segunda-feira, 4 de maio de 2015

NÃO PUDE FICAR TRISTE!


Estar no Amazonas sempre rende surpresas construtivas. No sábado 02.05.2015, juntamente com uma equipe de amigos estivemos em Novo Remanso, Itacoatiara, onde passamos um sábado muito ativo, participando dos ofícios da igreja e visitando irmãos locais. Pessoalmente, ansiava por estar no Novo Remanso, um lugar que me traz muitas reminiscências da infância, quando meu pai estava em pleno vigor da juventude.

Exatamente na data da visita, completava-se três anos do falecimento do meu pai. Ali, no ambiente do Novo Remanso, onde meu pai aplicara grande esforço profissional, construindo uma igreja, construindo relacionamentos, não pude sentir tristeza, a obra que o meu pai fizera estava viva e eu sentia alegria por estar naquele sábado ali, de alguma forma, revivendo os tempos que já estão na história. Vi também que a sabedoria bíblica é verdadeira: fenece o homem, mas, as suas obras o seguem. Deste modo, meu pai se tornou imortal, porque existem aqueles que dele se lembram. A propósito, visitei um senhor chamado Raimundo, o qual ajudou a construir a primeira igreja do Novo Remanso, que era uma igreja flutuante. Nela, meu pai se empenhou muitíssimo, ajudando fisicamente na sua construção. Quando ficou pronta, realizaram a cerimonia de dedicação, para a qual afluíram muitos irmãos usando canoas como veículo. A igreja ficou repleta de irmãos (alguns remaram até quatro horas para chegar). Era um edifício flutuante todo branco, mais parecia um cisne elegante no fundo de um lago chamado Progresso. Segundo depoimentos de pessoas que estavam envolvidas na manutenção da igreja flutuante, o tempo e os cupins determinaram seu desaparecimento. Lamentável que este edifício não mais exista, poderia estar em museu exposto para que os mais jovens conhecessem a nossa história.

O Sr. Raimundo e a sua esposa, quando jovens, conheceram meu pai e minha mãe. Contaram-me do apreço que sentiam por eles e do envolvimento dos pastores de então com os membros das igrejas, lamentando a situação atual pelo distanciamento da liderança. Dirigiram palavras de carinho ao meu pai e, consequentemente, eu colhi ali naquela casa, o que meu pai plantou há 60 anos.

À tarde foi realizado, na igreja Canaã, um programa musical onde o Grupo AmaDeus (grupo musical multigrejas de Manaus) fez apresentações de músicas cantadas em louvor a Deus. A congregação compareceu na quase totalidade. Foram momentos de enlevo e entrosamento inesquecíveis. Senti o quanto aquele esforço dos pioneiros foi importante e efetivo; hoje há cerca mil adventistas no Novo Remanso, quase um décimo da população aceitou a mensagem do advento.

Creio que fiz uma boa homenagem ao meu falecido pai. Justo no dia em que completou três anos do seu passamento, vi o que resultou da obra que fizera. Não pude ficar triste, ao contrário, senti o quanto Deus o amou e como tenho orgulho da minha origem e do que aprendi convivendo com o meu pai.


Um dia desses vou reencontrar com meus pais e, então, nunca mais vou me separar deles. Jesus é a minha certeza de que nos encontraremos. Vou poder contar-lhes dessa experiência no Novo Remanso e creio que eles sorrirão lembrando daquele passado feliz. Sorrirão mais ainda quando virem o que resultou dos seus esforços nos idos dos anos 1950, quando passaram pelos rios da Amazônia onde deixaram suas marcas e as suas juventudes.

terça-feira, 28 de abril de 2015

Os Céus são mais altos do que a Terra

As reações humanas diante de Jesus foram as mais diversas e desconcertantes possíveis. Alguns preferiram ignorá-lo assumindo que o filho de um carpinteiro não poderia ser o Messias (ungido) e, por sua origem, não era digno de crédito. Os rabinos e sacerdotes não deram crédito a Jesus, por causa da Sua disposição em colocar-Se além das tradições judaicas. Não avaliavam se Jesus acompanhava a verdade bíblica-profética, apenas que Ele não podia ser o Messias, uma vez que se opunha aos ensinamentos rabínicos e as tradições impostas pela liderança.

Hoje, as religiões chamadas cristãs olham de soslaio para os judeus; reprovam as atitudes de rejeição dos contemporâneos de Jesus. Todavia, do mesmo modo, preferem as tradições humanas aos ensinamentos do Mestre. Cada religião estabelece sua própria interpretação dos ensinamentos proféticos, os mesmos que Jesus ratificou no passado reprovando os judeus. Tal atitude demonstra o peso que as tradições possuem em detrimento dos ensinamentos bíblicos.

Apesar de que Jesus reprovasse as tradições humanas que assumiam proeminência ante os dos profetas, usava o título “Filho do Homem” que, segundo a Bíblia era a designação favorita dEle (aproximadamente 100 vezes no livro de Ezequiel e ocorrendo mais de 80 vezes nos Evangelhos) título que designa-O como o Cristo (ungido) encarnado e testemunha muda do milagre pelo qual criador e criatura uniram-se em uma divina-humana pessoa; deidade tornou-se identificada com a humanidade para que a humanidade pudesse ter outra vez a imagem de Deus.

Religião bíblica necessariamente não tem ligação com tradições humanas (transmissão oral de fatos, lendas, dogmas, etc., de uma sociedade, de geração em geração, independentes das Sagradas Escrituras). Estas são invenções que, esmagadoramente, estão calcadas em repetições de fatos que pertencem ao imaginário ou a realidade terrena. Porém, a realidade bíblica está embasada na sabedoria revelada pela divindade ou deidade a qual, em muitos casos, transcende a realidade terrena, por tratar-se de princípios que regem o universo. Em Isaías 55:9 há uma explicação sobre a realidade bíblica: “Porque assim como os céus são mais altos do que a terra, assim são os meus caminhos mais altos do que os vossos caminhos, e os meus pensamentos mais altos do que os vossos pensamentos”.
Pelo exposto no texto de Isaías pode-se perceber a razão pela qual Jesus não advogou a tradição judaica, essa baseada na tradição dos rabinos.

