quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Ensinando e demonstrando a justiça


Olhando o modo como Deus lidou inicialmente com o pecado pode-se ter uma ideia sobre como fazer para salvar pessoas.

A primeira atitude de Deus após a queda do homem não foi criar uma igreja e incentivar adesão religiosa, mas constituir exemplos morais essenciais para serem imitados. Assim, os patriarcas fizeram um papel importante na formação moral do mundo antigo. A Bíblia sempre se refere a eles com muito respeito, ainda que tenham cometido erros. Não há registros de que qualquer patriarca tenha pensado em criar algum movimento religioso, apenas figuravam com exemplos morais dignos. Todos foram unânimes em entender o sistema de Deus e viveram o mais próximo possível do ideal divino. Alguns deles, como é o caso de Enoque, não experimentaram a morte, por não pertencerem absolutamente ao sistema desenvolvido após o pecado.

Depois dos patriarcas, Deus pede a Abraão que faça uma viagem, saia da sua terra, e vá para onde Ele indicaria. Nesse caminho até a chamada terra prometida Abraão faz uma extensa demonstração do sistema divino a muitos por onde passava e, até mesmo nas situações de conflito familiar Abraão demonstrou ser altruísta cedendo sempre, como o fez no caso com o sobrinho Lot. A razão é que o sistema de Deus e o sistema do pecado são diametralmente opostos. Deus reina em absoluta justiça que, por sua vez, gera a paz; este sistema Ele implantou quando criou a Terra e todo conjunto de fatos que estão unidos à criação. Em tudo, conforme diz o salmista, pode-se ver a justiça (Sl. 35:5) como o motor da cooperação que passou a existir. Tudo como decorrência do Lei que é a lei do céu.

Por Abraão veio Isaac depois Jacó e seu descendentes, a raiz dos israelitas. Israel foi a nação escolhida para demonstrar o sistema divino de justiça. Em Deuteronômio capítulo 4 encontramos o modo como Deus gostaria que fosse demonstrado processo de salvação daqueles envolvidos no sistema pecaminoso, ou seja, a injustiça: “[...] os povos dirão: em verdade esta grande nação é constituída de um povo sábio e inteligente [...]”(Dt.4:6). Isto seria verdadeiro se Israel observasse a Lei da justiça dada por intermédio de Moisés. Deus não pensou numa religião. Porém, por causa da ambiguidade observada nos israelitas, ora no sistema de Deus ora fora dele, foi necessário estabelecer um protocolo para o perdão e o restabelecimento do sistema divino, o qual é chamado no Antigo Testamento de processo da expiação. A utilização desse protocolo ensejou, por parte dos sábios de Israel, incrustações de percepções humanas que desfiguraram a base conceitual dada por Deus e, uma série de ritos foram tomados como meios suficientes de alcançar favores de Deus, transformando o protocolo primário em religião repleta de tradições humanas, derivando para um sistema de exclusividade para Israel. Com isso, mesmo que os povos observassem sabedoria na sociedade israelita, não lhes era permitida adesão simples ao sistema de Deus através da observação, somente se cumprissem rituais impostos pelos homens. Por causa desse sistema religioso hebraico foram necessários profetas – estes não eram palradores religiosos, mas porta vozes de Deus – para orientação à norma celeste. Salomão referiu-se à orientação da profecia dizendo: “Onde não há profecia, o povo se corrompe; mas o que guarda a lei esse é bem-aventurado” (Prov. 29:18).

Com a chegada do Messias, embora Jesus Cristo fosse judeu e pregasse nas sinagogas, a principal preocupação do Messias era o ensinamento dos princípios de justiça, os quais o mundo não tinha mais conhecimento, portanto não os praticava. Apesar da Torá (cinco primeiros livros do Antigo Testamento) esclarecer o sistema de justiça nas leis que demarcavam a sociedade israelita, os judeus da época de Jesus haviam perdido todas as noções do sistema cooperativo de Deus. Há exemplos tais como o de Zaqueu que sendo judeu, era corrupto e que ao compreender os ensinos de Jesus, fez uma conversão de 180 graus, devolvendo, de acordo com Levítico, quatro vezes mais o que havia usurpado, ao que Jesus exclamou: “Hoje entrou a salvação nesta casa...”(Lc.19:9), no entanto, não referiu-se a um retorno religioso, mas a resposta de Zaqueu ao sistema da justiça. Outro exemplo foi o do moço rico que ao ser instado ao sistema de cooperação e justiça, entristeceu-se porque era dono de muitos bens, neste caso não ocorreu resposta positiva à justiça. Na realidade, Jesus não estabeleceu nenhuma igreja enquanto esteve conosco, mas utilizou todo o Seu tempo ensinando e demonstrando a justiça, ou seja, o sistema divino, para qualquer que quisesse ouvir e crer.

Com o transcorrer do tempo, após a ascensão, o sistema de justiça ensinado por Jesus foi se transformando em cristianismo e logo em igreja cristã. Do mesmo modo como no antigo Israel, os protocolos para expiar os erros foram sendo transformados em ritos, e a esses foram sendo incrustadas filosofias humanas, desembocando num mar de religiões cristãs, até com derivações não cristãs (ex. muçulmanos), cuja principal preocupação é fazer prosélitos. A premissa que embasa tal ação é a salvação dos homens à qual, somente terão acesso se a buscarem através dos ritos de cada religião. O reino dos céus é, no conceito cristão atual, um lugar geográfico mítico onde os salvos que praticaram os ritos (o bem) viverão eternamente em êxtase, onde não terão mais as aflições sofridas na Terra, gozando de inúmeros privilégios. Tal concepção é equivocada por carregar enorme julgamento de injustiça. O reino dos céus é um conceito. Onde quer que se estabeleçam princípios de justiça, ali estará o reino dos céus. Aliás, um poeta já falou que o céu é Jesus, ou seja, onde os princípios ensinados por Ele estiverem prevalecendo ali será o céu.

Neste sentido, as igrejas erram por desviarem as mentes dos seus membros do conceito de justiça de Deus. A começar pelo raciocínio exclusivista que cada religião apregoa, dizendo-se, cada qual, mais detentora da verdade. Exclusividade significa injustiça. Se alguma religião for a detentora da verdade deverá necessariamente ensinar a justiça, consumirá investimento de tempo e dinheiro construindo pessoas moralmente justas. No entanto, o que mais se promove no ambiente cristão são eventos ritualísticos que agenciam a sensação de exclusividade, envolvendo os fiéis numa atmosfera mística profundamente enganadora, de inaplicabilidade prática, mas muito divertida. Qualquer movimento religioso que esteja mesmo preocupado com o reino dos céus tratará de cultivar melhorias morais através de processos para construção de um mundo social justo. Isto não permite a exclusividade. Essa era a preocupação de Deus a partir do Éden. Foi a preocupação do Messias. Igrejas são centros cognitivos onde são ensinados e praticados os princípios de justiça imitáveis por quem quer ser salvo.

terça-feira, 7 de agosto de 2018

Algoritmos parecem ditadores


Mudanças comportamentais são muito difíceis por demandarem novos hábitos. Quase ninguém tem facilidade para alterações de algoritmos aos quais estão afeitos e que têm funcionado no automático. Todos nós estamos submetidos a inúmeros algoritmos (sequência finita de raciocínios) que tornam o cotidiano ameno ou facilitado. Ter que aprender novos significa reprogramação comportamental e, consequentemente, esforço para automação de novos modos de realizar tarefas.

Em nossas casas, fazemos sempre as mesmas coisas. Acordamos do mesmo jeito, realizamos todas as tarefas pessoais que nos permitem encarar o mundo sempre do mesmo jeito. Saímos e utilizaremos o mesmo caminho até o trabalho. Se temos transporte pessoal, repetimos o mesmo roteiro dia após dia. Repetimos nosso comportamento em frente ao computador: lemos e-mails, respondemos mensagens urgentes, lemos notícias, redigimos textos, preenchemos planilhas; sempre usando os mesmos algoritmos. Mesmo alterações prosaicas, tais como, mudar o mouse do computador para a mão esquerda, com intenções de treinar o cérebro e evitar lesão por esforço repetitivo - LER   custa coragem que, na maioria dos casos não progride. Nossos algoritmos parecem ditadores que não toleram liberdades.

