo defende a primazia da razão e da ciência para guiar a humanidade.

para o iluminismo, o racionalismo e a Ciência produzirão uma confiança profunda na razão humana e no método científico como ferramentas para compreender e melhorar o mundo, sendo assim assegurado o progresso contínuo da humanidade através do conhecimento, ciência, e inovação social e tecnológica.

Por outro lado, a tecnologia trará a valorização dos direitos e liberdades individuais, incluindo liberdade de expressão, religião e pensamento, bem como a defesa da igualdade perante a lei. Claramente isso pressupõe secularismo e laicidade, promovendo a ideia de que as questões religiosas não devem interferir nos assuntos públicos e políticos. Na verdade, estamos falando de uma crítica às autoridades tradicionais sejam elas políticas, religiosas ou sociais, em favor de uma sociedade mais justa e equitativa baseada na razão (cada ser humano possui impressões éticas e morais inatas) e na justiça originária na experiência humana e não em tradições religiosas. Para tal será necessária a crença de que a educação humanista e secularizada é fundamental para a emancipação do indivíduo e o desenvolvimento de uma sociedade esclarecida e informada.

Ambos os movimentos compartilham uma ênfase na razão e no potencial humano, mas o humanismo tende a focar mais na dignidade e valor individual, enquanto o iluminismo enfatiza o progresso e a aplicação prática da razão para melhorar a sociedade como um todo.

Se pudéssemos fazer uma mescla dos dois movimentos teríamos que o humanismo e o iluminismo, embora distintos em suas origens e ênfases, convergem em sua celebração do potencial humano e na crença no poder da razão. O humanismo, emergindo no Renascimento, coloca o ser humano no centro do universo, destacando a dignidade e o valor intrínseco de cada indivíduo. Este movimento ressuscitou o estudo das humanidades — literatura, filosofia, história e artes — como meios para entender a condição humana e desenvolver virtudes. A racionalidade e o livre-arbítrio são pilares fundamentais, promovendo a ideia de que os seres humanos têm a capacidade e a responsabilidade de se auto aperfeiçoar.

Por sua vez, o iluminismo, florescendo nos séculos XVII e XVIII, também coloca grande ênfase na razão, mas com um foco particular no progresso e na aplicação do método científico para compreender e transformar o mundo. A confiança na ciência e no racionalismo impulsionou inovações que moldaram a modernidade, fomentando uma visão de progresso contínuo. Os iluministas defendiam ardorosamente a liberdade e os direitos individuais, argumentando que a emancipação humana se baseia na liberdade de expressão, pensamento e religião (esta não baseada na Bíblia), bem como na igualdade perante a lei.

Ambos os movimentos compartilham uma valorização do secularismo. O humanismo, embora não necessariamente antirreligioso, defende que as realizações humanas podem ser celebradas independentemente do contexto religioso. O iluminismo, por seu turno, propôs a separação entre Igreja e Estado, sustentando que as questões religiosas não deveriam interferir nos assuntos públicos e políticos, posto que são tradições místicas, variando ao sabor das visões de mundo.

Essa convergência de ideias não apenas protestou as autoridades tradicionais, mas também promoveu uma nova visão de educação e ilustração. Para os humanistas, o estudo das humanidades era essencial para o desenvolvimento pessoal e moral. Já os iluministas viam a educação como a chave para a emancipação do indivíduo e para o avanço de uma sociedade mais esclarecida e justa, com indivíduos acessando livremente ter os mesmos objetos. Quanto mais educação, mais facilidade para acessar objetos, ou seja, a justiça abonará oportunidades iguais para aquisição de bens materiais. É importante lembrar que para o cristianismo, baseado na Bíblia, justiça tem a ver com possibilidades equitativas de crescimento moral em valores e seus significados, uma visão baseada na razão impressa na Torá judaica, sendo que os objetos são apenas pontos de inflexão para apoiar o crescimento em princípios e valores e mudanças de direção.

Assim, a fusão dos princípios humanistas e iluministas molda uma visão de mundo que celebra a capacidade humana de raciocinar, criar e progredir. Essa síntese promove um ideal de sociedade onde a dignidade humana é respeitada, a razão e a ciência são ferramentas essenciais para o progresso, e os direitos e liberdades individuais são fundamentais para a realização de uma vida plena e significativa. Em essência, esses movimentos combinados oferecem uma perspectiva otimista e progressista sobre o potencial humano e o desenvolvimento da civilização.

Ponderando que ambos os movimentos colocam o homem como sendo capaz de encontrar todas as soluções civilizatórias, e que é a razão humana a fonte de toda virtude, encontramos algumas incongruências entre os pressupostos do humanismo e do iluminismo e os propósitos bíblicos, especialmente no que diz respeito à visão sobre o ser humano, a fonte de moralidade e o papel da religião. Aqui estão algumas dessas incongruências:

Humanismo

1. Valorização do Ser Humano:

   - Humanismo: Coloca o ser humano no centro e valoriza a dignidade e o valor intrínseco de cada pessoa.

   - Bíblia: Embora a Bíblia também valorize a dignidade humana (criação à imagem de Deus), coloca Deus no centro de todas as coisas, e a dignidade humana é derivada do relacionamento com Deus.

2. Racionalidade e Livre-Arbítrio:

   - Humanismo: Acredita na capacidade humana de raciocinar e tomar decisões livres.

   -Bíblia: Afirma a importância do livre-arbítrio, mas também enfatiza a necessidade de orientação divina e a limitação da razão humana devido ao pecado.

3. Secularismo:

   - Humanismo: Promove uma visão secular, independente do contexto religioso.

   - Bíblia: Enfatiza a importância da fé e da submissão a Deus em todas as áreas da vida.

 Iluminismo

1. Racionalismo e Ciência:

   - Iluminismo: Confiança profunda na razão humana e no método científico como ferramentas principais para compreender e melhorar o mundo.

   - Bíblia: Reconhece o valor da razão e da observação do mundo natural, mas enfatiza que o verdadeiro entendimento e sabedoria vêm de Deus.

2. Progresso:

   - Iluminismo: Crença no progresso contínuo da humanidade através do conhecimento e inovação.

   - Bíblia: Embora a Bíblia não seja contra o progresso, ela coloca uma ênfase maior na transformação espiritual e na esperança de um futuro redentor através de Cristo.

3. Liberdade e Direitos Individuais:

   - Iluminismo: Valorização dos direitos e liberdades individuais.

   - Bíblia: Reconhece a importância da liberdade, mas ensina que a verdadeira liberdade é encontrada na obediência a Deus e em viver de acordo com Seus mandamentos. Não foca no indivíduo, mas na vida em coletividade e na cooperação com Deus e com os semelhantes, os dois princípios da Torá.

 

4. Secularismo e Laicidade:

   - Iluminismo: Defende a separação entre Igreja e Estado.

   - Bíblia: Embora haja passagens que reconheçam diferentes esferas de autoridade (como "dar a César o que é de César"), a Bíblia geralmente não promove uma separação estrita entre fé e vida pública. No entanto, admite que a mistura estado e religião sempre leva ao uso da força estatal na imposição de dogmas religiosos, um erro bíblico, pois o serviço a Deus é sempre por amor e não pela força.

As principais incongruências surgem do fato de que tanto o humanismo quanto o iluminismo tendem a enfatizar a autonomia e a capacidade humana, muitas vezes de forma independente ou até em oposição à dependência de Deus, central na cosmovisão bíblica. Além disso, o secularismo promovido por esses movimentos pode entrar em conflito com a perspectiva bíblica que contempla Deus como fundamental para o justo implemento de todas as áreas da vida. No entanto, é possível encontrar pontos de convergência em áreas como a valorização da dignidade humana e a busca por conhecimento, desde que estes sejam entendidos dentro de uma estrutura teológica que coloca Deus no centro.

Perspectiva Adventista do Sétimo Dia

Considerando que os movimentos humanista e iluminismo colocam o homem como a solução para seus próprios dilemas, ambos travam uma espécie de duelo com a Bíblia, onde a verdade não está na razão humana e no cientificismo, mas, na obediência aos princípios sagrados, os quais têm sua origem em Deus. Por essa razão, torna-se interessante verificar o que pensam, em particular os adventistas do sétimo dia, uma vez que estes não perfilam com os cristãos tradicionais ou católicos e evangélicos (são classificados de seita). 

