terça-feira, 30 de maio de 2023

O conflito: pressupostos


A semana da criação é um dos acontecimentos onde vamos buscar argumentos para racionalizar sobre as razões do conflito cósmico que está em andamento no âmbito espiritual, mas, que tem um agudo reflexo no ambiente físico. Na semana da criação podemos enxergar determinados motivos que levaram Lúcifer a questionar o governo de Jesus.

O conhecimento científico atual parte do princípio de que todas as coisas inanimadas existem desde sempre. De acordo com esse conhecimento, o universo definido e conhecido pelo homem é produto de uma grande explosão, uma ideia que surgiu por causa da sensação causada pelos instrumentos óticos, feitos pelos próprios homens, de que o universo, ou seja, as galáxias que podemos ver, estão se afastando umas das outras. Tal sensação provocou a pergunta: por que estão se afastando? A hipótese resposta veio em virtude da experiência científica humana de que todo movimento somente pode ser iniciado por alguma força externa ao objeto em movimento. Logo, somente uma energia gigantesca movimentaria as galáxias numa trajetória centrífuga: uma explosão. Esta explosão é conhecida como Big Bang. As galáxias já existiam. O padre católico Georges Lemaître, astrônomo e físico belga, foi o primeiro a teorizar que o afastamento das galáxias próximas podia ser explicado pela expansão do universo, hipótese que seria posteriormente confirmada por observações feitas por Edwin Hubble. Lemaître propôs em 1927 o que ficou conhecido como teoria da origem do universo do Big Bang, que ele chamava de "hipótese do átomo primordial". Em 1929, no Observatório Mt. Wilson, na Califórnia, Edwin Hubble descobriu que as galáxias estavam se afastando em alta velocidade. Ele desconhecia, como a maioria das pessoas, a teoria de Lemaitre, de 1927. Mas Lemaitre usou a descoberta dramática de Hubble como evidência para sua teoria. Foi fácil. Se imaginarmos as galáxias correndo para longe de nós como um filme, basta executar o filme para trás. Depois de um certo tempo, todas essas galáxias se juntarão. Lemaitre propôs a ideia de que havia um átomo primordial que continha toda a matéria do universo. Portanto, a ideia de um Deus criador não poderia explicar a mecânica do universo.

Por outro lado, outro padre católico Gregor Johann Mendel, austríaco, apresenta em 1865, em dois encontros da Sociedade de História Natural de Brno, República Tcheca, as leis da hereditariedade, hoje chamadas Leis de Mendel, que regem a transmissão dos caracteres hereditários. As Leis de Mendel serviram como base à síntese evolutiva moderna, também conhecida como síntese moderna, síntese evolutiva, síntese neodarwiniana e neodarwinismo, a qual geralmente denota a combinação da teoria da evolução de Charles Darwin (Origem das Espécies) e Alfred Russel Wallace ("On the Tendency of Varieties to Depart Indefinitely From the Original Type" (Sobre a Tendência das Variedades de se Separarem Indefinidamente do Tipo Original) - 1858 )), às ideias mendelianas de hereditariedade em uma estrutura matemática conjunta. Julian Huxley cunhou o termo "síntese moderna" em seu livro de 1942, “Evolution: The Modern Synthesis”. As ideias do século XIX de seleção natural e genética Mendeliana foram unidas à genética populacional, no início do século XX. A síntese moderna também abordou a relação entre a macro evolução e a microevolução. Todas essas ideias pretendem que a natureza seja sua própria originadora, assim, a premissa de Gênesis 1, “No princípio...Deus”, não se sustenta. É muito chamativo ver que os padres católicos estão envolvidos na destruição da criação de Deus, sendo que a igreja católica chama para si a liderança cristã. Obviamente, há uma contradição, mas, na verdade, a igreja de Roma sempre se opôs a Deus, sempre buscou enterrar a Bíblia.

Se olharmos o relato bíblico veremos Deus afirmando ser o criador de todo universo visível e o invisível. Na Bíblia, sempre que Deus fala temos um oráculo, ou uma resposta divina em virtude de uma consulta. Em Deuteronômio 4:19 está ratificada a criação: “Que não levantes os teus olhos aos céus e vejas o sol, e a lua, e as estrelas, todo o exército dos céus; e sejas impelido a que te inclines perante eles, e sirvas àqueles que o SENHOR teu Deus repartiu a todos os povos debaixo de todos os céus”. Outra vez diz o salmista: “Quando vejo os teus céus, obra dos teus dedos, a lua e as estrelas que preparaste [...]” (Salmos 8:3). O profeta Zacarias afirma: “PESO da palavra do SENHOR sobre Israel: Fala o SENHOR, o que estende o céu, e que funda a terra, e que forma o espírito do homem dentro dele” (Zacarias 12:1). Mas, é o profeta Isaias (45:12) quem faz a mais autoritativa das afirmações sobre a autoria Deus em relação à Terra e ao universo: “Eu fiz a terra, e criei nela o homem; eu o fiz; as minhas mãos estenderam os céus, e a todos os seus exércitos dei as minhas ordens”.

Lúcifer presenciou muitos atos criadores de Deus, então, por qual causa ele propõe anular a criação? A escritora Ellen White informa que “[...]começou a imaginar que sua sabedoria (Lúcifer) não derivava de Deus, sendo antes inerente a ele próprio, e que ele era tão digno quanto Deus de receber honra e poder” (The Signs of the Times, 18 de Setembro de 1893). Ora, se a inteligência era inata, logo, sobre os objetos físicos, Lúcifer poderia propor que não devem a sua existência a um criador, mas, sempre existiram “per si”, sem ligação com nenhuma outra coisa. Se os objetos inanimados ou físicos não foram criados, então, a soberania de Deus poderia ser substituída por qualquer outra, uma vez que o universo físico existe por si mesmo. Esta ideia o levou a pretender o lugar de Jesus. Provavelmente, no Éden, quando conversou com Eva, deve ter mentido sobre as origens.  É provável que tenha oferecido posses de objetos físicos, sem os quais não é crível manter poder, uma vez que satanás oferece a chance para a humanidade ser como Deus.

Quando analisamos os dois sistemas que agora estão em conflito, qual sejam, o da competição versus o da cooperação, o primeiro, aquele originado por Lúcifer, propõe poder, sendo que poder se sustenta da força dos bens físicos e das inteligências. Para estar em competição, é preciso força para conquistar bens, portanto, objetos físicos são imprescindíveis, eis a base da cobiça e do egoísmo.

No sistema da cooperação os objetos físicos têm empregabilidade para o bem-estar da vida, e somente para isto. Olhando de perto a semana da criação, logo depreende-se que todo arcabouço físico foi constituído para dar sustentabilidade aos domínios onde a vida deveria existir e estar apoiada. Toda riqueza mineral e química era para sustentar a vida. Tudo estava no chão, terra ou na porção seca, e na água, ambos os domínios foram tornados apropriados para vida. Do mesmo modo, a vida e sua amplíssima diversidade foi pensada para cooperar entre si e com o homem, a coroa da criação, e este deveria reinar sobre todo sistema de cooperação, sendo o modelo moral para o planeta. Assim, os seres vivos criados deveriam ser uma benção para si mesmos e para os outros, um sistema elevado de altruísmo cooperativo, um louvor ao criador. Aos homens foi concedida capacidade mental que, empregada no rumo da cooperação, iria tornar o mundo um lugar onde seres vivos seriam um espelho de Deus; generosos, nobres e caridosos ao doar a outros. No sistema da cooperação, as coisas ou objetos físicos são apenas um depósito de recursos prontos para serem utilizados instantaneamente para o benefício de todos.

No sistema da competição, objetos físicos têm existência casual e devem ser utilizados para acumular força para superar concorrentes. Se Deus não criou, então qualquer que reunir poder pode liderar.