Num mundo tão competitivo, as mudanças são inovações que nos permitem vantagens e aumentam a chance para ocupar um lugar na rede de interações. Mas, hábitos há muito exercitados são como barreiras que comparecem com ares de intransponibilidade e, como consequência, não queremos enfrenta-los com as novidades. Depois de uma certa idade, tudo fica mais difícil por causa das exigências que acariciamos, levando sempre ao temor que manieta. Quer nos parecer que para formar um idoso virtuoso, é na fase da vida onde a energia é mais abundante que o exercício da mudança constante deve ser incorporado ao comportamento e, nesse caso, será mais fácil consentir em mudanças até o final da vida. Idosos que não podem acompanhar as mudanças sociais e tecnológicas, geralmente têm pouco respeito das gerações jovens. Talvez, a falta de honorabilidade na terceira idade ocorra pela cristalização comportamental dos idosos. Os jovens não podem aproveitar a sabedoria do idoso por estarem estes distantes das formas de comunicação mais recentes, além de falarem de uma anti-realidade imutável que já não esclarece o presente.

O apóstolo Paulo refere-se a essa questão em Romanos 12:2 quando adverte: “E não sede conformados com este mundo, mas sede transformados pela renovação do vosso entendimento...”. Assim, ele demonstra que mudanças algorítmicas são o drive do aperfeiçoamento. Nas religiões cristãs, as tradições têm performado um ambiente estagnado que matam novos conhecimentos e desprezam quaisquer esclarecimentos sobre verdades antigas. Não é muito bem-vinda qualquer interpretação que proponha reflexão sobre o establishment, pois causa instabilidade aos algoritmos existentes. Todavia, mudanças são requeridas para o aperfeiçoamento.

A redação da Bíblia foi permitida como principal meio para provocar modificações. Ela é como espada, no sentido de quebrar algoritmos; “Porque a palavra de Deus é viva e eficaz, e mais penetrante do que espada alguma de dois gumes, e penetra até à divisão da alma e do espírito, e das juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e intenções do coração” (Hebreus 4:12). Assim, cristãos que abraçam a fé em Jesus – o modelo que difere do algoritmo do mundo – e que não apresentam modificações relativas a compreensão do seu papel na sociedade, da sua tarefa de influenciador para o que é direito e justo, mas perpetua ou mantem os algoritmos anteriores, procurando oportunidade para moldar o cristianismo aos velhos algoritmos, não abarcaram o significado da escolha.

A maior revolução alcançada pela humanidade foi a escrita. Quando lemos um livro entramos em contato com a mente daquele que o escreveu. Porém, ao autor é dada também oportunidade para entrar em contato com nossa mais profunda intimidade, a mente. Neste contexto, através da Bíblia, Deus habitará nas mentes humanas, alcançando um nível de intimidade e ligação com os humanos que somente a leitura permite. Nosso corpo se transforma na habitação de Deus, e nosso comportamento será modificado aos padrões celestes. Nossos antigos algoritmos serão substituídos pelos algoritmos do céu, num processo que será indolor porque a informação neuronal cambiará as respostas que, por influência celeste, serão diferentes das que estávamos acostumados por causa dos antigos algoritmos.

Vale salientar que a leitura bíblica deverá ser realizada com a percepção dos novos algoritmos que estão expostos nas histórias relatadas, mas especialmente através do comportamento de Jesus Cristo, o justo. Nossa inteligência nos permite observar padrões e estes, nos conferem habilidades para mudar o mundo.

terça-feira, 17 de julho de 2018

Orei a Deus entregando-lhe meu futuro


Era o final de uma viagem a Belém do Pará, quando enfrentei uma maratona muito cansativa como candidato ao posto de diretor do Museu Paraense Emílio Goeldi. Fora uma semana de muita adrenalina e muita tensão, considerando os eventos que ocorreram. Minha candidatura ao referido cargo fora estimulada por um grupo de pessoas lideradas pelo Dr. José Seixas Lourenço, nome muito experimentado e reconhecido como um dos mais importantes lideres da academia amazônica, com incomensurável contribuição ao sistema de ciência e tecnologia regional e nacional. O fato de ter sido estimulado pelo Dr. Lourenço me deu muito ânimo e, deste modo, me lancei na empreitada. Também enfrentei oposição pouco elegante e leal. O que resultou foi minha inclusão numa lista tríplice, encabeçando a referida lista por determinação de uma comissão composta por 4 experts definidos pelo Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicação do governo brasileiro.

Era o dia 10 de fevereiro de 2018. Um dia que amanheceu com muito sol. Havia feito arranjos para retornar num voo da Força Aérea. Estava com a sensação do dever cumprido. Assim, cheguei a base aérea de Belém com bastante antecedência. Os voos militares são muito incertos para civis e a antecedência pode dissolver muitos problemas. Depois de confirmado o embarque, despachadas as bagagens, esperava pacientemente a hora da decolagem.

O voo foi autorizado e decolamos com destino a Manaus brindados com um céu muito limpo. A aeronave militar não oferece qualquer conforto, mas a tripulação que comandava o voo era muito solícita. Belém foi diminuindo sob nós e avançamos rumo a Santarém, uma escala necessária para reabastecimento. Éramos uns vinte passageiros. A conversa enchia o ar enquanto o avião ganhava altitude e prosseguíamos ao nosso destino intermediário. Tomei meu tablet e abri um livro que estivera lendo, para concluir seu conteúdo. Todos estavam muito animados e logo as primeiras duas horas do voo passaram e estávamos sobrevoando Santarém. Fizemos um pouso tranquilo.

Após as dinâmicas corriqueiras, estávamos outra vez voando para nosso destino. Nesta etapa também o céu estava limpo e nosso voo transcorreu sem anormalidades. A tripulação buscou maior conforto para os passageiros oferecendo café e a chance para ver a cabine de comando. Eu como sou piloto aviador não quis ir até a cabine, mas quase todos foram. Considerei uma atitude muito positiva da tripulação, uma interação oportuna. Assim, passadas mais duas horas e já estávamos sobre Manaus. A paisagem próxima de Manaus é muito impressiva. Muitos lagos ao longo do caudaloso Amazonas. Os lagos são como fazendas onde os peixes encontram alimento e proteção, usando o rio apenas para mudar de lago. Assim, pode-se ver nas proximidades de Manaus a bondade de Deus disponibilizando lagos e muito peixe.

Manaus é uma bela cidade localizada num dos rios mais bonitos que conheço. O sobrevoo feito pela aeronave militar foi muito diferente daqueles realizados pelos voos comerciais. Da janela apreciamos um panorama completo da orla da cidade a uma altitude reveladora de uma face manauara da qual não tinha conhecimento. A cidade estava banhada pelo sol da tarde e suas cores e contornos estavam à mostra. Ver a face de Manaus por aquele novo ângulo causou-me uma sensação de alegria e de agradecimento por estar vivo e desfrutando daquela cidade tão singular. Ainda voávamos sobre o rio Negro, passando por sobre a majestosa ponte tendo a impressão que a terra crescia ante nossos olhos. A aproximação à cabeceira da pista de pouso foi tranquila e finalmente tocamos no solo. Meu cérebro assinalou aquela experiência e provocou em mim um tipo de emoção muito feliz reconhecendo a benção de Deus por me ter dado uma cidade para morar.

Havia eu participado de um certame para tornar-me o novo diretor do Museu Goeldi. Agora, ao ver minha cidade novamente, estava cheio de dúvidas se seria uma boa estratégia sair de Manaus, a cidade onde vivera muitos e bons momentos. Orei a Deus entregando-lhe meu futuro.

A escolha do Diretor dependia agora da escolha do Ministro pautada na indicação da lista tríplice entregue pela comissão acima referida. Meu nome havia sido o primeiro e, pela lógica da meritocracia, eu deveria assumir a direção do museu. Passaram-se os dias e finalmente saiu a decisão do Ministro. Por força das negociações partidárias, a pessoa que estava em segundo lugar fora a indicada. Ao receber a notícia agradeci a Deus por ter cuidado do meu futuro e me permitido ficar na minha morena cidade.

A história nunca terminará?



