terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

O Deus que opera no discurso

 

O grande diferencial da religião bíblica está no fato de os que seguem suas instruções adoraram a um Deus invisível. A palavra invisível não significa abstrato, ou seja, um Deus que pode ser abstraído, passível de consideração de apenas uma das partes, ou apenas alguns aspectos. O fato de ser invisível não implica em imaginário, porque trata-se daquele que não está no campo visual humano, mas que pode ser sentido, que pode ser ouvido, e suas obras e ações são fisicamente sentidas, decifradas, percebidas e intuídas.

Por ser invisível, é necessário enriquecimento intelectual para compreendê-lo. Toda comunicação entre Deus e suas criaturas ocorre no campo do discurso. Logo, são desnecessários objetos para facilitar a comunicação. Por esse motivo, a escrita é a principal ferramenta de comunicação. Sendo muitíssimo importante perceber que através da escrita, Deus não apenas é ouvido, mas, passa a viver dentro das mentes dos seres inteligentes, daí o ser o corpo humano o seu templo.

As religiões cristãs não processam perfeitamente a dimensão divina da onipresença. Não atinam que a palavra é mais importante que a presença física. A dimensão da invisibilidade é proposital para que os seres inteligentes trabalhem o discurso, porque é a percepção do caráter de Deus o aspecto mais importante no relacionamento com Ele.  A percepção do caráter é o discernimento do todo da pessoa. Logo, qualquer representação física de Deus não poderia demonstrar a completude da pessoa de Deus, somente através do caráter pode-se ver Deus no seu todo. Por essa razão, o segundo mandamento da lei de Deus proíbe as imagens.

No entanto, o desenvolvimento intelectual insuficiente torna qualquer alma inteligente incapaz de entender bem o que lhe cerca, porque as representações físicas são precárias. Sistemas educacionais deficientes produzem, igualmente, pessoas intelectualmente deficientes. Não são satisfatórios os diplomas, necessita-se aprimoramento intelectual. De um modo geral, pessoas passam pelo sistema educacional sem consultar as obras básicas para sua maturação na área em que estudam. Logo, serão deformações com diplomas. Mesmo os que superam as obras básicas, terão que manter-se em aprimoramento.

A ausência de desenvolvimento intelectual adequado provoca a corrida para um ambiente com representações gráficas. Assim, no campo religioso, servir um Deus invisível pode ser dificultoso, dando ensejo ao aparecimento de muitíssimas imagens e regras, e no caso dos evangélicos, a eleição de ícones sagrados, tais com templos, altares, moveis, entre outros.

A Bíblia contém todas as características de Deus. Partindo da premissa de que a humanidade foi criada à imagem de Deus, apreender o caráter do criador é o objetivo da verdadeira educação. Nada menos do que a santidade é o alvo a ser contraído (Levítico 20:7; I Pedro 1:16). Porém, desenvolvimento intelectual insuficiente pode causar a sensação de impossibilidade para santidade, considerando que não há representação gráfica para ser vista quando o assunto é santidade, mas o estudo do caráter de Deus.

Neste aspecto, ainda que uma pessoa intelectualmente insuficiente leia ou estude sobre o caráter de Deus, muito provavelmente não conseguirá estímulo para avançar, porque lidará com conceitos profundos para os quais, apenas as palavras poderão descrevê-los, sendo obrigada a subir ao nível do discurso, onde não há espaço para representações gráficas. Se a mente está muito acostumada com gráficos, dificilmente encontrará apoio para ficar só nas letras. Este é um sério problema, pois para Deus, as palavras e o ouvir são as coisas mais excelentes.

Alguns aspectos do caráter divino são conceitos muito densos: Deus é perfeito. Este conceito traz a ideia de que Ele nunca deixa a sua obra incompleta, ou seja, aquilo que começa será inexoravelmente concluído. Vejamos isso. Há que se definir qual é a obra de Deus para se entender esse aspecto do caráter. Outro conceito profundo é a justiça. Todo o proceder de Deus é uma consequência da sua natureza justa. Suas decisões são irrepreensíveis, Seu proceder com as suas criaturas é inatacável. Ainda, Deus é verdade. Esse conceito traz a ideia de lealdade consigo mesmo, atua sempre em harmonia com Seus próprios atributos, significando que Deus é o que é, sendo pertinente que autodenomine “O Eu Sou”. Tais conceitos jamais poderiam estar numa estátua. Compreendê-los demanda refinamento intelectual.