1.      As bases dos sistemas religiosos e os objetos físicos nos sistemas religiosos

A Bíblia informa que no Éden, a proposta do sistema de competição apresentada pela serpente pareceu bem para o primeiro casal, portanto, aceitaram estar no modelo moral da competição. Em tal conjuntura, cada qual deverá lutar para obter estabilidade e segurança. Logo surgiram líderes que se impunham pela força e capacidade cumulativa. Cain é um exemplo, fundou a primeira cidade. Tais chefes ofereciam pseudoproteção, desde que os outros se submetessem às suas demandas. Se na política foi assim, na religião não foi diferente. Longe de Deus, a humanidade criou sistemas religiosos respaldados no modelo competitivo. Os deuses competiam entre si, e os seus seguidores competiam entre si e pela atenção dos deuses, pelos favores, sendo que aqueles que tinham mais poder eram sempre os favorecidos. 

Com o passar dos tempos, a humanidade entendeu que se conectasse o poder político com o poder religioso, poderia garantir a melhor forma de estabilidade. A primeira vez que apareceu esse modelo foi na Babilônia pós-diluviana, a cidade fundada por Ninrode, a qual utilizando os recursos do estado construiu uma torre para desafiar Deus. Babilônia era o auge da arrogância humana. Esta cidade queria submeter todas as demais e, através da inteligência humana, dominar a natureza. A torre estava pensada para ser um observatório que desvelasse o conhecimento para entender as causas das chuvas. Assim, poderiam evitar novas catástrofes. Lúcifer incentivou, em todas as eras, homens à rebelião contra o sistema de Deus. Sempre está produzindo conhecimento e metodologias para demonstrar as vantagens da competição. Tais tecnologias são as armas das nações. O processo civilizatório entende que as nações competitivas e com altas taxas cognitivas suplantam dificuldades e sobrevivem as ameaças do ambiente natural. Deus não tem nada a ver com a dinâmica natural planetária, não tem participação política e não interfere no comércio.

Para os que teimam em crer que há uma onipresença incógnita, ou seja, aos que sentem que há um criador no universo, Lúcifer admitiu um sistema religioso que está construído sobre a areia da competição. Incentivou a ascensão de deuses imaginados pelos humanos e que se parecem com os humanos. Neste ambiente não pode haver progresso moral. Os deuses se parecem com os homens. Não havendo modelos mais altos e mais nobres que o homem, logo, a degradação é o inevitável caminho, pois sem modelos melhores, as paixões humanas se impõem.

Na era cristã, o inimigo foi introduzindo aspectos pagãos e a igreja foi degradando. A ausência de Deus, o criador, tornou possível o rebaixamento moral. Na medida em que Deus foi sendo afastado, os homens passaram a criar doutrinas espúrias de salvação, baseadas na experiência com a competição, fato que no jargão cristão significa salvação por obras. Pura competição! Quem pode mais tem melhores chances. É aí que aparece o comércio da fé. A segurança, neste ambiente, não está em confiar em Deus, mas, em praticar ações que chamem a atenção da divindade e carreiem méritos aos que podem obter méritos. Objetos físicos doados a Deus são a cristalização da fé. Por essa razão, pessoas fazem doações ao sistema religioso que, por sua vez, torna claro que quanto mais é doado ao sistema religioso, mais mérito com Deus. Tal prática não é domínio somente da igreja romana, mas, do sistema evangélico também. A igreja romana, por exemplo, vende indulgências; venda de perdão de pecados. Tais heresias quase foram aceitas planetariamente. Porém, um grupo de adeptos do cristianismo se colocou em oposição, entendendo que objetos físicos nada têm a ver com a fé, ou seja, com a obediência a Deus. Por esse motivo, aconteceu a reforma protestante. Porém, o inimigo tornou a agir no seio do protestantismo que operava para salvar os enganados por Roma. Protestantes queriam atrair romanistas e foram aceitando práticas romanas, causando deriva moral e religiosa. Do mesmo modo, adeptos do protestantismo discordaram das posições progressistas protestantes e foram levados a criar mais núcleos reformadores, sendo esta a razão das muitas igrejas protestantes hoje no cenário religioso. Porém, todas as igrejas evangélicas estão no sistema competitivo e buscam imprimir nos adeptos o ideal de agradar a Deus com doações, rituais, festas, programas, reuniões etc. quem mais agradar a Deus, mais mérito terá com Ele. Este erro tem permeado a racionalidade religiosa do protestantismo.

O sistema evangélico atual está mesclado com o deísmo; Deus criou, porém não participa da dinâmica terrestre, tudo acontece e segue seu rumo aleatório, Deus parece estar distante. Por esse motivo, o sistema evangélico busca coligar o sistema religioso dos méritos, ao poder político do Estado, uma vez que estamos no mundo. Obviamente, inexiste a noção de que este mundo é agora do Senhor Jesus, a quem fora dado todo poder no Céu e na Terra (Judas 25). As igrejas protestantes (agora chamadas de evangélicas) têm procurado garantir uma fatia do poder temporal e da riqueza representada por objetos físicos. Elegem representantes políticos para assegurar legislação que facilite a dimensão espiritual, aliando o acúmulo de bens materiais. O significado deste raciocínio é obvio. Para os evangélicos Deus precisa do Estado para exercer seu poder. Logo, os evangélicos são incrédulos. A união religião + Estado é uma afronta ao Deus todo poderoso. Mesmo cristãos fundamentalistas apostam fichas em pensamentos socialistas, acreditando que o Estado garantirá justiça social com mais probabilidade de sucesso na distribuição das riquezas, dos objetos físicos, sendo que estes garantem segurança que não pode existir somente com o apoio do poder religioso.

2.      O chamado de Deus no tempo do fim

Em Apocalipse 18:4 há uma advertência explicita pela voz do próprio Deus Altíssimo: “E ouvi outra voz do céu, que dizia: Sai dela, povo meu, para que não sejas participante dos seus pecados, e para que não incorras nas suas pragas”.

O sistema babilônico cheio de falsas doutrinas, significando que há conjunto coerente de ideias fundamentais, mas erradas, a serem transmitidas, ensinadas, deve ser evitado. As ideias erradas, mas, fundamentais são especificamente relativas ao falseamento do caráter de Deus. Em que medida isso se dará?

Em 2 Tessalonicenses 2:8-10, Paulo demonstra como se dará dizendo:” E então será revelado o iníquo, a quem o Senhor desfará pelo assopro da sua boca, e aniquilará pelo esplendor da sua vinda; a esse cuja vinda é segundo a eficácia de Satanás, com todo o poder, e sinais e prodígios de mentira, e com todo o engano da injustiça para os que perecem, porque não receberam o amor da verdade para se salvarem”. A questão que deve ser apontada é o poder para operar sinais que trarão as ideias erradas e fundamentais, enganos da injustiça. Aqui está o mistério: fará com que crentes estejam nas igrejas evangélicas, mas, não pratiquem a justiça. Quer significar, estarão na prática da injustiça pensando que servem a Deus! E como será isso possível?

Jesus informou que a “a palavra de Deus é a verdade”. Logo, será necessário que aqueles que sinceramente querem servir a Deus estejam familiarizados com a Palavra de Deus; isto somente acontece se a estudarem e a praticarem no dia a dia. A palavra de Deus, segundo o evangelho de João é o próprio Jesus: “E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade” (João 1:14). De outro lado, Jesus mesmo afirmou ser a verdade: “Disse-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim” (João 14:6). A lógica nos leva a perguntar como Jesus, que era a verdade, se comportava no seu viver como humano?

A resposta está na seguinte citação: “Como Deus ungiu a Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e com virtude; o qual andou fazendo bem, e curando a todos os oprimidos do diabo, porque Deus era com ele” (Atos 10:38). Ora, se o verbo ou palavra é Jesus, e se o comportamento dele deverá ser o nosso, então, depois de aceitarmos a Jesus, ou a verdade revelada ao mundo e não apresentarmos os efeitos santificadores da verdade que é Jesus, em nosso próprio caráter; se não formos mais bondosos de coração, se não praticarmos a misericórdia, se não formos mais corteses, ou mais possuídos por ternura e amor, se apresentarmos ao mundo o que Jesus trouxe ao mundo, se nossas maneiras forem grosseiras, se sempre somos ásperos com nossos semelhantes, então nosso egoísmo não estará diminuído e ainda estamos no mundo competitivo do inimigo, destituídos da glória de Deus. A escritora Ellen White diz que “o Senhor não se agrada com nossas maneiras grosseiras” (Para Conhecê-lo, p. 306).

