domingo, 6 de fevereiro de 2022

O sistema educacional brasileiro e sua relação com fortalecimento da competitividade econômica

 

(Artigo publicado em 22 de outubro de 2019 no site Artigos .com)

INTRODUÇÃO

Programas de pós-graduação são essenciais para incrementar e consolidar espaços cognitivos, sem os quais as inovações, na velocidade exigida pela sociedade, não aconteceriam. No ambiente amazônico, os referidos programas têm protagonizado o adensamento de massa crítica altamente treinada, oferecendo, especialmente às universidades, mas também a outros segmentos da atividade econômica, profissionais com visão de oportunidade para colocar à Amazônia uma perspectiva de desenvolvimento alinhada com expectativas internacionais. Apesar de ser um cenário auspicioso, todavia, dos 237 programas de pós-graduação das universidades federais na região norte do país (Fonte GEOCAPES, 2018), 56,9% estão classificados no nível 3 da CAPES, 32,06% nível 4, 8,8% nível 5 e 2,1% nível 6. Tais números expõem a necessidade de mais agenciamento para o fortalecimento e adensamento das universidades, cuja principal tarefa é a formação de lideranças. Assim, se os programas de treino avançado não estão nos níveis mais altos da classificação, pensar na Amazônia planetária, ou colocá-la num patamar de liderança parece horizonte ainda distante, mas não inexecutável. Há na região, no entanto, universidades, como é o caso da Universidade Federal do Pará, onde dos 116 programas 34,48%  estão classificados no nível 4 da CAPES, 12,93% no nível 5 e 3,44% no nível 6, números que atestam a intensidade dos programas, os quais podem ser almejados como modelos para as demais universidades amazônicas.

As grades estruturais dos programas de pós-graduação são análogas em todo território nacional; refletem a departamentalização do raciocínio científico que dominou o século XX, ou seja, a analítica cartesiana e o positivismo lógico (Coelho, 2017). Além disso, as disciplinas oferecidas, na maioria dos programas, não sofreram atualizações relativas às demandas atuais (inovações, ferramentas de TI, empreendedorismo, etc.), considerando que os programas são geralmente formatados pelos docentes universitários que, na sua maioria, não estão buscando maiores interações com o setor produtivo, resultando em programas alinhados com as demandas puramente acadêmicas, sendo, em grande parte dos casos, anacrônicos em relação aos avanços socioeconômicos. Essa situação leva a uma ausência de visão empreendedora, de modo que os egressos sempre esperam por concursos públicos, os quais estão cada vez mais raros, gerando um contingente de egressos que são preteridos em seus sonhos e em oportunidades.

O PARADIGMA ATUAL

A ciência do século XXI está se desenhando muitíssimo diferente daquela do Século passado, por implicação, primeiramente, da complexidade atual das questões científicas, e em segundo lugar, por força das novas tecnologias computacionais que estão tornando o trabalho científico mais preditivo, mais quantitativo, mais rapidamente entregue e com petabytes  de dados coletados por sistemas tecnológicos, obrigando à multidisciplinaridade e transdisciplinaridade, significando intercâmbio mútuo e interação de diversos conhecimentos de forma recíproca e coordenada, havendo a tentativa de aproximação metodológica para integração de resultados, ainda que permaneçam os interesses próprios de cada disciplina, porém, buscam soluções dos seus próprios problemas através da articulação com as outras disciplinas, além da translação dessas disciplinas, onde ciências naturais, ciências humanas são chamadas para compor a chamada ciência translacional. Esta busca solução a muitos desafios, integrando pesquisa científica multidisciplinar, aspectos éticos, sociais e legais, considerando que a atividade científica é eminentemente social, além de promover a troca entre ciência básica e aplicada, movendo os resultados para a sociedade (Guimarães 2013). O que está surgindo é um novo modelo paradigmático, sendo denominado de teoria dos sistemas complexos (COELHO, 2017). Agora as disciplinas não estão apenas ligadas, mas entrelaçadas, ou seja, de acordo com Lima (2006), a criação de inumeráveis possibilidades de percepção da verdade acerca de um determinado fenômeno, como consequência da alta complexidade do mundo contemporâneo e a incoerência de confinamento em sistemas únicos, como propôs Descartes, Newton e outros.  Na verdade, estamos numa nova era onde a coleta de dados não mais é realizada somente de forma pessoal, mas sensores espalhados na superfície do planeta enviam gigantescas quantidades de dados por segundos, sendo a tarefa do pesquisador hodierno organizar e interpretar massas de dados utilizando ferramentas computacionais. Conforme afirma Prigogine (1996), estamos entrando em um novo período onde a formulação das leis da natureza não está firmada na certeza, mas na possibilidade, dada a grande complexidade do mundo natural.

Com essas considerações, faz-se mister repensar o sistema educacional como um todo, e em particular, os programas de pós-graduação brasileiros, cujos conteúdos ainda refletem o século XX. O que está sendo proposto é a religação dos saberes compartimentados, uma perspectiva de superação do processo cartesiano do século passado. Segundo Santos (2008) está sendo construída uma nova teoria pedagógica a da complexidade e transdisciplinaridade para a qual já é notado número expressivo de educadores aderentes, especialmente no ensino superior.

No caso amazônico, ainda persiste o modelo de pesquisas individuais, com algumas exceções para atividades em grupos, quer sejam institucionais ou transinstitucionais. A administração cientifica regional (através das instituições, incluindo as de fomento), ainda recalcitra na formulação de políticas que estimulem a formação de grupos multidisciplinares, visando alcançar pesquisas com viés inovativo, para melhorar o viver da sociedade, além de incrementar ações que favoreçam o crescimento do sistema econômico regional e/ou nacional. É urgente a criação de programas regionais de investigação científica inclusivos baseados nas perspectivas de desenvolvimento dos estados amazônicos, estruturando infraestrutura transestaduais, significando compartilhamento de equipamentos, de equipes e de resultados. A consequência seria a formação de grupos multidisciplinares, um ganho esperado para materializar ambiente inovador próprio da pesquisa translacional. Nesse tipo de ambiente, os programas de pós-graduação tenderiam a redimensionar seus conteúdos, e certamente se abririam janelas de oportunidades para parcerias amplas, incluindo parcelas do setor empresarial. Nesta perspectiva, torna-se importante mostrar exemplos onde a iniciativa privada aporta recursos significativos para pesquisa e desenvolvimento (P&D), como é a realidade nos Estados Unidos, onde a fração do produto interno bruto dedicada à P&D é 2,73%, sendo que o setor privado aporta 63% do referido recurso. 

Voltando ao novo paradigma, a transdisciplinaridade é um excelente caminho para estimular novas conexões entre saberes, mas também entre setores da sociedade. A translação de saberes dá surgimento a uma nova aurora interpretativa que ultrapassa o horizonte das disciplinas potencializado pela utilização de ferramentas quantitativas, mostrando novas camadas da realidade.


BIG DATA


As tecnologias da informação estão causando um novo modo de interpretação da realidade e a busca de inovação através da correlação de grandes quantidades de dados, ou a tarefa de extrair conhecimento a partir de grandes quantidades de informação. É o chamado Big Data. No caso da pesquisa em Biologia, o uso de ferramentas computacionais está permitindo a verificação de correlações mais acreditáveis que passam a ser apreciadas não apenas como mais informativas e plausíveis, mas também como explicação causal mais sólida (LEONELLI, 2014).

“As conquistas da ‘biologia do Big Data’ exigem integração de habilidades em vários campos, muitos dos quais não fizeram parte de uma educação tradicional em biologia” (Schatz 2012). Por causa da vasta oportunidade para análises, certamente o papel da Biologia Quantitativa irá acrescer substancialmente no futuro. Logo, os estudantes necessitarão treinamento adequado à compreensão dos implementos da biologia moderna, quer nos cursos de formação como nos programas avançados.  Schatz (2012) prevê o crescimento da Biologia computacional com adesão de profissionais versados em técnicas quantitativas e estatística para interpretação de sequências de dados, tal como já está acontecendo em várias partes do mundo. O referido autor ainda assinala que no interior da docência há uma tensão sobre quanto esforço empregar na educação quantitativa, uma vez que o tempo gasto nesses tópicos provavelmente requererá uma redução correspondente em outras tópicos mais tradicionais.

No caso brasileiro e em particular no ambiente amazônico, estudantes não adquirem densidade em técnicas computacionais quantitativas e isso é um desafio para a montagem dos programas educacionais, considerando que deverão incluir princípios de probabilidade e estatística, teoria da informação, genética populacional, cinética química, biofísica molecular, análise de sequência biológica e introdução à ciência da computação e programação. Em realidade, é uma revolução que parece estar além das possibilidades nacionais, mas é requerida. Todavia, é a condição sem a qual não avançaremos em direção a uma ciência de nível mundial. Não que não haja infraestrutura computacional de grande desempenho nas instituições amazônicas, mas, no campo da Biologia, faltam treinamentos para os profissionais da área, além de que ainda se conserva o raciocínio de que biólogos não necessitam expertise em matemática.

Por outro lado, Leonelli (2013) assinalou que o campo da biologia produz extenso pluralismo e enorme variedade de dados oriundos de protocolos de coletas e métodos computacionais diversificados, tornando imprescindível a formatação de níveis altos de padronização, acessibilidade e visibilidade dos dados existentes, com vistas a reutilização e análises em larga escala, considerando o pluralismo epistêmico que caracteriza a pesquisa nas ciências da vida. E neste sentido, deve-se treinar os alunos nos protocolos que estão sendo adotados mundialmente, ou produziremos anões cientistas.

Não há ainda ambiente acadêmico regional para a introdução da Biologia Quantitativa. Não se tem notícia de que as Fundações de Amparo às Pesquisas amazônicas tenham programado conclaves, nos quais são esperadas as presenças dos vanguardistas do Big Data. Paradoxalmente, convivemos com as tecnologias mais avançadas, em uso cotidiano, através dos smartphones. Somos bombardeados freneticamente por resultados de análises estatísticas patrocinadas pelo Google resultando em assédio mercadológico que nos constrangem a cada segundo. Mas, a academia local ainda não refletiu sobre o assunto para criar possibilidades de uso de massas de dados. Ainda que sites como Linkedin, Research Gate, Google Acadêmico, Mendeley, entre outros, estejam diariamente demonstrando o uso massivo de dados, regionalmente não há estímulos nas instituições de pesquisas para instalação de ambiente necessário para o Big Data. Todavia, é o modelo atual para a construção de conhecimentos, uma mudança importante no método científico, uma substituição do processo de formulação de hipótese que leva à experimentação e posterior análise de resultados, pela formulação de hipótese e a busca da resposta no banco de dados (EMMOTT et al., 2006).

