segunda-feira, 8 de agosto de 2016

NOSSA DIMENSÃO NUMA SOCIEDADE DE PALAVRAS

O Salmo 8 é um dos mais significativos por ser uma análise do significado do homem:

“Ó SENHOR, Senhor nosso, quão admirável é o teu nome em toda a terra, pois puseste a tua glória sobre os céus! Tu ordenaste força da boca das crianças e dos que mamam, por causa dos teus inimigos, para fazer calar ao inimigo e ao vingador. Quando vejo os teus céus, obra dos teus dedos, a lua e as estrelas que preparaste; que é o homem mortal para que te lembres dele? E o filho do homem, para que o visites? Pois pouco menor o fizeste do que os anjos, e de glória e de honra o coroaste. Fazes com que ele tenha domínio sobre as obras das tuas mãos; tudo puseste debaixo de seus pés: todas as ovelhas e bois, assim como os animais do campo, as aves dos céus, e os peixes do mar, e tudo o que passa pelas veredas dos mares. Ó SENHOR, Senhor nosso, quão admirável é o teu nome sobre toda a terra!”

Ao escrever este salmo, o poeta bíblico se inspirou na vista do céu noturno com o fulgor do brilho da lua e das estrelas. Não é mencionado o sol. É provável que o espetáculo do céu estrelado produza no coração humano maior admiração e maravilha que o céu diurno, quando os ruídos, a poluição e as cenas da terra distraem a atenção.

O Seventh Day Adventist Bible Commentary explica que Enosh é um vocábulo hebraico usado para marcar a fragilidade humana. Quando uma pessoa contempla a imensidão, o mistério e a gloria dos céus noturnos, reflexiona no infinito espaço e nos inumeráveis corpos celestes, deve sentir-se como um ponto infinitesimal no universo.

Se olhar para os céus noturnos deixa uma marcante impressão nos mortais iletrados, quanto maior não há de ser a admiração dos que, aprovisionados com a crescente informação da astronomia moderna, contemplam o céu através de modernos observatórios!

O Seventh Day Adventist Bible Commentary diz que o salmista usa ainda a expressão o filho do homem,  do Hebraico ben-adam, para destacar a natureza terrena do homem, formado do pó da terra (Gênesis 1: 26; 2: 7). Por causa da sua formação, adverte o salmista, o que é o homem para que Deus o visite ou que se absorva por ele. Mas, um Deus essencialmente amoroso há de ter cuidado com o ser humano a despeito de ser também um Deus para os demais mundos.

Segundo o livro Testemunhos II de Ellen White, a importância do homem somente é percebida quando se toma em conta a morte de Cristo na cruz. O valor da alma humana está explícito no calvário (2 Test. p. 634, 635).

Se é importante a revelação de Deus nos fenômenos visíveis da natureza, mais importante ainda é sua revelação na vida humana. O tamanho e a extensão não são elementos de juízo suficientes para tributar o valor de alguma coisa. Tem-se dito que o olho e o cérebro que veem o firmamento são mais maravilhosos que os céus por eles contemplados através do telescópio mais poderoso.

Ainda no Seventh Day Adventist Bible Commentary encontramos que a afirmação do salmista “ser o homem é um pouco menor que os anjos”, no original hebraico me'elohim, significa literalmente, "um pouco menor que Deus". Os tárgumes (manuscritos do Velho Testamento em aramaico), a Septuaginta (LXX), as versões siríacas e a citação desta passagem em Hebreus 2:7 dizem "anjos" em vez de "Deus". Entretanto, as versões gregas de Aquila, Símaco e Teodocião, e também a Vulgata, trazem a tradução "Deus". Alguns consideram que a palavra Elohim poderia aplicar-se também a homens ou a anjos ( Exodo 21: 6; Salmo 82: 1). No entanto, Gesenio, aclamado como o pai dos gramáticos hebraicos traduz: "O fizeste com que lhe falte pouco de Deus"; vale dizer, "o fizestes só um pouco inferior a Deus". Não importa se lemos “menor que os anjos”, ou " menor que Deus"; é evidente que o homem está num plano muito superior ao do reino animal, devido a sua vinculação com Deus. Entretanto, no melhor dos casos, o homem finito é inferior ao Deus infinito. Todavia, na qualidade de senhor da Terra, o homem participa dos atributos de Deus, o rei do universo. Por isso foi revestido de honra e de glória.

É nesta condição que devemos nos apresentar diante de Deus. Assumindo posição destacada entre tantos, por causa da nossa origem. Somos elementos da sociedade humana, com capacidades para assumir posições e, em especial, comissionados para cuidar da maior responsabilidade dada aos mortais, a do bem-estar do próximo.

Espera a humanidade que tenhamos obtido conhecimento suficiente para desempenhar com brilhantismo e profissionalismo, as funções para as quais estamos aptos segundo os assentamentos bíblicos. Todavia, uma etapa mais alta deve ser alcançada, a do aperfeiçoamento, etapa na qual nosso desempenho deve estar focado no aprimoramento e especialização, na construção de pessoas das quais o mundo venha a se orgulhar e a desejar.

Todos os óbices ou lacunas sociais deverão ser encarados como desafios estimulantes que esperam por soluções. Nossa geração não poderá passar sem apresentar soluções, mas sempre haverá novos desafios e novos problemas. O homem formado à imagem de Deus tem o privilégio de ser um anjo enviado por Deus para minorar os sofrimentos do corpo e muitas vezes da alma.

A excelência exigirá aplicação aos estudos. Não abrir os livros, não procurar aperfeiçoamento em novos cursos, impedirá a compreensão do mundo e, consequentemente, a atuação como agente divino comissionado para auxiliar a sociedade.

Sendo que Deus deu aos homens honra, conforme nos disse o salmista, é nossa responsabilidade corresponder a esta honra concedida a priori. Mas, não somente corresponder à honra concedida, multiplica-la e entrega-la às gerações que nos sucederem. Nossa influência deverá ser forte o suficiente para construir uma nova geração ainda melhor que a nossa. O principal legado que homens podem deixar é a construção de outros homens ainda mais honrados e virtuosos, cheios de respeitoso espírito de cooperação.

Há algo que necessitamos compreender: a diferença entre dois conceitos frequentemente confundidos, poder e influência. Tendemos a pensar que são similares ou idênticos. Pensamos que pessoas de poder têm influência e pessoas de influência têm poder. Mas não é assim. Os dois são muito distantes e operam por lógicas muito diferentes.

Imaginemos que temos o poder total. Isto significa que o que nós dizemos assim será. Então um dia nós decidimos compartilhar nosso poder com nove outros. Agora, na melhor das hipóteses, temos um décimo do poder anterior. Agora nós decidimos compartilhar influência com nove dos nossos parceiros. Temos então dez vezes mais influência do que tínhamos antes, porque ao invés de somente nós há agora dez pessoas enviando a mesma mensagem.

O Poder trabalha por divisão, a influência por multiplicação.  O Poder, em outras palavras é um jogo de soma zero: quanto mais compartilhamos, menos temos. A Influência não é um jogo de soma zero: quanto mais compartilhamos mais nós temos.

Como vimos, há uma demarcação clara entre liderança como influência e liderança por poder. A Bíblia reconhece e afirma que todo poder pertence diretamente a Deus. Porém, a real liderança, aceita com louvor pela Bíblia, está na influência. Esta é a mais revolucionária ideia. Como exemplo, vejamos o judaísmo. Conforme assinalou o Rabino Jonathan Sacks, em seu livro Lessons in Leadership, foi a maior civilização a prever sua própria sobrevivência ancorada na educação, nas casas de estudo, e no aprendizado como experiência religiosa mais elevada do que a própria oração. A razão é que líderes são pessoas hábeis a mobilizar outras a agir de certas maneiras. O outro modo de conseguir liderança é entender as necessidades e aspirações das pessoas e ensina-las como consegui-las de modo conjunto, como um grupo. Isto é realizado através do poder da visão, força de personalidade, habilidade para articular compartilhamento de ideais em uma linguagem com a qual as pessoas estejam identificadas, e a capacidade de levantar muitos discípulos, os quais continuarão o trabalho no futuro.  O Poder diminui aqueles sobre quem é exercido. A Influência levanta e desenvolve pessoas.

Nem todos vamos obter poder, porque este é dado por Deus quem o possui, mas todos podemos ter influência. A mais importante forma de liderança não vem com títulos, prestígio, posição, roupas oficiais, mas com a prontidão ao serviço juntamente com outros, para buscar aquilo que não podemos alcançar sozinhos; falar, ouvir, ensinar, aprender tratar outras pessoas com respeito, mesmo as que são antagônicas a nós; explicar paciente e convincentemente por que cremos no que cremos e fazemos o que fazemos; encorajar outros a realizar os seus melhores esforços, e desafia-los a realizarem o seu melhor. Sempre escolher a influência antes do que o poder. Isto ajuda a mudar as pessoas as quais podem mudar outras pessoas; é assim que podemos mudar o mundo.