É importante, agora, entender que após a ressureição de Jesus foi estabelecido o chamado Reino da Graça. Jesus iniciou esse Reino quando, no caminho de Emaús, encontra dois discípulos e ouvindo a sua conversa percebe a grande frustração por causa da crucificação do seu Mestre. Eles não tinham entendido as profecias das setenta semanas, haviam focado sua atenção na chegada do Messias e por insistência dos líderes religiosos, esperavam o reino temporal do Messias. Esqueceram que a profecia informava da morte de Jesus. Então, Jesus passa a argumentar sobre as profecias que falavam do Messias, começando por Moisés, foi desdobrando toda informação que culminava com a morte e ressurreição do Messias. Ao abrir o entendimento dos discípulos sobre as profecias, instala o Reina da Graça.

A Bíblia, positivamente, sempre explicou a graça. No livro de Esdras está dito: “E agora, por um pequeno momento, se manifestou a graça da parte do SENHOR, nosso Deus,[...] para nos iluminar os olhos, ó Deus nosso, e para nos dar um pouco de vida na nossa servidão” (Esdras 9:8). O apóstolo Pedro admoesta dizendo: “Antes crescei na graça e conhecimento de nosso Senhor e Salvador, Jesus Cristo” (2 Pedro 3:18). Em ambos os textos a graça é entendida como conhecimento que ilumina os olhos. No livro Atos dos Apóstolos há uma ordenança para que estejamos dedicados aos cuidados especiais de Deus e da palavra da sua graça, a qual tem poder para nos edificar e dar herança entre todos os que são santificados (Atos 20:32).  Assim, há somente uma força que pode nos edificar, esta força é o conhecimento.  Ainda em Atos 13:43 somos recomendados a prosseguir perseverando na graça de Deus. Pedro também insiste em que os profetas do Antigo Testamento falaram acerca da graça que a nós foi destinada (1 Pedro 1:10). Novamente, no livro de Romanos, Paulo liga graça à justiça. Ora, sabemos que Jesus é chamado o sol da justiça. Logo, Jesus veio trazer e desdobrar os ensinamentos do Antigo Testamento que mostram a ética celeste, mas que foi obliterada por tradições humanas.

O sistema evangélico tem sido engano por satanás, o qual os confunde na compreensão do seja a graça.  O sistema satânico de Babilônia traz para dentro das igrejas cristãs um comportamento anticristo. Este engano vem travestido com experiências místicas carregadas com egoísmo, onde as sensações produzidas pela racionalidade humana produzem cultos que motivam a adoração ao próprio homem, em virtude de expressarem a satisfação da alma de adoradores cujo espírito está repleto de egoísmo e desejos materialistas, ou seja, buscam prosperidade material e não justiça ética demonstrada por Cristo. Neste contexto, repetem-se palestras de autoajuda, programas divertidos com muita música moderna onde o ritmo prepondera sobre a melodia e a harmonia, resultando em ativação dos instintos carnais, porém, tudo está justificado como para melhorar os crentes e atrair os incrédulos. Há também programas onde se cobram para assistir e onde ocorrem vendas de serviços e objetos que pretendem ser para melhorar a atratividade às reuniões, entre outros objetivos egoistas. Os objetos físicos ou situações emotivas que levam a confiança para o materialismo tem sido a tônica, o fim. Acreditam em psicólogos, em motivações para prosperidade, criam instâncias para melhorar ou superar situações criadas por desobediência aos comandos divinos para a pratica de obras de justiça. Poucas ou ausentes são as ocasiões em que o estudo da vida de Jesus é conduzido para que seja alcançado padrão moral mais nobre do qual resultará a prosperidade. Parece que não há sabedoria. No entanto, por mais que pareça ser fraca e defeituosa, a igreja terá sempre uma fração de pessoas que não podem ser enganadas. O sistema religioso que oferece segurança nos objetos é falso, por esse motivo, Deus nos convida a sair.

 

 

domingo, 7 de maio de 2023

Nossa entrada no futuro sem o pecado

 

A profecia das 2.300 tardes e manhãs guarda informações preciosas que podem esclarecer aspectos ainda pouco explorados por estudiosos e interessados. Um deles está ligado ao interesse divino em salvar. Não é apenas uma questão ligada à hegemonia do governo divino, mas, um interesse vertiginosamente crítico em demonstrar a todos que salvar pessoas está muito além de interesses menores ligados à dicotomia do ganhar ou perder, por exemplo.

Para compreender a profecia das 2.300 tardes e manhãs é necessário tomar a relação dia/ano que está explícita em Números 14:34 e Ezequiel 4:6. Com essa relação, pode-se dividir a profecia em duas partes: 70 semanas (490 anos) separadas para o povo judeu, segundo a explicação do anjo a Daniel. E se diminuirmos 490 de 2.300 sobram 1.810 anos, estes destinados aos cristãos. Depois dos 2.300 anos, o anjo explica que o santuário celeste seria purificado; seria iniciado o juízo final. 

Quando estudamos a primeira parte da profecia, os 490 anos dados ao povo judeu, vemos que Deus enviou os profetas Joel, Obadias, Ageu, Zacarias, os quais, no período pós-exílio advertiram os judeus sobre o dia do Senhor e quais seriam os cuidados para não serem achados em falta. No livro de Joel há um chamado: “Ainda assim, agora mesmo diz o SENHOR: Convertei-vos a mim de todo o vosso coração; e isso com jejuns, e com choro, e com pranto. E rasgai o vosso coração, e não as vossas vestes, e convertei-vos ao SENHOR vosso Deus; porque ele é misericordioso, e compassivo, e tardio em irar-se, e grande em benignidade, e se arrepende do mal” (Joel 2:12-13). Joel ainda anuncia eventos que estão muito no futuro; fala do escurecimento sol e da lua e da queda das estrelas. Também menciona a adesão dos gentios ao sistema de Deus. Os profetas Ageu e Zacarias fizeram profecias que elevaram o moral do povo incitando-os a confiarem em Deus. As mensagens de Ageu foram idealizadas para despertar o abatido espírito do povo e inspirá-lo a realizar grandes coisas para Deus.

Estas situações históricas evidenciam a preocupação específica de Deus querendo tirar o povo de uma escravidão moral absurda e de uma ineficácia intelectual que os fazia andar para trás. Não era apenas o desejo de salvá-los, mas, além disso, a vontade de levá-los a um patamar de ação e de realizações próprias, ainda mais superior. É importante que se veja o destino pensado por Deus à família humana. Haviam sido criados para grandes consecuções, seu destino era a glória de Deus, ou seja, representar a Deus, logo, a obra de Deus não é somente salvar, mas, educar para realizações superiores.

Voltando às 70 semanas destinadas aos judeus (490 anos) na profecia das 2.300 tardes e manhãs, verificamos que nesse período o povo recebeu avisos, admoestações, súplicas para arrependerem-se, tiveram informações sobre como Deus trataria seus inimigos, se permanecessem fiéis, e qual deveria ser o seu comportamento diante de Deus. No final das 70 semanas aparece o Messias, o ungido que vai para o batismo e inicia seu ministério. Jesus passa a demonstrar, per si, o caráter de Deus. Disse ele: “quem vê a mim vê o Pai”. Assim, por contraste, curando as mazelas humanas, quer fossem problemas morais resolvidos através do perdão de pecados, quer fossem problemas físicos, curando doenças, Deus expõe a crueldade de satanás em oposição à bondade de Deus.

Aos judeus, as demonstrações do interesse divino no soerguimento da família humana para que alcançassem seu destino glorioso, duraram quase meio milênio. No final desse período, veio o esforço para explicar o processo salvífico, com ministração de aulas pessoais realizadas pelo próprio Messias, foi exaustivo. A principal instrução era o método para elevar vidas a um patamar não mais dependente de ajuda, mas, tornando-as vidas fomentadoras de benção aos demais, método lecionado diretamente por Jesus. Israel tinha ao seu favor todas as disposições divinas para ajudá-los. Fora estabelecida uma aliança. Adicionalmente, receberam dotações intelectuais que os capacitou para tornarem-se modelos ao mundo. Então, por que os judeus não atenderam?