A integração de teorias, experimentos e modelos tem sido o alvo central nas ciências, assim, a computação é parte significativa nas novas necessidades impostas pela ciência. Ao mesmo tempo em que a computação evoluiu, as ciências experimentais também evoluíram e passaram a ser capazes de coletar uma quantidade maior de dados. Palmo a palmo, os instrumentos computacionais estão saindo da condição de ferramenta de apoio, transformando-se em algo básico para interação, interpretação de resultados e aprimoramento dos métodos científicos, mudando a forma como a ciência é conduzida, especialmente quando se quer resultados aplicados.


VISANDO AS INOVAÇÕES


As estatísticas do Scimago Journal & Country Rank (2018) mostram um índice h (as citações dos trabalhos científicos brasileiros nos trabalhos científicos mundiais) do Brasil de 530, correspondendo a 40.512 citações, enquanto o índice h dos Estados Unidos foi 2.222, correspondendo a 528.530 citações no mesmo período.  Os números refletem o impacto do conhecimento produzido no país para o corpo de conhecimento mundial. Ainda é baixo talvez por causa do anacronismo na assimilação das atualizações que estão acontecendo nos centros de maior cognição. Não é senso comum o tema do Big Data, além da quase inexistente utilização da translação de conhecimentos, da necessidade da formação de grupos de pesquisa multidisciplinares, o que faz com que o conhecimento produzido seja de aplicabilidade mais restrita.

O Brasil produz 0,1% das patentes mundiais (UNESCO 2015). Esse percentual mostra como nossa performance cientifica não favorece o crescimento econômico nacional. É necessário mudar o arcabouço dos programas educacionais nos seus diferentes níveis para que os jovens pensem nas inovações.

No caso da pós-graduação parcerias com os vários setores sociais deveriam oferecer janelas para discussões sobre focos de pesquisas. Dos 237 programas de pós-graduação na região norte do Brasil, nenhum reflete em suas grades disciplinares os impedimentos tecnológicos industriais ou os anseios das comunidades onde estão inseridos. Na origem das propostas dos programas não houve nenhuma interface com a sociedade, de modo a priorizar contextos que fossem de interesse coletivo. Assuntos como transporte, segurança alimentar, mineralogia, energia, comunicação, segurança em saúde, entre outros, são demandas quase obvias, mas que têm passado desapercebidos ou tangencialmente abordados quando da formulação de programas educacionais, mormente a pós-graduação. Assim, a formação de capital humano de alta cognição, por sua vez, dá surgimento a conhecimentos que são de aplicabilidade mais restrita, tornando a informação gerada ornamento para a academia e não soluções para as demandas dos segmentos da sociedade. Pelo exposto, justifica-se o porquê do baixo índice de patentes no Brasil e em particular, para a região amazônica.

De um modo geral, pesquisadores brasileiros não estão envolvidos com empresas, um passo importante para transformar conhecimento em acréscimo econômico; também, as instituições de pesquisas não possuem, com algumas exceções, Núcleos de Transferência Tecnológica excelentes, fato que dificulta o pensar inovações, a célere proteção do conhecimento e consequente oportunização para transferencias às empresas (DIAS & ALMEIDA, 2013). Há ainda o entendimento de que a pesquisa básica e a pesquisa aplicada sejam categorias separadas, uma divergência que desvirtua a relação entre ciência e tecnologia (C&T). Porém, é fato que a Biotecnologia vem melhorando a relação entre C&T, uma vez que força a adesão da pesquisa básica com a aplicada, originando a aproximação entre academia e empresas.

Evidentemente, para além do papel de ensino e pesquisa, a pós-graduação, tangida pelas grandes transformações da sociedade pós industrial e o avanço mercadológico trazido pelo processo de globalização, precisa alcançar um contexto que visualize os grandes blocos comerciais e financeiros, de modo a dar dimensão aos egressos sobre o uso intensivo das redes de informação, sobre as mudanças no mercado e sobre as oportunidades que estão a exigir mutações nas qualificações profissionais (MARTINS E ASSAD 2008).

A temática da construção de capital humano de alta cognição para atuar no processo de inovação e consequente parceria entre academia e empresas, visando alterações positivas no setor econômico, ainda carece de debates e da sua inclusão nas agendas das instituições de pesquisas na Amazônia. Por esse motivo, as fomentadoras deveriam indicar oportunidades para o surgimento do referido debate, estimulando o ambiente acadêmico em direção às inovações. Deveria ser também assunto nos fóruns de debates dos tomadores de decisão no cerne das academias. O que não pode continuar é a atual facies do sistema de educação e pesquisa, o qual reclama de poucos investimentos. A permanecer como está, não haverá resposta governamental por causa do pouco retorno em relação ao fortalecimento econômico. Porém, é necessário que seja tomada a consciência de que as pesquisas nacionais precisam estar relacionadas com o robustecimento da competitividade econômica. Estamos falando de um capitalismo acadêmico, o qual já é realidade nos países desenvolvidos (MARTINS E ASSAD, 2008). Segundo a UNESCO (1999):

“[...] O ensino superior deve desenvolver habilidades empresariais e o senso de iniciativa deve tornar-se a preocupação principal da educação superior, a fim de facilitar a empregabilidade de formandos e egressos que crescentemente serão chamados para deixar a situação de buscar trabalho para assumirem acima de tudo a função de criar trabalho”.

Neste contexto, o empreendedorismo assume vital interesse. Hoje, com o enxugamento do estado nacional e a redução dos postos formais de trabalho, o empreendedorismo passa a ser visto como uma forma de assegurar os profissionais egressos das universidades. Torna-se necessária a criação de um novo modelo de ensino de modo a contribuir para a concretização de uma educação empreendedora, oferecendo aos alunos ferramentas e potencial para a criação de trabalho, tal como é nos países desenvolvidos.


Referências

Coelho, Gabriel Bandeira. “Ciência, sociedade e complexidade: da disciplinarização do conhecimento à emergência de programas de pós-graduação interdisciplinares no Brasil.” Revista Brasileira de Pós-Graduação, 2017: 1-22.

Dias, Cleber Gustavo, e Roberto Barbosa de Almeida. “Produção científica e produção tecnológica: transformando um trabalho científico em pedidos de patente.” Einstein 11 (2013): 1-10.

EMMOTT, Stephen et al. (orgs.). Towards 2020 Science. cambridge, 2006.

Guimarães, Reinaldo. “Pesquisa Translacional: uma interpretação.” Ciência e Saúde Coletiva 18, nº 6 (2013): 1731-1744.

Leonelli, Sabina. “Global data for local science: Assessing the scale of data infrastructures in biological and biomedical research.” BioSocieties, 2013: 1-30.

Leonelli, Sabina. “What difference does quantity make?On the epistemology of Big Data.” Big data & society, 2014: 1-11.

LIMA, Gilson. “Sociologia na complexidade.” Sociologias 8 (2006): 136-148.

Martins, Carlos Benedito, e Ana Lúcia Delgado Assad. “A pós-graduação e a formação de recursos humanos para inovação.” Revista Brasileira de Pós-Graduação 5 (2008): 322-352.

PRIGOGINE, I. O fim das certezas: tempo, caos e as leis da natureza. São Paulo: UNESP, 1996.

Santos, Akiko. “Complexidade e transdisciplinaridade em educação: cinco princípios para resgatar o elo perdido.” Revista Brasileira de Educação 13, nº 37 (2008): 71-83.

Schatz, Michael C. “Computational thinking in the era of big data.” Genome Biology 13 (2012): 117.

SJR, SCImago (n.d.). SCImago Journal & Coutry Rank [Portal]. s.d. www.scimagojr.com.

UNESCO. O enso superior para o seculi XXI. Brasilia: UNESCO, 1999.

UNESCO. UNESCO Science Report: towards 2030. Paris: UN

O cenário institucional amazônico e a metodologia científica

 (Artigo publicado em 29 de novembro de 2021 no site Artigos.com)

Nos anos 1990, em uma das reuniões das terças feiras denominadas “Seminários da Amazônia”, patrocinadas pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), a Dra. Ilse Walker, brilhante pesquisadora ecologista e ex-docente do Imperial College, London, afirmou que todos os modelos ecológicos propostos para regiões temperadas não tinham poder de elucidação para explicar as relações ecológicas na Amazônia. A pesquisadora queria significar que a Amazônia era um modelo em si, necessitando de métodos próprios para perceber sua realidade.

Provavelmente, a Dra. Walker estava coberta de razão. Cada centímetro quadrado na Amazônia é tão complexo que seria imperioso mais estudos teóricos com metodologias adequadas para que se pudesse desvelar as intrincadas relações causais existentes nos trópicos úmidos.

Metodologia científica tem sido discutida desde sempre, porque os estudiosos buscam maneiras cada vez mais precisas para observar e interpretar as observações.

A humanidade experimentou, especialmente a partir do século XVIII, evolução tecnológica jamais alcançada em tempos transcorridos. O método científico sofreu muitas análises por grupos de filósofos que buscavam dar maior possibilidade para que as interpretações dos dados e, portanto, de enunciados, não carregassem ampla gama de subjetividade, validando a produção dos saberes. Videira (2012), filósofo e professor titular da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, além de professor no Programa de Ensino e História da Matemática (UERJ), assinalou que o século XIX foi decisivo para o desenvolvimento científico, pois não apenas consolidou o que se convenciona chamar o método científico, como deu surgimento a instituições, as quais atualmente são reconhecidas como centros de conhecimentos, mas também deu início ao processo de depuração do método científico, sendo que grandes discussões ocorreram ao longo do século XX.

Faz-se mister construir o conceito de ciência, tal qual concebe-se hoje. Rebeca Furtado (2017), filósofa, trabalhando com Educação e Política, com ênfase nas áreas de Ética, Ontologia, História da Filosofia, Filosofias Decoloniais, Feminismos e Tradições Filosóficas não Ocidentais, faz uma esclarecedora análise sobre a compreensão do labor científico no século XIX, a qual nos auxiliará agora. Na língua inglesa, a palavra ‘science’ apareceu com a formação de instituições como, por exemplo, a British Association for the Advancement of Science, século XIX (1831).  Todavia, ainda não se denominava Science mas, era trocado pelo termo filosofia natural, conceito que vinha dos séculos anteriores. Já na língua francesa, ciência não estava confundida com filosofia e, já se fazia a separação entre ciência exata e natural. Porém, enquanto no inglês ciência estava ligada a experimentação, no francês o termo se aproximava mais da matemática, significando unidade de método, a exatidão do método, metodologia para observação, mensuração e cálculo. O método científico conforme conhecemos foi idealizado por René Descartes (1596–1650), mas, Francis Bacon (1561-1626) teve grande relevância na conceituação da metodologia científica. Porém, somente no final do século XVIII a institucionalização de programas gestou a chamada ciência moderna, dando início à necessidade de regras e métodos específicos, os quais, por sua vez, limitaram os objetos e campos da investigação da filosofia natural, que marcam a preocupação do “espírito científico moderno”. Todavia, é somente na segunda metade do século XX que a cooperação no trabalho investigativo torna a produção do conhecimento mais organizada e com capacidade de interpretações da realidade cada vez mais abrangentes.