Nossa postura diante de Deus deve ser aquela de quem quer ser uma benção. Ninguém no mundo dos vivos existe somente para si. Por essa razão vivemos em sociedade; as cidades são formadas por muitas sociedades que adicionadas formam ambientes de trocas que produzem segurança. Juntos deslocamos o medo. Estamos mais seguros porque sabemos que há, na grande associação de pessoas, solução para a maioria os problemas. Neste contexto, a nossa participação na sociedade local deve considerar primeiramente que o nosso preparo deve ser esmerado para não diminuir a expectativa da segurança social, ou seja, devemos realizar o nosso melhor no sentido do serviço ao semelhante, e somente depois devemos pensar em recompensa, quer no sentido da honra, quer no sentido monetário. Há na sabedoria indiana o seguinte raciocínio: não corra atrás do dinheiro, deixe que o dinheiro corra atrás de você! Em outras palavras, devemos fazer o nosso dever da maneira mais completa e sábia possível, assim não teremos problemas financeiros.

No entanto, Nosso Mestre, Jesus Cristo, ensinou que para ter sucesso neste mundo, deveremos buscar em primeiro lugar o reino de Deus e a sua justiça, e todas as demais coisas nos serão acrescentadas.
A palavra-chave é justiça. Dar a outros o seu direito primário. Então temos dois ensinamentos nas palavras do Mestre: buscar o bem-estar daqueles que nos rodeiam aplicando-lhes a justiça; este é o primeiro ensino. O segundo é: todas as outras coisas serão acrescentadas.

Que Deus possa abençoar-nos com sabedoria, a primeira das grandes bênçãos; que Ele nos abençoe com saúde, a maior riqueza desta vida. Porém, a mais importante das bênçãos é ser aprovado por Deus; Ter diante de nós o rosto de Deus levantado em nossa direção e ter o sorriso dEle aprovando nosso dia a dia.


terça-feira, 24 de maio de 2016

Nossa Competência para Avaliar e Organizar Fatos


Um dos assuntos mais controvertidos no mundo cristão é o dos dons e ministérios, o qual tem emprego quase equivocado, especialmente entre o chamado mundo evangélico carismático. Não há muita clareza na interpretação dos textos do Novo Testamento que tratam do assunto, pois os teólogos, às vezes, buscam explicações com base em externalidades e não na profundidade dos textos.

A primeira questão que surge ao encarar-se o tema dos dons e ministérios é: por que estes são necessários? A maioria dos grupos religiosos assume uma postura imperiosamente mística quando tenta explicar a razão dos dons e torna quase incompreensível a operação de Deus, uma vez que não lidam com a base da questão. Proponho que vejamos essa dimensão do evangelho através da própria Bíblia.

Em Apocalipse 12:7-10 lemos: “ E houve batalha no céu; Miguel e os seus anjos batalhavam contra o dragão, e batalhavam o dragão e os seus anjos; Mas não prevaleceram, nem mais o seu lugar se achou nos céus. E foi precipitado o grande dragão, a antiga serpente, chamada o Diabo, e Satanás, que engana todo o mundo; ele foi precipitado na terra, e os seus anjos foram lançados com ele. E ouvi uma grande voz no céu, que dizia: Agora é chegada a salvação, e a força, e o reino do nosso Deus, e o poder do seu Cristo; porque já o acusador de nossos irmãos é derrubado, o qual diante do nosso Deus os acusava de dia e de noite”. Tal batalha deu origem ao que a Bíblia denomina de o Grande Conflito; uma controvérsia que abalou o universo criado. Duas idéias estão em debate; dois tipos de governos estão propostos; de um lado está o soberano do universo, Deus todo poderoso, cuja base do governo é a sua lei, com dois grandes princípios: amor a Deus e amor ao próximo. Estes princípios formam um sistema harmônico de ações, onde as criaturas ou inteligências habitando os vários planetas são instadas a cooperar através do desenvolvimento de virtudes individuais que as fortalece moralmente, sendo que os indivíduos passam a operar num alto nível de colaboração e harmonia. Quanto mais elevada é a harmonia, mais forte e consolidado é o Reino de Deus. Neste sentido, o imperativo do Reino é que os súditos sejam moralmente bem constituídos e possam assumir um forte grau de independência do poder central, de tal modo que, cada um pode ser auxílio ao outro, num sistema onde Deus é o grande provedor, mas as criaturas possuem autonomia para administrar umas às outras as necessidades comuns. O Reino de Deus é forte, na razão direta da autonomia dos seus súditos.

De outro lado, a proposta de Lucifer, denominado de a serpente, é diametralmente oposta. Ele propôs um sistema onde a divisão é o motor que impulsiona. Não há cooperação no sentido do crescimento do outro, mas cooperação negativa apenas para que um possa se desenvolver em detrimento de outros, um sistema de concorrência e de predação. A finalidade é fazer com que apenas um líder tenha força e os demais dependam profundamente da liderança. Nesse sistema de governo, o enfraquecimento dos súditos significa o fortalecimento do rei. Assim, dividir representa aumentar o nível de dependência. Tal sistema opera tendo o egoísmo como motor impulsionador. Assim, vemos que o universo outrora harmônico, com o surgimento do grande conflito, tornou-se dividido. Porém, é fundamental verificar que de todos os planetas criados, somente a Terra aderiu ao sistema onde a divisão é a base.

Desde que a serpente foi expulsa do céu, Deus vem trabalhando para restabelecer o sistema da harmonia. Assim, vejamos como têm acontecido as ações divinas sobre a Terra e qual tem sido o resultado.

Adão foi cooptado para o sistema da divisão e, uma vez implantado, tudo ficou afetado por ele. A primeira consequência foi a expulsão de Adão do paraíso. Adão torna-se separado de Deus e perde todas as características que havia recebido de Deus e que o tornara semelhante a Deus. O sistema da divisão operou o primeiro homicídio; quando Deus interpela Cain sobre a segurança do irmão, ele responde que não é o guardador do irmão. Se buscarmos a história, veremos que o sistema da divisão abalou as relações humanas; Jacó e Esaú não cooperam entre si; José e os irmãos se desentendem e, a Bíblia vai apresentando uma sucessão de desarmonias sociais que alçam nossos dias. O sistema de Deus foi substituído, a harmonia deu lugar à divisão.

Considerando que, todos os homens tornaram-se escravos de Satanás, ou seja, estão sob o domínio da divisão, do orgulho e da dissensão, então o céu passou a trabalhar no sentido de devolver a harmonia. No entanto, dado que o homem não possui a harmonia em si mesmo, são necessárias doações de virtudes celestes para que sejam restabelecidas a harmonia e a felicidade. Como podemos enxergar as ações de Deus na história humana para restaurar a harmonia?

Vamos tomar como ponto de partida a construção do tabernáculo no deserto. O livro Patriarcas e Profetas (Ellen White), à página 245 comenta: “Homens escolhidos foram especialmente dotados por Deus de habilidade e sabedoria para a construção do sagrado edifício. O próprio Deus deu a Moisés o plano daquela estrutura, com instruções específicas quanto ao seu tamanho e forma, materiais a serem empregados, e cada peça que fazia parte do aparelhamento que deveria a mesma conter. Os lugares santos, feitos a mão, deveriam ser ‘figura do verdadeiro’, ‘figuras das coisas que estão no Céu’ (Hebreus 9:24, 23) — uma representação em miniatura do templo celestial, onde Cristo, nosso grande Sumo Sacerdote, depois de oferecer Sua vida em sacrifício, ministraria em prol do pecador. Deus expôs perante Moisés, no monte, uma visão do santuário celestial, e mandou-lhe fazer todas as coisas de acordo com o modelo a ele mostrado. Todas estas instruções foram cuidadosamente registradas por Moisés, que as comunicou aos chefes do povo. [...] “E todas as mulheres sábias de coração fiavam com as suas mãos, e traziam o fiado, o azul e a púrpura, o carmesim, e o linho fino. E todas as mulheres, cujo coração as moveu em sabedoria, fiavam os pêlos das cabras. O comentário acima está baseado em Êxodo 31.