Os Adventistas do Sétimo Dia são uma denominação cristã com crenças fundamentadas na interpretação literal e histórica da Bíblia. Algumas ideias do humanismo e do iluminismo podem entrar em contradição com essas crenças. Aqui estão algumas das principais áreas de conflito:

Humanismo

1. Valorização do Ser Humano:

   - Humanismo: Coloca o ser humano no centro e valoriza a dignidade e o valor intrínseco de cada pessoa.

   - Adventistas: Embora também valorizem a dignidade humana (criada à imagem de Deus), acreditam que a centralidade deve ser em Deus e em Seu plano para a humanidade.

2. Racionalidade e Livre-Arbítrio:

   - Humanismo: Enfatiza a capacidade humana de raciocinar e tomar decisões livres.

   - Adventistas: Reconhecem o livre-arbítrio, mas enfatizam a necessidade de orientação divina e a limitação da razão humana devido ao pecado.

3. Secularismo:

   - Humanismo: Promove uma visão secular, independente do contexto religioso.

   - Adventistas: Acreditam que a fé deve influenciar todas as áreas da vida e que Deus deve ser central em todas as decisões. Acreditam que a separação entre religião e estado é salutar à liberdade de consciência, sendo que, as leis deveriam estar baseadas na busca pela justiça, igualdade e proteção dos direitos humanos, refletindo os ensinamentos cristãos de amor ao próximo e compaixão.

 Iluminismo

1. Racionalismo e Ciência:

   - Iluminismo: Confiança profunda na razão humana e no método científico como ferramentas principais para compreender e melhorar o mundo.

   - Adventistas: Valorizam a ciência e a razão, mas acreditam que o verdadeiro entendimento vem de Deus. Eles sustentam que a Bíblia é uma fonte categórica de conhecimento e sabedoria (Jeremias 2:13; Jó 28:28; Provérbios 2:6).

2. Progresso:

   - Iluminismo: Crença no progresso contínuo da humanidade através do conhecimento e inovação.

   - Adventistas: Acreditam no progresso, mas colocam maior ênfase na transformação espiritual e na esperança do retorno de Cristo, que trará a verdadeira renovação (Isaías 55:11; Tessalonicenses 4:1).

3. Liberdade e Direitos Individuais:

   - Iluminismo: Valorização dos direitos e liberdades individuais.

   - Adventistas: Valorizam a liberdade religiosa e os direitos individuais, mas acreditam que a verdadeira liberdade é encontrada em viver de acordo com a vontade de Deus, conforme a lei dos dez mandamentos (Mateus 11:29; Efésios 4:13).

4. Secularismo e Laicidade:

   - Iluminismo: Defende a separação entre Igreja e Estado.

   - Adventistas: Apoiariam a separação em termos de evitar a imposição religiosa pelo Estado, mas acreditam que a fé deve influenciar a vida pública e pessoal.

Pontos de Convergência e Divergência

Convergências:

- Valorização da Educação: Ambos valorizam a educação, mas os adventistas enfatizam a educação que inclui formação espiritual.

- Dignidade Humana: Ambos valorizam a dignidade humana, embora os adventistas vejam essa dignidade como derivada de ser criado à imagem de Deus.

Divergências:

- Fonte da Moralidade: Para os humanistas e iluministas, a moralidade pode ser baseada na razão e no consenso social. Para os adventistas, a moralidade está fundamentada nos ensinamentos bíblicos.

- Centralidade de Deus: O secularismo e a ênfase na autonomia humana dos humanistas e iluministas contrastam com a visão adventista de que Deus deve ser central em todas as áreas da vida.

- Destino Humano: O progresso humano contínuo promovido pelo iluminismo contrasta com a visão adventista de que a solução final para os problemas da humanidade virá com o retorno de Cristo.

Em resumo, enquanto há áreas onde os adventistas podem encontrar pontos de concordância com os princípios do humanismo e do iluminismo, especialmente na valorização da dignidade humana e na educação, há também áreas de significativa divergência, especialmente no que se refere à centralidade de Deus e à fonte da moralidade e do entendimento humano.

Os pontos de concordância não são taxativos, mas algo evasivos, implicando que os movimentos humanista e iluminista têm distanciamentos irreconciliáveis com os adventistas. Isto indica que a fonte dos movimentos tem origem não bíblica. Ambos movimentos têm suas origens na árvore da ciência do bem e do mal.

domingo, 14 de julho de 2024

Justiça, Misericórdia e Humildade na Perspectiva Bíblica: Uma Análise de Miquéias 6:8 e Apocalipse 14

 Nas páginas sagradas do Pentateuco, encontramos o fundamento das virtudes que moldam a fé e a conduta cristã: justiça, misericórdia e humildade. Esses princípios não são meros ideais abstratos, mas mandamentos divinos que norteiam a vida do povo de Deus, formando o alicerce de uma sociedade que busca refletir a santidade e a compaixão do Criador.

Justiça: O Alicerce da Lei Divina

Desde as primeiras palavras do Pentateuco, a justiça se apresenta como um atributo central do caráter de Deus e uma exigência para Seu povo. Em Deuteronômio 16:20, lemos: "Siga a justiça, somente a justiça, para que você viva e tome posse da terra que o Senhor, o seu Deus, lhe dá." Este imperativo revela que a justiça é a base sobre a qual a vida comunitária deve ser construída. A justiça divina é mais que a mera aplicação de normas; é a manifestação da santidade de Deus, que requer uma vida de retidão e equidade.

No entanto, a justiça bíblica não é uma justiça cega e impessoal. Ela é temperada pela misericórdia, como se vê nos repetidos chamados à compaixão e ao cuidado pelos vulneráveis, ecoando a essência do coração divino.

Misericórdia: O Reflexo do Amor de Deus

A misericórdia, em sua forma mais pura, é uma expressão do amor incondicional de Deus por Seu povo. Em Êxodo 34:6-7, Deus se revela a Moisés como "o Senhor, o Senhor Deus compassivo e clemente, paciente, cheio de amor e de fidelidade, que mantém o seu amor a milhares e perdoa a maldade, a rebelião e o pecado." Esta descrição divina enfatiza que a misericórdia não é contrária à justiça, mas uma extensão dela. Deus, em Sua infinita bondade, chama Seu povo a imitar Sua misericórdia, tratando os outros com a mesma compaixão que Ele demonstrou.

A Lei mosaica está repleta de exemplos onde a misericórdia é fundamental. Em Levítico 19:18, o mandamento "Ame o seu próximo como a si mesmo" encapsula o espírito da misericórdia, destacando que o amor ao próximo é um reflexo da justiça e da bondade divinas.

Humildade: A Virtude Essencial

A humildade é a virtude que sustenta tanto a justiça quanto a misericórdia, lembrando-nos constantemente da nossa posição perante Deus. Em Deuteronômio 8:2, Moisés relembra ao povo: "Lembre-se de como o Senhor, o seu Deus, os conduziu por todo o caminho no deserto durante esses quarenta anos, para humilhá-los e pô-los à prova, a fim de conhecer suas intenções, se iriam obedecer aos seus mandamentos ou não." A humildade é a resposta adequada à soberania de Deus, reconhecendo que tudo o que temos e somos provém de Sua graça.

A humildade nos chama a servir aos outros com um coração sincero e despretensioso, a buscar a justiça não para nossa própria glória, mas para a glória de Deus, e a mostrar misericórdia não por obrigação, mas por genuína compaixão.

No âmago da fé cristã bíblica, conforme revelado no Pentateuco, estão as virtudes de justiça, misericórdia e humildade. Essas qualidades, quando integradas na vida do crente, refletem o caráter de Deus e promovem uma sociedade onde a santidade, a compaixão e a reverência ao Criador são fundamentais. A busca pela justiça, temperada pela misericórdia e sustentada pela humildade, não é apenas um chamado divino, mas a essência de uma vida que verdadeiramente honra e glorifica a Deus.

O versículo de Miquéias 6:8 é uma declaração poderosa e concisa sobre o que Deus requer de Seus seguidores. Vamos explorar o significado dessa afirmação. “Ele te declarou, ó homem, o que é bom; e que é o que o Senhor pede de ti, senão que pratiques a justiça, e ames a benignidade, e andes humildemente com o teu Deus?"