Compreendemos o livro de Números no seu todo? É dos cinco livros de Moisés o mais difícil, o mais desafiador. Contém uma extraordinária gama de textos e assuntos. Ele inicia no ponto em que deixamos a história no final do livro do Êxodo. Naquele ponto, o povo tinha deixado o Egito e jornadeado até o monte Sinai. Lá eles receberam a Torah. Lá eles fizeram o bezerro de ouro. Lá eles foram perdoados após a súplica apaixonada de Moisés, e lá eles fizeram o tabernáculo (MISHKAN). Este fora inaugurado no 1º dia do 1º mês no segundo ano (Êx. 40:17). O livro de Números começa um mês depois, no 1º dia do segundo mês do segundo ano (Num.1:1). Após uma prolongada permanência no deserto do Sinai, o povo estava pronto para começar a segunda parte da jornada, do deserto à terra prometida (a primeira foi do Egito ao Sinai).

Porém, o livro de Números não parte do começo da segunda jornada. Há um retardamento na narrativa. Os dez capítulos iniciais não relatam o começo da viagem (Num. 10.33). O que os estava detendo? Ou melhor, o que estava fazendo a história andar mais devagar? Antes de podermos juntar o povo à sua jornada, teremos que ler sobre o censo. Então vem uma descrição do arranjo das tribos ao redor do tabernáculo (Ohel Moed) a tenda da reunião. Há uma longa descrição dos Levitas, suas famílias, e respectivos papeis. Há leis a respeito da pureza do acampamento, leis sobre restituição de roubos, leis sobre uma mulher suspeita de adultério, e o nazireato. Neste espaço excessivo lemos ainda sobre os dons trazidos pelos príncipes das tribos na inauguração do tabernáculo. Então vem mais passagens descrevendo a preparação final da jornada. Somente então a jornada começa. Por que essa longa série de digressões?

Uma característica dos livros de Moisés (Torah) que confundiu os estudiosos bíblicos durante, pelo menos, dois séculos é que eles constituem um único gênero. Eles não são história no senso convencional, um mero relato do que aconteceu. Um excelente exemplo é o livro de Números, o qual silencia sobre quase trinta e oito anos dos quarenta anos no deserto. Os eventos não são descritos na Torah simplesmente porque aconteceram. Eles estão narrados porque ensinam sobre a condição humana sob Deus. A Torah também não é um tipo convencional de livro da lei. Há substantivas similaridades entre certas leis bíblicas e outros códigos antigos tal como o de Hammurabi. Um importante distintivo é que a Torah se move da lei para a narrativa e da narrativa para lei novamente; a narrativa jurídica é interrompida por histórias e, ao mesmo tempo, as histórias são descontinuadas por leis. Ela intercala outros tipos de materiais. No caso de Números, inclui uma lista do censo, um itinerário, alguns casos judiciais reais, relatos de batalhas, uma canção de vitória sobre os  Amorreus, e os oráculos de um não israelita, Balaão. Embora a Torah contenha leis, ela não se assemelha a qualquer código de leis.

Estudiosos bíblicos têm buscado entender o texto desmembrando-o, separando-o em fragmentos menores e tentando entende-los isoladamente. Isto é um erro: é precisamente como não ler um livro. Nós não entendemos uma sinfonia desagregando seus temas musicais. É precisamente o modo como a partitura os une, geralmente com tensão e mudanças de humor, o que constitui a sinfonia como uma unidade artística. Do mesmo modo com a Torah – com pelo menos esta diferença: nós não temos nada comparável a ela, nada nem mesmo na literatura religiosa antiga, nem tampouco com outros livros da Tanakh (Torah são os cinco livros de Moisés, a Tanakh outros livros bíblicos).

Não há nada acidental na mistura entre lei e narrativa na Torah. A propósito, a Torah reflete a compreensão israelita de Deus como a unidade sobre a diversidade. Se tudo o que podemos ver é a diversidade, não a unidade, não compreendemos a Torah como um todo.

A Torah oferece um contraste único com a forma de pensamento que consideramos como distintamente ocidental, cujas origens estão na Grécia antiga. Ela mostra três coisas incomuns: primeiro, inclui filosofia no modo narrativo. Ela ensina a verdade não como um sistema, mas como história. Segundo, ela retrata a lei não como reflexo da vontade ou a sabedoria do legislador, mas tal como a lei emerge na história, como se dissesse: isso é o que deu errado no passado, e isto é como evitar no futuro. Terceiro, ela considera a história em si como um comentário sobre a condição humana. A Torah trata das verdades que emergem através do tempo.

Há grandes diferenças entre antigo Israel e a Grécia antiga. A Grécia antiga procurava a verdade na contemplação da natureza e da razão. A contemplação da natureza deu origem à ciência, a contemplação da razão deu origem à filosofia. O antigo Israel encontrou a verdade na história, nos eventos e no que a Torah nos convida a aprender com eles. Ciência tem a ver com a natureza; judaísmo e, consequentemente, cristianismo, tem a ver com natureza humana. Há uma grande diferença entre os dois.

Natureza não cogita sobre livre arbítrio. Cientistas frequentemente negam que exista livre arbítrio. Mas, a humanidade está estabilizada por sua liberdade. Nós somos o que escolhemos ser. Nenhuma planta escolhe ser hospitaleira. Nenhum peixe escolhe viver na água. Nenhum pavão escolhe ser vaidoso. Humanos fazem escolhas, e neste fato nasce o drama sobre o qual a Torah inteira é um comentário: como pode a liberdade coexistir com a ordem? O drama está montado no palco da história, e se desenrola através de quatro atos, cada um com várias cenas. A forma básica da narrativa é praticamente a mesma em todos os quatro casos. Primeiro Deus cria a ordem. Então as pessoas criam o caos. Terríveis consequências seguem. Deus começa novamente, às vezes profundamente triste, mas nunca perdendo sua fé em uma forma de vida na qual ele colocou sua imagem e à qual Ele deu o dom singular que tornou a humanidade parecida com Deus, ou seja, a liberdade.

O Ato 1 está contado em Genesis 1-11. Nesta versão da história, o assunto é a humanidade como um todo. Deus cria um universo ordenado e molda os seres humanos do pó da terra nos quais ele sopra seu próprio fôlego. Mas, os humanos pecam – Primeiro Adão e Eva, então Cain, depois a geração do dilúvio. Deus traz um dilúvio e recomeça novamente, fazendo uma aliança com Noé. A humanidade ainda não aprendeu a lição. O povo peca novamente, desta vez não por ser menos do que humano (violentos) mas por buscar ser mais que humano, construindo uma torre que encontraria o céu (Gen. 11:1), e por impor uma unidade artificial (uma língua com palavras uniformes) na diversidade humana.

Assim, Deus começa novamente. O Ato 2 está contado em Gênesis 12-50. É a história da família da aliança: Abraão e Sarah e três gerações de descendentes. A nova ordem está baseada na família e na fidelidade, no casamento e no parentesco, no amor e confiança, na educação dos filhos nos caminhos do Senhor, como expressos na caridade e justiça (Gen. 18:19). Mas, isto também começa a falhar. Há uma tensão entre Esaú e Jacob, entre as esposas de Jacob, Leah e Raquel, e entre seus filhos. Dez filhos de Jacob vendem o décimo primeiro, José, como escravo. Isso é uma ofensa contra liberdade, e uma catástrofe segue – não por dilúvio, mas por uma fome; como resultado a família de Jacob vai exilada para o Egito, sendo eventualmente escravizada.

O Ato 3, colocado no livro de Êxodo, diz respeito aos israelitas como uma nação em aliança com Deus. Começa com o resgate dos israelitas do Egito do mesmo modo como Ele resgatou Noé do dilúvio. Sua aliança com eles no monte Sinai é muito mais extensiva do que as duas predecessoras, a primeira com Noé e depois com Abraão. Trata-se de um plano arquitetônico para uma ordem social com base na lei e na justiça, informado pela memória do povo, da forma como eles foram tratados no Egito. Sua sociedade seria diferente. Eles não imporiam aos outros o que lhes fora imposto. Por segurança, não seria abolida a escravidão (isto não aconteceu por trezentos anos), nem poriam fim às guerras (não havia acontecido nenhuma guerra). Mas, envolveria a aceitação pelo povo da soberania de Deus. Quase imediatamente a aliança ficou perto de ser inteiramente danificada, quando os israelitas fizeram o bezerro de ouro, meros quarenta dias após a grande revelação. Deus ameaçou destruir a nação toda, começando novamente a partir de Moisés, do mesmo modo com o fez com Noé e Abraão (Ex. 32:10). Somente o apelo apaixonado de Moisés impediu que acontecesse. Deus, então, instituiu uma nova ordem.