Nicolas de Condorcet (1743 - 1794), um matemático e cientista político francês defendeu que o conhecimento científico era mais pragmático do que as especulações filosóficas, isto referindo-se às ciências exatas, uma vez que o conceito de ciência na França estava ligado à matemática. Dizia Condorcet que as ciências não se valem de opiniões, mas das observações da natureza que permitem mensurações e consequentes formulações que materializam as observações em cálculos e não em especulações (Furtado, 2012). Essa narrativa é fundamental porque traz à luz os pressupostos nos quais está fundamentado o método científico moderno, ou seja, a reunião entre matemática e empirismo (Merz, 1907). Assim, novas técnicas para experimentação tornaram ainda mais precisos os resultados e interpretações da realidade, fazendo com que a metodologia científica sofresse assimilação sem ressalvas.


O método científico tornou possível a universalização e testagem do conhecimento, uma vez que experimentos poderiam ser reproduzidos em diferentes locais, e se fossem mantidas as mesmas condições os resultados poderiam se repetir. A simples repetição reforça o método e evidencia a verdade.  Tal situação difere grandemente da filosofia, onde somente indivíduos capacitados poderão estabelecer verdades. O método científico, claramente parte para universalizar a forma de alcançar a verdade. Com a revolução industrial, máquinas começaram a substituir homens, e para a ciência que se cristaliza no mensurável, houve um ganho significativo, pois a subjetividade individual foi suprida pela aferição precisa, retirando qualquer dimensão mística, zerando, de uma vez por todas, qualquer confundimento entre ciência e filosofia.

Claramente, a pretensão científica era a de descrever os fenômenos por meio da formulação de leis baseadas apenas na objetividade da natureza que garantiam sua universalidade, ou seja, o ideal da pura observação e descrição dos fenômenos da natureza era sustentado pela mecânica clássica, sendo a física, neste momento, considerada o modelo de ciência moderna (VIDEIRA, 2011). Dois princípios baseiam a produção científica: o projeto de experimentos em condições controladas para obtenção das informações desejadas; e a formulação matemática do conhecimento.

Com o progresso das metodologias para experimentações empíricas e a concepção de novas formulações teóricas e, portanto, a ampliação das possibilidades de abstrações matemáticas, cada vez mais abrangentes, começaram a surgir divergências quanto a conceitos e enunciados mais adequados para descrições e explicações de determinados fenômenos, e com o avanço da própria mecânica, na qual foram incluídos novos conceitos não tão diretamente mensuráveis, foi sendo necessário discutir-se o pressuposto de que o conhecimento estava na própria natureza, bastando o cientista formulá-lo em leis.

Ildeu de Castro Moreira (1995), físico teórico trabalhando com sistemas não-lineares e história da ciência na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), explicando o abalo da mecânica clássica afirmou que:

 Vários fatores influenciaram as tentativas de revisão da mecânica clássica do século XIX. Entre eles podem ser citados: a introdução do conceito de energia; a busca de uma descrição mecânica para os fenômenos eletromagnéticos; a procura de uma conciliação da termodinâmica com a mecânica, onde a explicação da segunda lei em termos mecânicos era um obstáculo significativo; a construção de uma estrutura teórica para a mecânica que fosse logicamente mais perfeita e livre de alguns problemas já identificados por Kirchhoff e Mach e, finalmente, a tentativa de compatibilizar a visão mecanicista com o desenvolvimento dos estudos sobre os seres vivos. Diante desse quadro, os mecanicistas mais destacados são forçados a rever suas posições.

 Rebeca Furtado (2017) explicou que:

Com a crise no ideal positivista de pura descrição objetiva dos fenômenos, a ideia de que teorias científicas são representações do sujeito retoma espaço e precisa ser devidamente fundamentada a fim de garantir a legitimidade do conhecimento científico. [...] A relação com a filosofia kantiana, portanto, se torna evidente e novamente se pergunta pelos limites do conhecimento humano a partir do sujeito e não simplesmente a partir do objeto. Perguntas sobre qual é o papel do sujeito na produção de teorias científicas, qual é o estatuto da representação, se existe alguma estrutura a priori da razão humana e como ela se relaciona com a sensibilidade passam a ser perguntas da ordem do dia.

Para a ciência moderna, a procedência do conhecimento sai da Natureza, porém, o cientista não se torna um agente passivo que somente observa e fórmula, mas, organiza um projeto experimental no que estão estruturadas as formas de observação, fato que pode limitar a maneira pela qual a Natureza se apresenta para análise, uma vez que a metodologia eleita não permite ver todas as relações ocorrendo na gama complexa de variáveis envolvidas. Dougherty (2008) informa que: “Embora tal restrição cause inexatidão em relação ao conhecimento de todas as variáveis e suas interações, a complexidade da Natureza impede esse conhecimento completo de qualquer maneira. Para a ciência moderna, a razão traz o foco para o empreendimento científico”.

Um experimento produz um conjunto de medidas, as quais são a base empírica para o conhecimento. Tais mensurações, de per si, não significam que há conhecimento científico. As mensurações necessariamente devem estar integradas em um sistema conceitual, um conjunto de objetos inter-relacionados e interligados, ou seja, uma teoria a qual pode ser elaborada através dos raciocínios indutivo ou dedutivo, conforme Aristóteles indicou. O conhecimento científico é constituído pela síntese das medidas observadas, a qual é o resultado de uma interpretação racional. Tais sínteses estão relacionadas a variáveis e relações entre as variáveis. Um complexo de variáveis e suas relações compõem uma abstração matemática. As teorias científicas formam-se sempre por um modelo matemático composto de símbolos (variáveis e relações de causalidade entre as variáveis) e um conjunto de definições operacionais que relacionam os símbolos aos dados (Dougherty, 2008).

Todavia, as relações de causalidade, ainda que interpretadas por inferências matemáticas, apresentam limitações, as quais são oriundas de múltiplos fatores, incluindo o próprio tratamento matemático, a escolha dos dados para inferência, até mesmo interferências por causa dos sistemas computacionais.   Assim, conforme Dougherty (2008), haverá variáveis encobertas e externas ao modelo que comprometem as variáveis no modelo, fazendo com que o modelo se comporte estocasticamente, ou seja, cujo estado é indeterminado, com origem em eventos aleatórios.

A questão acima tem sua origem na discussão sobre causalidade que performou trabalhos de alguns filósofos do século XVIII, e que tinham sido preteridos pelos mecanicistas. O principal deles é Immanuel Kant (1724-1804), o qual assevera que o sujeito que observa tem papel preponderante na formulação das leis e teorias científicas. A metodologia científica atual pergunta pelos limites do conhecimento a partir do sujeito e não simplesmente do objeto. Estamos dizendo que a terminologia kantiana prevê que a abstração matemática constitui o objeto do conhecimento humano, ou seja, o experimento e o modelo matemático são irmãos siameses para a interpretação da realidade. “Um conceito sem percepção é vazio; uma percepção sem conceito é cega (Kant, 2008).

Durante o início do século XXI, a Universidade (academia), o preponderante repositório do conhecimento da sociedade mundial, bem como o carro-chefe da produção de novos conhecimentos tornou-se uma instituição bem-sucedida e, para países desenvolvidos, tornou-se globalizada em tamanho, tendo exportado o modelo para todos os quadrantes.

 O crescimento universitário trouxe incertezas nas garantias de financiamento, forçando a aproximação da universidade de outros setores além do governo, ou seja, investidores privados e empresas de consultoria passaram a ombrear a produção de conhecimento. Por esse motivo, o método científico consagrado, aquele que se materializa por experimentação, se divorciou cada vez mais do modelo humanista que se desenvolveu nos séculos XIX e XX, exigindo que as avaliações tradicionais sobre o valor das universidades e do conhecimento produzido, as quais eram orientadas por pares, fossem substituídas por ranqueamentos bibliométricos, criando-se uma nova ciência para avaliar chamada cientometria. As academias estão submetidas a um sistema competitivo, em busca de prestígio e, consequentemente, facilidade para atração de recursos financeiros. Tal modelo de avaliação deu surgimento às Universidades de nível mundial, com replicações alhures. O que deveria ser apenas indicador de qualidade se transformou em definidor de qualidade. As Universidades são ranqueadas em tabelas onde critérios métricos de avalição definem boas Universidades.

Mudanças substanciais nas avaliações impactaram negativamente as ciências sociais. As métricas avaliativas privilegiam o impacto das publicações e sua utilidade pragmática, ou seja, o conhecimento gerado deve ser traduzido em patentes e citações pelos pares. A lógica empregada é que a ciência é um empreendimento e, como tal, deve gerar novos recursos. Assim, num ambiente onde utilidade prática é a métrica, ciências humanas passaram a carecer de maior interesse social, uma vez que o sistema de avaliação por impacto prioriza domínios empíricos que se aplicam a experimentos repetitivos e, portanto, tendentes a gerar inúmeras publicações.  Assim, as Universidades passaram a dar quase nenhuma prioridade a pesquisas mais teóricas e históricas, quase alijando as ciências humanas das suas grades curriculares, uma vez que não carreavam recursos financeiros ou prestígio.   

Scott Doidge, John Doyle e Trevor Laurence Hogan, cientistas estudando teoria social, sociologia cultural e sociologia da educação, publicaram em 2020 uma síntese sobre a crise epistemológica nas Universidades em três países: Estados Unidos, Austrália e Reino Unido. Destacaram haver disposição para se discutir o papel das ciências humanas, porque promovem as habilidades comportamentais necessárias às forças de trabalho no século XXI. Chamam atenção para a revolução digital, que trouxe o aumento exponencial dos dados socialmente relevantes e que são controlados pelo setor privado, além da relevância da pesquisa para e sobre os desafios socioeconômicos atuais e, na era das "fake news" e epistemologia pós-verdade de Nietzsche, o ceticismo social em relação à pesquisa baseada em evidências e ciência em geral.

O cenário institucional está em plena transformação. No sistema tradicional três atores poderiam estar envolvidos, e com papeis bem definidos: 1) o governo fornecendo parte substancial dos financiamentos; 2) as Universidades e eventuais organizações doadoras efetuando pesquisas (lato senso) nas várias escalas de tempo; 3) o setor privado realizando, eventualmente, pesquisas aplicadas com interesses pontuais visando atingir o consumidor.

Agora, as novas configurações mostram maior complexidade, uma vez que os governos também estão envolvidos em experimentos sociais que visam compreender comportamentos para garantir maior governança; as organizações sem fins lucrativos, tais como, “Think Tanks”, ou seja, instituições ou organizações dedicadas a produzir e difundir conhecimento sobre temas políticos, econômicos ou científicos, também estão envolvidas em pesquisas sociais e políticas, mantendo agendas de curto prazo e de impacto na busca de indicadores observáveis de impacto, significando que a coleta de dados não está somente nas mãos dos cientistas, mas, o setor privado também controla e coleta dados, especialmente aqueles relacionados ao comportamento humano. É como se estivéssemos identificando um novo pacto para produção de conhecimentos que objetiva identificar um conjunto de entendimentos e expectativas compartilhadas para construir confiança, algo que vai muito além da atual organicidade das instituições de pesquisas e das disciplinas que normalmente estão em operação.