Miquéias era um profeta que vivia em um tempo de grande injustiça e corrupção em Israel. Os líderes religiosos e civis muitas vezes falhavam em seguir os mandamentos de Deus, explorando o povo e pervertendo a justiça. Neste contexto, Miquéias 6:8 resume de maneira magistral os requisitos de Deus para uma vida piedosa e justa.

"Pratiques a justiça": Isso significa viver de acordo com os princípios de equidade e retidão estabelecidos por Deus. Praticar a justiça implica tratar todos de maneira justa e imparcial, defender os direitos dos oprimidos e agir de forma honesta e íntegra em todas as áreas da vida.

"Ames a benignidade": A palavra "benignidade" pode ser traduzida como misericórdia, bondade ou amor leal (em hebraico, "hesed"). Amar a benignidade significa cultivar um coração compassivo e amoroso, demonstrando misericórdia e bondade para com os outros. É um chamado para ir além da simples justiça e mostrar um amor ativo e constante, refletindo a misericórdia que Deus demonstra para conosco.

"Andes humildemente com o teu Deus": Andar humildemente com Deus implica reconhecer nossa total dependência Dele, submetendo-nos à Sua vontade e vivendo em obediência aos Seus mandamentos. A humildade diante de Deus nos leva a uma postura de reverência e respeito, reconhecendo que tudo o que somos e temos vem Dele.

Miquéias 6:8 é uma síntese brilhante da ética bíblica. Ela captura a essência do que significa viver uma vida que agrada a Deus: Justiça: Ação correta e imparcialidade em todas as nossas relações. Benignidade/Misericórdia: Um amor ativo e compassivo para com todos. Humildade diante de Deus: Reconhecimento da soberania de Deus e nossa total dependência Dele.

Este versículo nos lembra que a verdadeira adoração e serviço a Deus não são apenas rituais ou sacrifícios externos, mas um compromisso interno e constante com os princípios divinos de justiça, misericórdia e humildade. Deus está mais interessado em como tratamos os outros e em nossa atitude para com Ele do que em meras formalidades religiosas.

Miquéias 6:8 nos chama a viver de maneira que reflita o caráter de Deus em nossas ações, atitudes e relacionamentos. É um convite para praticar a justiça, amar a misericórdia e andar humildemente com Deus, mostrando ao mundo a verdadeira essência da fé cristã. Esta passagem continua a ser uma bússola moral e espiritual para todos os que buscam seguir os caminhos do Senhor.

Encontramos uma ligação entre Miquéias 6:8 e a mensagem angélica de Apocalipse 14, vamos analisar ambos os textos em seus contextos bíblicos e teológicos.

Miquéias 6:8: o parágrafo interrogativo "Ele te declarou, ó homem, o que é bom; e que é o que o Senhor pede de ti, senão que pratiques a justiça, e ames a benignidade, e andes humildemente com o teu Deus?" resume as exigências de Deus para o Seu povo, enfatizando a prática da justiça, o amor à misericórdia e a humildade diante de Deus. É um chamado à vida ética e espiritual que agrada a Deus.

Em Apocalipse 14:6-12 estão as mensagens que admoestam sobre situações de cobrança da parte de Deus.

1.        Primeiro Anjo (Apocalipse 14:6-7): "E vi outro anjo voar pelo meio do céu, e tinha o evangelho eterno, para proclamar aos que habitam sobre a terra, e a toda nação, e tribo, e língua, e povo, dizendo com grande voz: Temei a Deus, e dai-lhe glória; porque vinda é a hora do seu juízo. E adorai aquele que fez o céu, e a terra, e o mar, e as fontes das águas."

2.        Segundo Anjo (Apocalipse 14:8): "E outro anjo seguiu, dizendo: Caiu, caiu Babilônia, aquela grande cidade, que a todas as nações deu a beber do vinho da ira da sua prostituição."

3.        Terceiro Anjo (Apocalipse 14:9-12): "E seguiu-os o terceiro anjo, dizendo com grande voz: Se alguém adorar a besta e a sua imagem, e receber o sinal na sua testa, ou na sua mão, também o mesmo beberá do vinho da ira de Deus, que se deitou, não misturado, no cálice da sua ira; e será atormentado com fogo e enxofre diante dos santos anjos e diante do Cordeiro."

Miquéias 6:8 e o primeiro anjo de Apocalipse 14:6-7 compartilham o tema do temor a Deus. Miquéias nos chama a andar humildemente com Deus, o que implica reverência e temor a Ele. O primeiro anjo clama para que todos temam a Deus e Lhe deem glória, pois a hora do Seu juízo chegou. Ambos os textos destacam a importância de reconhecer a soberania de Deus e viver de acordo com Seus mandamentos, que incluem a prática da justiça.

A mensagem do primeiro anjo sobre a chegada do juízo de Deus está ligada ao chamado de Miquéias para praticar a justiça. O juízo divino é a expressão final da justiça de Deus, onde Ele recompensará os justos e punirá os ímpios. Miquéias 6:8 nos chama a viver justamente, antecipando esse juízo e mostrando misericórdia, refletindo a benignidade de Deus.

O chamado à humildade em Miquéias 6:8 ressoa com o clamor do primeiro anjo para adorar "aquele que fez o céu, e a terra, e o mar, e as fontes das águas." A verdadeira adoração exige humildade, reconhecendo a grandeza de Deus e nossa total dependência Dele. Esta humildade é central para a vida espiritual e ética que Miquéias 6:8 defende.

A mensagem do segundo anjo sobre a queda de Babilônia, símbolo da corrupção e da injustiça, também se relaciona com o chamado de Miquéias para a justiça. A queda de Babilônia é um ato de justiça divina contra a opressão e a iniquidade, ecoando o desejo de Deus por um mundo onde a justiça prevaleça.

A advertência do terceiro anjo contra a adoração da besta e sua imagem e a exortação à fidelidade a Deus refletem a necessidade de viver de acordo com os princípios de Miquéias 6:8. Praticar a justiça, amar a misericórdia e andar humildemente com Deus implica rejeitar a idolatria e permanecer fiel a Deus, mesmo em face da perseguição.

Miquéias 6:8 e a mensagem angélica de Apocalipse 14 estão interligados por um chamado comum à justiça, misericórdia, humildade e adoração verdadeira. Ambos os textos destacam a importância de viver de maneira que haja honra a Deus, reconhecendo Sua soberania e preparando-se para o Seu juízo. Eles exortam os crentes a refletirem o caráter de Deus em suas vidas, permanecendo fiéis a Ele em um mundo muitas vezes marcado pela injustiça e pela idolatria.

segunda-feira, 8 de julho de 2024

A Intersecção entre Neurociência, Teologia Bíblica e Ética: A Influência do Lobo Frontal nas Decisões Morais e os Valores da Torá

A palavra hebraica para "alma" é "נֶפֶשׁ" (nephesh). Na Bíblia Hebraica, "nephesh" Essência da Vida; "Nephesh" é frequentemente traduzida como "alma" ou "vida" e refere-se à força vital que anima o corpo físico. Nephesh é vista como a sede das emoções, desejos e anseios humanos. Além disso, é a personalidade e Identidade; representa a individualidade e a singularidade de uma pessoa.

Na Bíblia "Nephesh" está explicada em vários textos. Em Gênesis 2:7, "E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra, e soprou em suas narinas o fôlego da vida; e o homem tornou-se uma alma vivente (נֶפֶשׁ חַיָּה, nephesh chayyah)" significa uma alma vivente, mostrando que o homem se torna um ser vivo completo com a "nephesh".

Em Levítico 17:11"Porque a vida (נֶפֶשׁ, nephesh) da carne está no sangue", "nephesh" está associada à vida física, indicando que a vida da carne está no sangue.

Em Salmo 42:1"Como o cervo anseia pelas correntes das águas, assim a minha alma (נֶפֶשׁ, nephesh) anseia por ti, ó Deus"; "nephesh" é usada para descrever o desejo profundo e a sede espiritual por Deus.

Claramente, a alma humana representa multifaces ou aspectos da existência humana, incluindo a vida, as emoções, os desejos e a individualidade. Na Bíblia, "nephesh" reflete a complexidade da natureza humana e sua conexão profunda com Deus e, portanto, a vida.