A escritora Hellen White diz: “Foram tomadas amplas providências para que o homem finito e decaído possa estar tão ligado com Deus por meio da mesma Fonte pela qual Cristo venceu em Sua natureza humana [...]. É nosso privilégio possuir os mais altos atributos de Seu Ser, se por meio das providências tomadas por Ele nos apropriarmos dessas bênçãos e diligentemente cultivarmos o bem em lugar do mal. Temos razão, consciência, memória, vontade, afeições — todos os atributos que um ser humano pode possuir. Mediante a providência tomada quando Deus e o Filho de Deus fizeram um concerto para libertar o homem da escravidão de Satanás, foram providos todos os meios para que a natureza humana se unisse com a Sua natureza divina” (Mensagens Escolhidas v.3 p.130). Esta citação indica que não há razão à rejeição judaica.

Deus dotou a família humana com o atributo da razão. Então, todos temos duas dimensões relativas à razão: racionalidade e racionalização. A racionalidade, segundo estudiosos, nos habilita a sistematizar tudo o que nos rodeia e criar modelos que nos permitem pressentir, organizar colocando nexos em tudo que vemos. A racionalização significa a utilização de metodologias pré-estabelecidas para testar e comprovar o que fundamentamos através da nossa racionalidade; o fazemos através da dedução ou da indução. Muito do que submetemos à racionalização pode conter erros ou equívocos, pois partimos de premissas que, se não estiveram corretas, ou não nascerem de verdades incontestáveis, desembocarão inevitavelmente em erros. Os mestres judeus interpretavam as profecias relativas ao Messias através das tradições criadas pelos próprios sábios judaicos e não da interpretação dos profetas. Há na literatura humanística a figura do ‘imprinting’, significando que nascemos com o cérebro em branco, as primeiras impressões causadas pelos pais modelarão, de forma indelével, nossa maneira de ver e interpretar o mundo. O imprinting é um limite difícil de transpor, um impedimento intelectual que exerce poder sobre o que racionalizamos. O imprinting dos judeus era um Messias materialista e temporal que governaria com mão de ferro e conquistaria todos os opressores do povo judeu. Tal imprinting impediu de ver o Messias encarnado e homem de dores, conforme descreveu o profeta Isaías.

Conforme já mencionado, 2.300 anos menos 490 dado aos judeus, deixam 1.810 para a igreja cristã (judeus convertidos ao cristianismo + não judeus também convertidos ou gentios) que, segundo o anjo Gabriel disse ao profeta Daniel (Daniel 8 e 9), encerraram em 1844. Depois desta data, o Santuário seria purificado. Pelos cálculos percebemos que o período dado aos não judeus, ou seja, aos cristãos, é ainda mais elástico do que o que fora dado aos judeus. A igreja cristã passou por muitas provas e aflições, mas, já contava com o período histórico do Messias, que se tronara o modelo celeste, o Deus conosco, e ainda deixou o testemunho dos apóstolos e, adicionado a isto, ao longo da idade média e idade moderna tivemos o exemplo dos reformadores. O céu tomou providências de todas as ordens para que os cristãos pudessem aprimorar a sua própria experiência; ofereceu ajuda celeste adicionalmente às profecias marcadas pela cronologia histórica. “Fazemos parte da grande teia da humanidade, e mútua influência passa de um para outro, não somente na igreja, mas a família no Céu e a família sobre a Terra se unem, a fim de que Cristo Se torne um poder no mundo. Todas as joias da verdade transmitidas a patriarcas e profetas, que se têm acumulado no decorrer dos séculos e de geração a geração, devem ser reunidas como depósitos hereditários” (Hellen White, Este dia com Deus, 10 de junho).

Para os cristãos está dada a maior oportunidade para que alcancemos níveis superiores de racionalidade. Juntamente com isto, o céu traçou metodologias para interpretação das profecias e dos rituais, ou seja, deixou padrões de racionalização com a finalidade de tronar, mais que possível, nossa entrada no futuro sem o pecado. A questão que deve ser urgentemente equacionada é: quais racionalizações estamos adotando e quais imprintings estão nos impedindo? Não estamos falando de quais teólogos seguir quantos as interpretações sobre as 2.300 tardes e manhãs, mas, de como estamos nos posicionando por saber sobre a cronologia, uma vez que sabemos dos tempos e que é chegada a hora do juízo. 

segunda-feira, 1 de maio de 2023

A racionalidade humana diante do juízo final

 


O dilúvio pode estar relacionado com a investigação sobre o caráter de Deus. Desde a criação e queda do homem, foi necessário um período de 1000 anos para expor, por contraste, o caráter do sistema de Deus e o do dragão. A degradação antediluviana já foi uma demonstração cabal dos resultados oriundos das ideias de anomia, professadas pelos anjos caídos e pelos homens.  Na verdade, a queda de Adão representava a adesão de milhares de membros da família humana, de todas as gerações, ao sistema rebelde. Assim, caíram um terço dos anjos e mais todas as gerações humanas. Uma multidão aderiu ao sistema da anomia. Porém, há outra multidão que se rebelou contra a anomia em todas a gerações.

É importante lembrar que Deus criou o homem com capacidades superiores em relação aos demais seres inteligentes já criados. O propósito da criação humana era que, depois de testada e aprovada, a família humana substituiria aos anjos caídos. Logo, a queda dos humanos significou a queda dos substitutos dos anjos caídos. Uma aparente vitória do líder da rebelião, porém, uma oportunidade para que os céus evidenciassem o raciocínio divino por trás da criação do universo. As razões por que o universo é o que é e não outra ideia.

Os patriarcas antediluvianos e seus familiares fiéis se rebelaram contra a queda humana, ou seja, contra o sistema da anomia. Conseguiram racionalizar que a anomia formava o caos moral e não liberdade. Caos moral significa sempre a supremacia do mais forte. No entanto, eram poucos (talvez não). Na vida dos antediluvianos Deus começou a demarcar a investigação para reivindicar a justiça dos seus pressupostos. A destruição dos antediluvianos foi um ato de justiça e misericórdia, uma vez que a anomia causava sofrimento prolongado por força da longevidade. Homicídios eram comuns por causa do descontrole e da cobiça. Podemos imaginar a quantidade de doenças advindas da anomia. Uma vida miserável, mas, a família humana estava apegada a essa vida. Somente oito pessoas entraram na arca de Noé.

Deus, novamente, demonstra a superioridade do amor, reduzindo a longevidade. A vida passa a ser breve, o sofrimento humano dura somente alguns anos, no entanto, há a promessa da vida eterna; o arco-íris da aliança garante. Não seria mais necessária outra destruição porque já estava evidenciado o resultado da anomia. Caos! Deus estabeleceu a excelência da ordem; a semana da criação evidencia tal distinção.

Depois, com as gerações de Noé, vem a parte do plano de Deus para preparar o epílogo histórico da reivindicação do caráter divino, agora, o plano da redenção chama-se juízo final. O evangelho eterno de Apocalipse 14 começa observando que o juízo é a via pela qual adoradores e rebeldes irão observar o desvelamento de Deus. Foi então aberto o caminho à explicitação da liberdade com a lei. Abraão foi início de sucessivas gerações que, rebelando-se contra a queda, seriam a raiz genética do Messias. Este, o Cristo, seria a encarnação da lei, o pensamento audível de Deus, o homem para demonstrar como seria Adão e a família humana se tivessem sido aprovados e finalmente se juntassem à família celeste.  Jesus disse: “[...] se aproxima o príncipe deste mundo, e nada tem em mim” (João 14:30), ou seja, nada havia em Jesus que estivesse relacionado com a anomia. Jesus foi a demonstração do caráter de Deus para o universo inteiro; a vida humana de Jesus foi a ministração de aulas sobre as razões do seu governo.  No caso humano, o aprendizado com Cristo era fundamental para que pudéssemos racionalizar sobre a superioridade da lei e, consequentemente, racionalizar sobre a inescusibilidade do pecado. Por Jesus, a família humana poderia alcançar um patamar superior de racionabilidade, o qual fora exigido a Adão para ser admitido na família celeste.