As mudanças acima são patrocinadas pelo desenvolvimento digital que, por sua vez, gerou o “Big Data”, ou seja, um conceito que descreve o grande volume de dados estruturados e não estruturados que são gerados a cada segundo. Tais dados podem tornar visíveis variáveis como insatisfações, satisfações, desejos, necessidades entre outros, captados em mídias sociais e cruzados com dados internos de uma empresa, por exemplo, e assim criar compreensão ou soluções para problemas pela súbita captação mental produzida por grandes volumes de dados dos elementos e relações adequados a uma determinada demanda. O “Big Data” está transformando a maneira de produzir conhecimento, uma vez que permite investigar não apenas aquilo que a natureza desvela, mas, permite inferir sobre história e herança de um lugar e de sua população, tornando possível inferir sobre o futuro.

Claramente, as inovações serão efetuadas como roupa feita sob medida. Respostas científicas para problemas emergentes poderão fornecer aos tomadores de decisões ferramentas muito mais precisas para soluções complexas. No momento atual, quando a humanidade se vê atordoada pelo corona vírus, o estudo comportamental de populações na várias regiões do mundo poderia fornecer perspectivas para medidas profiláticas particularmente adequadas, muito diferentes de um universal lockdown. Está-se falando de translação de conhecimentos, algo ainda não universalmente aceito e praticado.

A força do “Big Data”, assim como da revolução digital, tem permitido o compartilhamento dos dados e de plataformas para pesquisa e análise de dados, levando à necessidade de estruturas colaborativas transdisciplinares e trans institucionais.

Harry Collins e Robert Evans(2002) Levantaram um problema que, até então, não estava na visão dos cientistas. Perguntaram se aqueles que não tem treinamento formal para produção de conhecimentos científicos poderiam ter expertise considerada e voz, sememlhantemente aos que são especialistas formais?

Até meados do século XX, um bom treinamento científico era considerado como suficiente para que uma pessoa reunisse autoridade e poder de decisão em seu próprio campo e, em alguns casos, em outros campos também. O que se está querendo significar é que ciência era considerada uma atividade quase esotérica, logo, autoritativa, dando ao que era iniciado poder de decisão positiva. Porém, desde os trabalhos realizados pelo Circulo de Viena (um grupo de filósofos que se juntou informalmente na Universidade de Viena de 1922 a 1936 com a coordenação de Moritz Schlick. Seu sistema filosófico ficou conhecido como o "Positivismo Lógico" ou ainda Empirismo Lógico ou Neopositivismo) que buscaram resolver problemas de fundamento da ciência, além dos trabalhos de Karl Popper e Thomas Kuhn, o positivismo científico começou a decair até que no final dos anos 1970 a metodologia científica clássica foi amplamente questionada, formulando-se o método hipotético dedutivo, cujo defensor era, principalmente Karl Popper.

Com o crescimento das ferramentas de Tecnologia da Informação (TI) e o uso intensivo da matemática estatística, e o surgimento do “Big Data”, as ciências experimentais viram-se necessitando de uma dimensão que se havia perdido nos séculos XVIII e XIX, por causa do positivismo científico. Os grandes problemas científicos não poderão ser compreendidos em sua complexidade sem a inclusão das ciências sociais, ou seja, a transdisciplinaridade, que lida com a complexidade dos problemas globais e pretende, portanto, criar uma metodologia científica que resulta da somatória das metodologias das várias disciplinas, passando a carecer da inclusão de variáveis sociais.

Harry Collins e Robert Evans (2002) concordam que houve três ondas de estudos sociais nas ciências. A primeira onda questionou as bases cientificas. Thomas Kuhn, em seu trabalho “A Estrutura das Revoluções Científicas”, discutindo o que ele considerava mudanças de visões de mundo e o conceito da incomensurabilidade, ou seja, da mudança de significado que um conceito pode experimentar quando submetido a uma nova teoria, como que iniciou o sepultamento do positivismo acadêmico, dando início a um novo momento metodológico que permitiria mudanças de concepções de mundo, portanto, novos conceitos para antigas semânticas.

A segunda onda, a partir dos anos 1970, ficou conhecida como a sociologia do conhecimento científico. Agora sabe-se que é necessário recorrer a "fatores extra-científicos”, porque método científico, experimentos, observações e teorias não são suficientes. A percepção da ciência como atividade social tem buscado o uso de dados de instituições sociais, tais como tribunais, escolas, inquéritos públicos, dados coletados pelo Google etc.  Assim, para se construir soluções a problemas complexos que atingem diretamente populações, o método científico lança mão de experiências que não são consideradas rigorosamente metodologia científica, ou seja, está-se falando de uma nova teoria normativa da expertise.

A terceira onda envolve encontrar uma lógica especial para a ciência e tecnologia, ainda que estejamos, de forma tensa, aceitando as revelações da segunda onda. A disposição para encontrar uma lógica especial para a ciência e tecnologia, considerando a desconstrução que a segunda onda provocou na metodologia científica significa reconstruir o conhecimento. Assim, é possível verificar que as instituições de pesquisas plantadas na Amazônia, as quais claramente ainda permanecem na primeira onda, jamais irão poder dar respostas adequadas aos intrincados problemas regionais. A visão cientifica amazônica é fundamentalmente positivista. Por essa razão, será necessário pensar num modelo especial de pesquisas. A visão de mundo amazônico está plasmada conceitualmente no pensamento europeu, consequentemente, não há chance para a academia regional oferecer soluções científicas e tecnológicas suficientes para gerenciar questões amplamente diferentes das europeias.


Referências

Collins, H., & Evans, R. (2002). The Third Wave of Science Studies: Studies of Expertise and Experience. Social Studies of Science, 2, pp. 235–296.

Doidge, S., Doyle, J., & Hogan, T. (2020). The university in the global age: reconceptualising the humanities and social sciences for the twenty first century. Educational Philosophy and Theory, 52(11), pp. 1126–1138.

Dougherty, E. R. (2008). On the Epistemological Crisis in Genomics. Current Genomics, 9(2), pp. 69-79. doi:10.2174/138920208784139546

Furtado, R. (2017). Conexões entre filosofia e ciências no séc. XIX: um estudo sobre o desenvolvimento das ciências naturais e suas reverberações na filosofia alemã deste período. Em Construção, 1(1), 25-50. doi:10.12957/emconstrucao.2017.28123

Kant, I. (2008). Critica da Razão Pura. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian.

MERZ, J. T. (1907). A history of European thought in the nineteenth century. Vol. I. London: Willian Blackhood and sons.

MOREIRA, I. d. (1995). As visões física e epistemológica de Hertz e suas repercussões. Revista da SBHC, 13, pp. 53-64.

VIDEIRA, A. A. (2011). Metafísica, Físicos, Valores: Um ensaio sobre a crise dos fundamentos das ciências naturais na passagem do século XIX para o século XX. Ensaios Filosóficos, IV, 186-213.


domingo, 16 de janeiro de 2022

Um inimigo com quase 6000 anos de experiência

 Muitos cristãos não têm a menor ideia de como são controlados moralmente, deixando-os longe de Deus. Todos almejam ser servos fiéis, mas, por falta de entendimento e de conhecimento, vivem sem prestar atenção nas leis bíblicas e nos comandos de Deus, construindo uma experiência miserável. O desconhecimento daquilo que é a verdade produz prejuízos fatais, mas, a grande maioria não se dá conta da realidade.

O inimigo, com quase seis mil anos de experiência, não pode ser subestimado. As lendas sobre o modo como somos tentados moralmente fazem um belo estrago; muitos acham mesmo que Satanás tem pés de bode, cheira a enxofre, tem chifres e carrega um tridente. Porém, o inimigo é muito diferente. Ele foi dotado de inteligência superior e desenvolveu estratégias para envolver toda a humanidade no sistema da concupiscência, conforme a Bíblia explica (Rom.7:8). Então, a maneira inconsciente como a humanidade está envolvida na concupiscência é o que deve preocupar os cristãos.

Há somente dois sistemas morais para a sociedade humana. Na criação do universo, Deus implantou o sistema moral da cooperação, onde todas as coisas físicas e as criaturas com inteligência colaboram entre si, numa rede formidável de interações reais e perceptíveis, onde todos têm direito a tudo, fato que a escrituras sagradas chamam de vida. Neste contexto, os que são mais fracos são necessariamente fortalecidos por todos os outros, um sistema que pressupõe o crescimento constante dos elementos, portanto quanto mais fortes os elementos, mais forte será todo o sistema. Depois que Lúcifer desenvolveu a cobiça, em tempos imemoriais, ele concebeu o sistema moral da competição. Neste, cada indivíduo ou mesmo os seres inanimados, estão submetidos a toda sorte de conflitos alimentados pela cobiça, com o propósito de promover evolução. Assim, pela luta, tendo como motor a ganância, todos podem melhorar suas características e, supostamente, podem alcançar níveis evolutivos físicos e morais superiores. Todavia, ao invés de levar à desenvoltura verdadeira, a cobiça cultivou um ambiente de degradação, pois se para alcançar evolução é necessário competir, então a degradação do outro é o favorecimento daquele que quer evoluir. Portanto, a tendência final de todo o sistema é a morte. Com razão a Bíblia diz que Satanás tem na morte o seu propósito, sendo que seu sistema é o contrário do sistema da vida.

Neste mundo, a comunidade de humanos está submetida ao sistema da competição. Todos entendem que esta situação é a normalidade. A competição é o motor de todas as atividades, e todos são educados assim. A competição impõe que o resultado da vitória é a sensação, portanto, o sensualismo sempre acompanha a pretendida evolução por competição. O triunfo neste tipo de ambiente é tateado por impressões. O sensualismo é, em todas as acepções a entrega dos sentidos aos prazeres. Essa é a estratégia completamente bem-sucedida do inimigo. O significado da felicidade em todas as concepções humanas deve necessariamente permitir o sensualismo. Os gregos chamavam esta circunstância de hedonismo, definindo o prazer como o bem supremo, finalidade e fundamento da vida moral. Enquanto no sistema de Deus a felicidade está em esquecer-se a si mesmo e promover o fortalecimento do semelhante, no sistema mundano a felicidade está no ego, na sensação, no desfrutar do prazer que é sempre individualista. É criando um ambiente de sensações que Satanás enreda e escraviza a humanidade.