Na disciplina neurociência, o lobo frontal do cérebro é responsável por funções como tomada de decisões, controle de impulsos, planejamento, empatia e julgamento moral. Estas funções podem ser vistas como relacionadas mais diretamente à alma (nephesh), que é a sede das emoções, vontade e personalidade. Portanto, a alma é a dimensão humana mais nobre que está responsabilizada por aspectos que necessitam alta cognição, tais como:

Tomada de Decisões e Controle de Impulsos: Esses processos envolvem a vontade e o autocontrole, que são aspectos da alma.

Empatia e Julgamento Moral: Estas capacidades estão ligadas às emoções e à interação social, também componentes da alma.

Planejamento e Organização: Envolvem a vontade e a racionalidade, características da alma.

Embora a alma (nephesh) na Bíblia seja geralmente relacionado à conexão com Deus e às experiências espirituais, estas estão diretamente ligadas a uma região específica do cérebro como o lobo frontal, sendo vistas mais como uma dimensão transcendental da existência humana. É a nephesh que nos torna diferentes dos demais, e não as posses materiais.

A complexa interação entre o funcionamento do lobo frontal do cérebro humano e os valores éticos contidos na Torá oferece uma perspectiva fascinante sobre como a moralidade é construída e aplicada em nossas vidas. O lobo frontal, sendo a área responsável por funções cognitivas superiores, desempenha um papel crucial na tomada de decisões éticas, controle de impulsos, empatia, planejamento e julgamento moral. Esses processos são fundamentais para a vida em comunidade e para a manutenção de comportamentos que respeitem os valores coletivos e individuais.

A Torá, os cinco primeiros livros do Antigo Testamento, contém um conjunto rico e detalhado de normas e valores éticos que guiam o comportamento dos indivíduos e das comunidades. Esses valores incluem princípios como justiça, compaixão, honestidade, respeito aos pais, proteção aos vulneráveis, e a busca pela paz e harmonia. Vamos explorar como as decisões morais, influenciadas pelo lobo frontal, se alinham com os valores éticos da Torá.

1. Justiça e Equidade (צדק ומשפט - Tzedek u-Mishpat)

   O lobo frontal está envolvido na avaliação das ações e na determinação do que é justo e equitativo. A Torá enfatiza a importância da justiça em várias passagens, como em Deuteronômio 16:20: "Justiça, justiça seguirás, para que vivas e possuas a terra que o Senhor, teu Deus, te dá." A capacidade do lobo frontal de avaliar imparcialmente as situações e tomar decisões justas reflete a busca pela justiça que a Torá prescreve.

2. Empatia e Compaixão (חסד ורחמים - Chesed ve-Rachamim)

   A habilidade de compreender e compartilhar os sentimentos dos outros, governada pelo lobo frontal, é crucial para a prática da compaixão. A Torá exorta os seguidores a amarem o próximo como a si mesmos (Levítico 19:18) e a cuidarem dos pobres, órfãos e viúvas (Êxodo 22:21-22). A empatia facilitada pelo lobo frontal permite que os indivíduos vivam esses mandamentos de compaixão e bondade.

3. Honestidade e Integridade (אמת ויושר - Emet ve-Yosher)

   O julgamento moral e o controle de impulsos, funções do lobo frontal, são essenciais para manter a honestidade. A Torá valoriza a verdade e a integridade, como exemplificado em Levítico 19:11: "Não roubarás, nem mentirás, nem usarás de falsidade com o teu próximo." A capacidade de resistir à tentação de mentir ou enganar é uma demonstração da integridade promovida tanto pelo lobo frontal quanto pela Torá.

4. Responsabilidade e Confiabilidade (אחריות ואמינות - Achrayut ve-Aminut)

   A responsabilidade e a confiabilidade, governadas pelo lobo frontal, são centrais nos mandamentos da Torá sobre cumprimento de promessas e deveres. Em Números 30:2, é dito: "Quando um homem fizer um voto ao Senhor ou fizer um juramento de obrigar-se por algum compromisso, não violará sua palavra; fará conforme tudo o que saiu de sua boca." A capacidade do lobo frontal de planejar e prever consequências é crucial para a manutenção da palavra e das responsabilidades.

5. Respeito e Honra aos Pais (כבוד הורים - Kavod Horim)

   A Torá ordena o respeito e a honra aos pais em Êxodo 20:12: "Honra teu pai e tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na terra que o Senhor, teu Deus, te dá." O lobo frontal ajuda a moderar o comportamento, permitindo que os indivíduos mostrem respeito e consideração, refletindo a importância desse mandamento.

A interação entre o lobo frontal e os valores éticos da Torá ilustra como nossos processos neurocognitivos sustentam e facilitam a prática da moralidade religiosa. A teologia e a neurociência juntas podem fornecer uma compreensão mais profunda de como os seres humanos são equipados para viver de acordo com elevados padrões éticos e morais que, na verdade, são o conteúdo da lei dos dez mandamentos. As decisões morais governadas pelo lobo frontal não apenas permitem a convivência harmoniosa na sociedade, mas também capacitam os indivíduos a seguir os valores atemporais contidos na Torá, criando uma sinergia entre biologia (corpo)  e espiritualidade (razão + alma = nephesh).

A proibição bíblica em relação ao uso de bebidas fermentadas tem o respaldo no fato de que o álcool afeta especialmente o lobo frontal do cérebro, que é responsável por várias funções importantes, incluindo a tomada de decisões, o controle de impulsos, a regulação das emoções, o planejamento e a organização. O lobo frontal também desempenha um papel crucial na definição dos valores e significados pessoais, bem como no comportamento social.

Quando uma pessoa consome álcool, ele pode interferir no funcionamento normal do lobo frontal, resultando em:

1. Diminuição do Controle de Impulsos: A pessoa pode se tornar mais impulsiva e propensa a tomar decisões precipitadas.

2. Alteração no Julgamento e na Tomada de Decisões: A capacidade de avaliar situações e tomar decisões sensatas pode ser prejudicada.

3. Mudanças no Comportamento Social: O álcool pode levar a comportamentos sociais inadequados ou arriscados, pois o controle das normas sociais e éticas pode ser reduzido.

4. Regulação Emocional: Pode haver uma dificuldade em regular as emoções, resultando em mudanças de humor ou comportamento agressivo.

5. Valores e Significados: O impacto no lobo frontal pode afetar como a pessoa percebe e valoriza aspectos importantes da sua vida, influenciando suas crenças e atitudes.

Esses efeitos afetam a capacidade cognitiva da alma impedindo a guarda da lei. Por essa razão, a Bíblia adverte contra embriaguez: Provérbios 20:1: "O vinho é zombador e a bebida fermentada provoca brigas; não é sábio deixar-se dominar por eles." Efésios 5:18: "E não vos embriagueis com vinho, no qual há devassidão, mas enchei-vos do Espírito." A embriaguez é associada a comportamentos insensatos e destrutivos. O domínio próprio é uma virtude importante na Bíblia, e a embriaguez compromete a capacidade de tomar decisões sábias e comportar-se de maneira piedosa.

Regras para Líderes Religiosos:

Levítico 10:9: "Nem tu nem teus filhos beberão vinho ou outra bebida fermentada quando entrarem na tenda do encontro, senão morrerão. Este é um decreto perpétuo para as suas gerações."

1 Timóteo 3:2-3: "É necessário, pois, que o bispo seja irrepreensível... não dado ao vinho."

Líderes religiosos são chamados a ser exemplos de comportamento piedoso e a manter a clareza mental e a sobriedade para realizar suas funções espirituais de maneira adequada.

Por outro lado, àqueles que suportam responsabilidades administrativas, a Bíblia admoesta dizendo: 

Provérbios 31:4-5: "Não convém aos reis, ó Lemuel, não convém aos reis beber vinho, nem aos príncipes desejar bebida forte; para que não bebam, e se esqueçam da lei, e pervertam o direito de todos os aflitos." A responsabilidade de governar com justiça e sabedoria requer uma mente clara e discernimento, que podem ser comprometidos pelo consumo de álcool.

Logicamente, a manutenção de almas saudáveis é tarefa para aqueles que estão em preparo para estarem perfilados com os remanescentes, o quarto anjo de Apocalipse 18:1 “ E depois destas coisas vi descer do céu outro anjo, que tinha grande poder, e a terra foi iluminada com a sua glória”.