O ambiente criado por satanás na Terra encapsulou os humanos limitando-os quanto ao raciocínio. Interpôs limitações químicas através de alimentos impróprios (veja que a culinária eleva os piores alimentos como comportamentos dietéticos finos e elegantes, em alguns casos, imprescindíveis, tais como o uso da cafeína), além de oferecer adicionais químicos (drogas) que propõem melhoria mental, mas que tão somente diminuem a racionalidade. Todavia há, além disso, limitações intelectuais; teorias humanistas que conformam posturas sociais, criando uma inteligência coletiva castradora. Tais teorias limitam completamente a racionalidade, manietando compulsoriamente as compreensões de mundo dos homens. As teorias agem como lentes através das quais lemos o que nos cerca. Dependendo do poder de acuidade da lente, se verá mais ou menos. Há uma demonstração contemporânea dessa limitação intelectual através das narrativas cheias de ideologias que pautaram as discussões sobre os tratamentos para a última pandemia. Remédios eficazes e que foram reposicionados na literatura científica médica foram preteridos. Mesmo com a literatura disponível, a maioria da população aderiu às narrativas ideologizadas, e jamais buscaram racionalizar por força da consciência coletiva. Perderam-se vidas por falta de nível maior de racionalidade. E ainda se está perdendo vidas. Limitações intelectuais letais, más, a inaptidão racional reina.  Uma situação semelhante ocorre no âmbito do evangelho.

As limitações intelectuais e químicas impostas à família humana, desde a primeira conversa da serpente com a mulher, só podem ser vencidas através das Escrituras Sagradas. O nível mais elevado de racionalidade se alça obedecendo as ordenações de Deus.  A lei de Deus é a liberdade que se necessita. Há segredos universais que, embora pareçam herméticos, estão à disposição na Bíblia para quem os prescrutar. Deus anda assegura liberalmente a sabedoria àqueles que se sentem intelectualmente limitados (Tiago 1:5).

O juízo é a maneira prevista por Deus para levar, especialmente a família humana, a um nível racional alto, de modo a desvelar o verdadeiro fundamento do caráter e da obra de Deus. Tal nível de racionalidade permitirá aos humanos entender e valorar as razões pelas quais Deus fixou as leis tal como são e a entender o erro da anomia. Logo, o pecado estará claramente entendido como completamente absurdo, indesculpável. Portanto, gastar tempo estudando o juízo e as profecias incluídas no assunto das 2.300 tardes e manhãs é, para os humanos, seres com inteligência superior às demais inteligências em outros mundos, uma tarefa imperativa, sem a qual o posicionamento necessário para cooperação na reivindicação da misericórdia e da justiça inerentes a Deus estará prejudicado. Deus espera que racionalizemos de modo a apreender que Ele sempre esteve certo e que não havia nenhuma outra forma de governar o universo.

quarta-feira, 26 de abril de 2023

O juízo que culminará o término da história da odisseia humana


A clara noção do juízo final foi, desde sempre, dominada pelos povos antigos, mesmo entre os antediluvianos, a qual fora ensinada a Adão, primeiro patriarca, pelo próprio Deus. No pós- dilúvio, o juízo final era demonstrado e ensinado, especialmente, nos rituais judaicos do Yom kippur. Após a ascensão de Jesus, os pais da igreja apostólica enfatizaram a proximidade deste evento universal, conforme mostra o texto de Atos (24:24,25): “E alguns dias depois, vindo Félix com sua mulher Drusila, que era judia, mandou chamar a Paulo, e ouviu-o acerca da fé em Cristo. E, tratando ele da justiça, e da temperança, e do juízo vindouro, Félix, espavorido, respondeu: Por agora vai-te, e em tendo oportunidade te chamarei”.

 O juízo é entendido pelo cristianismo como sendo o evento que colocará o epílogo no conflito que, desde eras antes da criação da Terra acontece, tendo como protagonistas Jesus e o inimigo satanás, mas, envolve todo o universo dos seres inteligentes composto pelos terráqueos e os extras terráqueos.

O principal argumento da acusação do inimigo é a não justiça de Deus; alega que Deus obrigou as suas criaturas a uma estrutura legal que exige abnegação, mas, o próprio Deus não está submetido ao sistema legal, pois exige abnegação enquanto espera adoração. Segundo a escritora Hellen White, “Começou a insinuar dúvidas com respeito às leis que governavam os seres celestiais, dando a entender que, conquanto pudessem as leis ser necessárias para os habitantes dos mundos, não necessitavam de tais restrições os anjos, mais elevados por natureza, pois que sua sabedoria era um guia suficiente. Não eram eles seres que pudessem acarretar desonra a Deus; todos os seus pensamentos eram santos; não havia para eles maior possibilidade de errar do que para o próprio Deus” (Patriarcas e Profetas, p.10).

No parágrafo acima, há um sofisma difícil de ser observado. Ainda que o inimigo estivesse contra o sistema legal de Deus, ele admite que a lei era importante para os seres inteligentes, mas, não para os seres celestiais. Porém, no decorrer da história, depois da criação da Terra, e depois que o pecado atingiu a humanidade, mil anos depois da criação e da queda de Adão, a destruição pelo dilúvio foi necessária, uma vez que estava demonstrado que a ausência da lei causava escravidão. “Nem a relação do casamento nem os direitos de propriedade eram respeitados. Quem quer que cobiçasse as mulheres ou as posses de seu próximo, tomava-as pela força, e os homens exultavam com suas ações de violência” (Patriarcas e Profetas, p.55). Dito de outra forma, sem lei não há liberdade. Sem sistemas legais, dada a tendência ao egoísmo, alguém sempre subjugará alguém.

Na Bíblia, precisamente no livro de Apocalipse (14:6-7) sobressai um aviso sobre o juízo que culminará o término da história da odisseia humana, cheia de rebeldia e iniquidades, repleta de arrogância desonesta contra Deus e contra a própria vida humana.

 Quando ouvimos sobre o juízo, é quase imediata a ideia de um tribunal acusatório, onde estaremos humilhados diante de um Deus juiz implacável e insensível. Essa noção vem do paganismo; os deuses eram sempre vingativos. O cristianismo que está atualmente misturado ao paganismo absorveu o conceito de um deus rancoroso, sendo que os sistemas religiosos sempre buscam serenar a ira de Deus; seres humanos oferecem reações sacrificiais para atrair a atenção e provocar sossego à divindade. Mesmo no cristianismo, tal noção é a mais acalentada. Porém, a mensagem da parte de Deus é muito diferente. O apóstolo João informa dizendo: “VEDE quão grande amor nos tem concedido o Pai, que fôssemos chamados filhos de Deus. Por isso o mundo não nos conhece; porque não o conhece a ele” (I João 3:1). Ora, um Deus que ama o rebelado não pode ser rancoroso. Então, para que propósito será necessário um juízo?

 A essência do conflito cósmico gira em torno da submissão a Deus. Todos devem adoração a Deus por força da criação. Deus é o criador de todos e de cada fenômeno físico que percebemos. Há citações bíblicas que definem a razão da adoração: “Ó, vinde, adoremos e prostremo-nos; ajoelhemos diante do SENHOR que nos criou” (Salmos 95:6). “Eu sou o SENHOR, vosso Santo, o Criador de Israel, vosso Rei” (Isaías 43:15). “Mas, ó homem, quem és tu, que a Deus replicas? Porventura a coisa formada dirá ao que a formou: Por que me fizeste assim?” (Romanos 9:20).  Se Deus é o criador, então, será muito fácil concluir que o homem nada cria no sentido de fazer aparecer do nada, mas, recebe de Deus tudo o que necessita. De Deus vem a semente que, se semeada, brotará. A semente não vem do homem e sequer o brotar depende do homem. O inimigo propõe o aparecimento espontâneo da natureza, visando apagar das mentes o autor da natureza. Mas, por toda parte estão os elementos primordiais que fundamentam as feituras humanas, os quais sempre preexistiram. Ex nihilo nihil fit; nenhuma obra humana pode ser realizada do nada, tudo vem sempre de algo pré-existente. Olhar a apropriação humana sobre os elementos fundamentais oferecidos pela natureza para a construção do processo civilizatório, leva a esta constatação sine qua non: Deus é a causa eficiente de qualquer elemento no universo.