Nossa religião também padece do mesmo mal. Há tradições que se colocam mais altas que a Bíblia. Os líderes religiosos entregam interpretações da realidade e, os membros das igrejas as seguem porque são dadas dadas pelas lideranças e por não saberem da Bíblia. Tal situação provoca uma devoção errada, levando pessoas a acreditar estarem bem com Deus, mas que em realidade estão distantes dEle, seguindo a outros homens.

Uma das tradições mais fortes é a ideia de que necessariamente religiosidade dá acesso às bênçãos, e estas, são traduzidas em bens materiais ou prosperidade financeira. No entanto, o ensinamento bíblico é muito diferente, segundo Deuteronômio 28: 11 E o SENHOR te dará abundância de bens no fruto do teu ventre, e no fruto dos teus animais, e no fruto do teu solo, sobre a terra que o SENHOR jurou a teus pais te dar. 12 O SENHOR te abrirá o seu bom tesouro, o céu, para dar chuva à tua terra no seu tempo, e para abençoar toda a obra das tuas mãos; e emprestarás a muitas nações, porém tu não tomarás emprestado. 13 E o SENHOR te porá por cabeça, e não por cauda; e só estarás em cima, e não debaixo, se obedeceres aos mandamentos do SENHOR teu Deus, que hoje te ordeno, para os guardar e cumprir.

A promessa de Deus é colocar os observadores dos mandamentos por cabeça, significando que eles conduzirão a muitos e serão, portanto, uma benção. Nesse raciocínio, dar é ainda melhor que receber, como está escrito, “e emprestarás a muitas nações, porém tu não tomarás emprestado”.


As tradições humanas sempre carregam um fundo egoísta o qual arroja aos homens para longe de Deus. Religião significa religação; se nossa religação é com as tradições, então, estamos unidos aos homens.

quinta-feira, 5 de março de 2015

Resta um Descanso III

A Torá evidencia existir uma união entre o sábado do mandamento e o tabernáculo, a qual não parece ser óbvia à maioria dos leitores. É importante salientar que o mundo cristão não raciocina com o sábado e muito menos com o tabernáculo, aceitando que este raciocínio é próprio do ambiente judaico, mas, não pertinente no âmbito cristão. Esta idéia é inadequada, uma vez que o cristianismo deriva diretamente do judaísmo e, portanto, todo e qualquer princípio judaico não pode ser olvidado ou menosprezado, porque aquilo que a Torá apresenta como sendo oráculo (tudo o que é dado diretamente por Deus) não pertence ao conjunto das tradições humanas. Assim, a ligação entre o sábado e o santuário deveria ser examinada.
Em Êxodo 31 vemos Deus explicando a Moisés todo o planejamento para o santuário, sua construção em exaustivo detalhamento, sendo que ao final da explicação Deus ordena ao povo a imprescindibilidade da guarda do sábado do sétimo dia. Porém, no capítulo 35 Moisés aparece instruindo ao povo sobre a construção do santuário e tal explicação inicia com a guarda do sábado e culmina com os pormenores da construção. Nos dois textos vê-se a ligação entre o sábado e a construção do santuário, mas a ordem de comando está invertida, quando Deus causa a explicação, a guarda do sábado vem no final, mas, quando é Moisés quem fala, a guarda do sábado vem no início. A questão que salta diante dos olhos é por que?
O que vê-se é a justaposição do comando do sábado e a construção do tabernáculo. Tal justaposição parece ser intencional para estabelecer que o sábado domina sobre as consecuções humanas e sobre a construção do tabernáculo. Não somente o sétimo dia determina o término do trabalho secular, como também traz o repouso ao labor santo: construir uma casa para Deus. Segundo Jonathan Sacks, em sua obra Exodus, o santuário espelha a criação do próprio universo. Como a criação divina culmina no sábado, assim também a criação humana. A diferença entre o relato das instruções dadas por Deus e aquelas dadas por Moisés para a construção do tabernáculo está na posição do comando para guardar o sábado, sendo que a explicação à referida diferença pode ser encontrada no próprio sábado, o sétimo dia da semana da criação.
Do ponto de vista de Deus, o sábado foi o sétimo dia da semana da criação; do ponto de vista do primeiro ser humano (Adão fora criado no sexto dia) o sábado foi o primeiro dia. Há algo fundamental em jogo: quando vemos a criação divina, não encontramos lacuna entre a intenção e a execução. Deus fala e a palavra se torna em ente ou realidade, ou seja, Deus vê o fim desde o princípio (Isaías 46:10). De outro lado, com os seres humanos ocorre outra coisa, frequentemente não nos é possível ver o fim desde o começo, ou o resultado no início. Apesar dos planejamentos cuidadosamente calculados, há sempre falhas e imprevisões. Por esse motivo, alguns buscam a alternativa de simplesmente deixar as coisas acontecerem, mas, para o povo de Deus este tipo de resignação está completamente fora da história. Para seres humanos criados à imagem de Deus, com poder para produzir trabalho criador, resignar-se é negar sua capacidade de interferir. A solução é buscar revelar o fim desde o começo.
Este é o significado do sábado. Não é simplesmente um dia de repouso, mas, a antecipação do final da história, ou seja, da era messiânica. Nela, recuperaremos a harmonia perdida no jardim do Éden. No sábado não permitimos a manipulação do mundo, nós exaltamos a suprema obra de arte do criador. Não admitimos o exercício do poder ou a dominância sobre outros seres humanos, nem mesmo sobre os animais. Todos são iguais em dignidade e liberdade no sábado, nele vivemos a esperança do mundo porvir quando a lei de Deus estará novamente em pleno funcionamento originando uma era de justiça e paz. Chamamos sua atenção para o fato prático na dinâmica sabática: em cada sábado ensaiamos o mundo futuro, a sociedade ideal que não acontecerá casualmente, uma vez que a objetivamos semanalmente, nós a experimentamos a cada sete dias, ou seja, a cada sábado temos uma visão do final desde o começo. É como se abríssemos uma cortina para ver e viver o futuro, uma vez que o sábado determina direitos iguais, todos têm acesso ilimitado à graça, todos se tornam iguais em dignidade.
Agora poderemos melhor entender o símbolo completo de construir um tabernáculo. No deserto, muito antes de cruzarem o Jordão e entrarem na terra prometida, Deus convidou aos israelitas para construírem uma miniatura do universo. No tabernáculo a ordem fora cuidadosamente calibrada, tal qual o é o universo; todas as constantes físicas e químicas cuidadosamente calibradas para que a vida fosse possível. O tabernáculo foi construído de forma exata; não apenas um edifício, mas, um protótipo simbólico da construção de uma sociedade; um espaço onde todos teriam acesso à justiça e à vida, um lugar de harmonia com Deus e com o próximo. O tabernáculo era o lar terrestre para a presença divina; a sociedade israelita deveria ser também construída de molde a ser um lugar para a presença de Deus, se houvessem honrado aos mandamentos. O acabamento final da sociedade é a harmonia da existência que ainda não experimentamos, pois vivemos num mundo de trabalho e lutas, de conflitos e competições.
Deus, entretanto, deseja que conheçamos aquilo que objetivamos, de modo que não venhamos a perder nosso rumo no deserto do tempo. Esta é razão pela qual, quando pediu a construção do tabernáculo através da execução humana, o sábado veio primeiro, muito embora, em termos globais, a era messiânica, o sábado da história, vem depois. Deus tornou conhecido o fim desde o começo. O cumprimento do repouso que segue ao labor criativo; o lugar que um dia tomará o espaço da disputa – desta forma podemos a cada sábado ter uma visão do nosso destino, antes de começar a jornada. Em Êxodo 31 o sábado está comandado no final porque Deus já sabia o fim, qual seja, o aprendizado e a vivência da harmonia. Em êxodo 35 o sábado aparece primeiro porque Moisés deveria demonstrar que a harmonia deveria ser apreendida antes da montagem da sociedade israelita. Do mesmo modo como aconteceu na semana da criação, Deus vendo o fim desde o princípio estabeleceu o sábado no sétimo dia, mas, para o primeiro ser humano, foi o primeiro dia, ou seja, começou a sua jornada vendo o fim desde o princípio.
Hoje temos a cada sete dias uma oportunidade de treinar a sociedade harmônica. No sábado, quando ocorre o encontro dos irmãos para adoração, há muitas oportunidades para ensaiar a sociedade perfeita. Não deveríamos nos tornar ouvintes passivos dos cultos sabáticos, mas, numa atitude proativa participar na construção de um ambiente mais justo, onde a dignidade de todos deverá ser preservada. Os que têm o dom de ensinar deveriam usá-lo de forma cabal para que todos tivessem acesso à graça. Todos deveriam participar nos projetos coletivos de ajuda financeira, quer sejam de âmbito local ou não. Aliás, se a cada sábado ensaiamos a sociedade perfeita do futuro ou a objetivamos, então, os que possuem maior sabedoria deveriam treinar os menos informados e os novos na fé.