O Ato 4 é invulgarmente longo. Diz respeito a um povo com a divina presença no meio deles. Deus não está mais simplesmente distante como o majestoso criador e interveniente na história. Ele está perto, o Shekhinah, Deus imanente e transcendente: Deus como vizinho. Esta história começa em Êxodo 35, e continua através do livro de Levítico, dominando até os primeiros dez capítulos de Números. Seu símbolo mais tangível é o Tabernáculo no centro do acampamento. O edifício do Tabernáculo ocupa o último terço do livro do Êxodo. O Tabernáculo representa um lar para a divina presença na Terra, e quem tentasse entrar no Tabernáculo tinha que estar puro e santo. As leis da pureza e santidade tomam quase todo o livro de Levítico. Quando o livro de Números inicia, espera-se que os israelitas comecem sua jornada à terra santa. Os primeiros dez capítulos são, portanto, inesperados, e apontam para algo que somente se torna claro mais adiante.

Uma vez que os israelitas estavam para tornar-se um povo livre na terra prometida aos ancestrais, eles necessitariam ser capazes de se auto impor ordem. De outra forma eles iriam meramente repetir os erros já cometidos três vezes: a violência antes do dilúvio, as divisões no seio da família de Abraão, e a fundição do bezerro de ouro. Os primeiros dez capítulos de Números dizem respeito à criação do discernimento da ordem no interior do acampamento.

Essa foi a razão do censo e a detalhada disposição das tribos, e a longa descrição dos levitas, a tribo que mediava entre o povo e a presença divina. Essa também foi a razão das três leis – a respeito da restituição (roubos), do adultério e do nazireato – dirigidas contra as três forças que sempre colocam em perigo a ordem social: roubo, infidelidade e álcool.  Nesses capítulos iniciais, é como se Deus estivesse dizendo aos israelitas: isto é o que ordem deve ser. Cada pessoa tem seu lugar dentro da família, da tribo e da nação. Cada um foi contado pelo censo e cada pessoa tem sua responsabilidade. Há uma ordem na maneira como as tribos estão acampadas ao redor do Tabernáculo, e também há ordem para a forma como procedem quando em jornada. Preservar e proteger esta ordem era imprescindível, porque sem ela ninguém poderia entrar na terra, lutar suas batalhas, e criar uma sociedade justa e livre.

Tragicamente, de acordo como o livro de Números demonstra, vemos que os israelitas não tinham internalizado essa mensagem. Eles reclamavam sobre o alimento. Miriam e Aarão criticaram Moisés. Então veio a catástrofe: o episódio dos espias. O povo desmoralizado, mostrou que não estava ainda pronto para liberdade. Como anteriormente no caso do bezerro de ouro, há caos no acampamento. Novamente Deus cogita destruir a nação e recomeçar com Moisés (Num.14:12). Novamente, somente a poderosa petição de Moisés salva o dia. Deus decide uma vez mais recomeçar, desta vez com a próxima geração e um novo líder. O livro de Deuteronômio é o preludio de Moisés para o ato 5, o qual toma lugar nos dias do sucessor, Josué.

A história israelita é muito estranha. Outra vez os israelitas se separaram: nos dias do primeiro templo quando o reino foi dividido em dois, no período do segundo templo quando fracionado em grupos rivais e seitas, e na era moderna, no início do século XIX, quando se fragmentou em religiosos e seculares na Europa oriental, ortodoxos e outros na Europa ocidental. Tais divisões não foram curadas.

Assim, os israelitas continuam repetindo a história contada cinco vezes na Torah. Deus cria a ordem. Humanos criam o caos. Deus representa a unidade. O povo representa a desunidade. Coisas ruins acontecem; Deus e Israel começam novamente. A história nunca terminará? Uma coisa é certa. Deus não desiste. Nem tampouco cessa de falar a nós através da atemporalidade da Torah, lembrando-nos que o desafio central humano, em todas as eras é que a liberdade pode coexistir com a ordem. Tal situação é possível quando humanos livremente escolhem seguir as leis de Deus, dadas universalmente à humanidade após o dilúvio e em concreto particularmente aos israelitas após o Êxodo.

A alternativa, antiga e moderna, é a regra do poder, na qual, o forte faz como quer e o fraco sofre como pode. Mas, essa não é a liberdade como a Torah entende, nem é também a receita para justiça e compaixão. A Torah é o chamado de Deus para criar a liberdade que honra a ordem e uma ordem social que honra a liberdade humana, para respeitar tanto o que é universal em nossa humanidade compartilhada, como o que é especial na nossa especificidade histórica. O desafio permanece.

Texto baseado no Livro “Números: os anos no deserto” Jonathan Sacks

quarta-feira, 20 de junho de 2018

Justiça pela Unidade


Lendo o livro “A invenção da natureza” de Andrea Wulf, deparei-me com os comentários de Alexander von Humboldt – o maior cientista do século XVIII – onde declara ser o novo mundo muito superior à Europa. O espaço geográfico na América do Sul surpreendeu Humboldt, estava repleto de novidades geológicas, mananciais de água, minerais de toda sorte, além de que havia uma superabundância de formas de vida incomparável. A riqueza do reino vegetal e do reino animal impressionou Humboldt, mas o que o deixou mais impactado foi a inteligência e a beleza dos ameríndios, cuja cultura, em muitos aspectos, superava a europeia com abstrações complexas sobre noções morais e sobre ciência. Disse Humboldt que se os povos americanos pensassem numa unidade política continental, nenhuma potência europeia seria capaz de conter a América.

Para nós que habitamos a América, não nos chama atenção a riqueza de vida e a densidade dos indivíduos encontrada aqui. Porém, numa dessas manhãs de folga, pude observar o meu jardim, um espaço de aproximadamente 30 m2. Curvei-me para limpar as ervas que não faziam parte do gramado, e me dei conta da dinâmica que organizava aquele pequeno espaço de terra. Os vegetais invasores, compreendi, não disputavam o espaço das gramíneas, antes buscavam ocupar espaços vazios como a ensinar uma lição importante. As chamadas “ervas daninhas” simplesmente desfrutavam o que lhes cabia, sem estar lançando seus pequenos ramos por sobre o gramado. Uma quantidade surpreendente de ervas diferentes, pelo menos umas cinco espécies formavam um arranjo bem distribuído, desenvolvendo populações que não estavam misturadas. Para minha surpresa deparei-me com um universo bem organizado onde os vários vegetais buscavam ocupar espaços de forma arguta e cooperativa. Do ponto de vista do jardineiro, os vegetais que não são gramíneas não são também adequados, assim, arranquei todas as ervas diferentes. A quantidade de biomassa arrancada surpreendeu-me mesmo. Pude verificar a bondade de Deus, além da sua sabedoria, ao criar tantas formas vegetais, dando a cada uma função determinada, sendo que os humanos não conhecem suas contribuições.

No meio das plantas está um microcosmo de vida animal muitíssimo diverso, para o qual não atentamos. Ali naquele espaço encontrei três espécies de formigas que fazem ninhos periepigéicos proporcionando um turnover de terra importante, arejando o solo, facilitando o enraizamento do capim e sua nutrição. Encontrei também muitos grilos e paquinhas que perfuram o solo, comem raízes das gramíneas provocando crescimento de novas raízes. Vi ainda cigarrinhas em altíssima densidade, centenas delas alimentando-se da seiva da grama. Sobre esses insetos há o domínio dos passarinhos que a cada momento pousavam para comer insetos. Quão magnífica cooperação num espaço tão diminuto. Encontrei muitos vagalumes adultos e larvas e outros besouros pequenos do grupo das joaninhas que buscavam proteção e alimento nas plantas, além dos beija-flores que sugavam o néctar de um único hibisco que produz flores vermelhas. Entendi que a quantidade de biomassa arrancada por mim era suficiente para sustentar parte daqueles animais que estavam lá. Uma explosão de vidas numa teia de cooperação cuja complexidade foge da percepção comum. Por baixo do solo percebi o trabalho das minhocas que processam a terra produzindo o húmus tão necessário às plantas. Que importante laboratório de estudos apenas no meu jardim. Nunca havia parado para sentir a pujança da vida que nos cerca, mas que está ali, mesmo que não tenhamos a oportunidade para observar e sentir. Através dos olhos de Humboldt, um fascinante cientista europeu, pude me dar conta da enorme riqueza que temos à disposição.