A informação acima é de grande importância para a compreensão do raciocínio que virá. Se o tabernáculo deveria ser uma representação da realidade celeste, e se os construtores eram homens submetidos não ao sistema de Deus, mas ao sistema da divisão, então é obvio que a compreensão da realidade superior do céu não poderia ser alcançada por eles. Neste sentido, Deus os dota de sabedoria especial para que pudessem perceber o conceito do sistema divino de cooperação e, consequentemente, tivessem como construir o tabernáculo. O que estamos verificando é que para haver comunicação entre Deus e os homens, é necessário que ferramentas ou virtudes morais sejam confiadas, de modo que haja elevação moral para que homens possam lidar com a realidade celeste.

A essa altura já podemos entender a razão dos dons doados à igreja. Esta é a exibição cósmica da vitória de Deus sobre o espírito de divisão que Satanás introduziu no universo no princípio do grande conflito. O mínimo que os membros do corpo de Cristo – a igreja – podem fazer é parecer unidos e leais aos propósitos eternos de Deus.

Agora, analisemos dois textos importantes para entender os dons e ministérios. O primeiro deles está em I Coríntios 12:1-12: “ Acerca dos dons espirituais, não quero, irmãos, que sejais ignorantes. Vós bem sabeis que éreis gentios, levados aos ídolos mudos, conforme éreis guiados. Portanto, vos quero fazer compreender que ninguém que fala pelo Espírito de Deus diz: Jesus é anátema, e ninguém pode dizer que Jesus é o SENHOR, senão pelo Espírito Santo. Ora, há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo. E há diversidade de ministérios, mas o Senhor é o mesmo. E há diversidade de operações, mas é o mesmo Deus que opera tudo em todos. Mas a manifestação do Espírito é dada a cada um, para o que for útil. Porque a um pelo Espírito é dada a palavra da sabedoria; e a outro, pelo mesmo Espírito, a palavra da ciência; e a outro, pelo mesmo Espírito, a fé; e a outro, pelo mesmo Espírito, os dons de curar; e a outro a operação de maravilhas; e a outro a profecia; e a outro o dom de discernir os espíritos; e a outro a variedade de línguas; e a outro a interpretação das línguas. Mas um só e o mesmo Espírito opera todas estas coisas, repartindo particularmente a cada um como quer. Porque, assim como o corpo é um, e tem muitos membros, e todos os membros, sendo muitos, são um só corpo, assim é Cristo também”.  

No verso três vemos que homens submetidos ao sistema da divisão, mas que podem ser guiados por Deus podem reconhecer o funcionamento do sistema da harmonia. A estes são enviados sabedoria e conhecimento. Sabedoria aqui é uma palavra que vem do Hebraico, jokmah. Aparece 141 vezes no Antigo Testamento e quase sempre se traduz como "sabedoria". Jokmah abarca uma quantidade de ideias: (1) perícia técnica (Exo. 28: 3; 35: 26; 1 Reis. 7: 14); (2) talento, sagacidade (1 Reis. 2: 6; 3: 28; Job 39: 17; Isa. 10: 13; 29: 14); (3) sabedoria terrenal prática (1 Reis. 4: 30; Isa. 47: 10); (4) sabedoria piedosa (Deut. 4: 6; Sal. 37: 30; 90: 12; Prov. 10: 31; Isa. 33: 6; Jer. 8: 9); (5) sabedoria como um atributo de Deus (Sal. 104: 24; Prov. 3: 19; Jer. 10: 12; 51: 15); (6) sabedoria divina personificada (Prov. 8: 1-36; 9: 1-6); (7) sabedoria humana ideal (Sal. 111: 10; Prov. 1: 2), etc. A "sabedoria" se distingue do "conhecimento" (Hebráico dá'ath), em que "sabedoria" está ligada ao caráter e a conduta, enquanto que "conhecimento" se refere principalmente à cultura intelectual. O conhecimento pede ser só uma acumulação de fatos desconexos, sem a capacidade de aplica-los à vida prática. Por outro lado, a sabedoria é a faculdade que permite aplicar os fatos na vida prática. Neste entendimento ou compreensão está implícita a capacidade de avaliar e organizar fatos, condição essencial para alcançar a sabedoria. A sabedoria, tão encalcada no livro dos Provérbios, é perspicácia prática tal como a que se revela nos ideais morais e no caráter religioso. Os diversos aspectos da sabedoria correspondem com as características do que está à altura das normas de Deus. A sabedoria que descreve Salomão é abarcante no sentido de que cobre todas as fases da vida prática. Não separa a piedade dos deveres comuns da vida. O que tem a verdadeira sabedoria, reflete os requerimentos de Deus em cada pensamento e ato.

O segundo texto está em Efésios 4:8-16: “Por isso diz: Subindo ao alto, levou cativo o cativeiro, E deu dons aos homens. Ora, isto ele subiu que é, senão que também antes tinha descido às partes mais baixas da terra? Aquele que desceu é também o mesmo que subiu acima de todos os céus, para cumprir todas as coisas. E ele mesmo deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outros para evangelistas, e outros para pastores e doutores, querendo o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para edificação do corpo de Cristo; até que todos cheguemos à unidade da fé, e ao conhecimento do Filho de Deus, a homem perfeito, à medida da estatura completa de Cristo, para que não sejamos mais meninos inconstantes, levados em roda por todo o vento de doutrina, pelo engano dos homens que com astúcia enganam fraudulosamente. Antes, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo, do qual todo o corpo, bem ajustado, e ligado pelo auxílio de todas as juntas, segundo a justa operação de cada parte, faz o aumento do corpo, para sua edificação em amor”.

Vejamos primeiramente o que está no verso oito, “subindo ao alto, levou cativo o cativeiro”. O texto refere-se a Jesus que subiu ao alto; ora quem sobe já está no alto, então porque subindo ao alto? Porque as coisas altas estão no reino da harmonia onde a lei de Deus é a base das ações, as coisas baixas são aquelas do reino da divisão, daí ter Ele subido ao alto. Mas, diz-nos que levou cativo o cativeiro, ou seja, aquilo que nos oprimia, o sistema ao qual fomos escravizados e encantados, este Ele levou cativo. O texto nos informa que a ascensão de Cristo determinou que qualquer homem que não mais queira estar no domínio da divisão poderá transferir-se para o sistema da harmonia. A continuação verso oito informa que, por causa de ter colocado em cativeiro o sistema do inimigo, pode agora distribuir dons ou virtudes que são necessários aos que estão no reino da harmonia.

Ora, as virtudes são para edificação do corpo de Cristo. Homens que viveram no sistema da divisão devem agora aprender a operar o sistema da harmonia; até que todos cheguemos à unidade da fé, não mais em disputa, mas em cooperação, até que todos alcancem o conhecimento do Filho de Deus, dominem aquilo que somente Jesus sabia, cheguem a homem perfeito, à medida da estatura completa de Cristo, para que não sejamos mais meninos inconstantes, levados em roda por todo o vento de doutrina, pelo engano dos homens que com astúcia enganam fraudulosamente. Perguntamos agora qual é o engano frauduloso dos homens?

Há no mundo cristão aqueles que advogam que a lei dos dez mandamentos foi abolida com a morte de Jesus. Mas esta afirmação não encontra respaldo no texto de Efésios 4, considerando que Jesus levou cativo o sistema da divisão. Os cristãos explicam que agora vivemos no império da graça, onde tudo é permitido porque Jesus cumpriu a lei por nós. Tal raciocínio é estrábico em relação à realidade do texto. Se Jesus subiu ao alto e levou cativo o cativeiro, se todo homem agora é livre para optar entre dois sistemas, se o sistema de Deus é o da harmonia, ou seja, um sistema que pressupõe amor a Deus e amor ao próximo, então a lei não foi abolida. Consequentemente, todo sistema religioso cristão que não advoga a harmonia através da lei é falso ou fraudulento, pois tenta estar no reino de Deus, mas opera pelo sistema da divisão. De fato, especialmente entre os evangélicos, há proliferação de igrejas onde a principal meta é obter vantagens neste mundo. Tal miscelânea é um sincretismo que a Bíblia chama de Babilônia. Assim, os dons são dados aos homens para que estes cresçam e alcancem a estatura de Cristo o qual viveu sem pecado, pois guardou a lei, sendo que pecado é a transgressão da lei (Romanos 2:23).