Se sabemos que a glória significa caráter, o desenvolvimento de nossa nephesh é a obra individual e coletiva para os fiéis. Álcool é uma das variáveis que danificam a alma; temperança em todos os aspectos é a prioridade dos santos.

terça-feira, 26 de março de 2024

Desconfiança em Deus, o Principal Pecado


Na penumbra da alma, onde os dilemas se entrelaçam como teias de aranha, reside o mais insidioso dos pecados: a desconfiança em Deus. Não é o furor blasfemo que ecoa nas catedrais, nem o grito de revolta que desafia os altares. É algo mais sutil, mais traiçoeiro. É a dúvida que se infiltra como um veneno silencioso, corroendo a fé desde dentro.

O homem, esse ser inquieto e ávido por respostas, ergue os olhos ao céu em busca de significado. Ele anseia por um Deus que lhe explique o inexplicável, que lhe revele os segredos do universo. Mas quando as estrelas permanecem mudas e os céus permanecem impenetráveis, a desconfiança se insinua.

“Será que Deus existe?”, sussurra o homem em sua solidão. “Será que Ele nos abandonou à deriva neste oceano de incertezas?” E assim, a semente da desconfiança é plantada, germinando nos recantos mais sombrios da alma.

O homem olha para o mundo e vê a dor, a injustiça, a crueldade. Ele contempla os horrores que assolam a humanidade e questiona: “Se Deus é amor, por que permite tanta aflição?” A desconfiança se alimenta das lágrimas dos inocentes, das súplicas não atendidas, dos milagres que nunca acontecem.

E assim, o homem se torna um apóstata em segredo. Ele frequenta os templos, mas sua alma está distante. Ele reza, mas suas palavras são vazias. Ele se agarra a dogmas, mas sua mente está em rebelião. A desconfiança se transforma em um abismo entre ele e o divino.

Mas talvez, apenas talvez, a desconfiança seja o teste final da fé. Talvez Deus observe com olhos compassivos enquanto o homem luta contra suas próprias sombras. Talvez Ele espere pacientemente, sabendo que a jornada da fé é uma dança entre a luz e a escuridão.

E assim, o homem deve escolher. Ele pode se afogar na desconfiança, afastando-se do sagrado, ou pode se lançar no abismo, confiando que, mesmo na queda, há mãos invisíveis prontas para segurá-lo.

A desconfiança em Deus, o principal pecado, é também a oportunidade de redenção. Pois é na escuridão que a luz brilha mais intensamente. E é na dúvida que a fé se fortalece, como uma árvore que cresce em solo rochoso, suas raízes buscando alicerces profundos.

Que o homem, então, olhe para o céu com olhos de criança, sem medo da vastidão. Que ele abrace a incerteza como um presente, pois é nela que a fé floresce. E que ele saiba que, mesmo quando a desconfiança o assaltar, há um Deus que espera pacientemente, com amor inabalável, pelo retorno do filho pródigo.

Desenvolvendo a Confiança em Deus: Uma Jornada de Fé

Na quietude das almas, onde as estrelas sussurram segredos e os ventos carregam histórias antigas, reside a essência da confiança em Deus. Não é um caminho pavimentado, mas sim uma trilha sinuosa que serpenteia pelos vales da incerteza e pelas montanhas da esperança.

O homem, esse viajante da incerteza, anseia por ancorar sua alma em algo maior. Ele busca respostas nos pergaminhos sagrados, nas preces noturnas e nos olhos dos sábios. Mas a confiança não é um destino; é uma jornada. E como todo peregrino, ele deve dar o primeiro passo.

1. O Silêncio da Fé

A confiança começa no silêncio. É quando o homem se curva diante do desconhecido e sussurra: “Aqui estou, Senhor.” É quando ele abandona as certezas mundanas e se lança nos braços invisíveis da divindade. A fé não é um grito; é um sussurro que ecoa nas câmaras secretas do coração.

2. As Estrelas e os Abismos

O homem olha para o céu e vê as estrelas. Elas são faróis na noite escura, guias para os navegantes perdidos. Ele contempla os abismos da existência e se pergunta: “Haverá um plano maior? Haverá um propósito oculto?” A confiança é a resposta que ele encontra nas constelações e nos vazios siderais onde pode ver a mão de Deus no leme do universo. Galáxias, sistemas planetários, quem sabe, milhares de mundos habitados por ouros seres, tudo dependendo de um Deus longânimo e bondoso, que mantem as leis perenes que dão solidez e equilíbrio aos milhares de sistemas no cosmo. A percepção do comando divino é o fundamento da confiança.

3. As Tempestades da Dúvida

Mas a jornada da confiança não é isenta de tempestades. A dúvida, muitas vezes, se ergue como ondas revoltas, ameaçando afundar o barco frágil da fé. O homem se agarra aos mastros da esperança, enfrentando os ventos da incerteza. Ele aprende que a confiança não é ausência de dúvida; é a coragem de continuar navegando mesmo quando o horizonte está encoberto.

4. O Refúgio nas Promessas

As Escrituras são faróis na escuridão. Elas contêm as promessas de Deus, como pérolas escondidas no fundo do mar. O homem lê sobre a aliança com Noé, a fé de Abraão, a coragem de Moisés, a perseverança dos mártires. Ele percebe que a confiança não é cega; é baseada em histórias de fidelidade e amor.

5. A Oração como Bússola

A oração é a bússola da confiança. O homem se ajoelha e fala com o Invisível. Ele compartilha seus medos, suas alegrias, suas angústias. Ele aprende que a confiança não é uma estrada reta; é um diálogo constante com o divino. Às vezes ouvindo, às vezes silêncio. Quando ouve a voz de Deus deve orar, quando não ouve deve orar ainda mais. E quanto mais ora, mais os mistérios são revelados; a oração promove o desenvolvimento da fé inteligente, é mediante o orar que aprendemos a ciência do buscar e a paciência para esperar.

6. Os Milagres Cotidianos

A confiança se fortalece nos milagres cotidianos. O homem vê a chuva que alimenta a terra, o sorriso de uma criança, a mão estendida de um amigo. Ele entende que a confiança não é apenas para os grandes momentos; é para cada respiração, cada batida do coração. Se Deus alimenta as aves, se cuida da frágil erva, cuidará de quem nele confia.

7. A Dança da Fé

E assim, o homem dança com a fé. Ele gira nos círculos da incerteza, levanta os braços para os céus e se entrega. Ele sabe que a confiança não é uma linha reta; é uma dança que oscila entre a luz e a sombra, entre o alcance da visão e a opacidade do infinito, entre o conhecer Deus e esperar o que dele advem.

Que o homem, então, continue sua jornada. Que ele confie nas estrelas, mesmo quando a noite é mais escura. Que ele se curve diante do mistério, sabendo que a confiança é a ponte que liga o finito ao infinito.

 

quinta-feira, 25 de janeiro de 2024

Exemplo perfeito para as crianças, os jovens e os adultos

 

“O homem caiu. A imagem de Deus nele se acha deformada. Por causa da desobediência ele se tornou depravado em suas inclinações e debilitado em suas faculdades, aparentemente incapaz de esperar qualquer outra coisa além de tribulação e castigo” (Ellen White, Refletindo a Cristo, 23 de janeiro, p.29) .

A queda do homem significou a rebaixada do nível moral no qual fora criado e colocado por Deus. Havai simetria nas três dimensões humanas: corpo, alma e espírito. Depois da queda veio a depravação; perversão ou corrupção, o efeito de estragar, alterar para pior. A queda alterou para pior as inclinações, os desejos humanos que eram sempre em direção ao que é justo; agora estão estragados. Não há mais inclinação para fatos de justiça, apenas para injustiças ou iniquidades. As faculdades espirituais todas foram alteradas; as capacidades naturais ou adquiridas para realizar alguma coisa. Assim, a sensação, o pensamento, a imaginação, a memória e a vontade, responsáveis por vários fenômenos, como percepção, experiência de dor, crença, desejo, intenção e emoção, estes últimos ligados à alma humana, todas as faculdades que estão relacionadas com as funções superiores do cérebro humano e que possibilitam sua cognição e comportamento, estas faculdades foram alteradas para pior com a queda.