No juízo ficará revelado o quanto a humanidade foi capaz de responder ao efeito do amor constante de Deus, pois está espalhado por toda natureza. Também será revelado se nossa percepção do amor de Deus através da natureza construiu em nós a dimensão humana mais substancial, a nossa utilidade para nossos semelhantes. Se recebemos tudo o que necessitamos de Deus, então, por natural reconhecimento de que o que possuímos é por dom divino, somos compelidos a oferecer aos nossos pares o que necessitam a partir daquilo que está em nossa posse.

O juízo revelará a misericórdia de Deus, mas, justificará também a aplicação das sentenças pertinentes a cada qual. Dada a situação humana pós-pecado, os filhos de Adão não mais tiveram contato com ambientes justos e, por essa razão, não têm noção nenhuma sobre a justiça. Portanto, a misericórdia e a justiça estão demonstradas nas obras de Deus em todo universo e no esforço do céu enviando Jesus para nos mostrar empiricamente a justiça. Consequentemente, as obras de Deus não permitirão que nenhuma criatura, quer terrestre ou não, possa deixar de reconhecer os dois atributos mais significativos de Deus: a misericórdia e a justiça. É importante verificar que a Bíblia aponta a misericórdia como o primeiro atributo divino; é assim que o salmista descreve Deus: “Mas a misericórdia do SENHOR é desde a eternidade e até a eternidade sobre aqueles que o temem, e a sua justiça sobre os filhos dos filhos” (Salmos 103:17). Sobretudo, o juízo revelará que o céu realizou tudo o que era possível para nos salvar e se fomos capazes de perceber e lidar favoravelmente colaborando com Deus ou nos contrapondo.

 

 

 

 

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2023

Inspiração e transpiração


Beethoven levantava-se todas as manhãs ao amanhecer e fazia seu café. Ele era meticuloso sobre isso: cada xícara tinha que ser feita com exatamente sessenta sementes, que ele contava a cada vez. Ele iria em seguida, sentar-se à mesa e compunha até as 14:00 ou 15:00 da tarde. Posteriormente, ele ia para uma longa caminhada, levando consigo um lápis e algumas folhas de papel de música para gravar, quaisquer ideias que lhe viessem no caminho. Todas as noites, depois do jantar, ele tomava uma cerveja, e ia para a cama cedo, o mais tardar às 22:00. Anthony Trollope tinha como rotina diária trabalhar para os Correios, pagava um homem para acordá-lo todos os dias às 5:00 da manhã. Às 5h30 da manhã, ele estaria em sua mesa, e ele então começava a escrever por exatamente três horas, trabalhando contra o relógio, para produzir 250 palavras a cada quarto de hora. Desta forma, ele escreveu quarenta e sete romances, muitos deles com três volumes, bem como dezesseis outros livros. Se ele terminava um romance antes que passassem três horas do dia, ele imediatamente pegava um pedaço de papel fresco e começava o próximo.

Immanuel Kant, o filósofo mais brilhante dos tempos modernos, era famoso por sua rotina. Como Heinrich Heine colocou: "Levantar-se, beber café, escrever, dar palestras, comer, fazer uma caminhada, tudo tinha seu horário definido, e os vizinhos sabiam precisamente que o horário era 3:30 p.m. quando Kant saia de sua porta com seu casaco cinza e o bastão espanhol na mão."

Estes detalhes, juntamente com mais de 150 outros exemplos extraídos de grandes filósofos, artistas, compositores e escritores vêm de um livro de Mason Currey intitulado Daily Rituais: Como Grandes Mentes Ganham Tempo, Encontram Inspiração e Começam a Trabalhar. O ponto principal do livro é simples. A maioria das pessoas criativas tem rituais diários. Estes formam o solo em que as sementes de suas a invenções crescem. Em alguns casos, eles deliberadamente assumiram trabalhos que não precisavam fazer, simplesmente para estabelecer estrutura e rotina em suas vidas. Um exemplo típico foi o poeta Wallace Stevens, que assumiu uma posição como advogado de seguros na Hartford Accident and Indemnity Company onde trabalhou até sua morte. Ele disse que ter um emprego era uma das melhores coisas que poderia acontecer com ele porque "introduz disciplina e regularidade na vida de alguém".

Observe o paradoxo. Estes foram todos inovadores, pioneiros, que formularam novas ideias, originaram novas formas de expressão, fizerem coisas que ninguém havia feito antes muito bem assim. Eles quebraram o molde. Eles mudaram a paisagem. Eles se aventuraram no desconhecido. No entanto, suas vidas diárias eram o oposto: ritualizadas e rotineiras. Pode-se até achá-los chatos. Por que isso? Porque – o ditado é famoso, embora não saibamos quem o disse primeiro – gênio é um por cento de inspiração, noventa e nove por cento de transpiração. A mudança de paradigma, a descoberta científica, a pesquisa inovadora, o novo produto de grande sucesso, o brilhante romance, o filme premiado são quase sempre o resultado de muitos anos de longas horas e atenção aos detalhes. Ser criativo envolve trabalho duro. A antiga palavra hebraica para trabalho duro é avoda. É também a palavra que significa "servir a Deus". O que se aplica nas artes, ciências, nos negócios e na indústria aplica-se igualmente à vida do espírito (mente). Alcançar qualquer forma de espiritualidade (organização mental) ou crescimento requer esforço sustentado e rituais diários. Daí a notável passagem aggádica (ensinamentos que comunicam tradições rabínicas) em que vários Sábios apresentaram sua ideia de klal gadol baTorá, "o grande princípio do Torá." Ben Azzai diz que é o versículo: "Este é o livro das crônicas do homem: No dia que Deus criou o homem, o fez à semelhança de Deus" (Gênesis 5:1). Ben Zoma diz que há um princípio mais abrangente: "Ouça, Israel, o Senhor nosso Deus, o Senhor é um" (Dt.6:4). Ben Nannas diz que há um princípio ainda mais abrangente: "Amai o vosso próximo como a vós mesmos" (Lv. 19:18). Ben Pazzi diz que encontramos um princípio ainda mais abrangente. Ele cita um versículo: "Uma ovelha será oferecida de manhã, e uma segunda na tarde" (Êx 29:39) – ou, como poderíamos dizer hoje em dia, Shaĥarit (preces da manhã), Mincĥa (serviços da tarde) e Maariv (serviços da noite). Em um palavra: "rotina". A passagem conclui: A lei segue Ben Pazzi.

O significado da afirmação de Ben  Pazzi é claro: todos os altos ideais do mundo – a pessoa humana como imagem de Deus, a crença na unidade de Deus e no amor ao próximo – contam pouco até que sejam transformados em hábitos de ação que se tornam hábitos do coração. Todos nós podemos nos lembrar de momentos de insight quando tivemos uma grande ideia, um pensamento transformador, o vislumbre de um projeto que poderia mudar nossas vidas. Um dia, uma semana ou um ano depois, o pensamento foi esquecido ou tornou-se uma distante memória, na melhor das hipóteses, um poder-ter-sido. As pessoas que mudam o mundo, seja de forma pequena ou épica, são aquelas que transformaram experiências de pico em rotinas diárias, que sabem que os detalhes importam e que desenvolveram a disciplina do trabalho árduo, sustentada ao longo do tempo.

A grandeza do Judaísmo é que é preciso altos ideais e visões exaltadas – imagem de Deus, fé em Deus, amor ao próximo – e os transforma em padrões de comportamento. Halachá (lei judaica) envolve um conjunto de rotinas que – como as das grandes mentes criativas – reconfiguram o cérebro, dando disciplina às nossas vidas e mudando a maneira como sentimos, pensamos e agimos.

Grande parte do judaísmo deve parecer para os de fora, e às vezes para os de dentro também, chato, prosaico, mundano, repetitivo, rotineiro, obcecado com detalhes e desapropriado para a maior parte do drama ou inspiração. No entanto, é precisamente isso que escreve o romance, compõe a sinfonia, dirige o filme, ou construindo um negócio de bilhões de dólares na maioria das vezes. É uma questão de trabalho duro, atenção focada e rituais diários. É daí que toda grandeza sustentável vem.