As reuniões sabáticas são parte de um calibradíssimo sistema calculado para possibilitar o treino e o aprendizado para a construção de uma sociedade que, em seu seio traz o caráter de Deus. As congregações quando reunidas no sábado devem estabelecer o ambiente para a morada de Deus. Quando a era messiânica estiver em andamento, os salvos serão o tabernáculo de Deus, logo, a cada sábado temos o privilégio de treinar essa realidade e, em assim procedendo, teremos direito a ela não por uma casualidade, mas, porque a objetivamos. 

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Resta um Descanso II

A introdução de ideias gregas no âmago do pensamento cristão tornou quase impossível entender pontos de vista judaicos fundamentais, como por exemplo, o conceito de santo. Para a maioria dos cristãos a ideia de santo está relacionada a presença de algo muito vasto e que inspira temor e, em relação a Deus, sempre há referência ao seu relacionamento com a humanidade, fato que não está errado, porém é incompleto.

Deve-se buscar o entendimento deste conceito no próprio interior do pensamento hebraico e, neste caso, não existe fonte mais segura do que a oportuna Torá. Assim, na Torá, a aparição da palavra santo está relacionada ao Shabbat ou ao santuário.

Segundo o Rabino Jonathan Sacks, quando a palavra santo está relacionada ao shabbat há a necessidade de conhecer a palavra hebraica “tzimtzum”, que significa contração divina ou auto ocultamento, um dos mais gloriosos conceitos dados ao judaísmo. Este conceito está fortemente ligado ao shabbat formando a ideia de que há uma incompatibilidade ou impossibilidade entre o infinito e o finito. Tzimtzum carrega o juízo de que Deus está em todos os lugares; se é assim, como poderia haver outra coisa além dEle? Tzimtzum parece explicar que duas diferentes entidades (Deus e aquilo que não é Deus) não podem ocupar o mesmo tempo/espaço.

Seguindo o raciocínio acima, o ato da criação envolveu autolimitação da parte de Deus, significando que ele contraiu a sua presença para que a finitude (limitada pelo tempo e pelo espaço) com as coisas criadas pudessem surgir ou estar. Esta ideia está presente em alguns textos bíblicos que demonstram a impossibilidade entre o finito e o infinito, como por exemplo em I Reis 8:10-11, onde lemos: “E sucedeu que, saindo os sacerdotes do santuário, uma nuvem encheu a casa do SENHOR. E os sacerdotes não podiam permanecer em pé para ministrar, por causa da nuvem, porque a glória do SENHOR enchera a casa do SENHOR”. Também em Isaías 8:8 “E passará a Judá, inundando-o, e irá passando por ele e chegará até ao pescoço; e a extensão de suas asas encherá a largura da tua terra, ó Emanuel”. Ao mesmo tempo em Êxodo 40:34 “Então a nuvem cobriu a tenda da congregação, e a glória do SENHOR encheu o tabernáculo”.

A palavra hebraica para espaço e tempo é olam, a qual significa também universo, ou seja, a totalidade do tempo e do espaço, mas que também significa ne´elam, esconder. Está incorporada na língua hebraica a ideia de que espaço e tempo são dimensões da ocultação de Deus, quem está além do tempo e do espaço. Onde Deus está oculto do universo poderia ser, experimentalmente e funcionalmente, como se ele não existisse, daí a sensação que temos da sua ausência; todas as teorias sobre a espontaneidade da vida surgem por causa da sensação da ausência de Deus. Mas, os verdadeiros termos da criação envolvem um paradoxo. Sem Deus o universo não poderia existir; mas, a presença de Deus ameaça a existência de qualquer coisa separada dele. Em Ex.33:20 está explicita a referida impossibilidade entre o finito e o infinito: “E disse mais: Não poderás ver a minha face, porquanto homem nenhum verá a minha face, e viverá”.