 Mas Deus, por intermédio de Cristo, planejou um escape, e diz a todos: “Portanto, sede vós perfeitos” (Mateus 5:48). Em outras palavras, não era o plano de Deus deixar a humanidade pós-queda nesse estado degradado ou depravado.  O propósito divino é que o homem seja correto e digno diante dEle, e assim, por meio de Jesus Cristo, o Seu plano não será frustrado. “Ele enviou o Seu Filho a este mundo a fim de pagar a penalidade do pecado, e mostrar ao homem como viver uma vida sem pecado” (Ellen White, idem). Chamamos a atenção para que ao homem foi dada oportunidade para deixar a depravação e retornar ao status quo em que estava no Éden. A ideia de homem permanentemente pecador não é bíblica.

“Cristo é o nosso ideal. Ele deixou um exemplo perfeito para as crianças, os jovens e os adultos. Ele veio à Terra e passou pelas diferentes fases da experiência humana. Em Sua vida o pecado não encontrou lugar. Do início ao fim de Sua vida terrena, Ele manteve pura Sua lealdade a Deus. As Escrituras dizem dEle: Crescia o menino e Se fortalecia, enchendo-Se de sabedoria; e a graça de Deus estava sobre Ele (Lucas 2:40). Ele crescia “em sabedoria, estatura e graça, diante de Deus e dos homens” ( Lucas 2:52). (Ellen White, idem).

“O Salvador não viveu para a satisfação de Si mesmo. [...] Não possuía lar neste mundo, exceto quando a bondade de Seus amigos lhe providenciava um; no entanto, era divinal estar em Sua presença. Dia a dia Ele enfrentava as provações e tentações, mas não fracassou nem ficou desanimado. Era sempre paciente e bem-disposto, e os angustiados O aclamavam como um mensageiro de vida, paz e saúde. Nada havia em Sua vida que não fosse puro e nobre” (Ellen White, idem). O que é importante na citação acima? Jesus é o homem que viveu sem dar oportunidade ao pecado. No seu dia a dia estava exposto às mesmas tentações ou sugestões satânicas como qualquer ser humano. Mantinha suas inclinações e suas faculdades conforme o padrão que fora dado a Adão. O padrão é a lei de Deus. Ali há nossos deveres para com a divindade e também nossos deveres para com os semelhantes. Jesus era 100% homem. Não havia nenhuma diferença nele que o separasse do conjunto dos humanos. E nem poderia haver, sob pena de não nos representar.  Por essa razão, somos instados a imitá-lo.

A promessa de Deus é: “E sereis santos, porque Eu sou santo” (Levítico 11:44). A santidade é o estado contrário ao pecado; a santidade é o reflexo da glória de Deus. O reflexo do caráter de Deus. Mas para refletirmos esta glória, precisamos cooperar com Deus. A cooperação é possível quando o coração e a mente se esvaziam de tudo que conduz ao erro. O erro é chamado na Bíblia de mundanismo; conformidade com o pensamento ou o comportamento da sociedade humana depravada em sua essência. O combate ao erro somente é possível pela suplantação do raciocínio mundano. É necessária a substituição dos pressupostos da razão pura, da tradição civilizatória humana por outras pressuposições que somente são encontrados na Palavra de Deus. Esta precisa ser lida e estudada com um sincero desejo de obter dela força espiritual.

A força espiritual significa que novas ideias ultrapassarão as antigas. A Bíblia é o Pão do Céu; as ideias celestes alimentarão a nova mente e formarão a nova alma. Os que recebem o Pão do Céu e o tornam uma parte de sua vida, se fortalecem em Deus e não no mundanismo ou tradições humanas que formam o senso coletivo. Nossa santificação, ou nossa conformidade com o caráter de Deus, é o objetivo de Deus em toda a Sua conduta conosco. Ele nos escolheu desde a eternidade, para sermos santos. Cristo declara: “Pois esta é a vontade de Deus: a vossa santificação” (1 Tessalonicenses 4:3). Em decorrência do que até aqui vimos, será necessário que queiramos que os nossos desejos e inclinações sejam mantidos segundo a vontade divina. Sem nossa aquiescência, nada da parte de Deus será realizado. Nestas circunstâncias permaneceremos na depravação. Por esta razão, é necessário um novo nascimento que se inicia com o batismo por imersão.

Ninguém sai do estado depravado sem pagar a multa prevista na lei de Deus, qual seja, sem derramamento de sangue não há remissão de pecado, portanto, a própria vida deve ser o pagamento (batismo). Era essa necessidade que os sacrifícios diários no santuário enfatizavam. O cordeiro morto diariamente simbolizava Cristo que faria o pagamento por toda humanidade. Foi a morte de Cristo (nós a experimentamos no batismo; morremos e ressuscitamos) que possibilitou nossa remissão. Um remido tem a sua dívida anulada, mas, o prejuízo é sempre debitado a alguém. Assim, somos eternamente devedores a Cristo.

Devido ao sacrifício de Cristo, podemos almejar ser santos. O caráter de satanás será substituído pelo caráter de Deus. “O viver a vida do Salvador, o superar cada desejo egoísta, cumprindo corajosa e alegremente nosso dever para com Deus e para com aqueles que nos cercam, nos torna mais do que vencedores. Isso nos prepara para permanecer em pé diante do grande trono branco, livres de qualquer mácula ou ruga, após termos lavado nossas vestes no sangue do Cordeiro” ( Signs of the Times, 30 de Março de 1904).

Deve ficar entendido que nosso dever para com Deus está contido nos cinco primeiros comandos da lei dos dez mandamentos, assim como nosso dever para com os que nos cercam são os outros cinco comandos. Por causa do sacrifício de cristo, posso reivindicar que me seja permitido obedecer a Deus e não ao mundo. Tal situação chama-se liberdade.

quarta-feira, 17 de janeiro de 2024

A essência humana é triangular

 

A criação do homem foi um feito divino de extrema complexidade. Era intensão divina que o homem formasse uma nova e distinta ordem de seres inteligentes para que demonstrasse para o universo inteiro as vantagens da lei de Deus (Ellen White, Review and Herald, 11 de fevereiro, 1902). Assim, a humanidade foi formada à imagem de Deus, com poderes mentais superiores a qualquer outra criatura vivente que houvesse Deus feito. Suas faculdades mentais eram apenas um pouco menor do que a dos anjos (Idem, 24 de fevereiro de 1874).

A palavra complexidade significa a qualidade de ter muitas ligações, as quais formam plexos, ou seja, com muitas ramificações que se entrelaçam. Um dos plexos humanos mais significativos está formado pelas três dimensões: corpo, espírito e alma.

Três dimensões humanas estão discutidas nas tradições religiosas e filosóficas e, seria oportuno entender as três partes, especialmente sob a iluminação bíblica.

“E o mesmo Deus de paz vos santifique em tudo; e todo o vosso espírito, e alma, e corpo, sejam plenamente conservados irrepreensíveis para a vinda de nosso SENHOR Jesus Cristo”. (I Tessalonicenses 5:23). Conforme a Bíblia, as três dimensões devem ser conservadas para que tenhamos sucesso no dia do encontro com Deus.

Parece haver uma ênfase na importância da harmonia entre corpo, mente e espírito, encorajando um estilo de vida equilibrado e saudável. Também parece intuitivo ver o raciocínio bíblico indicando que desequilíbrios nas três dimensões humanas causam teratologias pessoais e coletivas. Talvez seja prudente olhar mais na intimidade estas dimensões.

Corpo

O corpo refere-se à dimensão física e tangível do ser humano. Ele inclui as células, os órgãos, os sistemas, e toda a estrutura material que compõe o organismo. O corpo é a parte visível e material da existência humana, sujeita às leis da natureza, ao envelhecimento e à mortalidade. De acordo com a tradição cristã, o corpo é criado por Deus e é considerado o templo do Espírito Santo; no funcionamento do corpo pode-se ver, na harmonia entre os órgãos e sistemas, as ideias e o modelo administrativo de Deus. O corpo é a dimensão através da qual a imagem de Deus aparece aos olhos dos outros semelhantes. É o corpo que expressa a fé quando produz as boas obras. É, na verdade, o corpo a dimensão onde Deus habita, ou seja, onde são expressos e materializados os fundamentos ideológicos divinos.