Agora vejamos como estes dons operam para o crescimento da igreja. Nenhum dom que possamos ter – seja ensino, seja pregação, evangelismo, cura, aconselhamento, visitação, consolação, socorro – deve ser reservado para uso pessoal. Todos eles são designados para o bem coletivo e o crescimento da igreja, caso contrário, os detentores terão seus dons retirados (Mat.25:24-30). O dom da palavra é um talento que deve ser cultivado cuidadosamente. De todos os dons que recebemos de Deus, nenhum é capaz de se tornar maior bênção que este. Com a voz convencemos e persuadimos, com ela elevamos orações e louvores a Deus, e também falamos a outros do amor do Redentor. Que importância tem, pois, que seja bem educada a fim de tornar-se mais eficaz para o bem! A cultura e o correto uso da voz são grandemente negligenciados até por pessoas de inteligência e de atividade cristã. (Parábolas de Jesus, p178). Toda alma está circundada de uma atmosfera própria, que pode estar carregada do poder vivificante da fé, do ânimo, da esperança, e perfumada com a fragrância do amor. Ou pode estar pesada e fria com as nuvens do descontentamento e egoísmo, ou intoxicada com o contato mortal de um pecado acariciado. Pela atmosfera que nos envolve, toda pessoa com quem nos comunicamos é consciente ou inconscientemente afetada. Esta é uma responsabilidade de que não nos podemos livrar. Nossas palavras, nossos atos, nosso traje, nosso procedimento, até a expressão fisionômica tem sua influência. (Parábolas de Jesus, p.180). O dinheiro é de grande valor, porque pode realizar grande bem. Nas mãos dos filhos de Deus é alimento para o faminto, água para o sedento, vestido para o nu. É proteção para o opresso, e meio para socorrer o enfermo. Mas o dinheiro não é de mais valor que a areia, a não ser que o empreguemos para prover as necessidades da vida, para bênção de outros, e para o desenvolvimento da obra de Cristo.  Ninguém suponha que possa viver vida de egoísmo, e então, tendo servido aos próprios interesses, entrar no gozo do Senhor. Não puderam participar da alegria de um amor desinteressado. Não se adaptariam às cortes celestes. Não poderiam apreciar a pura atmosfera de amor que impregna o Céu. As vozes dos anjos e a música de suas harpas não lhes agradariam. Para sua mente a ciência do Céu seria um enigma. (Parábolas de Jesus, p.197).

No evangelho de Marcos 4:30, lemos que Jesus não encontrou na sociedade humana nada com que pudesse comparar o reino de Deus, uma vez que os reinos da Terra se regem pela supremacia do poder físico. “Mas no reino de Cristo não existe arma carnal nem instrumento de coerção. Esse reino deve erguer e enobrecer a humanidade. A igreja de Deus é o recinto de vida santa, plena de variados dons e dotada com o Espírito Santo. Os membros devem encontrar sua felicidade na felicidade daqueles a quem ajudam e abençoam” (Atos dos Apóstolos, p7).

 










quinta-feira, 19 de maio de 2016

A Capacidade de Ser Único


No evangelho de Lucas no capítulo 21:25-27 lemos: “E haverá sinais no sol e na lua e nas estrelas; e na terra angústia das nações, em perplexidade pelo bramido do mar e das ondas. Homens desmaiando de terror, na expectação das coisas que sobrevirão ao mundo; porquanto as virtudes do céu serão abaladas. E então verão vir o Filho do homem numa nuvem, com poder e grande glória”.

Estamos presenciando atualmente grandes sinais na natureza, mudanças climáticas, e na sociedade humana, ondas migratórias dirigidas por grandes incertezas sócio-políticas, grupos armados tirando a paz de milhares, fora a instabilidade social causada pela anomia que assombra as grandes cidades. Literalmente homens desmaiando de terror.

Qual será a origem dessa precariedade? Nosso planeta está submetido às tradições humanas que levam pessoas a serem orientadas para religiões que apenas operam externalidades, não enxergando o âmago do problema: desobediência à Lei de Deus.

O princípio da Lei é o interesse pelo próximo. Harmonia é a palavra que traduz esse princípio. A partir do momento em que o homem desobedeceu a Lei, estabeleceu-se um sistema de divisão e desunião. A Lei está calcada no princípio da unicidade, ou seja, a capacidade de ser único ou formar todos indivisíveis.

A criação foi uma gigantesca demonstração do princípio da unicidade. Litosfera, biosfera e atmosfera existem como unidade. Uma parte não funciona sem a outra e são, por essa característica, unidade singular. O ciclo das águas na superfície da Terra é outro exemplo de unicidade. As águas que evaporam voltam à Terra e formam um conjunto único. Todos os mananciais de águas têm uma origem, os oceanos. De outro lado, ainda que nas condições de pecado, a unicidade pode ser vista: o ciclo da cadeia alimentar, conforme o entendemos, é um forte exemplo, todos os nutrientes que estão presos nas grades estruturais dos seres vivos serão decompostos após a sua morte e tornarão a fazer parte de grade estrutural de outros seres vivos, num ciclo contínuo ininterrupto, até que a Terra chegue ao seu final.

 O fundamento da unicidade está no macro universo, onde as galáxias orbitam em torno de outras galáxias, de modo a manter um fino equilíbrio gravitacional que mantém o cosmo coeso. Do mesmo modo, a estrutura atômica funciona equilibrada tendo os elétrons orbitando o núcleo atômico, equilíbrio mantido pela força eletrostática. Se vamos ao interior da célula, o núcleo celular onde está o DNA, vemos as duas fitas deste formando uma hélice. Tais fitas são formadas por açucares (ribose) onde estão as bases púricas e pirimídicas (Timina, Guanina, Citosina, Adenina, Uracila) que se ligam entre si por pontes de hidrogênio para formar a complexidade do DNA.

Deus foi o criador de tudo e, consequentemente, esse princípio da unicidade é encontrado nEle. São três pessoas formando o que chamamos de Deus: Pai, Filho e Santo Espírito. O Pai não é o Filho e este não é o Espírito Santo, mas os três formam uma unicidade incomum para governar tudo. Estamos falando de uma unidade de três pessoas que formam o Deus infinito e que está além da compreensão humana, mas é conhecido por sua auto revelação (Deut.6:1; Mat.28:19; 2Cor.13:13; etc.).

Na criação do homem vemos o princípio da unicidade transferido. Este é formado por três partes: corpo, alma e espírito. Esta composição é ratificada por Paulo na sua primeira carta aos Tessalonicenses, capítulo 5:23 quando afirma: “E o mesmo Deus de paz vos santifique em tudo; e todo o vosso espírito, e alma, e corpo, sejam plenamente conservados irrepreensíveis para a vinda de nosso SENHOR Jesus Cristo. Estas três partes devem agir unidas, do contrário causarão infelicidade. Por exemplo, se o espírito trabalha contra o corpo, prejudica a alma. Salomão denuncia isto em Provérbios 1:19 “São assim as veredas de todo aquele que usa de cobiça: ela põe a perder a alma dos que a possuem”. Do mesmo modo, se afetamos ou destruímos o corpo prejudicaremos o funcionamento da alma. Isto está demonstrado em Levíticos 20:25 “Fareis, pois, diferença entre os animais limpos e imundos, e entre as aves imundas e as limpas; e as vossas almas não fareis abomináveis por causa dos animais, ou das aves, ou de tudo o que se arrasta sobre a terra; as quais coisas apartei de vós, para tê-las por imundas”. Assim, percebemos que a inquietação humana é o resultado da quebra da unicidade do homem. No estado de pecador, a não observância da Lei leva ao estado de desequilíbrio das três dimensões, provocando o paradoxo humano; queremos fazer o bem, mas praticamos o mal.

Em Hebreus 4:12 lemos “Porque a palavra de Deus é viva e eficaz, e mais penetrante do que espada alguma de dois gumes, e penetra até à divisão da alma e do espírito, e das juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e intenções do coração”. Esta afirmação é útil para explicar o que Deus tenta fazer conosco, ou seja, o reequilíbrio do homem. A situação atual é melhor entendida se olharmos o início. “Adão estava diante de Deus na força da perfeita varonilidade, tendo todos os órgãos e faculdades de seu ser plenamente desenvolvidos e harmoniosamente equilibrados. Achava-se ele circundado de coisas belas e conversava diariamente com os santos anjos (Verdade sobre os Anjos, p.49). Em outro trecho do livro O Grande Conflito, à página 83, Ellen White explica: “O homem e a mulher foram formados à imagem de Deus, com individualidade, poder e liberdade de pensar e agir. Conquanto tenham sido criados como seres livres, cada um é uma unidade indivisível de corpo, mente e espírito, e dependente de Deus quanto à vida, respiração e tudo o mais. Quando nossos primeiros pais desobedeceram a Deus, eles negaram sua dependência dEle e caíram de sua elevada posição abaixo de Deus. A imagem de Deus, neles, foi desfigurada, e tornaram-se sujeitos à morte. Seus descendentes partilham dessa natureza caída e de suas conseqüências. Eles nascem com fraquezas e tendências para o mal. Mas Deus, em Cristo, reconciliou consigo o mundo e por meio de Seu Espírito restaura nos mortais penitentes a imagem de seu Criador. (Gênesis 1:26-28; 2:7; Salmos 8:4-8; Atos dos Apóstolos 17:24-28; Gênesis 3; Salmos 51:5; Romanos 5:12-17; 2 Coríntios 5:19, 20; Salmos 51:10; 1 João 4:7, 8, 11, 20; Gênesis 2:15.).