Agora, vamos procurar entender um dos conceitos que provocam forte enleio para mentes gregas. O universo foi criado em seis dias; mas, a criação envolveu sete dias. O sétimo dia é declarado pelo próprio Deus como Santo. Se na semana da criação Deus traz à existência coisas finitas, confinadas no tempo e no espaço, as quais incluem o próprio homem, e se existe a impossibilidade entre o finito e o infinito, então, a cada dia da semana da criação tornou-se necessária a contração de Deus para que o finito pudesse estar. A escritora Ellen White em seu livro A Verdade sobre os Anjos, assinalou que a criação da Terra e especificamente a do homem admirou todo universo já criado e aos anjos, sendo que o próprio Deus se alegrou com o que havia criado. Tal ideia nos mostra a razão da criação do sétimo dia, significando que doravante este dia será uma janela no tempo através da qual nós veremos a presença de Deus. Neste dia deverá ocorrer a contração da criatura para que esta possa dar lugar a Deus, uma vez que ambos não ocupam simultaneamente o mesmo espaço. E como realizamos isto? Renunciando nosso próprio status de criador.  No Shabbat, todo melakha, que é definido com trabalho criativo, está proibido. No Shabbat nos tornamos mais passivos do que ativos.  Nos tornamos criaturas, não criadores.  Renunciamos o fazer para experimentar o estarmos feitos. O Shabbat é uma sala que nós fazemos para Deus no tempo.

Jonathan Sacks em seu livro Exodus, assinala que Deus criou o homem com capacidade criadora (somos feitos à imagem de Deus) e, desde então, o homem não cessa de criar. Ao invés de ficar encolhido diante dos problemas e das ameaças, o homem cria meios para solucioná-los, inventa tecnologias e muda a sua própria maneira de lidar com o mundo e, constantemente muda a si próprio tornando-se aquilo que ele mesmo imagina que é. Invés de ajoelhar-se por causa das doenças que matam e resignar-se à sorte ele constrói instrumentos, remédios, hospitais e altera o processo nosológico criando novas possibilidades salvando vidas. Esse poder criador do homem deverá ser colocado de lado no shabbat para que o criador possa estar com o homem. Do mesmo modo como Deus se autolimitou na criação, o homem deve também estar retraído no shabbat. Esta noção aparece completamente em Isaías 58:13-14 “Se desviares o teu pé do sábado, de fazeres a tua vontade no meu santo dia, e chamares ao sábado deleitoso, e o santo dia do SENHOR, digno de honra, e o honrares não seguindo os teus caminhos, nem pretendendo fazer a tua própria vontade, nem falares as tuas próprias palavras, então te deleitarás no SENHOR, e te farei cavalgar sobre as alturas da terra, e te sustentarei com a herança de teu pai Jacó; porque a boca do SENHOR o disse”.

O cessar o trabalho no shabbat não significa apenas parar com os afazeres e ir ao culto na igreja. Muitos imaginam apenas um descanso físico, e esta tese é advogada por muitos teólogos e crentes sabatistas. O conceito do shabbat está ainda além, é a auto contração do homem para dar espaço a Deus. Este conceito está explicado em Êxodo 33:17-23 “ Então disse o SENHOR a Moisés: Farei também isto, que tens dito; porquanto achaste graça aos meus olhos, e te conheço por nome. Então ele disse: Rogo-te que me mostres a tua glória. Porém ele disse: Eu farei passar toda a minha bondade por diante de ti, e proclamarei o nome do SENHOR diante de ti; e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia, e me compadecerei de quem eu me compadecer. E disse mais: Não poderás ver a minha face, porquanto homem nenhum verá a minha face, e viverá. Disse mais o SENHOR: Eis aqui um lugar junto a mim; aqui te porás sobre a penha. E acontecerá que, quando a minha glória passar, pôr-te-ei numa fenda da penha, e te cobrirei com a minha mão, até que eu haja passado. E, havendo eu tirado a minha mão, me verás pelas costas; mas a minha face não se verá”.

Como pode ser verificado, nossa presença no tempo sabático deve ser discreta para que Deus possa estar nele. Esse raciocínio provoca uma atitude de reconsideração do nosso comportamento nos eventos que acontecem nos templos durante o shabbat. Corriqueiramente, há muita movimentação e exibicionismo humano, fato que não nos deixa contraídos diante da divindade. Neste sentido, há pouquíssima sabedoria na dinâmica sabática nos templos onde a figura humana está sempre em evidência, indicando que nossa capacidade criativa ou criadora não cessou. Se é assim, pouca chance há de termos tempo de qualidade com Deus onde haja possibilidade de construção humana e aprendizagem, ou seja, mantemos a impossibilidade entre o finito e o infinito. Desta maneira, Deus não fala, mas o homem fala e, nestas circunstâncias passamos o sábado conosco mesmos.

Agora, vamos observar o termo santo em relação ao tabernáculo. Este era uma tenda que, sempre que montada, definia um certo espaço como santo, significando estar separado para Deus. Dentro daquele espaço nada deviria interferir entre o adorador e Deus. O tabernáculo era uma sala feita para Deus no espaço. As instruções imensamente detalhadas para a construção e os serviços do tabernáculo distinguiam que nada em santidade é resultado do empreendimento humano. Ocupar o tempo ou o espaço santo significa renunciar a criatividade humana, de modo a estar existencialmente aberto para a criatividade divina. Talvez fosse interessante ver, pelo menos, um episódio bíblico onde estes conceitos possam estar manifestos.