Nossa civilização está totalmente construída no hedonismo. Como está definido um país evoluído? Aquele que possui comércio intenso, economia densa permitindo que haja poder aquisitivo alto, no qual seus cidadãos podem usufruir do prazer das compras, da diversão disfarçada de arte ou através do entretenimento. Nas cidades modernas, centros de compras são imprescindíveis, então, toda sorte de negócios são oferecidos porque a sensação de vitória vem com a satisfação pessoal por ter cobiçado e adquirido. Uma pessoa bem-sucedida é entendida como aquela que pode comprar. Logo, todos lutam para alcançar a evolução egoísta porque o prazer é, segundo os sábios, o bem supremo.

A estratégia de Satanás não é o corpo a corpo com os humanos, mas, a montagem de um ambiente que impõe a sensação e o prazer. Se as crianças aprendem imediatamente essa noção, logo todos os humanos estarão totalmente no sistema satânico.

Esta questão do ambiente hedônico está nas casas e nos lares, logo, vai estar nas igrejas também e nos demais sítios da sociedade. Isto permite há disputas de todas as ordens. Usando os talentos que Deus outorga, os cristãos disputam posições e, apesar de acharem que servem e louvam a Deus, os serviços estão contaminados pela competição e, consequentemente, a sensualidade é muito alta nas dinâmicas eclesiais. Os crentes percebem pelo prazer se a adoração está produzindo enlevo ou não. Quanto mais sensação, mais espiritualidade. É assim que sentem as congregações. Quando as reuniões produzem prazer os membros imaginam que Deus esteve ali. Então, a música é um dos itens mais afetado pelo raciocínio hedônico. Os crentes levam para o interior do culto a Deus, onde o coletivo é o importante, a sua preferência musical individual. Em muitas comunidades os músicos obrigam cânticos hedônicos; canções que ao invés de ensinarem e fixarem partes da mensagem bíblica, possuem letras de autoajuda que funcionam como mantras para produzir prazer. Tais letras usam repetições de frases que trazem sensações ditas espirituais. A maioria não percebe e nem analisa por dois motivos principalmente: 1) estão muito envolvidos no sistema hedônico e aprovarão tudo que estiver em consonância com aquilo; 2) consideram também que a música vem de autores classificados como líderes ocupando posições de destaque, logo é bem-feita e sem defeitos.

O ambiente hedônico não permite quase nenhum desenvolvimento crítico mental. Os prazeres atuam diretamente no corpo, na carga hormonal humana, dando crescimento à ética do instinto. Isto quer significar que o corpo é quem comanda a mente. As sensações pedidas pelo corpo determinam que a mente promova ações para permitir o prazer. O instinto fica tão exacerbado que a pessoa não raciocina na lógica da modéstia social. Tudo que o corpo pede é satisfeito, não importa o que pensem os demais. É um ciclo vicioso quase inquebrantável.

É importante que se demonstre que o inimigo constrói sem desfaçatez o ambiente próprio para os seus propósitos. A música é um dos itens. Dos três elementos que compõem a música, o ritmo é o que favorece o prazer. A melodia e a harmonia (outros dois elementos da música) atuam principalmente no desenvolvimento intelectual, permitindo o surgimento do interesse pelo belo, pelas altas abstrações. O ritmo, favorece a excitação dos instintos, das paixões e dos pensamentos baixos, anulando o senso crítico e o uso das faculdades superiores da mente. Dizem alguns musicólogos que quanto mais ritmo, mais sensualidade, ao contrário, mais enlevo mental. Logo, o tambor como instrumento cultual é próprio para o paganismo, onde a sensualidade é oferecida aos deuses. No entanto o culto, segundo a Bíblia, deve ser racional (Rom. 12:1), logo, a melodia e a harmonia devem prevalecer e não o ritmo.

Há nos cristãos falta de cultura e de esclarecimento para lidar com a realidade divina, mas, nem sabem que não sabem. Muitos, ainda que em posições relevantes e mesmo líderes religiosos, não possuem erudição para lidar bem com o sagrado, dando mais importância à sabedoria humana, quando deveriam estar apegados ao assim diz o Senhor, dominando as leis bíblicas que regem nosso mundo. Neste contexto, não sabem discernir os limites dos dois sistemas morais, permitindo sincretismos sacrílegos. Portanto, o conselho de Paulo a Timóteo – manejar bem as escrituras – ainda é contemporâneo (II Tim. 2:15). 

domingo, 5 de dezembro de 2021

Uma história várias vitórias

 A história da humanidade não acontece aleatoriamente e nem o acaso tem participação. Há um planejamento subjacente para cada ser humano o qual foi pensado por Deus, sendo que as escolhas individuais determinam o sucesso ou fracasso do plano de Deus e de uma vida.

Claudomiro Franco da Fonseca se tornou um Pastor por escolha divina, revelada quando ainda era menino, com idade de quatro anos. Em seu aniversário teve um sonho que orientou toda sua vida. Nesse sonho a sua mãe, Isaura Franco da Fonseca, recebeu a visita de um senhor alto, bastante corpulento, mas muito bonito, todo vestido de preto. Foi uma visita breve, mas esse senhor conversou bastante com ela, e o menino de então sentou-se ao chão admirado de ver um senhor tão bonito e tão diferente que em poucos momentos se despediu e caminhou em direção à rua atravessando-a, alcançando uma árvore de castanholas. Parou ali e algo parecido a um guarda-chuva se abriu aos seus pés e ele foi subindo, subindo, subindo até desaparecer. Então o menino entendeu que era a visita de nosso Pai que está nos céus; Jesus o havia visitado. Aquilo ficou na mente do jovem Claudomiro até que conheceu a verdade.

Em sua adolescência, precisamente aos treze anos, o seu pai, Silvestre Fialho da Fonseca, que costumava, depois de um dia de trabalho, regressar para casa caminhando, foi abordado por duas jovens ao passar pela praça da República, em Belém do Pará. Elas entregaram-lhe um convite para assistir projeções luminosas que um conferencista chamado Leo Halliwell estava realizando num cinema em Belém. Silvestre gentilmente acolheu o impresso e ao chegar em casa leu-o cuidadosamente e resolveu assistir. Chegando ao local das projeções logo ficou interessado pelo modo de falar do expositor (falava um português muito precário) e pelas ilustrações projetadas durante o discurso, as quais continham figuras e textos bíblicos. Aquela novidade encantou Silvestre que, no dia seguinte, convidou o jovem Claudomiro para assistir também. Este relutou um pouco, mas obedecendo foi. Quando terminou a função naquela noite o jovem estava muito influenciado e, a partir dali ambos não perderam nenhuma noite. No final da série de palestras Sivestre já havia se definido, e reconhecendo que se tratava de uma nova religião, ficou muito interessado em obter maior aprofundamento nas doutrinas, tais como, a volta de Jesus, o que é o céu e onde está, o dia de guarda do quarto mandamento. Então o conferencista convidou aos ouvintes para outras reuniões num outro endereço sendo que todos atenderam. Ali ficaram por muito tempo, até que o jovem Claudomiro decidiu-se pelo batismo.

Logo depois do batismo o Pastor Halliwell convidou Claudomiro para trabalhar com ele, na condição de office boy e, com o passar do tempo, o jovem foi evoluindo através dos estudos. Quando completou dezenove anos o Pastor Halliwell o estimulou a ir para o Rio de Janeiro completar os estudos, garantindo-lhe a passagem de navio e o primeiro ano de estipêndio escolar. Assim, Claudomiro chegou ao Instituto Teológico Adventista (ITA), em Petrópolis, Rio de Janeiro, onde permaneceu aquele ano. No final do ano o jovem estudante foi para São Luiz (MA) para colportar, ganhando dois estipêndios e, naquela ocasião, o Pastor Halliwell aconselhou-o para que fosse para o Colégio Adventista Brasileiro, em São Paulo capital, para continuar seus estudos, e com grande alegria migrou, tendo ali concluído o curso Teológico.

Agora com um diploma voltou para Belém (PA) no ano de 1942, onde foi trabalhar na Missão Baixo Amazonas (MBA), na condição de auxiliar de contabilidade. Em 1943 casou-se com a Professora Esmeralda Vasconcellos da Fonseca sendo em seguida nomeado caixa da MBA. Em 1946 tornou-se o primeiro tesoureiro da Missão Costa Norte, com sede em Fortaleza (CE), local onde, por mercê de Deus, nasceram dois filhos: Ligia e Claudio, seu terceiro filho, Clóvis, nasceu em Belém, PA. Ali também pode construir a igreja central, fato que o encheu de realização.

Depois, por buscar um lugar onde a sua saúde tivesse melhor equilíbrio, transferiu-se para São Paulo, onde desenvolveu seu trabalho na Superbom, a fábrica de alimentos da organização Adventista, mas por um breve período, sendo logo guindado ao cargo de professor de contabilidade no antigo Colégio Adventista Brasileiro. Todavia, o seu coração palpitava pelo norte do país e, tão pronto quanto pode transferiu-se para Manaus, no ano de 1950, para ser o primeiro tesoureiro da Missão Central Amazonas (MCA), permanecendo até 1957.

Chegando no cais de Manaus, o Pastor Claudomiro foi recepcionado por todo o grupo de obreiros: o Presidente, Pastor Walter Streithorst e o Pastor Harley Boehm da igreja central, o único templo então construído. Dali foram até ao escritório da MCA para conhecer as instalações e depois foram à casa onde deveria ser a residência do Pastor Claudomiro. Um fato curioso é que a casa era repartida com uma família que não era adventista, isso devido à grande demanda por moradias e a escassa disponibilidade de imóveis para alugar, submetendo os obreiros de então a algumas condições desconfortáveis. Todavia, no caso do Pastor Claudomiro ele tinha felicidade no coração por estar na região norte e por ter a oportunidade realizar um trabalho pioneiro e promover, tanto quanto possível, atividades que Deus pudesse se agradar, tomando parte dos negócios do Seu Reino.

A dinâmica de trabalho na MCA era dura, ponderando que havia somente três obreiros, sendo que todos os departamentos estavam divididos entre eles. Então começou a obra de penetração, tendo o município de Maués como ponto de partida, pois já havia um núcleo adventista ali liderado por José Batista Michiles. Também foram abertas duas escolas, uma para os índios Maués e outra no rio Andirá, Parintins, para os índios Sateres. O serviço de lanchas já estava iniciado pelo Pastor Halliwell havendo somente uma lancha a Luzeiro I, a qual está preservada na Faculdade Adventista da Amazônia (FAAMA), em Belém, Pará. Depois, através de doações de adventistas da América do Norte, foi construída a Luzeiro II, um pouco maior que a luzeiro I. O trabalho operado pelas lanchas acrescentou não apenas novos membros para igreja, mas forte prestígio e apoio das autoridades. Tal situação animou a construção da Luzeiro III e da Luzeiro IV, ainda no período de tesouraria do Pastor Claudomiro. Em sua maioria, as temporadas de férias foram gastas no trabalho de evangelismo com apoio da Luzeiro IV. A família sempre estava envolvida e isso causou profundas marcas nos filhos. Durante o dia fazia-se o trabalho de atendimento clínico e à noite, faziam-se projeções de diapositivos coloridos (slides), o que chamava muito a atenção dos ribeirinhos. Dava gosto ver, segundo depoimento do próprio Pastor Claudomiro, dezenas de canoas rodeando a lancha. Às vezes, quando terminavam as palestras com as projeções os ribeirinhos pediam para ouvir outra vez. Dessa forma, muitas capelas foram acrescentadas.