Desenvolvemos no Ocidente uma estranha visão da experiência religiosa: que é o que o sobrecarrega quando algo acontece completamente fora da experiência normal. Você sobe uma montanha e olha para baixo. Você está milagrosamente salvo do perigo.

Você se vê parte de uma multidão vasta e animada. É assim que o teólogo luterano alemão Rudolf Otto (1869-1937) definiu "o santo": como um mistério (mysterium) aterrorizante (tremendum) e fascinante (fascinans). Você fica impressionado com a presença de algo vasto. Nós todos tivemos tais experiências. Mas isso é tudo o que elas são: experiências. Elas permanecem na memória, mas não fazem parte do cotidiano. Elas não estão entrelaçadas na textura do nosso caráter. Eles não afetam o que fazemos, alcançamos ou nos tornamos. O judaísmo é diferente. Está relacionado com nos mudar para que possamos nos tornar artistas criativos, cuja maior criação é a nossa própria vida. E isso precisa de rituais diários: Shaĥarit, Mincĥa, Maariv, a comida que comemos, a maneira como nos comportamos no trabalho ou em casa, a coreografia da santidade que é a contribuição especial da dimensão sacerdotal do Judaísmo, estabelecido em todo o livro de Levítico. Estes rituais têm um efeito. Agora sabemos através de exames de PET scan (tomografia) e FMRI (ressonância magnética) que o exercício espiritual repetido reconfigura o cérebro. Isso nos dá resiliência interior. Isso nos torna mais gratos. Isso nos dá uma sensação de confiança básica na fonte do nosso ser. Ela molda a nossa identidade, a forma como agimos, falamos e pensamos. Ritual é para a grandeza espiritual o que a prática é para um tenista; as disciplinas de escrita diárias e leituras de contos são para um romancista o treino indispensável. Elas são a pré-condição da alta realização. Servir a Deus é avoda, o que significa trabalho duro. Se você procurar de repente inspiração, em seguida, trabalhe nela todos os dias durante um ano ou uma vida. É assim que acontece. Como um famoso golfista disse quando perguntado sobre o segredo de seu sucesso: "Eu tive sorte. Mas o engraçado é que quanto mais eu pratico, mais sorte eu tenho." Quanto mais você busca espiritualmente, quanto mais você precisa do ritual e da rotina da halachá, o "caminho" judaico para Deus.

Texto traduzido do livro Studies in Spirituality do Rabino Jonathan Sacks

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2023

Um sistema virtuoso de bençãos

 

Poucos enxergam a igreja cristã como a embaixada do governo de Deus na Terra. Embaixada é a representação de um governo com maior autoridade no exterior. Na sequência hierárquica vêm os consulados. As embaixadas são responsáveis pelas relações bilaterais com países interessados em parcerias, mas, além disso, embaixadas possuem funções culturais, econômicas e políticas. Consulados estão voltados à assistência a nacionais de determinado país que vivem no exterior. Possuem funções sobretudo civis e administrativas. Comparativamente, as sedes administrativas das igrejas espelham embaixadas e os templos espelham consulados, onde cidadãos individuais podem obter ajuda.

Então, podemos raciocinar melhor sobre nossas relações com o reino de Deus. Como cidadãos, estamos temporariamente peregrinando numa terra estranha, uma realidade com muitas desigualdades que nos causam instabilidades e sofrimentos, esperando o momento de voltar para nossa pátria, onde habita a justiça. Enquanto aqui, temos embaixadas e consulados que nos auxiliam.

Com a noção de cidadania em vista, podemos entender por que os heróis do passado viveram na esperança da terra prometida. Nessa condição, não negligenciaram sua contribuição às embaixadas, devolvendo os dízimos e as ofertas. Abraão entregou dízimos a Melquisedeque, Jacó devolveu dízimos, embora não esteja assinalado para qual embaixada ou consulado. Dízimos são a comprovação de cidadania. Nenhum indivíduo formalmente nascido no reino de Deus poderá deixar de devolver sua dízima, como reconhecimento de que, mesmo em peregrinação, tem interesse na manutenção do seu governo, reconhecendo que seu governo se mantém alerta protegendo cada patriota.

Importante entender que dízimos são o reconhecimento do sistema econômico celeste: Deus é o dono de todas as coisas e os indivíduos são mordomos. Deus é o proprietário primário de tudo que cerca suas criaturas pelo simples fato de que Ele é o criador do mundo físico e da vida. Os domínios ou espaços milimetricamente planejados e construídos, onde estão as criaturas vivas, são regiões organizadas para fornecer estruturas que se sustentam em associações complexas, onde os elementos ou partes formam sistemas que vão se conectando a fim de formar estruturas muito complexas que garantam a existência da vida. Deus é o idealizador dessa complexidade. Não há inteligência nas criaturas para, por si mesmas, criarem tais sistemas complexos. Por essa razão, não podem viver sem a presença de Deus, porque não conseguem desdobrar as múltiplas camadas do complicado sistema ao qual chamamos universo e, entendendo-o, criar sistemas autônomos para viver independentes.

No sistema econômico celeste, também a complexidade (que abrange ou encerra muitos elementos ou partes), ou seja, a dependência da interação de cada elemento para que o sistema permita um excelente produto final, é diretamente proporcional à ligação ou o plexo das partes que formam a complexidade. Então, os sistemas físicos formam plexos com os sistemas vivos, uma interação muito elaborada e dramaticamente ajustada em favor da vida. Aqui está, uma visão racional sobre os pressupostos das interações sociais e o fundamento do princípio do dar.

É importante não esquecermos que antes da criação da Terra o princípio do nexo dos sistemas já estava em operação. Assim, mesmo antes da entrada do pecado, para evitar o perigo do esquecimento de que o universo criado pertence a Deus e opera no sistema de cooperação, fato que poderia ser olvidado - uma vez que estava latente no caráter do homem - Deus proibiu o homem de comer do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal como prova para ele (Gênesis 2:17); Deus reivindicou-a como sua. Consequentemente, com obediência a esse mandamento, Adão e Eva reconheceram que Deus era o dono da bela casa confiada aos seus cuidados. Deus deu a Adão domínio sobre todo o mundo e sobre todas as formas de vida sobre ele (1:28), mas Ele guardou esta única árvore para Si como um sinal de que Ele era o Senhor de todos. Assim, a separação da 10ª parte dos lucros é um reconhecimento da mesma verdade eterna (SDA Bible Dictionary, p.1103).

A devolução dos dízimos e das ofertas é fundamental para o funcionamento do universo e sua complexidade, tal qual foi concebido por Deus. Se somos parte desse universo, a não devolução trará como consequência nossa extirpação por não contribuirmos com o plexo do sistema. Cada elemento físico e cada criatura necessariamente estão envolvidos no referido plexo. Todos contribuem para existência de todos, um sistema virtuoso de bençãos. Não contribuir com nossa parte no plexo significa que não reconhecemos Deus como o mentor do universo e seu proprietário por força da criação. Logo, estamos nos definindo como adeptos de outro mentor e outro sistema. Portanto, estamos fortalecendo quem concorre com Deus.

terça-feira, 3 de janeiro de 2023

Acertos produzem felicidade

 

Não sabemos nada sobre a origem de Deus. É impossível à mente humana alcançar o nexo de um Deus sem início e sem fim. Para os homens, o nexo está em poder perceber as causas dos fenômenos. Esta é, em verdade, a preocupação científica em relação aos fatos; saber sobre algo significa entender suas causas, logo, seu início. Esta base racional impede a ciência de explicar Deus.

O que sabemos sobre Deus está na Bíblia. Entende-se que a divindade é formada por três pessoas com funções específicas e que o conjunto das suas virtudes mantém o universo e sua integridade. Ao Deus PAI corresponde o AMOR; Deus Pai é amor (João 4:8). A Deus FILHO corresponde a GRAÇA; todo o conhecimento sobre o PAI é dado às criaturas através do FILHO. Ao Deus ESPÍRITO corresponde a comunhão (II Corintios 13:13); o processo de crescimento das criaturas e a sua formação para ter a semelhança com o PAI é tarefa do ESPÍRITO, pois sua obra é a aplicação ou ministração dos princípios do amor em toda criação. Então, a GRAÇA externada pelo FILHO tem sua efetiva aplicação pela ministração do ESPÍRITO.