Em Levítico 10:1-2 está descrito o episódio da morte de Nadabe e Abiú, da seguinte maneira: “E os filhos de Arão, Nadabe e Abiú, tomaram cada um o seu incensário e puseram neles fogo, e colocaram incenso sobre ele, e ofereceram fogo estranho perante o SENHOR, o que não lhes ordenara. Então saiu fogo de diante do SENHOR e os consumiu; e morreram perante o SENHOR”. Este é um episódio muito esclarecedor, pois supostamente, os filhos de Arão estavam realizando o protocolo estabelecido para o serviço sacerdotal, ou seja, tomaram o incensário e puseram fogo, e colocaram incenso. Mas, o texto explica que eles ofereceram fogo estranho perante o SENHOR. Onde está o fato estranho? Acontece que o fogo utilizado para a queima do incenso necessariamente deveria ser o do altar que havia sido acendido por Deus e não pelo sacerdote. Os dois filhos de Arão tomaram brasas de um fogareiro que era usado para aquecer comida, ou seja, era um fogo acendido pelo homem. Seria tão grave assim queimar incenso com fogo de um fogareiro? Fogo é para o homem a força mais poderosa que ele aprendeu a dominar. Em praticamente tudo o que o homem realiza há fogo envolvido, desde a comida que come, até a locomoção, desde um simples acender de uma lâmpada até o voo perigoso de um míssil. Fogo é a mais intensa representação da força criativa humana e, neste contexto, vir à presença de Deus com toda a sua força criativa determina a contração de Deus. Esta mesma situação se repete no sacrifício de Caim.

Santo é o tempo/espaço definido pela divindade e não pela vontade humana. Nós entramos no domínio de Deus, em seus termos, não nos nossos. Portanto, terá que haver uma janela, algum ponto de transparência, na tela entre o infinito e o finito. Isto é o que santidade significa. Santidade é o espaço que nós construímos para Deus. Santidade é para a humanidade aquilo que "tzimtzum" é para Deus (Contração divina ou auto ocultamento). Da mesma forma como Deus oculta a si mesmo para dar espaço para humanidade, nós devemos ocultar-nos para dar espaço para Deus. Realizamos isto através de uma temporária renúncia da nossa criatividade no período sabático. Santidade é aquele limite vazio preenchido pela presença divina. Esta noção ou ideia de santidade é quase incompreensível para o cristianismo.

Santidade é o espaço que fazemos (separamos) para heterogeneidade de Deus. Para ouvi-lo, não para falarmos. Para deixar-se agir e não atuar. Desengajar do fluxo da atividade humana imposta pelos propósitos humanos no mundo, assim, permitindo espaço para o propósito divino emergir. Toda santidade é uma forma de renúncia, neste sentido, a guarda do sábado precisa ser revista pelas congregações que o observam, para que possam alcançar o verdadeiro descanso.


Para concluir, seria necessário olhar a sala mais isolada do santuário, o chamado lugar santíssimo. Ali havia a arca da aliança e dentro desta a lei, a vara de Arão que florescera e o maná. Sobre a arca estava a tampa ou propiciatório e sobre este, dois anjos com as asas estendidas e entre estes anjos estava o shekinah, a presença visível de Deus. O shekinah era como uma esfera luminosa entre os anjos, ou seja, a contração visível de Deus para que ele pudesse estar entre os homens. Da mesma forma, a encarnação de Jesus requereu a contração de Deus. “Para que a pudéssemos contemplar e não ser destruídos, a manifestação de Sua glória foi velada” (Desejado de Todas as Nações, p.23).

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

No limite extremo da pressão

Para os cristãos modernos que estão convencidos da chegada dos tempos finais, estudar o comportamento dos descendentes da Abraão, pelo menos, desde a sua saída do Egito até a entrada deles na terra prometida é de fundamental valor. Estamos nós, os atuais cristãos, na mesma jornada, buscando sair do Egito (as tradições humanas às quais a Bíblia chama de mundo), passar pelo deserto e entrar na terra prometida. Assim, a experiência judaica pode nos ensinar o que fazer ou aproveitar, mas, também pode nos indicar como evitar derrotas.

Um dos mais importantes eventos ocorridos no passado foi exatamente a maneira poderosa como saíram e atravessaram o mar Vermelho. Para visualizarmos melhor os acontecimentos e aproveitarmos da experiência é necessário observar  como os acontecimentos estão narrados no livro de Êxodo. As histórias, pelo menos no início do livro, estão narradas em uma estrutura literária chamada de quiasma, na qual o início está repetido no final como se este fora um espelho do início, tendo o clímax no centro.

O episódio da saída do povo de Israel do Egito começa com uma batalha e termina com outra batalha, no centro está a travessia do mar Vermelho. Se nós olharmos com cuidado para a travessia do mar, encontraremos ali um evento vicário. A história dos israelitas está dividida em antes da travessia e depois da travessia. Antes estavam no Egito como escravos sob o domínio de Faraó, depois estavam no deserto (terra de ninguém) sob o domínio de Deus.

É crucial entender o que ocorreu. Por que Faraó tentou reescravizar os israelitas? O Egito era belicamente a nação mais poderosa naquela ocasião. Havia introduzido uma inovação tecnológica que somente estava disponível aos exércitos egípcios: as bigas (carros puxados por cavalos). Tal inovação era arrasadora, nenhuma outra nação tinha como enfrentar os egípcios. Os carros davam enorme velocidade e mobilidade, além de proteção aos soldados. Agora imaginemos, Faraó tomou seiscentos carros e saiu para perseguir os israelitas; se exércitos treinados não suportavam o poder bélico dos egípcios, quanto mais um bando de escravos desorganizados; deste modo, Faraó não tinha dúvidas que poderia reconquistar os hebreus e, consequentemente, partiu para cima.

Os israelitas foram encaminhados por Deus por uma rota que margeava o mar e, nesta condição, estavam no limite extremo da pressão, ou se lançavam no mar ou voltavam ao Egito. Imaginemos o terror do povo ao saber que Faraó os buscava com seiscentos carros. “E aproximando Faraó, os filhos de Israel levantaram seus olhos, e eis que os egípcios vinham atrás deles, e temeram muito; então os filhos de Israel clamaram ao SENHOR.  E disseram a Moisés: Não havia sepulcros no Egito, para nos tirar de lá, para que morramos neste deserto? Por que nos fizeste isto, fazendo-nos sair do Egito?  Não é esta a palavra que te falamos no Egito, dizendo: Deixa-nos, que sirvamos aos egípcios? Pois que melhor nos fora servir aos egípcios, do que morrermos no deserto” (Êxodo 14:10-12). Moisés respondeu dizendo: “Não temais; estai quietos, e vede o livramento do SENHOR, que hoje vos fará; porque aos egípcios, que hoje vistes, nunca mais os tornareis a ver.  O SENHOR pelejará por vós, e vós vos calareis” (Êxodo 14:13-14). Em outras palavras, Moisés disse ao povo para ficar quieto e não fazer nada porque Deus iria fazer tudo.