No afã de fazer progredir a pregação do evangelho, o Pastor Walter Streithorst convidou o Pastor Walter Schubart da Divisão Sul-americana para realizar uma série de conferências em Manaus, no início da década de 1950, as quais abalaram Manaus; mais de cem pessoas foram batizadas como resultado da campanha. Muitos dos que foram influenciados pelas palestras eram do bairro da Cachoeirinha e de outros bairros distantes do centro, consequentemente, sentiu-se a necessidade urgente de construir outras igrejas para que houvesse facilidade para os membros, considerando que o transporte público naquela época era muito precário. O local escolhido fora o bairro da Cachoeirinha, por tratar-se de um bairro de classe média e pela topografia ser plana. O terreno fora comprado com a ajuda de um vereador, e depois acrescentada uma segunda parte com a doação realizada pela Prefeitura de Manaus, através de um vereador amigo do Pastor Claudomiro, o Professor João Crisóstomo, o qual era Pastor da igreja Presbiteriana. A arquitetura escolhida para o novo templo era moderna para época e chamava a atenção. Vale aqui salientar que as relações com outros grupos confessionais eram boas, os obreiros adventistas eram alvo de muito respeito, até mesmo por parte dos políticos da época. No caso particular do Pastor Claudomiro, o seu relacionamento com as autoridades sempre fora muito fluido. Sua casa sempre era visitada por pessoas influentes da cidade. O professor João Crisóstomo, foi também Secretário de Educação do Estado do Amazonas e se aproximou muito da família do Pastor Claudomiro. Às vezes, no meio da semana, ele surpreendia a Profa. Esmeralda, quando resolvia almoçar em sua casa de surpresa. Do mesmo modo o então governador Gilberto Mestrinho tinha aproximação com a liderança da MCA e especialmente com o Pastor Claudomiro e a Professora Esmeralda, para a qual direcionou recursos para que montasse uma escola em sua casa, nomeando-a professora estadual. Naquela época, havia quase nenhuma professora formada no Estado.

Cachoeirinha foi a segunda igreja adventista de Manaus e a quarta igreja em todo território da antiga União Norte Brasileira (UNB). Este fato histórico deveria provocar muita reflexão dos administradores atuais, considerando que tem havido tentativas de substituição do templo atual por edifícios mais modernos e maiores, tudo em nome do conforto e da adoração, mas que, na verdade, está embutido o desejo de deixar marcas que imortalizam. No entanto, a história não pode ser desconsiderada, esmaecida ou subtraída, avaliando que o enraizamento dos jovens na própria comunidade adventista passa obrigatoriamente pelo conhecimento e incorporação da história da igreja, e neste processo, monumentos são imprescindíveis. Sem a altivez das origens migra-se para onde há tradição. Talvez, a grande deserção de jovens das fileiras adventistas advenha da não percepção da importância da tradição e da participação que cada pessoa necessita ter para a consolidação da comunidade. Assim, a história viva torna-se vital para a formação dos jovens e dos novos conversos. Ultimamente, as lideranças têm deixado transparecer um certo descaso com a Cachoeirinha, uma demonstração de desconexão com a realidade local, um equívoco que necessita ser revisto. É o edifício histórico único remanescente que merecia ser olhado pela sua importância na paisagem do adventismo.

No interior do Amazonas o Pastor Claudomiro ajudou a construção de sete capelas, entre elas: Paraná da Eva; Fazenda Centenário, no município de Maués; no rio Curupira; Novo Remanso, na saída do Paraná da Eva para o rio Amazonas, única capela flutuante no mundo. Todas as capelas eram de madeira, com exceção daquela no Paraná da Eva.

A descoberta do petróleo no Amazonas está vinculada ao ministério do Pastor Claudomiro. Tal fato serviu para projetar o nome da igreja Adventista. Uma certa tarde o Pastor tomou uma canoa para levar um Pastor adventista americano visitante que chegara para conhecer o sistema de atendimento social com auxílio das lanchas, para observar, mais na intimidade, as belezas do lago onde estava a igreja flutuante. Logo perceberam bolhas de gás subido da água por entre a vegetação aquática. O Pastor Claudomiro perguntou ao visitante se aquele gás poderia alimentar fogo, e ele respondeu que sim. Então, voltaram para pegar fósforos e, ao riscar o palito houve uma pequena explosão que quase queimou a face do visitante. Após algum tempo, já com a noite caindo sobre o lugar, voltaram agora com mais pessoas para ver, entre elas estava o Pastor Streithorst que ficou encantado com a chama azul que subia do bico de um funil colocado sobre o local onde aflorava o gás. Voltando para Manaus, o Pastor Streithorst noticiou à Petrobras, no Rio de Janeiro, a descoberta, desencadeando uma série de procedimentos de prospecção que culminou com a perfuração de um primeiro poço na área de Nova Olinda. Algum tempo depois o Pastor Streithorst foi homenageado pelo governo federal.

A Igreja Central de Manaus foi a comunidade onde o Pastor Claudomiro exerceu grande influência. Houve grande envolvimento com os membros de então, resultando na construção de amizades que permaneceram até os dias atuais, através dos filhos. Uma das evidências da sua inclusão na comunidade foi a formação de um coral que influenciou muitos jovens e atraiu pessoas aos pés de Jesus. Para o Pastor Claudomiro o tempo passado no Amazonas foi o melhor e mais abençoado período de sua vida profissional. Incentivou aos filhos a dedicarem-se no desenvolvimento do Estado afirmando que este seria a terra prometida à sua família.

A vida do Pastor Claudomiro experimentou, em algumas ocasiões, momentos de fortes crises e ameaças. Um desses períodos aconteceu durante uma viagem realizada a Boa Vista, Roraima. Para aquela cidade fora, na companhia do Pastor Walquírio Souza Lima, então Presidente da MCA, para realizar a campanha da recolta, ocasião na qual eram levantados recursos através de doações de pessoas jurídicas e físicas, simpatizantes da Igreja Adventista. No mesmo dia da chegada, o Pastor Claudomiro começou a sentir-se afligido por dores abdominais intensas. Não havia médicos em Boa Vista, mas Deus providenciou um médico que diagnosticou apendicite. Não havia hospitais o que impossibilitava qualquer interferência cirúrgica. Assim, o Pastor Claudomiro teria que regressar a Manaus. Diante disso, começou um período de perplexidade porque não haviam voos todos os dias e o próximo avião estaria em Boa Vista em dois dias. A situação era crítica, o Pastor Claudomiro já estava muito debilitado e desidratado, mas, conseguiu esperar o voo e rumou para Manaus. Logo fora providenciado um médico, o Dr. Vieiralves, o qual recomendou internação imediata, no hospital Beneficente Portuguesa. Apesar de estar hospitalizado, a cirurgia somente ocorreu no dia seguinte. Quando o médico abriu o abdome ficou impressionado, pois a apendicite havia evoluído para uma peritonite como consequência da gangrena do apêndice. O médico, hesitante, realizou a cirurgia, a qual demorou muitas horas, pois o intestino estava com muito pus, fato que o levou a lava-lo com sabão, uma ousadia que tornava o quadro clínico extremamente sensível e crítico. Após quinze dias da cirurgia, o Dr. Vieiralves veio para conversar com o Pst. Claudomiro e alertou-o que havia perigo de vida. Assim, o Pastor Walquírio foi chamado e o Pastor Claudomiro instruiu-o sobre o procedimento a ser tomado em caso de falecimento. Quinze dias depois o médico deu alta, mas explicou que o caso fora muito grave, pois as estatísticas mostravam que apenas um em mil pacientes se recuperavam daquele quadro clínico. Deus mais uma vez preservou miraculosamente a vida do Pastor.

Em outra ocasião, o Pastor Walquírio e o Pastor Claudomiro foram a Santarém, PA, com a lancha para comprar canoas, porque cada lancha precisava de um reboque. Compraram duas canoas e planejaram subir o rio Amazonas puxando as canoas até Manaus. Mas, por terem gasto duas semanas nesta operação, o trabalho da tesouraria atrasou e se apresentou a necessidade do pronto regresso do Pastor Claudomiro a Manaus. Então acertaram que o Pastor Claudomiro tomasse um avião para voltar. Entretanto, ao sentir insegurança para empreender uma navegação difícil até Manaus, o Pastor Walquírio entrou em pânico não permitindo que seu companheiro tomasse o vôo que sairia em seguida. A viagem deveria ser realizada utilizando um Catalina, um modelo de avião anfíbio muito utilizado naquela época, por causa da ausência de infraestrutura aeroportuária na Amazônia. Porém, o Pastor Claudomiro não tomou o voo. Dois dias depois eles alcançaram Parintins, e com grande espanto viram que o avião que decolara de Santarém estava partido ao meio. Deus havia protegido o Pastor Claudomiro de um acidente fatal.

Em sua vida profissional ocupou vários cargos na hierarquia eclesial, sendo gerente do Hospital Adventista de Belém, diretor do Instituto Adventista Grão Pará, departamental de JA da UNB, entre outros. Após a sua jubilação (aposentadoria) e, tendo servido na obra de Deus por 40 anos, foi convidado a integrar a equipe de administradores do Projeto Jari, uma iniciativa do empresário norte-americano Daniel Keith Ludwig, o qual criara uma empresa de reflorestamento para produzir celulose na fronteira entre os estados do Pará e Amapá. Ali, o Pastor Claudomiro atuou como diretor de educação, porém, jamais deixou esmaecer o propósito da sua vida; fundou a primeira igreja adventista na cidade construída por Ludwig. Depois disso, prosseguiu servindo a Deus participando ativamente como professor de História, uma das suas graduações, e também na administração eclesiástica, sendo membro da mesa administrativa da UNB, na qualidade de conselheiro, e participando também como ancião nas várias igrejas onde frequentou na cidade de Belém, PA. Recebeu da Câmara de Vereadores de Belém, PA as comendas Francisco Caldeira Castelo Branco e Cora Coralina, a primeira é a mais alta honraria municipal, em reconhecimento aos relevantes serviços prestados à sociedade, e a segunda em reconhecimento a sua qualidade de Educador e Pastor. Exerceu ainda ativamente e apaixonadamente a capelania do Hospital Adventista de Belém até o seu falecimento em 02 de maio de 2012, dia do seu aniversário. Sua frase repetida em muitos momentos era: “Não tenho nada a ver com a morte, e quando ela chegar, vai me encontrar vivendo!”. E assim foi.

segunda-feira, 29 de novembro de 2021

Pós-modernidade nada tem a ver com cristianismo

 

Nossa visão de mundo está muito contaminada com ideias pós-modernistas. A realidade está relativizada e a interpretação dos fatos não é conformada de acordo com crenças a priori. Nos centros urbanos mais tecnológicos pessoas lidam diretamente com a virtualidade, o que os leva a viver uma dualidade entre o real e o imaginário. Tal situação tem gerado uma onda de insegurança, por força da interpretação fluida dos acontecimentos, dando a sensação de que se está sem ter os pés no chão. A insegurança por falta da positividade da realidade, por ausência de um “assim deve ser”. Aquilo que se pensava ser não é e, nestas circunstâncias, cria-se um estado mental de pânico, o qual não é imediatamente perceptível, e quando já está causando prejuízos, geralmente não se raciocina da causa para o efeito.