Para restaurar a imagem de Deus na humanidade o céu fez um plano que se desenvolveu desde que nossos pais saíram do Éden. Tal plano foi pensado para aproximar um Deus transcendente a uma humanidade imanente. Assim, a imanência de Deus tornou-se mais sentida no tabernáculo do deserto, quando a presença física de Deus era vista no lugar santíssimo, através do resplendor do Shekhinah. Porém, Deus tornou-se ainda mais imanente quando entregou a Moisés a sua palavra, a Torá, a qual poderia tornar a imanência de dEle cabal pois a palavra estaria na mente do homem. Esta espada de dois gumes que penetra na intimidade do ser agiria para reequilibrar as três dimensões. No entanto, o ato mais crítico e mais importante da imanência de Deus foi a encarnação de Jesus Cristo.  Ele se tornou um com os homens, era o Deus entre os homens e, nesta condição, poderia ensinar pessoalmente a humanidade no caminho do retorno ao equilíbrio ou à imagem de Deus. Se Deus tornara-se um com os homens, os homens poderiam tornar-se um com Deus; estaria de volta a unicidade perdida no Éden.

No entanto, Cristo não permaneceu com a humanidade e voltou para o céu. A pergunta que se levanta é: o princípio da unicidade foi quebrado? Essa questão foi resolvida com a criação da igreja cristã. A Igreja é um corpo com muitos membros, chamados de toda nação, tribo, língua e povo. Em Cristo somos uma nova criação; distinções de raça, cultura e nacionalidade, e diferenças entre altos e baixos, ricos e pobres, homens e mulheres, não devem ser motivo de dissensões entre nós. Todos somos iguais em Cristo, o qual por um só Espírito nos uniu numa comunhão com Ele e uns com os outros; devemos servir e ser servidos sem parcialidade ou restrição. Mediante a revelação de Jesus Cristo nas Escrituras, partilhamos a mesma fé e esperança, e estendemos um só testemunho para todos. Esta unidade encontra sua fonte na unidade do Deus triúno, que nos adotou como Seus filhos. (Romanos 12:4, 5; 1 Coríntios 12:12-14; Mateus 28:19, 20; Salmos 133:1; 2 Coríntios 5:16, 17; Atos dos Apóstolos 17:26, 27; Gálatas 3:27, 29; Colossences 3:10-15; Efésios 4:14-16; 4:1-6; João 17:20-23).

É propósito de Deus que haja unidade entre Seus filhos. [...] A união faz a força; a desunião enfraquece. Unidos uns aos outros, trabalhando juntos, em harmonia, pela salvação dos homens, seremos na verdade “cooperadores de Deus”. 1 Coríntios 3:9. Os que se recusam a trabalhar em boa harmonia desonram grandemente a Deus. O inimigo deleita-se em vê-los trabalhando para fins mutuamente contrários. Essas pessoas precisam cultivar o amor fraternal e a ternura de coração. Se pudessem correr a cortina que lhes vela o futuro e ver o resultado de sua desunião, por certo seriam levados a arrepender-se (Conselhos para Igreja, p.42).













terça-feira, 26 de janeiro de 2016

DUAS VERSÕES DA MESMA COISA

Bezerro de ouro
O marcante caso do bezerro de ouro teve efeito vicariante na história de Israel. Moisés subiu ao monte Sinai e permaneceu lá por trinta dias e noites. Deus interrompe a reunião e comanda para Moisés descer porque o povo estava em franca decadência. Antes de descer, Moisés roga a Deus que perdoe o povo, mesmo antes de ter completa noção do ocorrido. A medida em que desce começa a ouvir os alaridos do povo dançando e cantando em torno do bezerro de ouro. Moisés é tomado por espanto e no calor do momento atira as tábuas de pedras com os escritos divinos da Lei, quebrando-as. Toma o bezerro de ouro, queima-o e o reduz a pó; mistura o pó com agua e faz com que o povo tome a solução, parte do ritual de purificação; executa os culpados; três mil morrem num só dia. Moisés volta no dia seguinte ao monte Sinai e fala com Deus suplicando que perdoe o povo e por quarenta dias continua pleiteando com Deus para que não remova a Sua presença do acampamento. Numa cena memorável Deus passa diante de Moisés a quem Ele diz “veja as minhas costas, porque ninguém pode ver minha face”. Moisés profere as palavras que se tornaram conhecidas como os treze atributos da misericórdia: “Passando, pois, o SENHOR perante ele, clamou: O SENHOR, o SENHOR Deus, misericordioso e piedoso, tardio em irar-se e grande em beneficência e verdade; que guarda a beneficência em milhares; que perdoa a iniquidade, e a transgressão e o pecado; que ao culpado não tem por inocente; que visita a iniquidade dos pais sobre os filhos e sobre os filhos dos filhos até à terceira e quarta geração. E Moisés apressou-se, e inclinou a cabeça à terra, adorou” (Êxodo 34:6-8). As palavras de Moisés são a base para aqueles que buscam a Deus de forma penitencial. Moisés usou novamente estas palavras quando encarou o pecado dos espias (Números 14:17-20). Deus então instrui Moisés a preparar um segundo conjunto de tábuas, um símbolo obvio de que Deus havia indultado o povo e ainda conservava sua aliança com eles.

Yon Kippur
Uma vez por ano o Sumo Sacerdote entrava no lugar santíssimo do tabernáculo buscando, primeiramente, expiação para ele e sua família e depois para o povo. O Yon Kippur, dia da expiação, era um acontecimento insólito e muito organizado, o qual tinha no núcleo um ritual envolvendo dois bodes, com aspectos iguais, sobre os quais era lançada sorte. Um deles era para o Senhor, sendo oferecido como oferta pelo pecado. O outro era para Azazel. Sobre este, o Sumo Sacerdote confessava todos os pecados e transgressões do povo, colocando suas mãos sobre o animal. Assim, o segundo bode levava todas as iniquidades e era conduzido para o deserto onde morreria jogado em um precipício.

Todo ritual era conduzido sem falhas ou improvisações, sem alterações ou inovações. Era um ritual intenso em seu visual e simbolismo.

As duas narrativas acima não são análogas. A primeira é cheia de sentimento e paixão, uma vez que Deus ficou aborrecido e Moisés implorou poderosamente. A segunda é um ritual para o qual Aarão era o protagonista ou o Sumo Sacerdote da época, mas, os atos, ofertas, confissões, aspersões de sangue, sorte lançada para os dois bodes com um deles sendo levado ao deserto, tudo ocorrendo ano após ano até a destruição do templo. Não há emoção, nenhuma variante, nenhum diálogo entre o sacerdote e Deus. Nada era imprevisível. As duas narrativas pertencem a orbes diferentes. No entanto, são duas versões do mesmo acontecimento. Ambas tratam do remorso humano e do perdão divino, ou seja, ambas tratam da restauração de relacionamentos quebrados. Curiosamente, ambas aconteceram no mesmo dia. Moisés desceu do monte Sinai no décimo dia de Tishrei. Também no décimo dia de Tishrei acontecia o Yon Kippur, no qual, ano após ano o Sumo Sacerdote conduzia o rito da expiação. O que vemos nestas duas narrativas é um processo, a lógica que é vital se queremos compreender a natureza complexa do cristianismo.

Santa Ceia
Da mesma forma como os israelitas mudaram do Êxodo para Levíticos, do primeiro ano da jornada para o segundo, a tarefa de assegurar a expiação muda de Moises para Aarão, ou seja, do profeta para o sacerdote, do drama imprevisto para a regra que governa o ritual. Esta é a diferença entre o único e o universal, o evento que marca uma época e o ritual que se repete infinitamente fornecendo caráter e continuidade.

Para o cristianismo, a tarefa de assegurar a expiação passa dos Sacerdotes para Cristo; o Yon Kippur foi substituído pelo sacrifício vicário de Jesus. Assim como o bode para o Senhor, “Verdadeiramente ele tomou sobre si as nossas enfermidades, e as nossas dores levou sobre si; e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus, e oprimido. Mas ele foi ferido por causa das nossas transgressões, e moído por causa das nossas iniqüidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados”(Isaías 53:4-5). O sacrifício de Jesus foi um evento único. Na santa ceia, Jesus juntou as duas narrativas dando ao cristianismo uma nova perspectiva de reconciliação de um relacionamento quebrado entre Deus e a humanidade, com protocolo imutável; “Porque todas as vezes que comerdes este pão e beberdes este cálice anunciais a morte do Senhor, até que venha”(Coríntios 11:26).