Neste episódio, segundo alguns comentadores,  a liderança dividiu-se em quatro grupos. Um grupo disse, vamos nos lançar no mar. Outro grupo disse, voltaremos para o Egito. Outro ainda disse, vamos lutar contra eles. O último disse, vamos gritar e chorar. Para o primeiro grupo que havia dito vamos nos lançar no mar, Moisés respondeu permaneçam firmes e verão o livramento que o Senhor trará. Para o grupo que disse voltemos ao Egito, Moisés afirmou que os egípcios que estavam vendo hoje nunca mais seriam vistos. Para o grupo que disse vamos lutar contra eles, Moisés afirmou que o Senhor lutaria por eles e, finalmente, para o grupo que disse vamos gritar e chorar ele mandou que permanecessem em silêncio.  A batalha contra os egípcios foi um ato divino. Os carros não podiam avançar, pois as rodas quebravam e atolavam, mas, além disso, “o anjo de Deus, que ia diante do exército de Israel, se retirou, e ia atrás deles; também a coluna de nuvem se retirou de diante deles, e se pôs atrás deles.  E ia entre o campo dos egípcios e o campo de Israel; e a nuvem era trevas para aqueles, e para estes clareava a noite; de maneira que em toda a noite não se aproximou um do outro” (Êxodo 14:19-20). Deus então ordena que Moisés estenda as mãos por sobre o mar “e o Senhor fez retirar o mar por um forte vento oriental toda aquela noite; e o mar tornou-se em seco, e as águas foram partidas” (Êxodo 14:21).

Agora vamos entender o que ocorreu com o mar. Segundo os relatos sagrados o mar ficou dividido e duas paredes de água congeladas verticais dividiram o mar em duas peças. Este fato carrega um importante simbolismo que nos remete a uma antiga cerimonia para celebrar alianças. O Rabino Jonathan Sacks explica em seu livro Exodus que a palavra chave ou o verbo chave nas alianças é cortar. Quando se pretendia fazer uma aliança alguns animais eram divididos ao meio e as partes que entravam em aliança ficavam entre as bandas dos animais. Segundo Sacks, a divisão de coisas normalmente unidas permanecia como símbolo da unificação de entidades (pessoas, tribos, nações) previamente divididas. Tal explicação está relacionada a Gênesis 15:9-18: “E disse-lhe: Toma-me uma bezerra de três anos, e uma cabra de três anos, e um carneiro de três anos, uma rola e um pombinho.  E trouxe-lhe todos estes, e partiu-os pelo meio, e pôs cada parte deles em frente da outra; mas as aves não partiu.  E as aves desciam sobre os cadáveres; Abrão, porém, as enxotava.  E pondo-se o sol, um profundo sono caiu sobre Abrão; e eis que grande espanto e grande escuridão caiu sobre ele.  Então disse a Abrão: Sabes, de certo, que peregrina será a tua descendência em terra alheia, e será reduzida à escravidão, e será afligida por quatrocentos anos, mas também eu julgarei a nação, à qual ela tem de servir, e depois sairá com grande riqueza.  E tu irás a teus pais em paz; em boa velhice serás sepultado.  E a quarta geração tornará para cá; porque a medida da injustiça dos amorreus não está ainda cheia.  E sucedeu que, posto o sol, houve escuridão, e eis um forno de fumaça, e uma tocha de fogo, que passou por aquelas metades.  Naquele mesmo dia fez o SENHOR uma aliança com Abrão, dizendo: À tua descendência tenho dado esta terra, desde o rio do Egito até ao grande rio Eufrates”.

No mar Vermelho os israelitas passaram entre duas peças de águas e não de animais, como ratificação da aliança efetuada com Abraão. De acordo com o Rabino Sacks, eles passaram de um domínio para outro, de escravos de Faraó para servos de Deus. Esta experiência é a mesma vivida pelo indivíduo que recebe o batismo de imersão. O seu corpo ao ser mergulhado divide a água em duas peças e, deste modo, é realizada uma aliança com Deus. Ao emergir, ele passou pelo mar, ou seja, saiu do domínio do mundo e entrou no domínio de Deus. Agora no deserto, terra de ninguém, ele está livre para escolher a quem vai servir, ou seja, após o batismo por imersão, uma vez que uma aliança foi realizada com Deus, o indivíduo estará pronto para guardar os mandamentos e não deverá retornar ao Egito. A travessia do mar Vermelho (batismo) é um ato de consolidação de aliança e transferência de possessão, o indivíduo agora é possessão de Deus e não mais de Faraó (mundo). Entrou em novo território não geográfico mas existencial. O que isto significa?

Em Êxodo 17:8-13  está relatada a outra batalha que os israelitas tiveram que enfrentar após a travessia. Leiamos: “Então veio Amaleque, e pelejou contra Israel em Refidim.  Por isso disse Moisés a Josué: Escolhe-nos homens, e sai, peleja contra Amaleque; amanhã eu estarei sobre o cume do outeiro, e a vara de Deus estará na minha mão.  E fez Josué como Moisés lhe dissera, pelejando contra Amaleque; mas Moisés, Arão, e Hur subiram ao cume do outeiro. E acontecia que, quando Moisés levantava a sua mão, Israel prevalecia; mas quando ele abaixava a sua mão, Amaleque prevalecia.  Porém as mãos de Moisés eram pesadas, por isso tomaram uma pedra, e a puseram debaixo dele, para assentar-se sobre ela; e Arão e Hur sustentaram as suas mãos, um de um lado e o outro do outro; assim ficaram as suas mãos firmes até que o sol se pôs. E assim Josué desfez a Amaleque e a seu povo, ao fio da espada.