Nenhum dos conceitos que outrora eram fixos ou altamente tangíveis e que nos faziam fortemente aderentes a determinadas concepções, podem ser defendidos hoje, sob pena de banimento social. Está-se vendo o comportamento das mídias sociais que causam banimento a quem defende conceitos morais fixos. Conceitos morais firmemente defendidos; virtude tais como honestidade, probidade, coerência ética, alinhamento com noções de certo ou errado, tudo está liquefeito, tornando possível e defensável qualquer comportamento, mas, causando uma confusão mental sem precedentes. Hábitos que concretamente eram nocivos ontem, hoje tomam aspectos de liberação e independência, não importando se outros estão incomodados. Há uma tentativa de impor a chamada ideologia de gênero, atribuíndo a isso um certo grau de sofisticação mental, evolução social, liberdade de noções que eram impostas por outros que nos manietavam moralmente. Todavia, nunca foi tão avassalador o número de pessoas usuárias de drogas ilícitas e pessoas acometidas de doenças do sistema nervoso, além de calamitoso número de suicídios.

As religiões cristãs, mesmo as mais tradicionais, estão se adaptando ao pós-modernismo, sem se dar conta que esse tipo de raciocínio filosófico é contraditório ao cânone religioso, porque a Bíblia apresenta como base inarredável do seu argumento a existência de um código moral anterior a criação do homem, o qual lhe foi dado a priori, como sendo a verdade e o foco por onde deverá interpretar os fenômenos sociais. Para o judaísmo, do qual evoluiu o cristianismo, Deus entregou a sua lei no pé do monte Sinai, passando a lei a ser o padrão moral. O pós-modernismo (o principal defensor é Nietzche) argumenta que a realidade é fluida e absolutamente subjetiva. Logo, não há nenhuma verdade pronta à qual devamos aderir, mas, construiremos nossa verdade pessoal, um tipo de evolução social muito libertadora, vantajosa e egolátrica. Quando se alcança esse tipo de sofisticação, alcança-se a libertação do ser, um grau de raciocínio que independe de códigos morais que nos limitam na busca individual da realização.

Igrejas cristãs que aderem às ideias pós-modernas não poderão ser mais consideradas cristãs, por força do raciocínio que nega a existência de uma realidade moral que está pronta à qual devemos aderir. Assim, para pós-modernistas, admitir um Deus que gera a ética moral, impede a evolução social, porque manieta as pessoas proibindo-as de experimentar a evolução que liberta.

Tal ideia não é recente, e nem foi plasmada por Nietzche, mas por Lúcifer. Lá no Éden ele disse à mulher que Deus a estava proibindo de evoluir mentalmente. A noção de não adesão a qualquer código moral leva, inevitavelmente à degradação moral e, consequentemente, à morte prematura. Esse resultado foi prontamente alcançado pelas gerações pré-diluvianas, levando-as à destruição.

 Nas igrejas que aderem ao pós-modernismo, toda noção anterior de ética social cristã é substituída por uma aproximação a costumes nada ortodoxos, dando entrada a comportamentos que a Bíblia não advoga. O que acontecerá à comunidade social é a deriva dos códigos posturais bíblicos para a adoção de comportamentos anátemas, mas que se tornarão aceitos, afastando a sociedade do ideal sagrado, tornando-a insensível aos apelos por retorno e arrependimento. Há casos em que crentes aderem a práticas homossexuais, por exemplo, justificando que não se trata de código moral, mas de um problema fisiológico. Há mesmo uma tendência em aceitar tal situação, porque a legislação civil está permitindo a destruição da ética bíblica. O pós-modernismo é uma das variáveis que Satanás está usando para enganar os crentes atuais. E será uma avassaladora influência, porque vem adicionada da autoridade científica. Se a Bíblia for considerada ultrapassada, então, nem que um anjo viesse do céu poderia interferir. Pós-modernidade nada tem a ver com cristianismo. Se não fora a misericórdia de Deus, a força do pós-modernismo aniquilaria o cristianismo.

quarta-feira, 24 de novembro de 2021

Estado mental duvidoso

Nossa cultura religiosa tem um forte apelo místico quase insuperável. A noção de casa de oração ou casa de Deus é também cenobítica, sendo que para a maioria, o lugar sagrado é cheio de mistérios e suposições sobrenaturais e, em alguns extremismos, não são permitidas mudanças físicas dos objetos e utensílios que estão nos templos. Tudo oriundo da atitude beata contemplativa cristã criada pelo romanismo. O conceito de templo prevê uma arquitetura que impõe atitude quase esotérica, impondo uma atitude de solenidade e medo, muito próprias para o exercício do poder.

O santuário no antigo Israel não era um edifício que simbolizava enigma, mas, um lugar de onde emanavam conhecimento verdadeiro e virtudes que deveriam construir uma sociedade justa. Era um local para ensinar e praticar a justiça, sendo que todos os rituais levavam a esse fim. À época quando Jesus esteve entre os homens, o templo de Jerusalém representava o centro de uma sociedade que gravitava em torno de um clero sacerdotal que deveria ser o bastião da justiça, embora saibamos que assim não era. Todavia, a arquitetura do templo era esplendorosamente revestida de mármore branco, o qual refletia a luz solar, tornando-o um ponto destacado na paisagem e não um local de beatice.

O conceito de que religião é o caminho à construção de uma sociedade justa estava no templo israelita, pois no lugar mais santo estava a lei, ou seja, o texto contendo todos as ideias e os juízos sobre a justiça, conforme Deus.

O romanismo tirou a noção do templo de um centro difusor do conhecimento da justiça, e substituiu por um conceito de local místico, complexo, enigmático, incompreensível e, sobretudo, subjetivo. Tão misteriosa é a religião criada pelo romanismo que somente ao clero é dado o direito de ler e interpretar a Bíblia. Logo, tornou-se uma prática mística ir à igreja. Até a acústica dos templos promove ecos propositais apara que sejam sentidas sensações sobrenaturais. Todas essas coisas são calculadas e montadas para que a subjetividade domine, e assim o clero tenha o controle dos fiéis.

No ambiente evangélico, o misticismo e a subjetividade também são predominantes. Embora os templos sejam menos enigmáticos, e o clero não use roupas suntuosas que introduzem respeito temeroso, há conceitos que são mantidos como não de fácil interpretação. Uma das palavras mais misteriosas e inexplicáveis é o substantivo graça. A graça de Deus é apresentada de forma indecifrável, em razão da atmosfera rarefeita do conhecimento dos conceitos religiosos que estão enraizados no hebraico. Todavia, a graça é todo conhecimento que não pertence ao domínio humano e que, portanto, veio de Deus. Logo, todos podem estudar a palavra de Deus com o firme propósito de aprender o que é a verdade e excluir do seu caminho o pecado. Aliás, a Bíblia foi escrita para que sejam esclarecidos os erros humanos e, como consequência, surja o estado mental do arrependimento e o desejo de experimentar a realidade social bíblica. Vem então a informação de que sair do mundanismo não é possível sem ajuda, então torna-se claro que há necessidade de alguém que ensine a verdade e redima do mundanismo (o salvador), se assim ocorrer, virá o abandono das coisas vulgares e insensatas (o sistema da disputa), ou seja, será estabelecida a paz com Deus.

Todas as situações no âmbito religioso são de ordem prática e não apenas ideal. A prática de atos que desagradam a Deus será substituída por decidida busca pelas boas obras (amor a Deus e ao próximo); se se continua na fé, vai sendo construído um caráter que torna o homem participante da natureza divina, e esse esforço de reconhecer a culpa e buscar a justiça traz a chamada justificação, pois Jesus apresenta seu sangue em favor da pessoa arrependida, diante do tribunal que julga os atos humanos.

O misticismo aparece muito forte quando conceitos bíblicos são evidenciados e as pessoas são forçadas a raciocinar. Uma experiência realizada com crianças oriundas de famílias cristãs mostra tal situação. Um professor explicou a um grupo de crianças que a encarnação de Jesus foi inevitável porque todos os patriarcas e o próprio povo de Israel tinham falhado no ensino e na vivência da justiça. Se haviam falhado, não poderiam ser os exemplos cabais de como viver em justiça, fato que era a parte dos filhos de Deus nas alianças realizadas ao longo das eras. Somente com a encarnação e o nascimento de Jesus, o homem que viveu e ensinou cabalmente a justiça, a humanidade teria um exemplo fiel para olhar e imitar. Se Jesus não tivesse encarnado e nascido, jamais as pessoas saberiam direito o que era viver no mundo, mas, pensando e agindo como um cidadão do reino dos céus.

 Depois de uma hora de explicações sobre o porquê da encarnação de Jesus, o professor pergunta às crianças por que Jesus nasceu? Esperava que os meninos tivessem formado uma ideia mais clara sobre essa dádiva celeste. Porém, a resposta das crianças foi que Jesus nasceu para que pudesse nos salvar. É claro que isso também é verdade. Entretanto, a argumentação utilizada era completamente mística. Claramente o conceito era de salvação sobrenatural. A despeito das explicações práticas e suas consequências, o nascimento de Jesus permanecia na mente das crianças como um evento puramente religioso, sem a noção objetiva da salvação. Veio nos salvar de que? Veio nos salvar do mundanismo vivendo a justiça traduzida em boas obras, com um único objetivo: demonstrar à humanidade que eram escravos do sistema mundano da disputa (trevas), dando-lhes oportunidade de aprender e vivenciar o sistema da cooperação (luz).

Nas comunidades eclesiais cristãs, essa noção pragmática do evangelho não é evidente. Como as igrejas cristãs pretendem o poder temporal, a subjetividade é uma ferramenta essencial. Aos líderes cabe manter os fiéis em estágio mental duvidoso, pois resulta em possibilidade de manobrar seus semelhantes e utilizar da sua força em favor do poder pelo poder. Então, com esta visão, os líderes exacerbam o misticismo tornando o evangelho ininteligível, deixando a membresia sempre confusa.