Enquanto observava a dinâmica naqueles 30 m2 lembrei-me da afirmação de Jesus em Mateus 6:25-34, quando explicou que não devemos estar preocupados com o que vestiremos ou comeremos, porque nosso Deus cuidará assim como cuida dos animais. No entanto, observou Jesus que deveríamos buscar primeiro o Reino de Deus e a sua justiça, e tudo o mais nos seria acrescentado.

Geralmente quando ouvimos este trecho do discurso de Jesus, o contextualizamos como no ambiente religioso cristão. Aceitamos que buscar o Reino de Deus é praticar atos beatos, contemplativos e místicos. Mas a busca não é religiosa e sim da justiça e, neste caso, todas as pessoas devem necessariamente ter tudo. Foi o que pude observar ali no meu jardim com as outras formas de vida. Todos tinham seu espaço, sua liberdade para crescer, sua quantidade de ar, luz e água, seu alimento, seu direito à reprodução e sua parte na cooperação.

Em II Pedro 3:13 lemos: “Mas nós, segundo a sua promessa, aguardamos novos céus e nova terra, em que habita a justiça”. Enquanto esperamos, devemos nós estabelecer a justiça procurando estar no Reino de Deus e deste modo, permitir uma vida feliz enquanto estamos na superfície da Terra.

Voltando aos comentários de Humboldt, ao falar sobre o comportamento sócio-político na ibero américa, ele observou desunião continental, bem como desunião no âmago das nações onde os vários estratos sociais pelejavam por direitos.  Tal situação era vantajosa à coroa espanhola que auferia vantagem na discórdia, mantendo a submissão de um território muitas vezes maior que a Espanha em virtude do enfraquecimento pelo fracionamento.

Assim ocorre na igreja de Deus. A falta de unidade provoca enfraquecimento de princípios e ruptura moral, dando enorme vantagem ao inimigo. Se marchasse unida a igreja venceria, mas o fracionamento abre espaço para ideias novas e contrárias à dinâmica de Deus. Deste modo, o inimigo faz prevalecer a injustiça e o Reino de Deus fica inviável.

quinta-feira, 24 de maio de 2018

Religação Requerida pela Religião



Muitos cristãos têm uma leitura danificada pelo misticismo a respeito do procedimento religioso. Seu comportamento não aponta segurança, por força de exagerada demonstração de espiritualidade, que vai muito além do próprio conceito bíblico, tornando a religião um ideal pouco prático.

Na verdade, de acordo com as escrituras sagradas, bem como a revelação deixada pelo comportamento de Jesus quando viveu entre nós, a religação com Deus e seu Reino se dá pela via da cooperação entre Deus e os homens, mas também entre os próprios homens.

O conceito de cooperação está logo no capítulo primeiro do livro de Gênesis, onde vemos a elaboração da criação como um ato conjunto da trindade: façamos. Aliás, essa cooperação entre os membros da trindade expressa, com toda ênfase, o princípio da Lei dos dez mandamentos, onde a cooperação é uma ordenação que comanda colaboração com Deus e cooperação entre os homens. A ação conjunta da trindade é, além disso, ressaltada, por exemplo, quando da intervenção, após dilúvio, na torre de Babel (Gên.11:7). Mas, a ação mais espetacular da trindade deu-se na encarnação de Jesus, seu nascimento, desenvolvimento, sacrifício e ressurreição. Em todos os momentos da experiência  vivida por Jesus na Terra, havia uma ligação infringível da trindade na consecução do plano para redenção para os homens. No capítulo 16 do evangelho de João, Jesus demonstra a atuação cooperativa da trindade de uma forma evidente, ensinando como se dá a administração celeste e qual o ideal para os homens.

Já na criação, no jardim do Éden, ao determinar a função humana, a Adão foi dada a responsabilidade de cuidar do jardim. Nessa ordem pode-se ver que a dinâmica imposta por Deus determinou que deveria necessariamente haver cooperação entre Deus e o homem. Deus criara o mundo físico, obedecendo a claros padrões de cooperação (Salmos 19:2), mas ao homem caberia a conservação do mundo físico e a criação do mundo social, obedecendo os mesmos critérios. E assim foi. Quando Adão despertou do sono e foi-lhe entregue a sua mulher, ele exclamou: “Esta é agora osso dos meus ossos, e carne da minha carne; esta será chamada mulher, porquanto do homem foi tomada” (Gên. 2:23), significando que ele iria cooperar com ela. Porém, logo após a queda, Adão mostrou comportamento oposto, quando disse que “A mulher que me deste por companheira, ela me deu da árvore, e comi” (Gên. 3:12), demonstrando que a cooperação parecia estar extinta.

Desauxiliar, desassistir, foram os verbos que entraram em ação após o pecado ter entrado na criação de Deus. Um bom exemplo é o dos irmãos Caim e Abel. Quando foram oferecer um culto a Deus, ficou evidenciada a desfiguração da obra da criação. Caim matou Abel e em seguida, Deus dialoga com Cain: (Gên.4:9) “E disse o SENHOR a Caim: Onde está Abel, teu irmão? E ele disse: Não sei; sou eu guardador do meu irmão?” Na resposta de Caim encontra-se o resultado de um novo estado moral; ausência da Lei de Deus, ambiente de desauxilio.

Na situação pós pecado, o assunto da cooperação não ficou preterido, mas foi salientado através do culto sacrifical. Os altares erguidos eram obras do homem, mas o cordeiro imolado era obra de Deus. É importante deixar sempre manifesto que a Lei de Deus requer cooperação, assim, todos os atos religiosos, ou seja, os que produzem a religação com Deus, são atos cooperativos entre criador e criatura, uma exigência do sistema de administração divino.

Quando da construção do santuário, Deus atuou oferecendo o modelo ou a planta do edifício, com todos os utensílios obrigatório, mas ao homem coube o gerar os recursos necessários, o desenvolver da obra dos artífices, os quais foram abençoados com dotes especiais por Deus, assim a construção do edifício portátil deu-se da melhor forma. A dobradinha Deus-homem explicitamente operada resultou na aceitação por Deus daquele espaço feito pelo homem. Mas, muito além do edifício, todo ritual do santuário era uma cooperação entre Deus e os homens. O raciocínio que comandava os principais rituais tinha na cooperação o motivo e a força.

Três eram os principais sacrifícios oferecidos no santuário: O sacrifício pelo pecado, o sacrifício queimado ou holocausto e as ofertas pacíficas.

O sacrifício pelo pecado, uma dádiva de Deus, era oferecido somente em ocasiões especiais. Era o sumo sacerdote na condição de representante de Deus quem o oferecia, para o caso de pecados que não eram conscientemente cometidos. Algumas ocasiões onde fora oferecido: no Éden, logo após a queda; na inauguração do tabernáculo; no dia da expiação; nas três principais festas (Dia da Expiação, Ano novo, festa das cabanas).

O sacrifício queimado ou holocausto estava na responsabilidade do homem; era oferecido diariamente (manhã e tarde) pelo sacerdote para cobrir as faltas do povo, no caso de não ser possível ao israelita oferecer imediatamente um holocausto pelo pecado conhecido. Todavia, o pecador teria que, pelo menos uma vez ao ano, espontaneamente oferecer seu holocausto pessoal. Colocando as mãos sobre a cabeça do cordeiro, transferia ao cordeiro a sua culpa. O sacrifício era totalmente queimado, simbolizando o total arrependimento do pecador. Agora chamamos a atenção para a equação montada pela providência de Deus e pela ação humana; o primeiro sacrifício era de Deus, o segundo era do homem. Tal soma produzia o terceiro termo do silogismo matemático, ou seja, após a execução dos dois sacrifícios deveria ocorrer o terceiro sacrifício chamado de oferta pacífica. Este simbolizava a religação entre Deus e o homem. Neste sacrifício havia a comemoração da paz. O pecador oferecia bolo feito de flor de farinha e vinho, elementos que eram compartilhados com o sacerdote e com os amigos. Os três sacrifícios desenvolviam o que a Bíblia chama de expiação, um processo no qual vemos a cooperação exigida pelo princípio da Lei que embasa o governo de Deus.