Conforme o relato, Deus não lutou, desta vez, pelo povo, mas, comandou que lutassem. Antes da travessia Deus lutara, mas, agora, o povo devia lutar por si. O que nos chama atenção é que o líder Moisés foi para o outeiro com a vara de Deus nas mãos. Enquanto permanecia com as mãos levantadas, Israel prevalecia, se baixava as mãos, Ameleque prevalecia. Tal descrição nos leva a supor ter havido mais milagres, no entanto, não havia milagres nas mãos de Moisés levantadas, apenas suas mãos apontavam na direção dos céus onde os israelitas deveriam colocar seu olhar e seu coração. A diferença aqui é que Deus não atuou externamente modificando a natureza atolando os carros e cavalos, abrindo o mar Vermelho, tal qual fizera na primeira batalha antes da travessia, mas, enquanto os israelitas dirigiam seu olhar e suas mentes para cima, alcançavam força interior e fé para prevalecer. Aqui vemos uma clara transição no formato de atuação de Deus; ocorreu uma mutação no interior dos israelitas, mostrando a grandeza da presença divina no interior do homem. Os israelitas não foram vencedores porquanto Deus lutara por eles, mas Deus deu-lhes força para lutar por si mesmos. Deus não estava entre, mas dentro. Esta é a mudança crucial que ocorre quando atravessamos o mar, ou seja, nos batizamos. Deus deseja que lutemos nossas próprias batalhas, não que estejamos abandonados, apenas que ele estará conosco onde e quando estivermos nele. Será necessário o desenvolvimento de qualidades tais como coragem, confiança, determinação, vontade as quais nos permitirão encontrar nossa superioridade como seres criados à imagem de Deus. (Este texto está baseado no capítulo “The turning Point” do livro Exodus do Rabbi Sir Jonathan Sacks).

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Resta um Descanso

O sábado é um marco muitíssimo importante constituindo um ponto de partida estabelecido por Deus logo na criação. O primeiro mandamento explicitamente exigido do homem recém criado foi o quarto mandamento (Êxodo 20:8-11), o shabat - termo que significa parada – sendo que o homem havia sido criado imediatamente antes do dia sétimo e, portanto, não necessitava de uma parada para descansar, conforme a maioria dos eruditos entende. Mas, se a palavra shabat significa parada ou descanso, é necessário verificar o que deve estar parado.

Segundo a Torá, um povo necessita seguir alguns princípios para que possa formar associações e estar unido: justiça, liberdade, uma lei, respeito à vida (falamos da santidade da vida), a dignidade humana. Tais princípios são encontrados nas regiões celestes onde não entrou o pecado e, considerando que o decálogo expressa o ambiente legal do céu, então no sábado encontramos os mesmos princípios.

Estamos acostumados a uma sociedade que está submetida a hierarquias e poderes que se impõem pela força, e que dividem a população em duas classes: os livres e os escravos. Mas, o céu propõe um outro tipo de política baseada não na força, mas, na aliança. Neste caso, nós consentimos livremente que Deus tem a soberania e permitimos a submissão. E este é o raciocínio que está expresso na guarda do sábado. Nele há igualdade e justiça, igualdade que dignifica o ser humano. O grande princípio do sábado é que nele todos são iguais, todos param o trabalho, significando que os poderes sociais cessam não havendo dominadores e dominados, uma aliança acatada. Este é o mais refinado ambiente de justiça. Até mesmo os animais experimentam dignidade porque também não trabalham. É um ambiente de mutualidade, todos consentem na liberdade, e na justiça. A mutualidade ou reciprocidade é a condição para que possa haver a justiça; todos tem direito a tudo.

A vida de Jesus mostra claramente o espírito do sábado. Seus mais significativos milagres ocorreram no sábado, e a razão é que neste dia a justiça e a dignidade humana são alçadas. No milagre realizado no homem que jazia enfermo por trinta e oito anos junto ao tanque de Betesda (João 5) vemos Jesus demonstrando o raciocínio exposto. Era sábado, e Jesus aproximou-se daquele enfermo sem que o mesmo lhe pedisse, e disse-lhe: queres ficar são?

O homem explicou-lhe que não havia nenhum homem que o pusesse no tanque quando as águas eram agitadas. O pobre homem esperara por trinta e oito anos que alguém usasse de justiça e observasse nele uma pessoa digna. Disse-lhe Jesus: Levanta, toma a tua cama e anda. O que aconteceu ali foi a aplicação do princípio do sábado. Todos têm direito a tudo porque são iguais, ao ser humano seja dada dignidade.

Tal qual hoje, os judeus da época não assimilaram os princípios da lei e, consequentemente, não entendiam como proceder no sábado. Disseram que não é lícito levar o leito no sábado e, além disso, acusaram Jesus de quebrar a guarda do sábado.

O descanso sabático confere ao ser humano sua mais alta dignidade. Confere ao povo de Deus o mais elevado senso de justiça. Todos têm direito a tudo. Há o descanso porque cessam as hierarquias; todos deverão ter suas necessidades supridas.


Em Hebreus 4:9 lemos que “portanto, resta ainda um repouso para o povo de Deus”. No verso 11 lemos “Procuremos, pois, entrar naquele repouso, para que ninguém caia no mesmo exemplo de desobediência”.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Uma Demonstração Ainda Mais Elevada de Fé

As religiões cristãs têm muita dificuldade quando lidam com assuntos teológicos básicos e geralmente confundem religiosidade com beatice ou misticismo. Questões elementares como fé, são tratadas de forma confusa, sendo que tal confusão é consequência do abandono dos ensinamentos do Antigo Testamento, baseados na premissa de que o Antigo Testamento fora escrito para os judeus.

Há, além disso, a incompreensão do papel da igreja cristã no contexto universal do desenvolvimento do plano da redenção, o qual foi explicado por Jesus especificamente no famoso sermão da montanha. O cristianismo não anula o judaísmo e não é diferente de seus pressupostos, mas, é a própria evolução do judaísmo, conforme explicou o apóstolo Paulo, quem entendeu que os judeus deveriam evoluir para o cristianismo, tendo trabalhado intensamente na transição do sistema judaico para o sistema cristão.

Como mencionado acima, a questão da fé ficou incompreendida por várias razões: a) misticismo oriundo do judaísmo; b) misticismo ratificado pela incorporação de pressupostos pagãos; c) misticismo aprofundado por causa da incompreensão dos reclamos de Deus no Velho Testamento. 

Aos israelitas fora ensinado que a lei dos dez mandamentos tem dois princípios: amor a Deus (Dt.6:5) e amarás ao teu próximo (Lv. 19:18). Tais princípios foram ratificados por Jesus (Mc.12:30,31) e, consequentemente, estão em uso pelos chamados cristãos.