A Bíblia não é todavia assim inescrutável. Ao explicar sobre a prática da justiça, Moisés escreve (Levítico 19:11-15) da parte de Deus o que segue: “Não furtareis, nem mentireis, nem usareis de falsidade cada um com o seu próximo; Nem jurareis falso pelo meu nome, pois profanarás o nome do teu Deus. Eu sou o SENHOR. Não oprimirás o teu próximo, nem o roubarás; a paga do diarista não ficará contigo até pela manhã. Não amaldiçoarás ao surdo, nem porás tropeço diante do cego; mas temerás o teu Deus. Eu sou o SENHOR. Não farás injustiça no juízo; não respeitarás o pobre, nem honrarás o poderoso; com justiça julgarás o teu próximo”. Onde está o misticismo nas assertivas acima?

De sua parte, o Novo Testamento, (Efésios 4:24-25) nos admoesta dizendo: “E vos revistais do novo homem, que segundo Deus é criado em verdadeira justiça e santidade. Por isso deixai a mentira, e falai a verdade cada um com o seu próximo; porque somos membros uns dos outros”. Nenhum dos conselhos é subjetivo, passível de interpretações pessoais, mas, diretos e insofismáveis.

Por qual razão estamos comentando este assunto? Porque é parte do plano do inimigo das nossas almas manter as igrejas na ininteligibilidade. Os fiéis, embora não entendam, se manterão nas igrejas, investindo seu tempo na esperança de que estando em uma delas, estarão melhor do que não estando em nenhuma. Ali convivem com outros que apostam na mesma ideia. As comunidades não são orientadas a buscar a justiça porque os líderes não compreendem os dois sistemas, o de Deus e o outro. O tempo é gasto em sermões de autoajuda e programas lítero-musicais ou de puro entretenimento que comemoram datas comerciais, e vão vivendo assim, ad infinitum. Produzem algumas liturgias e sacramentos sem, no entanto, saber do que se trata, mas, praticam na esperança de que estejam agradando a Deus, quando na verdade o culto deveria ser uma resposta à bondade e misericórdia de Deus, onde os fiéis iriam louvar aquele que os criou, os mantém e os salvou. A parte mais substancial do culto de adoração é a construção de um caráter semelhante ao de Deus, sendo que a materialização do amor a Deus deveria ser a operação de boas obras em relação ao próximo. No entanto, o inimigo os mantém adormecidos até que chegue à situação em que se darão conta de que “Passou a sega, findou o verão, e nós não estamos salvos” (Jeremias 8:20).

quinta-feira, 18 de novembro de 2021

A reação de Jesus

 No momento quando Jesus começava o seu ministério, logo após o assédio do inimigo quando da sua ida ao deserto para ser tentado, e tendo Jesus prevalecido, toda hoste do mal reuniu-se para planejar outra investida contra o Messias, uma vez que o embate frontal estava vencido pelo ungido.

O novo projeto seria inspirar incredulidade no espírito do povo judeu daquela época, de modo a não acreditarem que Jesus era o Messias. O objetivo do inimigo era desanimar Jesus, considerando que vencê-lo era tarefa impossível. Assim, as hostes do mal procuravam fazer com que Jesus derrotasse a si próprio. Se os judeus fossem conservados com olhos fechados, quanto às profecias, e levados a crer que o Messias deveria ser um poderoso rei, eles o desprezariam e o rejeitariam. Satanás trabalhou incessante para produzir nos judeus a incredulidade e o ódio e, por essas vias produzir escárnio. Não dariam ouvidos às palavras de Jesus e, consequentemente, quando lhes apontava os erros, ficavam enraivecidos, com o coração endurecido, não permitindo que Jesus, o filho de Deus, os levasse à salvação e, se eventualmente ainda sobrassem alguns ouvintes, seria em número tão pequeno que desanimaria Jesus.

A resposta de Jesus foi dar início à sua obra. Tomou o caminho de quebrar o poder de Satanás restabelecendo a saúde dos doentes, restaurando limitações físicas aos cegos e aos coxos; aos que estiveram por anos enfermos restabeleceu a saúde, arrancou do desânimo aos fracos, receosos e desanimados, ressuscitou mortos, numa manifestação poderosa do amor de Deus. A vida diária de Jesus era repleta de atos benevolentes e palavras de simpatia, um trabalho restaurador e estruturador, sempre atento às misérias que encontrava. Os que haviam experimentado a restauração eram testemunhas vivas de que Jesus era o Messias prometido e, por essa razão, o planejamento do inimigo mais uma vez fracassara.

Logo, o exército do mal estabeleceu nova tática. Desta vez, ao invés de buscar convencer o povo, atuou na camada mais alta do estrato social judaico, os sacerdotes, príncipes e líderes. Satanás instilou ódio a Jesus nos principais do judaísmo por causa de seus ensinamentos que não correspondiam às tradições defendidas principalmente pelos sacerdotes. Assim, fê-los buscar uma oportunidade para matar Jesus, porque era mestre falso e estava desencaminhando o povo. Os sacerdotes enviaram príncipes para prender Jesus, mas, ao chegarem aonde Ele estava ensinando, viram-no cheio de simpatia e compaixão, buscando soerguer aos fracos e aflitos, libertar os cativos de Satanás, e não puderam lançar mão de Jesus. A Bíblia narra que alguns dos príncipes passaram também a crer em Jesus. Entre eles estava Nicodemos.

Os planos de Satanás estavam sendo derrotados um por um. Jesus simplesmente buscava revelar o caráter do Pai e suas obras de misericórdia eram sentidas e vistas por multidões que, sabiam estar diante do filho de Deus.

As estratégias da luta entre o bem e o mal estão reveladas na narrativa acima. O inimigo sempre trabalha confundindo as mentes, ocultando a informação, cegando os entendimentos. A cegueira se materializa pela adoção de um conjunto de ideias que, uma vez cristalizadas impedem qualquer raciocínio diferente. Instalada a desinformação, fica facilitado o confronto, porque a desinformação gera inverdades que corroem reputações e promovem desentendimentos por obliteração racional. Uma vez instalado o sistema da competição, uns crendo enquanto outros estão agrilhoados pela incredulidade, está pronto o ambiente para que reinem as ideias do sistema contrário ao sistema de Deus. Os dois sistemas são espirituais, logo, trabalham no campo das ideias. A grande batalha entre o bem e o mal é na mente.

A estratégia de Jesus não priorizou explicações de cancelamento das mentiras e sofismas que Satanás espalhara entre os judeus. Não buscou confrontar os dois sistemas, mas, passou a demonstrar através das Suas obras a superioridade do sistema da cooperação/amor. Sem proferir nenhum contradiscurso, Jesus simplesmente atuou em acordo com as premissas celestes, restabelecendo a ordem onde havia o caos, fortalecendo ambientes socialmente frágeis, ensinando a bondade, benevolência, misericórdia, desfazendo o discurso do inimigo com ações positivas. Para os crentes atuais, as ações de Jesus devem servir de modelo; se escolhemos o lado de Deus nesse conflito de ideias, a estratégia não é o confronto, mas, boas obras.

No ambiente das igrejas atuais, o inimigo das almas busca introduzir a incredulidade. Torna enfadonho o contato com a palavra de Deus, do mesmo modo como operava na época de Jesus. Assim fazendo, torna os crentes mocos às palavras de Deus, e os corações endurecidos para mudanças. Concomitante a isso, produz nos lares um ambiente onde as ideias contrárias ao reino de Deus estejam sempre audíveis. Os meios de comunicação são a sua mais bem sucedida arma para criar a incredulidade nas igrejas. Devido ao pragmatismo da doutrina satânica – o que vemos na sociedade é o amplo emprego do sistema da competição – os ensinamentos bíblicos confrontados com a realidade mundana soam como realidade conflituosa ou tola, não tendo qualquer aplicabilidade real. Todavia, se queremos ser salvos e viver no reino de Deus, então como podemos aderir ao sistema contrário?

Os jovens são os mais vulneráveis como consequência da desinformação dos pais. Se estes nada sabem da realidade bíblica, vivendo em acordo com o mundanismo, nada podem ensinar. Então, está pronta a receita do sucesso. A palavra de Deus não é consultada porque, na torpe visão dos crentes, nada ensina sobre o mundo onde estamos, (aliás, a Bíblia ensina uma visão de mundo onde desobedecer a Deus resulta em juízo) uma vez que os ímpios parecem bem-sucedidos, e os crentes preferirão ouvir o que o inimigo ensina, porque tem contextualização e aplicabilidade. Enquanto a Bíblia ensina benevolência, amabilidade, fraternidade, coisas que não podem servir ao mundo que nos cerca, o inimigo enche nosso espaço com ideias sobre a competição, sobre as tradições sociais, sobre o processo civilizatório mundano. Se não damos prioridade às palavras das escrituras que nos ensinam a realidade celeste, então, usaremos a eficácia do sistema mundano, no qual todos estão mergulhados, e que é conforme o inimigo.

A estratégia de Jesus nos mostra o que fazer para vencer o inimigo. Ele operou o sistema de Deus sem parar e, como consequência, as táticas inimigas falharam. O que está faltando no ambiente das igrejas é a insistência na prática do sistema de Deus. Às vezes, os próprios líderes não sabem como operar e permitem que o inimigo semeie a incredulidade porque deixam que as comunidades se nutram das tradições humanas. É quase acachapante a adesão às ideias chamadas científicas, e quando colocadas frente a frente com os ensinos bíblicos, parecem como holofotes que evidenciam o eventual sucesso econômico dos incrédulos, cegando os crentes para o estudo da palavra de Deus.

A dinâmica das igrejas cristãs está carregada com as ideias mundanas do progresso material individual, da busca por sensações e diversões pessoais. A grande miopia em relação ao sistema de Deus é que este parece prescindir do progresso. Na realidade, o sistema de Deus auxilia fortemente o progresso coletivo e não o individual. Se numa comunidade houver isonomia social, com igualdade de oportunidades, todos igualmente progredirão. Não percamos de vista que foi a reforma protestante, contrapondo-se ao egoísmo da religião por mérito, que trouxe o capitalismo e o cientificismo, alavancas progressistas que causaram riqueza e segurança. Todavia, o apelo bíblico é para que todos tenham chances de satisfazerem suas necessidades, tendo na educação a via necessária que leva à isonomia social. Foi o cristianismo que trouxe a noção da necessidade da formação intelectual, tornando possível a educação superior. Foram os protestantes os causadores das primeiras universidades na Europa e depois nos Estados Unidos. Tal consecução permitiu crescimento social e riqueza. A cooperação é muito maior do que a competição, porque a primeira fortalece a coletividade enquanto que a segunda fortalece o indivíduo. Jesus venceu todas as batalhas do grande conflito, ajudando a formar uma visão coletiva, a sociedade do nós e não a sociedade do eu. Isonomia de oportunidades desarticula a competição fortalecendo a sociedade.