No ritual da ceia, especificamente no lava pés, confessamos ao nosso próximo nossas faltas cometidas contra ele, conforme o protocolo celeste: “Portanto, se trouxeres a tua oferta ao altar, e aí te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa ali diante do altar a tua oferta, e vai reconciliar-te primeiro com teu irmão e, depois, vem e apresenta a tua oferta” (Mateus 5:23-24). Assim, são reatados relacionamentos quebrados entre homens. Somente após, poderemos participar do pão e do vinho. Ambos rituais são a reconciliação entre Deus e os homens, ou seja, a expiação realizada, uma vez que expiar significa colocar em ordem, sendo que o que é colocado em ordem é nosso relacionamento com Deus. O pão representa o corpo de Cristo que não cometeu pecado. Comendo o pão colocamos em nossa grade estrutural, simbolicamente, os átomos do corpo de Cristo, e assim, teremos como vencer as tendências carnais e governar nossos desejos de concupiscência. Quando tomamos o vinho, simbolicamente colocamos em nós o sangue de Cristo, o qual leva energia vital ao corpo. Esse sangue simboliza a nossa volição controlada pelo sangue de Cristo; não temos sujeição ao pecado porque temos o corpo e o sangue de Cristo.
(Texto baseado no capítulo “From Never Again to Ever Again” do livro Leviticus do Rabino Jonathan Sacks.)

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

A única forma de cruzar o abismo entre o finito e o infinito

O sistema religioso supõe poder mediar as relações entre a humanidade e Deus. Nesta ação, as religiões lidam com um nível crítico de subjetividade que é, na maioria dos casos, frustrante para o fiel, pois este não alcança o desenvolvimento espiritual que imagina estar a sua disposição no âmbito confessional abraçado. Há, portanto, um embaraço que pede uma solução. O que fazer?

Dois conceitos são importantes para que possamos traçar algum norte: Transcendência e Imanência. O primeiro vem do latim transcendo e significa passar subindo, atravessar, ultrapassar, transpor; transcendente significa que Deus está completamente além dos limites cosmológicos. Neste sentido Ele é completamente imprevisível; há ocasiões em que Ele pode punir ou perdoar, galardoar ou subtrair e, para a humanidade, é necessária a experiência da confiança que, na maioria das vezes vem da previsibilidade. Por outro lado, o conceito de imanência defende que Deus é uma manifestação e está totalmente presente no mundo e nas coisas que cercam ao mundo. Assim, para a humanidade, a imanência é mais pragmática e tem se mostrado útil no trato das coisas religiosas, considerando que nas religiões antigas, as divindades criadas pela humanidade são uma espécie de mediação que funciona no terreno físico, com imanência clara. No caso do cristianismo, ter um Deus que está além da realidade humana, cujo poder é tremendo causa uma espécie de inquietação que desfavoreceu o contato entre Deus e a humanidade. Poderia o Deus de Abraão, Isaque e Jacó ser transcendente e imanente ao mesmo tempo?

A resposta a esta questão encontra-se no episódio do bezerro de ouro (Êxodo 32). Deus comanda Moisés para preparar o povo para encontrar-se com Ele no pé do monte Sinai. No momento aprazado, Deus se manifesta de forma poderosa e fala pessoalmente a todo povo. Porém, os israelitas ficaram muito assustados com a possibilidade de morte coletiva e solicitaram a Moisés que intermediasse e não Deus falasse diretamente. Aqui está uma situação muito crítica, mas esclarecedora da relação entre a humanidade e Deus; a transcendência de Deus é assustadora. Há uma impossibilidade entre seres que estão dentro do universo e um Deus que o transcende, porque Ele é muito maior do que as criaturas, está em todos os lugares e além da realidade humana. Assim, Moisés torna-se o mediador entre Deus e os israelitas. A razão é que Moisés é imanente e estando dentro da realidade do povo isto o torna previsível.

Moisés sobe ao Monte Sinai e fica ausente por muito tempo, o suficiente para causar insegurança no povo. Com um Deus imprevisível logo ali no Sinai e Moisés ausente, o povo entrou em depressão e desespero por ver-se sem mediação. Consequentemente, aglutinaram-se em torno de Arão, o líder substituto, e pressionaram por uma solução. Então, Arão fabricou o bezerro de ouro, o qual não representava um ídolo, mas a intermediação necessária, uma solução buscada por causa da longa vivência no Egito, onde os deuses estavam próximos sendo imanentes com a natureza.

Moisés no cume do Sinai não percebeu o que sucedera. Deus foi quem tangeu Moisés a descer e buscar ver de perto o desastre moral ocorrido. Moisés imediatamente intercede pedindo que Deus perdoe o povo. Depois desce, vê a cena, joga as tabuas da lei quebrando-as, queima o bezerro e o transforma em pó, mistura o pó com água e obriga a todos beberem, separa os levitas e executa a punição dos culpados. Então retorna a Deus e novamente intercede por perdão ao povo. O que acontece posteriormente não é de compreensão simples; começa com Deus comandando o povo levantar acampamento e prosseguir sua jornada em direção a terra prometida. Porém, Deus diz que não iria mais no meio deles (Ex. 33:1-3), ao invés disso, enviaria um anjo diante deles. A leitura bíblica deixa transparecer que Deus viu perigo em estar perto do povo, dada a sua tendência em provocar-Lhe a ira. Mas, quando o povo ouviu que Deus não iria no meio deles ficou em extrema angustia.

Logo após, Moisés moveu a sua tenda para fora do acampamento. Era a referida tenda o lugar onde a nuvem que acompanhava o povo baixava quando Moisés lá estava e, consequentemente o lugar onde Deus falava com Moisés, por essa razão era chamada a tenda da reunião. Ali, começou um diálogo entre Moisés e Deus, quando Moisés argui sobre a possibilidade de reconsideração da decisão de Deus em não ir com o povo: “Então lhe disse: Se tu mesmo não fores conosco, não nos faças subir daqui” (Êxodo 33:15). Daqui em diante vemos uma interlocução sobre algo que parece metafísico, sobre a natureza divina, Moisés fala sobre a face, sobre os caminhos e sobre a glória de Deus. Então Deus coloca Moisés dentro de uma fenda na rocha e passa diante dele. Tal foi a impressão causada em Moisés que exclamou: “O SENHOR, o SENHOR Deus, misericordioso e piedoso, tardio em irar-se e grande em beneficência e verdade; que guarda a beneficência em milhares; que perdoa a iniquidade, e a transgressão e o pecado; que ao culpado não tem por inocente; que visita a iniquidade dos pais sobre os filhos e sobre os filhos dos filhos até à terceira e quarta geração” (Êxodo 34:6-7). Estas palavras ficaram conhecidas como os treze atributos da misericórdia.

Duas coisas nos chamam a atenção neste episódio: Por que Moisés discutiu pontos tão críticos de teologia enquanto o povo vivia a mais intensa crise de relacionamento com Deus? Por que, justamente antes disso, ele moveu a sua tenda para fora do acampamento? Parece haver uma história dentro da história que necessita ser levantada.

Uma vez que o episódio do bezerro de ouro estava superado, Moisés proferiu a mais audaciosa oração, de tal modo que a Torá nos mostra apenas alguns fragmentos, forçando-nos a completar a narrativa. O Rabbi Jonathan Sacks, em seu livro sobre Levítico completa dizendo que Moisés teria argumentado assim: “Soberano do universo, eu movi a minha tenda para fora do acampamento para sinalizar que não é a minha distância do povo a causa do problema. É a Sua distância. A maneira como os israelitas poderiam vivencia-Lo com o Senhor assim distante é como uma força terrificante e esmagadora. Eles presenciaram como o Senhor forçou o mais poderoso império no mundo a ficar de joelhos. Eles testemunharam o Senhor tornar o mar em terra seca, mandar alimento do céu e tirar água da rocha. Eles sabem que ninguém poderá vê-Lo e viver. Eles também sentiram que ninguém poderá ouvi-Lo e viver. Quando o Senhor se revelou a eles na montanha, clamaram a mim dizendo: fala conosco e nós ouviremos, porque se Deus falar conosco, morreremos. Quando fizeram o bezerro de ouro, mal orientados como estavam, pensaram numa maneira de encontrar Deus sem terror. Eles necessitam do Senhor próximo”.