As religiões cristãs, permitiram que os princípios do Antigo Testamento fossem substituídos por pressupostos pagãos e, principalmente, por tradições humanas, as quais levaram ao desentendimento de assuntos basilares, sendo que a compreensão do que seja fé ficou mesclada com intenções místicas causadas pelo abandono da lei dos dez mandamentos e de seus princípios.

Ora, se os cristãos têm que amar a Deus e ao próximo como a si mesmos, a fé passa a ser um ato primeiramente de confiança e depois de justiça. Assim, quando a justiça está em evidência, a preocupação passa a estar centrada na pessoa do semelhante e não em nós mesmos.

Acontece que a fé cristã não obedece aos pressupostos cristãos. Aqueles que aderem ao cristianismo, na sua esmagadora maioria, buscam aos seus próprios interesses. Demonstrações de fé no seio das igrejas cristãs tem sempre que ver com aquisições pessoais, graças alcançadas, bênçãos recebidas, ostentação de privilégios, e por aí vai. Tais demonstrações são contrárias aos ensinamentos de Cristo e ao próprio procedimento dEle enquanto viveu entre os homens. Se a igreja cristã segue o seu líder Cristo, então deveria fazer as obras que ele fez. Por esse ângulo, na igreja cristã as demonstrações de fé deveriam estar relacionadas ao amor ao próximo.

É neste raciocínio que o apóstolo Tiago em sua epístola no capítulo 2:26 afirma: “Assim como o corpo sem espírito é morto, assim também a fé sem obras é morta”. O que materializa a fé cristã é o fazer as boas obras copiando o modelo que é Cristo. Se temos fé em Jesus faremos as obras que ele fez , segundo Atos 10:38 “Como Deus ungiu a Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e com virtude; o qual andou fazendo bem, e curando a todos os oprimidos do diabo, porque Deus era com ele”. Jesus buscava constantemente o ambiente da justiça, exatamente como lemos em Isaías 58:6-11 onde o profeta recomenda o efetuar de boas obras: “Porventura não é este o jejum que escolhi, que soltes as ligaduras da impiedade, que desfaças as ataduras do jugo e que deixes livres os oprimidos, e despedaces todo o jugo? Porventura não é também que repartas o teu pão com o faminto, e recolhas em casa os pobres abandonados; e, quando vires o nu, o cubras, e não te escondas da tua carne?  Então romperá a tua luz como a alva, e a tua cura apressadamente brotará, e a tua justiça irá adiante de ti, e a glória do SENHOR será a tua retaguarda. Então clamarás, e o SENHOR te responderá; gritarás, e ele dirá: Eis-me aqui. Se tirares do meio de ti o jugo, o estender do dedo, e o falar iniquamente; E se abrires a tua alma ao faminto, e fartares a alma aflita; então a tua luz nascerá nas trevas, e a tua escuridão será como o meio-dia. E o SENHOR te guiará continuamente, e fartará a tua alma em lugares áridos, e fortificará os teus ossos; e serás como um jardim regado, e como um manancial, cujas águas nunca faltam.

A escritora Ellen White no seu livro Para Conhecê-lo (p.331) produz a seguinte afirmação: “Quando perante Deus se passarem em revista os casos de todos, não se fará a pergunta: Que professaram? mas sim: Que fizeram eles? foram praticantes da Palavra? Viveram apenas para si mesmos? ou se tornaram hábeis em obras de beneficência, em atos de bondade, em amor, preferindo os outros a si mesmos e negando-se a si próprios a fim de que fossem uma bênção aos outros? Se o registro mostrar que essa foi sua vida, que seu caráter foi assinalado pela ternura, renúncia e beneficência, receberão então de Cristo a bendita declaração: “Bem está.” “Vinde, benditos de Meu Pai, possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo.” Mateus 25:23, 34.

Devemos realizar as mesmas obras que Cristo realizou, mas, é imprescindível ter fé nEle. Na medida em que vamos conhecendo Jesus vamos acumulando confiança e, consequentemente, aumentando nossa fé, passando sem que percebamos a realizar as obras de justiça.  Aqueles que estarão aptos no segundo advento de Jesus terão necessariamente fé em Jesus (Apocalipse.14:12), ou seja, estarão operando as obras que ele realizou.


Agora, queremos mostrar a transformação ou a transição do judaísmo para o cristianismo realizada pelo próprio Cristo quando, durante a última páscoa antes do seu sacrifício, estabeleceu a santa ceia. Para o judaísmo a mais alta demonstração de fé se dava quando um homem tomava um cordeiro e oferecia seu sacrifício no templo, demonstrando fé no sacrifício vindouro do Messias. Assim foi na saída do Egito quando os chefes de famílias judeus pintaram os umbrais das portas com sangue de cordeiro. Também Raabe, quando os israelitas tomaram Jericó, pendurou um cordão vermelho na janela demonstrando fé no Messias salvador. Com a morte de Jesus os sacrifícios perderam seu significado, considerando que o tipo encontrou o antítipo, ou seja, o verdadeiro sacrifício, uma vez ocorrido, prescrevera o sistema simbólico de sacrifícios animais. Por esse motivo, deveria haver outra demonstração de fé, sendo assim estabelecida por Cristo a santa ceia na qual o vinho simboliza o sangue que, agora de uma forma mais viva, é passado nos umbrais da alma humana. Esta é a evolução experimentada pelo cristianismo em relação ao judaísmo. A ceia estabelecida por Jesus tornou-se a maior e mais profunda demonstração de fé que um homem pode oferecer a Deus. Tal raciocínio está explícito em Lucas 22:20 que diz: “Semelhantemente, tomou o cálice, depois da ceia, dizendo: Este cálice é o novo testamento no meu sangue, que é derramado por vós". Assim, se o vinho representa a nova vontade/testamento de Jesus no seu próprio sangue e, se da mesma forma o sangue de animais representava o de Jesus, então a santa ceia é a demonstração mais elevada de fé pós sacrifício de Cristo. Por outro lado, em I Corintios 11:26 vemos que Jesus recomendou aos cristãos a constante demonstração de fé participando da ceia: “Porque todas as vezes que comerdes este pão e beberdes este cálice anunciais a morte do Senhor, até que venha". Anunciar a morte significa crer nela como sacrifício plenipotenciário para assegurar a própria vida e a salvação. Jamais deveriam os crentes deixar de participar deste rito. Conforme vimos, o cristianismo é a evolução do judaísmo, mas os cristãos necessitam saber disso.