O governo celeste exercido pela trindade é operado pela cooperação dos três membros que, se recomendam mutuamente em concílios (Romanos 16:25-26), uma demonstração de que a sabedoria é ainda mais poderosa e pode ser lapidada quando operada coletivamente (Provérbios 11:14).

Ao criar a humanidade à sua semelhança, a trindade não prescindiu da possiblidade do aperfeiçoamento moral que somente ocorre em ambiente social plural. Logo após criar Adão, o criador conversa com o primeiro homem e diz que não é bom que esteja só, “far-lhe-ei uma ajudadora idônea para ele” (Gênesis 2:18). A palavra idônea é a chave para entender o porquê não é boa a solidão.

Na instituição do casamento há mais sabedoria do que geralmente se percebe. Mesmo em condições morais perfeitas, as criaturas experimentarão sempre crescimento na pluralidade. A felicidade está no crescimento intelectual, o domínio dos princípios que fundamentaram a criação da Terra, ou seja, a cooperação múltipla entre os vários seres vivos, animados e, entre estes e o mundo físico inanimado. Todas as coisas criadas cooperam entre si, significando que a cooperação diminui possibilidades de desconforto ou abatimento do ânimo, a causa mais importante à diminuição da felicidade. Importante entender que felicidade não é um estado mental de euforia, mas, o perfeito funcionamento de todos os elementos do sistema biológico e suas interações com o sistema físico inanimado. É a interação completa da biosfera com a geosfera e atmosfera. Tal interação é chamada felicidade. Geosfera e atmosfera produzem todos os elementos estruturais para manutenção da biosfera.

No caso humano, a solidão impede alcançar a complexa interação entre os seres vivos e até mesmo com a terra. Então, era necessário o surgimento da mulher no papel de ajudadora idônea. Ajudadora vem de adjutorar, ou seja, aconselhar, advertir, alvitrar, assessorar, avisar, convencer, guiar, inculcar, indicar, induzir, insinuar, inspirar, instigar, persuadir, preconizar, predicar, pregar, receitar. Para cada sinônimo da lista acima há um significado que torna a mulher idônea. Na verdade, mesmo que Adão tivesse surgido moralmente inocente, incapaz de produzir ações más, o seu crescimento intelectual e moral deveria ser encaminhado por uma adjutora idônea. À mulher, caberia a tarefa de ir ajudando no aperfeiçoamento da prática do amor, e por essa via aperfeiçoando a cooperação, nas suas múltiplas formas, que sempre produzem a felicidade. É claro que para Adão a recíproca era verdadeira em relação à Eva. No modelo de crescimento em casal, a docilidade ou cooperação mútua traria o equilíbrio moral para o crescimento de ambos, e o alcance de novas formas de felicidade.

Quando os humanos pecaram, a ajuda mútua para o crescimento moral e intelectual tornou-se dramática, crítica. Agora, a docilidade para receber ajuda tronou-se quase nula, ambos Adão e Eva passaram a competir. Em tal circunstância a ajuda não é bem-vinda, porque, no sistema da competição, sempre que se aconselha são expostos erros, causando desconforto, sendo que o desânimo desanda a convivência em uma fonte de tensão. A tensão invariavelmente produz a ansiedade e a infelicidade.

No ambiente moralmente impuro, ou seja, onde impera a competição, a felicidade depende do balanço entre os erros e os acertos. Se o prato da balança moral tem mais peso para os erros, então, são produzidas tensão e ansiedade em grau elevado. Nesse ambiente, nossa tendência é não querer modificar nosso comportamento, mas, acirrar formas de competição. Porém, a ajuda nesta atmosfera se torna fundamental. Se temos alguém para nos assessorar e nos esclarecer sobre erros que cometemos, e se os aceitamos e os corrigimos, então nossa tensão diminui e nosso incômodo tende a decrescer. A felicidade, nas condições de impureza moral é uma relação direta entre a diminuição dos erros e a ascensão dos acertos. Quanto mais acertamos, mais felizes somos por consequência da diminuição das pressões. Tensão baixa, felicidade alta.

Agora vamos olhar o papel de um adjutor que pode observar nossos erros. Se já alcançamos maturidade para ser dóceis quando confrontados com nossos erros, e se ao invés de sempre apresentar justificativas para os erros, procurarmos entender as suas causas e corrigi-los, então, a sensação de menosprezo e inadequabilidade social tenderá à nulidade e, como consequência de sermos mais aceitos, vem a felicidade. Considerando que todos temos dificuldades para enxergar os próprios defeitos, um adjutor será sempre uma benção. Logo, um casal que compreende bem o papel adjutor de cada parelha, tenderá a ser feliz. É no conselho, na assessoria, no indicar, no inspirar que encontramos o nível maior do acerto e logo a sensação de estar aceito no coletivo, por força dos acertos, trará a felicidade. É bom notar que não se está falando em repreender invariavelmente, o que é bem diferente de assessorar.

Quando ampliamos o ambiente social, vemos que na vida coletiva, se atinge a dimensão maior da assessoria - uma assessoria coletiva é ainda mais significante por disponibilizar exemplos virtuosos para imitarmos - seremos sempre mais felizes. Crianças nascem em famílias, sendo que aos pais cabe a tarefa de ser os mais importantes assessores. O primeiro e mais importante aprendizado de uma criança é educar-se em ser dócil e obediente. A criança, mais ainda que os adultos, é incapaz de perceber seus erros. Adultos tendem a ficar envergonhados se alguém aponta seus erros e, nestas circunstâncias, criam resistência e não se modificam. Geralmente, pais indóceis, desorganizados e sem disciplina, produzem filhos que terão problemas porque na balança dos erros e acertos, o prato penderá para os erros. Logo, as chances para infelicidade são enormes. O equilíbrio social e consequente aceitação em grupos sociais, depende grandemente dos acertos, porque socialmente a rejeição dos indivíduos se dá por causa dos erros. Se os filhos aprendem a serem dóceis e obedientes, o prato do acerto tenderá a ser mais pesado e a felicidade estará mais ao alcance.

Há pessoas que sofrem rejeições sociais e desenvolvem sentimentos de serem perseguidos simplesmente porque sua capacidade para gerenciar a relação erros e acertos é nula. Quanto mais resistem modificar seus erros, menos chances possuem para aceitação. Ao persistirem transgredindo regras sociais e parâmetros éticos essenciais, vão sofrendo rejeição e se tornam insuportáveis socialmente. Esse estado provoca o banimento, a pior situação social para um ser humano. A Bíblia aconselha que as famílias sejam bem ajustadas e os que os filhos sejam equilibrados, sendo que esta condição é externada mediante a obediencia aos pais, aos mais velhos, porque a docilidade é, positivamente, a forma de evitar a tensão e a ansiedade oriundas dos erros, ambas responsáveis por instabilidade emocional e infelicidade.

A igreja cristã é uma instituição divina que deve atuar para reequilibrar a sociedade. Ali são ensinados os princípios que podem diminuir efetivamente as tensões. Voltemos ao casamento inicial de Adão e Eva. Ambos, adjutores mútuos. Depois do pecado, foi ainda mais importante seu papel adjudicador. A razão por que Jesus começou seu ministério em uma boda identifica a adjudicação como conceito fulcral para implantação do equilíbrio e crescimento humano que, nas condições de moralidade impura, tem no casamento a melhor ferramenta para que a felicidade seja alcançada por causa da adjudicação. Sempre que alguém encontra ajuda idônea haverá crescimento humano, logo, aceitação social em sentido amplo, em virtude de que os acertos são maiores que os erros. Ao Jesus comparar sua relação com a igreja cristã como um casamento, informa que Ele será aquele que pode ajudar a igreja a enxergar seus erros como adjutor e, se a igreja o aceita, se tornará perfeita.