Quando Jesus esteve pessoalmente entre os homens, várias vezes ensinou o princípio da cooperação Deus-homem.  Quando um jovem rico O procurou depois de Jesus ter proferido o famoso discurso ao lado do mar da Galileia, perguntando “Bom Mestre, que bem farei para conseguir a vida eterna?” (Mat.9:16-23), Jesus demonstrou com muita ênfase a cooperação que ele deveria buscar com Deus, guardando os mandamentos, depois Ele ensinou como deveria ocorrer a cooperação entre os homens. Mas o jovem não ficou feliz, uma vez que não acolhera a cooperação entre semelhantes. Em outra ocasião quando Jesus entrava em Jericó, um homem chamado Zaqueu foi privilegiado com uma visita de Jesus. No término da conversa (aliás, o relato mostra apenas Zaqueu falando (Lucas 19)) Zaqueu diz: “Senhor, eis que eu dou aos pobres metade dos meus bens; e, se nalguma coisa tenho defraudado alguém, o restituo quadruplicado”. Então Jesus dialoga dizendo: “Hoje veio a salvação a esta casa, pois também este é filho de Abraão”. Aqui manifestamente Jesus explica que a cooperação é o motivo do Seu Reino. O roubo havia retirado Zaqueu da comunhão com Deus e com o próximo, mas agora a religação havia ocorrido. No milagre da multiplicação dos pães narrado no evangelho de João (capítulo 6), há um diálogo onde Jesus parece examinar se a cooperação estava compreendida pelos discípulos.  Ele pergunta a Filipe: “Onde compraremos pão, para estes comerem? Mas dizia isto para o experimentar; porque ele bem sabia o que havia de fazer”. A resposta de Filipe dá ares de que havia um pouco de dúvidas: “Duzentos dinheiros de pão não lhes bastarão, para que cada um deles tome um pouco”. Tal quantidade de dinheiro era o pagamento por um ano de trabalho assalariado. Filipe como que demonstra que seria necessária uma fortuna e muito trabalho para alimentar a multidão. Porém, André parece ter compreendido estar na presença do grande legislador dos Dez Mandamentos e exclama: “Está aqui um rapaz que tem cinco pães de cevada e dois peixinhos; mas que é isto para tantos?” Jesus percebendo a dimensão da fé manada que todos se assentem “tomou os pães e, havendo dado graças, repartiu-os pelos discípulos, e os discípulos pelos que estavam assentados; e igualmente também dos peixes, quanto eles queriam”. Outra vez ensinou e demonstrou que no seu universo o natural são as ações realizadas por Deus e por suas criaturas, e sempre que a cooperação Deus-criaturas acontece, grandes feitos são realizados.

O grande apóstolo Paulo, em sua carta aos Filipenses (capítulo 2:12) exorta que “assim também operai a vossa salvação com temor e tremor”, ou seja, contribuam com Deus pois a salvação ocorre a partir da cooperação Deus-homem. A graça ou o conhecimento dado por Deus conduz a boas obras (Rm 6:11-16). Desta forma, as obras são a consumação da graça que efetua nossa salvação (Rm 6:18; 2Co 6:1). O SDA Bible Commentary explicando Filipenses 2:12, diz o que segue: “Muitos são atraídos ao cristianismo, mas não estão dispostos a preencher as condições pelas quais a recompensa do cristão pode ser alcançada. Se pudessem obter a salvação sem esforço, estariam mais que felizes em receber tudo o que o Senhor poderia lhes dar. No entanto, as Escrituras ensinam que cada pessoa deve cooperar com a vontade e o poder de Deus”.

A compreensão do sistema administrativo divino levará a um novo sistema religioso. Muitos de nós pensamos que Deus está muito longe e que a religião deve ser um meio muito diáfano e etéreo de comunicação com Deus. Por essa razão o misticismo pode muito explicar como proceder. Mas, diferentemente desse raciocínio, a religião (religação) verdadeira estabelece um serviço de cooperação Deus-homem, o próprio sistema celeste de administrar. É claro que Deus é maior que qualquer criatura, assim, o que o homem não pode fazer Deus faz, mas é imprescindível a cooperação. A salvação não é pelas obras, mas deve ser desenvolvida. Ela decorre apenas da mediação de Cristo, mas é vivida por cooperação pessoal. Por mais que reconheçamos nossa profunda dependência dos méritos, da obra e do poder de Cristo, também devemos estar cientes de nossa obrigação pessoal de viver diariamente, pela graça de Deus, uma vida coerente com os princípios divinos.

Qual a obra que o homem pode fazer? Na igreja cristã atual há em sua dinâmica ocasiões para cooperar com Deus (através dos dízimos, por exemplo) como também cooperar com o próximo (ajudas de qualquer ordem e ofertas missionárias, por exemplo), são essas cooperações que dão o verdadeiro caráter da religação promovida pela religião. Em Mateus 25:31-46 encontramos as características daqueles que estarão religados a Deus e, consequentemente, serão levados com Ele às mansões eternas, mas também estão relatadas as características dos que não serão religados: “E quando o Filho do homem vier em sua glória, e todos os santos anjos com ele, então se assentará no trono da sua glória; E todas as nações serão reunidas diante dele, e apartará uns dos outros, como o pastor aparta dos bodes as ovelhas; E porá as ovelhas à sua direita, mas os bodes à esquerda. Então dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo; Porque tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber; era estrangeiro, e hospedastes-me; Estava nu, e vestistes-me; adoeci, e visitastes-me; estive na prisão, e fostes ver-me. Então os justos lhe responderão, dizendo: Senhor, quando te vimos com fome, e te demos de comer? ou com sede, e te demos de beber? E quando te vimos estrangeiro, e te hospedamos? ou nu, e te vestimos? E quando te vimos enfermo, ou na prisão, e fomos ver-te?  E, respondendo o Rei, lhes dirá: Em verdade vos digo que quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes.

 Então dirá também aos que estiverem à sua esquerda: Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos; Porque tive fome, e não me destes de comer; tive sede, e não me destes de beber; Sendo estrangeiro, não me recolhestes; estando nu, não me vestistes; e enfermo, e na prisão, não me visitastes. Então eles também lhe responderão, dizendo: Senhor, quando te vimos com fome, ou com sede, ou estrangeiro, ou nu, ou enfermo, ou na prisão, e não te servimos? Então lhes responderá, dizendo: Em verdade vos digo que, quando a um destes pequeninos o não fizestes, não o fizestes a mim. E irão estes para o tormento eterno, mas os justos para a vida eterna.

Qualquer sistema religioso que não estiver ensinando e praticando a cooperação Deus-homem não é digno de confiança e deverá ser abandonado. Qualquer sistema religioso que estabeleça o serviço a Deus como meio, em muitos casos repleto de misticismo, para atingir benefícios pessoais sem a necessária preocupação com a prática da justiça, ou o bem estar do próximo, é necessariamente falso.

quinta-feira, 15 de março de 2018

Um manancial, cujas águas nunca faltam


Sempre que quisermos alcançar qualquer assunto (especialmente no âmbito bíblico), e sempre que quisermos contextualizar o presente, obrigatoriamente teremos que dominar o passado; referimo-nos às origens, pois a realidade atual é consequência dos acontecimentos passados. Assim, voltemos no tempo ao período no qual principiou o grande conflito entre o bem e o mal. “E houve batalha no céu; Miguel e os seus anjos batalhavam contra o dragão, e batalhavam o dragão e os seus anjos; Mas não prevaleceram, nem mais o seu lugar se achou nos céus. E foi precipitado o grande dragão, a antiga serpente, chamada o Diabo, e Satanás, que engana todo o mundo; ele foi precipitado na terra, e os seus anjos foram lançados com ele. E ouvi uma grande voz no céu, que dizia: Agora é chegada a salvação, e a força, e o reino do nosso Deus, e o poder do seu Cristo; porque já o acusador de nossos irmãos é derrubado, o qual diante do nosso Deus os acusava de dia e de noite. E eles o venceram pelo sangue do Cordeiro e pela palavra do seu testemunho; e não amaram as suas vidas até à morte. Por isso alegrai-vos, ó céus, e vós que neles habitais. Ai dos que habitam na terra e no mar; porque o diabo desceu a vós, e tem grande ira, sabendo que já tem pouco tempo” (Apoc. 12:7-10).