Espírito

Esta dimensão está conexa com a razão. A expressão "razão humana" refere-se à capacidade cognitiva exclusiva dos seres humanos de pensar, analisar, compreender e tomar decisões com base na lógica, na experiência e na reflexão. A razão humana é muitas vezes considerada uma característica distintiva da espécie humana e é fundamental à ética e a tomada de decisões.

O espírito/razão envolve a capacidade de pensar logicamente e de forma coerente. Isso inclui a habilidade de fazer inferências, analisar padrões, reconhecer relações de causa e efeito, e aplicar princípios lógicos. Os seres humanos têm a capacidade de avaliar diferentes opções, considerar informações relevantes e tomar decisões informadas com base em análises racionais.

O espírito humano permite ao homem a reflexão e autoconsciência; os seres humanos podem avaliar seus próprios pensamentos, examinar suas crenças e buscar compreensão sobre si mesmos e o mundo ao seu redor.

Através do espírito/razão, os seres humanos exploram o mundo, formulam teorias, conduzem experimentos e desenvolvem tecnologias inovadoras. Além disso o espírito permite a formulação de princípios éticos e morais. A capacidade de avaliar ações à luz de valores éticos e morais contribuindo para o desenvolvimento de sistemas éticos e para posicionamentos éticos.

É com o espírito que os homens se comunicam e expressam pensamentos, compartilham ideias complexas e colaboram na construção do conhecimento. A capacidade de raciocinar está intrinsecamente ligada à linguagem e à comunicação.

Os seres humanos buscam compreender o propósito da vida, a natureza da existência. Por essa razão, o espírito é associado à comunhão com Deus e à vida espiritual, ou seja, a vida além das posses materiais. Em João 4:24 (NVI), Jesus diz: "Deus é espírito, e é necessário que os seus adoradores o adorem em espírito e em verdade."  Adorar em espírito significa estar servindo a Deus com toda a nossa capacidade cognitiva e a razão. Adorar em verdade pressupõe que não há hipocrisias no relacionamento com Deus. O serviremos porque reconhecemos sua soberania e superioridade, discernimos os valores morais exigidos e, efetivamente os empregamos nos relacionamentos sociais cotidianos. A obra do Espírito Santo também é destacada em passagens que falam sobre regeneração e renovação espiritual (por exemplo, Tito 3:5).

Alma

No hebraico, a palavra que muitas vezes é traduzida como "alma" é "nephesh" (נֶפֶשׁ). O termo "nephesh" é usado em várias passagens na Bíblia hebraica (Antigo Testamento) e tem uma gama de significados, sendo traduzido não apenas como "alma", mas também como "vida", "criatura", "ser" ou "pessoa", dependendo do contexto. Na tradição hebraica, a "nephesh" está frequentemente associada à totalidade da vida de uma pessoa, incluindo suas emoções, desejos e individualidade.

"Então o Senhor Deus formou o homem do pó da terra e soprou em suas narinas o fôlego de vida, e o homem se tornou um ser vivente" (Gênesis 2:7). A palavra-chave aqui é "ser vivente", traduzida do hebraico "nephesh chayyah" (נֶפֶשׁ חַיָּה). Nesta passagem, a "nephesh" está relacionada à criação do ser humano como um ser vivo. A ênfase está na vida animada dada por Deus ao homem. Em Gênesis 2:7, está destacada a vivacidade e a animação dadas por Deus aos seres humanos, ou seja, a capacidade de se movimentar, em sentido amplo, e de ter volição, tomada de decisão, vontade, vitalidade, varonilidade.

Por um raciocínio intuitivo, é fácil concluir que a alma sempre obedece ao espírito; o espírito produz a alma. O espírito, por sua vez, depende do corpo, considerando que o cérebro é a sede do espírito e todas as partes do corpo trabalham para manter a sanidade do cérebro. A alma formada pela mente e sustentada pelo corpo, encapsula a ideia da totalidade da existência de uma pessoa: Emoções, desejos, individualidade.

O corpo sustenta a mente, ou espírito, ou a razão; quando pensamos, o cérebro se inunda de sangue. O espírito dá surgimento e formata a alma. As três dimensões possuem relação de complexidade, significando que uma não existe sem a outra. O desequilíbrio em uma das três dimensões provoca, necessariamente, assimetria e, esta, por sua vez, produz um ser humano disfuncional.

Agora, vamos falar no que pode provocar o desequilíbrio tridimensional humano. Se o corpo é a estrutura física que alberga as outras duas dimensões, então, qualquer injúria contra o corpo afetará diretamente o espírito e a alma.

No Éden, a serpente oferece alimento ao casal que era a matriz de uma nova e distinta ordem de seres inteligentes.  “E viu a mulher que aquela árvore era boa para se comer, e agradável aos olhos, e árvore desejável para dar entendimento [...]” (Gênesis 3:6). Satanás estimulou (tentou) Eva a provar algo que Deus havia proibido. É importante que tenhamos em mente a noção de que as proibições de Deus são motores para manutenção do equilíbrio das três dimensões humanas. Desde a saída do casal primitivo do Éden, até o presente, satanás vem oferecendo à humanidade substâncias que, supostamente, alteram para melhor o desempenho do espírito e, consequentemente, alteram a estado da alma. A palavra temperança faz algum sentido?

As substâncias que ingerimos podem causar dois efeitos: produzem efeitos terapêuticos ou efeitos tóxicos. Logo, qualquer substância que possa injuriar o corpo, roubará a capacidade do corpo de gerar um espírito pleno e, consequentemente, gerará uma alma doente. Portanto, todo vício vai tornar os humanos prisioneiros, sem liberdade, uma vez que a liberdade, a volição, a capacidade de tomar atitudes, que está nas mãos da alma, ficará impedida porque o corpo produzirá solicitações incontroláveis ao espírito (concupiscência) e este afetará a liberdade volitiva da alma. O vício aprisiona o corpo e este não permite que o espírito utilize a razão para estabelecer relações causa e efeito, resultando na perda da alma. A varonilidade de um humano depende, necessariamente, do equilíbrio das três dimensões.

Jesus enfatizou o perigo: "Não tenham medo dos que matam o corpo, mas não podem matar a alma. Antes, tenham medo daquele que pode destruir tanto a alma como o corpo no inferno" (Mateus 10:28).

“Adão estava diante de Deus na força da sua varonilidade, tendo todos os órgãos e faculdades do seu ser plenamente desenvolvidos e harmoniosamente equilibrados” (Ellen White, A Verdade Sobre os Anjos, p.50). É fácil concluir que o pecado retirou da humanidade o estado de equilíbrio primitivo. É o desequilíbrio das três dimensões a causa de toda insegurança e injustiça, e também está relacionada com as várias doenças psicossomáticas.

São três as dimensões humanas. São três as divindades na trindade. São três os principais patriarcas (Abraão, Isaque e Jacó). Na tradição rabínica, a Torá (os cinco livros de Moisés) é frequentemente dividida em três partes: Torá (Lei), Nevi'im (Profetas) e Ketuvim (Escritos). Essa divisão é conhecida como Tanakh, que é a Bíblia Hebraica. Além disso, os rabinos categorizaram os milagres divinos em três tipos: aqueles que afetam a natureza (nissim), aqueles que envolvem eventos históricos (nesim), e milagres pessoais (mofet). Durante o Shabat (sábado), os judeus tradicionalmente fazem três refeições significativas: uma na noite de sexta-feira, uma durante o dia de sábado e outra à noite no sábado. Essas refeições são vistas como parte da observância do Shabat. Em alguns ensinamentos rabínicos, é mencionado que existem três tipos de amor: amor instintivo (ahavah), amor condicional (ahavtá), e amor incondicional (ve'ahavtá).

Qual a importância do número três no equilíbrio?

Vamos entender olhando a figura geométrica mais simples, o triângulo. Estruturas formadas por triângulos são frequentemente mais estáveis do que aquelas que não possuem essa configuração triangular. Essa estabilidade está relacionada a várias propriedades geométricas e mecânicas dos triângulos.

Os engenheiros defendem que os triângulos são eficazes na distribuição de forças. Quando uma força é aplicada a um triângulo, a carga é distribuída de forma mais uniforme pelos lados, minimizando pontos de tensão concentrada. Isso contribui para a estabilidade estrutural.

Branislav Vidic (1933-2003), um engenheiro iugoslavo, desenvolveu várias teorias sobre a eficiência das estruturas triangulares. Ele enfatizou a importância da simetria e da geometria na concepção de estruturas resistentes.