Moisés arguiu Deus sobre a sua transcendência quando discutiu teologia falando da face, dos caminhos e da glória de Deus, parâmetros fundamentais do relacionamento entre a divindade e a humanidade. Poderia Deus se relacionar com a humanidade não somente dos céus, mas, no meio do povo no acampamento? Como poderia alguém dentro do universo começar a compreender alguém que estava além do universo?

A mais profunda crise experimentada no episódio do bezerro de ouro aconteceu porque Moisés era a única conexão entre o céu e a terra. A sua ausência trouxe terror.

Agora, chamamos a tenção para outro fato. Quando os israelitas deixaram o Egito levaram consigo o alfabeto, considerado o maior tesouro que poderiam ter carregado. O alfabeto tornou possível a comunicação entre eles e o mundo e tornou-se a resposta ao fundamental problema da comunicação com Deus. Palavras são a única forma de cruzar o abismo entre o finito e o infinito, entre os humanos finitos e um Deus infinito. Deus falou a Adão, Cain, Noé, aos patriarcas e a Moisés.

Deus respondeu a Moisés dizendo: “E me farão um santuário, e habitarei no meio deles”. O edifício sagrado tornou-se o lar de Deus entre os homens, de lá a sua palavra foi ouvida pelo povo e deu-Lhes a Torá. Ao longo das eras tem Deus se comunicado com homens através da escrita. A leitura da Bíblia, a palavra de Deus, coloca a humanidade em contato com Ele, o fosso entre os céus e a terra foi aterrado e temos a presença de Deus diretamente conosco. Por essa razão, a leitura constante da palavra escrita nos permite ouvir Deus, dialogar com Ele e, se o ouvirmos e praticarmos seus comandos, seremos transformados à semelhança Dele. Todo o processo religioso deve necessariamente levar à transformação, a qual vem pelo ouvir. Nossa ligação com o céu não ocorre num plano místico, mas na leitura da palavra e na obediência a ela.

Na própria Bíblia há recomendações explícitas sobre a leitura e a prática, como por exemplo em Josué 1:8 “Não se aparte da tua boca o livro desta lei; antes medita nele dia e noite, para que tenhas cuidado de fazer conforme a tudo quanto nele está escrito; porque então farás prosperar o teu caminho, e serás bem sucedido”; Josué 23:6 “Esforçai-vos, pois, muito para guardardes e para fazerdes tudo quanto está escrito no livro da lei de Moisés; para que dele não vos aparteis, nem para a direita nem para a esquerda”; I Reis 2:3 “E guarda a ordenança do SENHOR teu Deus, para andares nos seus caminhos, e para guardares os seus estatutos, e os seus mandamentos, e os seus juízos, e os seus testemunhos, como está escrito na lei de Moisés; para que prosperes em tudo quanto fizeres, e para onde quer que fores”. Finalmente o apóstolo Paulo recomenda em Romanos 15:4 “Porque tudo o que dantes foi escrito, para nosso ensino foi escrito, para que pela paciência e consolação das Escrituras tenhamos esperança”.


Através das Escrituras Sagradas o Deus transcendente torna-se imanente e podemos tocá-lo. Por outro lado, Deus dá à humanidade algo que é próprio Dele, o dom maravilhoso da fala e da escrita, assim, torna possível um tipo de mediação que não termina com ausência de um mediador. Embora saibamos que Deus é poderoso e terrível em força, podemos nos aproximar dEle sem medo através da sua palavra e dialogar diretamente com um Deus que está muito além da humanidade.

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

O projeto de Deus para a colonização da Terra

(Este texto foi escrito para o sexagésimo aniversário do Templo Adventista do Sétimo Dia da Cachoeirinha,  Manaus, AM)

O projeto de Deus para a colonização da Terra, após a criação, tinha como modelo o Jardim no qual fora colocado o primeiro casal. Ali estava diante de Adão e Eva o livro da natureza, que estendia suas lições vivas, ministrando uma fonte inesgotável de instrução e deleite.

A criação necessitou sete dias para sua conclusão. A cada passo, ou seja, a cada dia terminado Deus checava a sua obra:  “e viu Deus que era bom”. Em cada elemento criado estava a glória de Deus, o seu caráter estava em tudo, a sua lei trabalhava com orientador de todas as dinâmicas bióticas e abióticas.

“O Jardim do Éden era uma representação do que Deus desejava se tornasse a Terra toda; e era Seu intuito que à medida que a família humana se tornasse mais numerosa, estabelecesse outros lares e escolas semelhantes à que Ele havia dado. Dessa maneira, com o correr do tempo, a Terra toda seria ocupada com lares e escolas em que as palavras e obras de Deus seriam estudadas e onde os estudantes mais e mais ficariam em condições de refletir pelos séculos sem fim a luz do conhecimento de Sua glória” ( Ellen White, Educação p.21).

Demonstramos aqui o modelo escolhido por Deus. Porém, uma pergunta se levanta quando lemos sobre o projeto de colonização: Teria o modelo escolhido por Deus permanecido de lado após a queda do homem?

“O método de educação instituído ao princípio do mundo deveria ser para o homem o modelo durante todo o tempo subseqüente. Como ilustração de seus princípios, foi estabelecida uma escola-modelo no Éden, o lar de nossos primeiros pais. O Jardim do Éden era a sala de aulas; a Natureza, o manual; o próprio Criador, o instrutor; e os pais da família humana, os alunos” (Educação p.21).  Se o método estabelecido deveria ser para todos os tempos subsequentes, então, onde esse modelo vigorou?

Depois da queda e consequente saída do primeiro par do Jardim, Deus estabelece uma variante do sistema implantado inicialmente. Considerando que a natureza também foi atingida pela queda moral do homem, tornando-se hostil e, em muitos casos, assustadora, o estudo das palavra e obras de Deus passou a ser garantido pelos patriarcas bíblicos, dos quais há muita informação não somente na Bíblia, mas na literatura teológica. Esses homens detinham conhecimento e ensinavam suas casas, as quais representavam as famílias e os demais agregados. Esse modelo era, portanto, a continuação do Jardim; cabia ao patriarca entender a vontade de Deus e utilizar o livro da natureza para elucidar o Seu caráter.

A era patriarcal deu sequência ao estabelecimento da nação israelita, através da qual Deus deveria ser dado a conhecer para o mundo. O plano de Deus para Israel era que as nações da Terra deveriam observar o modelo de desenvolvimento sócio-religioso e, com admiração, se chegariam a Israel e ao seu Deus. Neste aspecto, Israel era o Jardim ou o modelo que deveria provocar um efeito multiplicador cujo objetivo era encher a Terra. Todavia, Israel não cumpriu cabalmente seu papel, mas, não se pode dizer que não influenciou o mundo. Todo o sistema moral que está em vigência, pelo menos no mundo ocidental, tem como pano de fundo os princípios judaicos. Além disso, o pensamento filosófico originado a partir do século XVIII tem o protagonismo judaico o qual influenciou profundamente o comportamento sócio-político do mundo. Todavia, o conhecimento de Deus e da excelência do Seu caráter para a salvação dos homens deixou de ser ensinado, uma vez que os israelitas se fecharam em si mesmos, com sentimentos de insegurança, em muitos casos, ou de exclusivismo em outros.

O Judaísmo foi substituído, como modelo, pelo cristianismo. O jardim muda de lugar e, mediante Cristo, podemos contemplar a face de Deus e ter comunhão com Ele através da cópia do proceder de Jesus. Este nos permite contemplar a Deus. A "iluminação do conhecimento da glória de Deus" é revelada "na face de Jesus Cristo". II Cor. 4:6. Deus está "em Cristo reconciliando consigo o mundo". II Cor. 5:19. Assim, o mundo que não mais enxergava a excelência moral de Deus, através de Cristo passa a ter um portal para o estudo do caráter daquele que comanda o universo.

O estabelecimento da igreja cristã foi o prosseguimento do plano divino que começou no Éden. A igreja cristã é uma escola com salas de aulas onde a imagem e glória de Deus deveria ser plasmada nos homens. Todas as faculdades do espírito e da alma deveriam ser treinadas para refletirem a glória do Criador. Favorecidos com elevados dotes espirituais e mentais, os cristãos foram feitos um pouco menores do que os anjos (Heb. 2:7), para que não somente pudessem discernir as maravilhas do universo visível, mas também compreender as responsabilidades e obrigações morais. A igreja cristã tal como concebida por Deus ou o Jardim do Éden é uma representação do que Deus deseja se torne a Terra toda; e é Seu intuito que à medida que a família cristã se torne mais numerosa, estabeleça outras igrejas semelhantes à que Ele havia dado. Dessa maneira, com o correr do tempo, a Terra toda será ocupada com lares e escolas em que as palavras e obras de Deus sejam estudadas e onde os estudantes mais e mais ficarão em condições de refletir a luz do conhecimento de Sua glória.