O texto bíblico trata de dois períodos distintos e disjuntos na história cósmica. A expulsão de Lúcifer com os anjos que o apoiaram ocorreu antes da criação da Terra. Quando o texto passa a tratar da chegada da salvação, o tempo corresponde a contemporaneidade de Cristo entre os homens. Explica que mesmo que o diabo tenha vindo à Terra, os homens venceram pelo sangue do cordeiro e pela palavra do seu testemunho. Ellen White, no livro O Desejado de todas as nações, à página 26, explica o que significa vencer pelo sangue e pela palavra do testemunho, dizendo: “Satanás aborrecera a Cristo no Céu, por causa de Sua posição nas cortes de Deus. Mais ainda O aborreceu quando se sentiu ele próprio destronado. Odiou Aquele que Se empenhou em redimir uma raça de pecadores. Não obstante, ao mundo em que Satanás pretendia domínio, permitiu Deus que viesse Seu Filho, impotente criancinha, sujeito à fraqueza da humanidade. Permitiu que enfrentasse os perigos da vida em comum com toda a alma humana, combatesse o combate como qualquer filho da humanidade o tem de fazer, com risco de fracasso e ruína eterna. O coração do pai humano compadece-se do filho. Olha a fisionomia do pequenino, e treme ante a idéia dos perigos da vida. Anela proteger seu querido do poder de Satanás, guardá-lo da tentação e do conflito. Para enfrentar mais amargo conflito e mais terrível risco Deus deu Seu Filho unigênito, para que a vereda da vida fosse assegurada aos nossos pequeninos. “Nisto está o amor.” Maravilhai-vos, ó céus! e assombrai-vos, ó Terra!”

No livro “História da Redenção, página 19, a mesma autora diz que “[...] Toda a hoste celestial reconheceu e adorou o Deus da justiça. Nenhuma mácula de rebelião foi deixada no Céu. Tudo voltara a ser paz e harmonia como antes. Os anjos do Céu lamentaram a sorte daqueles que tinham sido seus companheiros de felicidade e alegria. Sua perda era sentida no Céu”. É importante verificar que o texto acima explica que a hoste celestial, ou seja, os anjos, reconheceram a justiça de Deus, porém, o restante do universo não está incluído na informação, significando que a dúvida sobre a aplicação da justiça estava ainda permeando o universo.

Em seguida ao desfecho do conflito no céu, culminando com a expulsão dos rebeldes, o Pai consultou o filho. Veja como o livro História da Redenção, página 20, expõe: “O Pai consultou Seu Filho com respeito à imediata execução de Seu propósito de fazer o homem para habitar a Terra. Colocaria o homem sob prova a fim de testar sua lealdade antes que ele pudesse ser posto eternamente fora de perigo. Se ele suportasse ao teste com o qual Deus considerava conveniente prová-lo, seria finalmente igual aos anjos. Teria o favor de Deus, podendo conversar com os anjos, e estes com ele. Deus não achou conveniente colocar os homens fora do poder da desobediência”.

Analisando a exposição acima, algumas perguntas surgem: 1. Por que o Pai consultou o filho para “execução imediata” de seu propósito de fazer o homem para habitar a Terra? 2. Por que deveria o homem ser colocado sob prova a fim de testar sua lealdade?

Na mesma página 20, a autora explica o que segue: “Pai e Filho empenharam-Se na grandiosa, poderosa obra que tinham planejado — a criação do mundo. A Terra saiu das mãos de seu Criador extraordinariamente bela. Havia montanhas, colinas e planícies, entrecortadas por rios e lagos. A Terra não era uma extensa planície, mas a monotonia do cenário era quebrada por montanhas e colinas não altas e abruptas como hoje são, mas de formas regulares e belas. As rochas altas e desnudas não podiam ser vistas sobre ela, mas estavam debaixo da superfície, correspondendo aos ossos da Terra. As águas estavam distribuídas regularmente. As montanhas, as colinas e as belíssimas planícies eram adornadas com plantas, flores e árvores altas e majestosas de toda espécie, muitas vezes maiores e mais belas do que são agora. O ar era puro e saudável, e a Terra parecia um nobre palácio. Os anjos deleitavam-se e regozijavam-se com as maravilhosas obras de Deus”.

O empenho do Pai e do Filho na grandiosa obra, a Terra extraordinariamente bela chama nossa atenção, ainda mais porque os anjos deleitavam-se e regozijavam-se com a maravilhosa obra. Por acaso as outras obras que Deus já realizara não eram boas e maravilhosas também? Por qual motivo os anjos maravilhavam-se? Quer nos parecer que a Terra seria um projeto dentro do plano emergencial para o caso do surgimento do pecado. Por essa razão o Pai consultou o Filho sobre a execução imediata. A beleza extraordinária, incomum, é algo que merece um pouco de atenção. O termo beleza na Bíblia, ou no ambiente do Antigo Testamento significa o perfeito funcionamento da lei de Deus. Extraordinariamente bela, ou seja, funcionamento mais que adequado da lei, fato expresso na afirmação de Deus quando disse que a criação era boa (Gênesis 1). Um detalhe que pode parecer insignificante na citação acima de Ellen White é “as águas estavam distribuídas regularmente”, indicando que em qualquer lugar da Terra havia água, cenário muito diferente do atual, onde há extensas áreas terrestres sem água. Também, havia uma distribuição regular de três relevos, montanhas, colinas e planícies. Estas informações deixam transparecer que havia justiça na distribuição dos relevos e da água. Em qualquer lugar esses elementos podiam ser encontrados. A justiça, o atributo atacado pelos rebeldes, estava demonstrada pela criação da Terra. Tudo estava funcionando dentro dos princípios justos numa demonstração de como a lei de Deus deve operar.

Em seguida vem a criação do homem. Após levarem a cabo seu propósito de criar a Terra e toda a vida nela, o Pai e o Filho consentiram em fazer o homem à sua própria imagem. Os atributos de justiça de Deus estavam no homem. Se olharmos melhor a sequenciada criação, vamos encontrar que após a expulsão dos rebeldes do céu, a Terra e homem são criados, extraordinariamente belos; os anjos estavam admirados com toda criação. Há uma clara indicação de que a nova criação era uma demonstração cabal do funcionamento da lei de Deus e da Sua justiça. O universo deveria ver e estudar sobre a justiça de Deus através da criação concluída.

No periódico The Review and Herald, 18 de Novembro de 1888, Ellen White escreveu o que segue: “Manifesta-se o poder de Deus no bater do coração, na ação dos pulmões, e nas correntes vivas que circulam pelos mil diferentes condutos do corpo. Somos-Lhe devedores por todo momento de existência, e por todos os confortos da vida. As faculdades e habilitações que elevam o homem acima da criação inferior, são dotes do Criador. Ele nos cumula de benefícios Seus. Somos-Lhe devedores do alimento que comemos, da água que bebemos, da roupa que vestimos, do ar que respiramos. Sem a Sua especial providência, o ar estaria cheio de pestilência e de veneno. Ele é generoso benfeitor e preservador. O Sol que brilha sobre a Terra, e embeleza toda a Natureza, a encantadora e solene luminosidade da Lua, os esplendores do firmamento, salpicado de brilhantes estrelas, as chuvas que refrescam a terra, e fazem florescer a vegetação, as preciosas coisas da Natureza em toda a sua variada riqueza, as árvores altaneiras, os arbustos e as plantas, o grão tremulante, o céu azul, a terra verde, a mudança do dia e da noite, a renovação das estações, tudo fala ao homem do amor de seu Criador. Tem-nos Ele ligado a Si mesmo por todos esses laços do Céu e da Terra. Cuida de nós com mais ternura do que cuida uma mãe de um filho em aflição”. Tais afirmativas mostram o caráter de um Deus generoso e benfeitor que colocou no homem o seu próprio caráter e, como consequência, a criatura tornou-se um recipiente contínuo com a função de ser doador contínuo. Recebendo de Deus deveria abençoar seus semelhantes e a todos os tipos de vida colocados ao seu dispor. E assim, foi-lhe dada a ordem de cuidar (Gênesis 2:15).

Agora vamos olhar por outro prisma o caráter de Deus e a Sua lei em funcionamento. Após a criação dos domínios (ar, terra e água) e dos seus preenchimentos com as formas animadas e inanimadas, Deus cria, no sétimo dia, um marco moral muitíssimo importante o qual chamou de “shabath” (sábado), uma expressão hebraica que significa cessar.