Triângulos são formas rígidas que resistem bem a deformações. Se um triângulo é deformado, os comprimentos dos seus lados ou os ângulos internos precisariam mudar, o que não é fácil em comparação com formas mais complexas.

Em estruturas trianguladas, os deslocamentos em um ponto tendem a ser minimizados. Se um ponto em um triângulo se desloca, isso afeta diretamente os comprimentos dos lados e, consequentemente, a geometria do triângulo. Isso ajuda a limitar e controlar os deslocamentos indesejados.

Buckminster Fuller (1895-1983), um arquiteto, engenheiro e designer, é famoso por popularizar a cúpula geodésica, uma estrutura composta por triângulos interconectados. Fuller acreditava que as estruturas triangulares eram a forma mais eficiente e resistente para construções em larga escala.

A geometria simples dos triângulos facilita a análise matemática e a resolução de equações relacionadas a forças, momentos e deformações. Isso simplifica o projeto e a análise de estruturas.

Estruturas formadas por triângulos tendem a ser mais estáveis globalmente. Triângulos podem ser combinados para formar treliças e malhas, que são usadas em pontes, torres, mastros, e outras estruturas, proporcionando estabilidade global. Então, pensem numa comunidade com pessoas equilibradas nas três dimensões humanas? Teríamos estabilidade social coletiva.

Santiago Calatrava (1951-presente), um arquiteto, engenheiro e escultor contemporâneo, é conhecido por suas obras que frequentemente incorporam formas geométricas, incluindo triângulos. Suas pontes e edifícios muitas vezes apresentam estruturas triangulares que contribuem para a estabilidade global e a estética arquitetônica.

Frei Otto (1925-2015), um arquiteto e engenheiro alemão, era conhecido por suas contribuições para a arquitetura leve e tensão. Suas estruturas muitas vezes incorporavam formas triangulares para otimizar a estabilidade e a distribuição de forças.

Portanto, triângulos são eficientes na resistência a cargas laterais, como vento ou movimentação lateral. Isso é especialmente importante em estruturas expostas a condições ambientais desafiadoras.

Entendendo as qualidades dos triângulos podemos entender que comunidades equilibradas tridimensionalmente resistiriam melhor a ventos morais negativos e às derivas éticas costumeiras de nosso tempo.

É por essas razões que muitas estruturas na engenharia, como pontes, torres de transmissão, mastros, treliças e algumas formas de estruturas arquitetônicas, são projetadas com uma configuração triangular.

Qual é o objetivo do evangelho e a função de uma sociedade da fé? Devolver ao homem o estado original quando o equilíbrio das três dimensões (corpo, espírito e alma) estará satisfeito. Nossa preocupação como cristãos é construir pessoas e comunidades assim. A igreja é bem mais do que apenas programações que invariavelmente divertem mais que educam. Igrejas cristãs são centros de altíssima cognição, onde deverão ser desenvolvidas as três dimensões humanas. Sem o regresso ao equilíbrio tridimensional humano, não seremos capazes de servir a Deus plenamente, porque Deus se relaciona com pessoas livres. É na dimensão triangular que está a nossa resistência.

Tudo o que afeta o corpo, ou produz dependência ou vícios deve ser eliminado. Não estamos falando apenas de substâncias químicas. Há tipos de vícios que são de ordem psicológica que irão, da mesma forma enfraquecer a estrutura triangular humana. Mas, todos os vícios promovem escravidão. Um corpo escravizado definha a razão porque degrada o lobo frontal do cérebro, no qual estão as altas faculdades da mente. Mente enfraquecida tira a existência da alma. Essa é a situação em que o pecado nos aprisionou.

 

 

 

 

 

 

 

segunda-feira, 8 de janeiro de 2024

A oração é um ato humano

 

A oração é um ato humano que visa estabelecer uma conexão com o divino. Na perspectiva cristã, a oração é vista como o diálogo do crente com Deus. Isso significa que orar é basicamente falar com Deus. Se Deus fala conosco através das Escrituras, nós falamos com Ele através da oração. Portanto, a oração é uma parte fundamental do nosso relacionamento com Deus. Ela é tão essencial ao crescimento na vida espiritual (no crescimento na direção oposta ao materialismo, no aprendizado para lidar muito mais com conceitos do que com objetos), como o alimento é essencial ao bem-estar físico. Não é possível viver de forma saudável longe de Deus, pois Ele é o mantenedor da vida. Sempre será possível contar com ajuda divina, para nos assistir passo a passo, mas, somente contaremos com essa ajuda sob as condições estabelecidas por Deus.

RELIGIÃO — esta deve estar subjacente em todos os atos da vida. As faculdades morais, ou seja, nossa capacidade para fazer escolhas, ou a nossa alma, bem como nossas capacidades físicas, nosso corpo ou soma, através do qual materializamos nossas escolhas, além de nossas capacidades espirituais, a nossa mente, o lócus onde são processadas as informações que embasam nossas decisões, todas as nossas faculdades devem estar empenhadas na batalha cristã. Esta batalha é contra o mundanismo (materialismo) e, como munição, devemos ter a Cristo como modelo necessário, de onde vêm a força e o conhecimento para vencermos o mundo.

Muitos oradores nas igrejas persistem no discurso do determinismo pecaminoso. O homem pecador jamais poderá elevar-se acima do pecado. No entanto, este pressuposto nega a verdade bíblica exposta em vidas como a de Enoque, Moisés e Elias, os quais, com exceção de Moisés, foram transladados. A escritora Ellen White, em seu livro Santificação (p.59) Explica: “Cristo veio ao mundo para salvá-lo, para ligar o homem caído ao Deus infinito. Os discípulos de Cristo devem ser canais de luz. Manterão comunhão com Deus, devem transmitir àqueles que estão em trevas e erros especiais bençãos celestes. Enoque não se contaminou com a iniquidade prevalecente em seus dias. Por que ocorreria o contrário conosco hoje?”.

Uma análise do texto acima nos mostra que é possível sair da condição de pecadores derrotados e em trevas. Ora, se Cristo veio ao mundo para ligar o homem caído ao Deus infinito, então, o homem, se se determinar, não permanecerá caído. A força desta premissa é que os que seguem a Cristo devem transmitir luz aos que estão em trevas. Luz e trevas são dois sistemas morais diferentes. No primeiro encontram-se os princípios do altruísmo e preocupação com a ascensão moral do outro que está em trevas, ou seja, no sistema egoísta. Necessariamente, o sistema egoísta é iníquo, se sustenta na desigualdade. Quanto mais desiguais são os homens, mais sucesso conseguem, logo, não há espaço para ajuda ao semelhante. Observemos que Enoque não se contaminou com a iniquidade do seu tempo. Todos aqueles que saíram da queda moral, do mesmo modo, evitarão qualquer tipo de desigualdade, procurarão estabelecer a justiça.

A boa religião sempre buscará diminuir as desigualdades (Gálatas 5:19-26). É devido à boa religião que o inimigo das nossas almas, das nossas boas decisões, não dorme. As tentações a que estamos diariamente expostos tornam a oração uma necessidade. Através dela, manteremos nossas mentes (espírito) e nossos desejos (alma) ligados a Deus de onde vêm o auxílio, a luz, a força e o conhecimento. A luz é o sistema altruísta de ajuda mútua. A força é a materialização de atos e ações misericordiosos em favor de outrem. O conhecimento é Cristo e seu evangelho. As tentações são estímulos para permanecermos no sistema egoísta.

Precisamos viver de forma bivalente: Pensamento e ação; oração e zeloso obséquio. Através da oração podemos nos manter longe da iniquidade prevalente em nossos dias e estar habilitados para difundir a outros, por nossa relação com eles, a luz, a paz e a serenidade que reinam em nosso coração, dando um exemplo da inabalável fidelidade à nossa missão de ser testemunhas de Deus, inundando outras almas com luz divina.

A oração é uma parte essencial da vida do crente, permitindo-nos comunicar diretamente com Deus, buscar Sua orientação, expressar gratidão, confessar pecados e interceder em favor de outros. É uma prática que nos fortalece espiritualmente, fazendo-nos transcender o mundo materialista e nos conecta com Deus e nos capacita a enfrentar as adversidades da vida, suas iniquidades, com fé e esperança.