As assertivas acima não refletem a realidade religiosa cristã. As comunidades religiosas não estão interessadas em princípios morais elevados, mas, em encontrar um protocolo que lhes permita ter os benefícios das bênçãos sem o compromisso moral consequente. Buscam prosperidade material com fins egoístas, uma situação moral oposta àquela encontrada no Jardim do Éden. Plantar novas igrejas é para o mundo cristão sinônimo de prosperidade econômica e não de prosperidade moral. Há um aparente empenho no conhecimento da glória de Deus, mas, na realidade há grandes interesses humanos.

Em 1844 Deus fez mais um cometimento para manter um jardim no mundo. Com a proclamação das três mensagens angélicas, portanto, no devido tempo profético aparece o movimento Adventista, justamente após o caos de fé provocado pelo grande desapontamento. Aos adventistas foi dada a missão de proclamar que o estudo do caráter de Deus é tarefa urgente, pois chegou o tempo em que Deus julgará a Terra. 

Estamos vivendo uma verdadeira confusão (Babilônia) religiosa, onde proliferam igrejas cristãs de múltiplos matizes e méritos, boa parte nascidas por presunções egoístas. Mas, é hora de buscarmos a excelência moral pois a avalanche de corrupção que está se sobrepondo ao mundo busca tragar a todos. Igrejas cristãs são Jardins escolas cuja finalidade é encher a Terra com a luz do conhecimento da glória de Deus e, por esse motivo, são bastiões ou cidadelas de excelência moral, uma contracultura do bem para que a glória de Deus cubra a Terra.

Em seu sexagésimo aniversário, a Igreja Adventista do 7º Dia da Cachoeirinha precisa assumir protagonismo no antagonismo ao rebaixamento moral do nosso tempo. Tal como cidadela da excelência e da equidade, deve nossa comunidade anunciar as virtudes daquele nos tirou das trevas e nos colocou em sua maravilhosa luz. É nosso dever estabelecer a justiça, a paz e a igualdade de oportunidades, uma consequência de nossa defesa da guarda da lei de Deus. Não deveríamos sair dessa reunião sem um pacto pela alegria mais elevada por um mais dilatado serviço no mundo.   Refletindo, como um espelho, a glória do Senhor, somos transformados de glória em glória." II Cor. 3:18.

sábado, 22 de agosto de 2015

O sonho dos feixes curvados

Em Gênesis 37:5-8 a Bíblia nos conta sobre um sonho que José, filho de Jacó, tivera e que narrara aos seus familiares: “Teve José um sonho, que contou a seus irmãos; por isso o odiaram ainda mais. E disse-lhes: Ouvi, peço-vos, este sonho, que tenho sonhado: Eis que estávamos atando feixes no meio do campo, e eis que o meu molho se levantava, e também ficava em pé, e eis que os vossos feixes o rodeavam, e se inclinavam ao meu molho. Então lhe disseram seus irmãos: Tu, pois, deveras reinarás sobre nós? Tu deveras terás domínio sobre nós? Por isso ainda mais o odiavam por seus sonhos e por suas palavras”.

No domínio da teologia judaica há um aviso importante sobre os fatos narrados na Torá. Dizem os sábios que se a Torá diz, então deve-se prestar muita atenção. Baseados nessa premissa vamos analisar um pouco do sonho acima.

Na verdade, o capítulo 37 de Gênesis fala de dois sonhos; um ligado ao trabalho no campo, ou seja, às coisas deste mundo e outro onde aparecem o Sol a Lua e onze estrelas, nos informando que as coisas terrenas estão ligadas às coisas dos céus. Do mesmo modo, no sonho de Jacó, era vista uma escada que ligava a Terra ao Céu. Estes sonhos parecem informar que os acontecimentos terrenos não estão desligados da percepção celeste.  No entanto, vamos focar no primeiro sonho de José e tentar ver o que podemos aprender ali e trazer para nossos dias.

O sonho começa com a aproximação de hastes que estavam separadas e foram atadas em feixes. O sonho começa com trabalho, e por este motivo, é útil entendermos o que significa trabalho. Avodá é a palavra que aparece, e esta significa o esforço envolvido no serviço a Deus. O serviço a Deus deve envolver ações físicas que levam à santidade. Deve haver diligente trabalho para satisfazer as exigências da Lei.  Veja bem, no domínio profano não há esforço para o serviço a Deus, há esforço para o serviço egoísta, e no caso do sonho de José todos trabalhavam para juntar feixes.

O Rabi Jonathan Sacks, em sua obra Lições da Torá, narra um episódio sobre o Rebe Maharash, que discutia com os seus dois filhos pequenos sobre as virtudes do judeu, e para demonstrar o seu argumento, ele perguntou ao seu criado: “Bentsion (filho de Sião) – você comeu? Sim, respondeu o servo. Você comeu bem? Estou satisfeito, graças a Deus. Por que você comeu? Para viver. Por que você vive? Para ser um judeu e para fazer aquilo que Deus deseja. Ao dizer isto, o servo suspirou”. Mais tarde o Rebe Maharash disse aos seus filhos: “Vejam, um judeu tem uma intenção espiritual em toda ação física, os próprios atos são espiritualizados.

A história acima traz luz à mensagem contida no sonho de José. O fato de estarem trabalhando e atando feixes significa que num mundo separado de Deus, num mundo de ocultação que é como um campo, as coisas e as pessoas crescem separadas. Esta é a orientação do inimigo, a orientação do ego, que cria a dessemelhança e a separação. No entanto, o cristão deve ir além disso, atando feixes, ou seja, atando como feixes as muitas facetas do próprio ser unificando-as num serviço transcendente ao ego e a separação, num serviço a Deus. Esta é uma tarefa pessoal e intransferível, a qual deve ser auxiliada pela educação, pelo estudo, pela dedicação no aprimoramento moral. A semelhança do servo do Rebe Maharash, que comia para ter saúde e assim servir a Deus, temos obrigação de prover nosso desenvolvimento num mundo físico para poder atuar no serviço a Deus, atando os feixes.

Há ainda uma perspectiva coletiva. O realizar feixes significa que ao cristão foi destinada a tarefa de juntar os dispersos, os homens a serviço do mundo, a serviço do ego, e junta-los em feixes tornando-os unidos para que ao invés de membros individuais atuem em harmonia na direção a um objetivo adequado. Chamamos a atenção para o propósito da Igreja de Deus. Em Romanos 12:3-11 lemos: ”Porque pela graça que me é dada, digo a cada um dentre vós que não pense de si mesmo além do que convém; antes, pense com moderação, conforme a medida da fé que Deus repartiu a cada um. Porque assim como em um corpo temos muitos membros, e nem todos os membros têm a mesma operação, assim nós, que somos muitos, somos um só corpo em Cristo, mas individualmente somos membros uns dos outros. De modo que, tendo diferentes dons, segundo a graça que nos é dada, se é profecia, seja ela segundo a medida da fé; se é ministério, seja em ministrar; se é ensinar, haja dedicação ao ensino; ou o que exorta, use esse dom em exortar; o que reparte, faça-o com liberalidade; o que preside, com cuidado; o que exercita misericórdia, com alegria. O amor seja não fingido. Aborrecei o mal e apegai-vos ao bem. Amai-vos cordialmente uns aos outros com amor fraternal, preferindo-vos em honra uns aos outros. Não sejais vagarosos no cuidado; sede fervorosos no espírito, servindo ao Senhor”.

Cabe aos líderes religiosos trabalhar para que os feixes sejam atados. O pastor de uma comunidade, o pai de uma família, todos devem trabalhar para que os feixes estejam construídos. No entanto, a segunda parte do sonho é ainda mais importante. Os feixes depois de atados e adicionados curvaram-se diante do molho de José. Estamos falando do aprimoramento no serviço; o ato de curvar-se ou submeter-se àquilo que é ainda mais elevado do que nós. Os cristãos formam uma unidade como se fossem membros de um mesmo corpo. Assim como um corpo é coordenado somente quando seus músculos obedecem ou respondem às ordens do sistema nervoso central, também a saúde espiritual dos cristãos depende de sua submissão à cabeça que é Cristo. É Ele quem instrui aos cristãos para atuarem em harmonia, em direção ao serviço adequado. De fato, sem a unificação e a submissão jamais poderão os cristãos realizarem o serviço a Deus.


A lição importante extraída desse primeiro sonho de José é que primeiro se deverá atar feixes e depois a submissão.