No livro Desejado de Todas as Nações, página 192, Ellen White explana sobre a razão do cessar no shabath: “O sábado foi santificado na criação. Instituído para o homem, teve sua origem quando “as estrelas da alva juntas alegremente cantavam, e todos os filhos de Deus rejubilavam”. Jó 38:7. Pairava sobre o mundo a paz; pois a Terra estava em harmonia com o Céu. “Viu Deus tudo quanto tinha feito, e eis que era muito bom” (Gênesis 1:31); e Ele repousou na alegria de Sua concluída obra”. Gênesis 2:1-3 assinala que “Assim os céus, a terra e todo o seu exército foram acabados. E havendo Deus acabado no dia sétimo a obra que fizera, descansou no sétimo dia de toda a sua obra, que tinha feito. E abençoou Deus o dia sétimo, e o santificou; porque nele descansou de toda a sua obra que Deus criara e fizera”. Portanto, Deus separou o dia sétimo para uso santo. Deu-o a Adão como dia de repouso no qual ele deviria ver um sinal do poder de Deus e do Seu amor, como afirma a escritura no Salmo 111:4 “Fez lembradas as Suas maravilhas”. Diz a escritora Ellen White no livro Desejado de Todas as Nações, página 20, que as coisas que estão criadas declaram os atributos invisíveis de Deus, Seu poder e Sua divindade (Romanos 1:20). A Divindade de Deus está revelada na criação. No hebraico divindade significa transcendência, ou seja, o caráter inerente daquilo que é de natureza superior, portanto, radicalmente diferente e separado da realidade sensível.

Se Deus criou o homem à Sua imagem, há no homem divindade também. O ser criado causou admiração aos anjos. Certamente a capacidade de ser de natureza superior, de ir além da realidade sensível causou admiração. Destarte, se a criação torna visível a divindade de Deus, o que tornaria visível a divindade do homem?

Agora vamos buscar compreender a razão pela qual Deus cria o shabath e o dá ao homem. Somente através do shabath pode-se contemplar uma dimensão que em nenhum outro marco moral pode ser observada.

Em Êxodo 20:8-11 lemos “Lembra-te do dia do sábado, para o santificar. Seis dias trabalharás, e farás toda a tua obra. Mas o sétimo dia é o sábado do SENHOR teu Deus; não farás nenhuma obra, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o teu estrangeiro, que está dentro das tuas portas. Porque em seis dias fez o SENHOR os céus e a terra, o mar e tudo que neles há, e ao sétimo dia descansou; portanto abençoou o SENHOR o dia do sábado, e o santificou”. O texto acima refere-se à redação do quarto mandamento. Numa leitura crítica encontramos a seguinte lógica: O cessar do labor humano no shabath está relacionado ao fato de que Deus cessou o labor. Olhado um pouco melhor, e considerando que o homem é imagem de Deus, concluímos que Deus terminou Sua obra, a da criação do mundo físico (céus, terra e mar) e, no caso do homem, o mandamento explicitamente cobra o cessar da obra do homem, a qual deve ser realizada no mesmo espaço de tempo que Deus utilizou para concluir Sua obra. Assim, o shabath deve ser um encontro entre as obras de Deus e as obras do homem. Porém, acrescentamos aqui as palavras de Cristo quando disse que “o sábado foi feito por causa do homem” (Marcos 2:27). Se a Terra foi criada para demonstração do funcionamento pleno da Lei de Deus, então o shabath é um domínio para demonstração do funcionamento da Lei em ambos comandos, o de Deus e o do homem. Sendo criado para o homem após o aparecimento do pecado, podemos entender que o shabath veio para evitar que o pecado contaminasse a imagem de Deus. Se o mandamento declara cessação da obra humana, há uma pergunta que não quer calar: Sendo o shabath o encontro entre as obras de Deus e as do homem, quais são as obras do homem?

O quarto mandamento diz o que deve cessar juntamente com o homem: todos os outros homens e os animais. O cessar do shabath inclui uma dimensão moral gigantesca; Deus construiu o mundo físico justo e ao homem cabe a construção do mundo social justo, porque o cessar do labor de todos determina justiça. Portanto, assim como a divindade de Deus está nas obras criadas, a divindade humana, ou seja, a justiça humana estará nas obras sociais. A transcendência humana que o faz ultrapassar as coisas sensíveis está na construção da sociedade justa. Em Gênesis 1:27-28 lemos “E criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. E Deus os abençoou, e Deus lhes disse: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a; e dominai sobre os peixes do mar e sobre as aves dos céus, e sobre todo o animal que se move sobre a terra”.  Vemos que o homem criado à imagem de Deus e formando uma sociedade com a mulher deveria multiplicar o modelo social dado por Deus e deveria dominar toda criação fazendo-a sujeitar-se ao modelo social justo entregue, criando um ambiente de cooperação onde os princípios da lei estariam em vigência. Assim, no quarto mandamento ao homem é ordenada a construção de uma sociedade justa baseada no modelo do Gênesis e, no shabath, a obra humana deveria ser trazida diante de Deus. Por isso, em Êxodo 34:20 é comandada a ordem de não aparecer diante de Deus no shabath de mãos vazias.
Se o homem foi criado semelhante a Deus, as obras que faria nos seis dias seriam também semelhantes às de Deus. Assim poderia descansar, e no descanso contemplar Deus. Aperfeiçoaria a si mesmo construindo um mundo social que refletiria o caráter de Deus. Então, a pergunta agora é: como ocorre a construção do mundo social?

Para responde-la devemos tomar o capítulo 58 de Isaías. Ali o profeta é instado a clamar em alta voz e anunciar ao povo a sua transgressão. Para não tomar todo o capítulo, vejamos os versos 6-14 os quais esclarecem os protocolos para a referida construção: “Porventura não é este o jejum que escolhi, que soltes as ligaduras da impiedade, que desfaças as ataduras do jugo e que deixes livres os oprimidos, e despedaces todo o jugo? Porventura não é também que repartas o teu pão com o faminto, e recolhas em casa os pobres abandonados; e, quando vires o nu, o cubras, e não te escondas da tua carne? Então romperá a tua luz como a alva, e a tua cura apressadamente brotará, e a tua justiça irá adiante de ti, e a glória do SENHOR será a tua retaguarda.  Então clamarás, e o SENHOR te responderá; gritarás, e ele dirá: Eis-me aqui. Se tirares do meio de ti o jugo, o estender do dedo, e o falar iniquamente; E se abrires a tua alma ao faminto, e fartares a alma aflita; então a tua luz nascerá nas trevas, e a tua escuridão será como o meio-dia. E o SENHOR te guiará continuamente, e fartará a tua alma em lugares áridos, e fortificará os teus ossos; e serás como um jardim regado, e como um manancial, cujas águas nunca faltam. E os que de ti procederem edificarão as antigas ruínas; e levantarás os fundamentos de geração em geração; e chamar-te-ão reparador das roturas, e restaurador de veredas para morar. Se desviares o teu pé do sábado, de fazeres a tua vontade no meu santo dia, e chamares ao sábado deleitoso, e o santo dia do SENHOR, digno de honra, e o honrares não seguindo os teus caminhos, nem pretendendo fazer a tua própria vontade, nem falares as tuas próprias palavras, Então te deleitarás no SENHOR, e te farei cavalgar sobre as alturas da terra, e te sustentarei com a herança de teu pai Jacó; porque a boca do SENHOR o disse”.

Ellen White refere-se à construção do mundo social dizendo “Não posso deixar de ser demasiado veemente em insistir com todos os membros de nossas igrejas, todos quantos são verdadeiros missionários, todos quantos creem na terceira mensagem angélica, todos quantos desviam o pé de profanar o sábado, para considerarem a mensagem do capítulo cinquenta e oito de Isaías. A obra de beneficência recomendada nesse capítulo é a obra que Deus requer de Seu povo neste tempo. É uma obra indicada por Ele próprio. Não somos deixados em dúvida quanto ao lugar da mensagem e ao tempo de seu assinalado cumprimento, pois lemos: “E os que de ti procederem edificarão os lugares antigamente assolados; e levantarás os fundamentos de geração em geração; e chamar-te-ão reparador das roturas, e restaurador de veredas para morar.” Isaías 58:12.

Isaías adverte que somente encontrar-se-á o deleite sabático se apresentarmos nossas obras sociais. Fomos criados para sermos recipientes contínuos e nesta condição devemos dar continuamente. Essa é a forma como a humanidade transcende e mostrar a sua divindade. É no shabath que o universo estuda sobre a justiça e o amor de Deus contemplando a Sua obra e as ações dos filhos de Deus.