Quando observamos o caráter de Deus conceituando cada aspecto percebemos a sua santidade. A palavra santidade significa ausência de incoerências. Logo nos damos conta da distância que há entre Deus e os seres humanos caídos. Nosso maior demérito é a incoerência. Desafortunadamente, quase não percebemos nosso intrínseco contrassenso. Por essa razão, somos hipócritas. Demonstramos uma opinião que não possuímos ou dissimulamos qualidades que não temos. O convite bíblico é que sejamos semelhantes a Deus. Como faremos?

A promessa trazida pelo profeta Isaías nos estimula a buscar a perfeição: “Eis que o Senhor DEUS virá com poder e seu braço dominará por ele; eis que o seu galardão está com ele, e o seu salário diante da sua face. Como pastor apascentará o seu rebanho; entre os seus braços recolherá os cordeirinhos, e os levará no seu regaço; as que amamentam guiará suavemente” (Isaías 40:10-11). Nosso contrassenso será reparado pelo pastor. Porém, para desejarmos essa transformação, é imprescindível perceber as diferenças entre nós e Deus. “De tudo o que se tem ouvido, o fim é: Teme a Deus, e guarda os seus mandamentos; porque isto é o dever de todo o homem” (Eclesiastes 12:13).

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

De volta para o futuro

 


Dias atrás ouvi uma equipe de pessoas comentando em um canal de mídia, sobre o livro de Isaías. Era um programa que tinha o objetivo de levar esclarecimentos sobre a verdade bíblica, com foco missionário. Da explanação participavam vários interlocutores, um deles com ares professorais, emitia conceitos vagos e muito propícios a não exigirem sacrifícios morais de quem os ouvia. Numa das infelizes afirmativas, advogou a tese de que é quase impossível adquirir excelência moral, uma vez que somos pecadores. Dizia o confiante e quase arrogante professor, que a santidade é inalcançável por conta da nossa incapacidade de praticar obras justas. Além disso, o modelo Jesus, segundo a interpretação daquele mestre crente, era muito diferente de nós, uma vez que ele não tinha tendência para pecar. Já nós, por nosso turno, somos inferiores, deixando implícito na sua argumentação, sermos quase predestinados ao pecado.

Esta compreensão sobre a humanidade de Jesus é erroneamente imperdoável, pois o apóstolo Paulo afirma que “Por isso convinha que em tudo fosse semelhante aos irmãos, para ser misericordioso e fiel sumo sacerdote naquilo que é de Deus, para expiar os pecados do povo” (Hebreus 2:17). Outra vez, o mesmo Paulo informa: “Porque não temos um sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas; porém, um que, como nós, em tudo foi tentado, mas sem pecado” (Hebreus 4:15). O problema está na última frase, sem pecado, a qual gera interpretações como a deste mestre.

Ora, se em tudo Jesus era semelhante a nós, sendo tentado em tudo, a vantagem enxergada pelo professor que explanava evidentemente não existe. Logo, não temos qualquer inferioridade moral que nos imponha limites em relação ao padrão exigido pelo Céu. Essa noção vem do catolicismo, o qual informa e insiste na superioridade do clero, sendo o Papa santo, mas, o restante da humanidade é inferior e dependente dos favores clericais.

A exigência bíblica não é evasiva, mas sim, direta: “Fala a toda a congregação dos filhos de Israel, e dize-lhes: Santos sereis, porque eu, o SENHOR vosso Deus, sou santo” (Levítico 19:2). Outra vez diz, “Portanto, santificai-vos, e sede santos, pois eu sou o SENHOR vosso Deus” (Levítico 20:7). Este comando não contém qualquer argumento dúbio, do tipo procurai ou fazei o possível para serdes santos. É uma afirmação categórica. Uma exigência de Deus, quem sabe perfeitamente ser possível alcançar aquele nível moral, considerando que os homens são semelhantes a Deus, têm independência moral.

A pergunta que devemos fazer é: como operar o requerido nível moral? Jamais hesitar com ideias limitantes ou pretensas imposições por força da nossa natureza pecaminosa. Advogando a impossibilidade da santidade estamos atribuindo a Deus injustiça, porque nos demanda o que não nos é possível. Então, como adquirir a força moral que havia em Jesus?

Deus não nos deixou lutando como cegos. Desde que o pecado entrou no mundo tem Deus procurado trazer a humanidade ao estado em que Adão estava antes da queda. Entendamos essa questão. Nossa fonte de conhecimento sobre o estado inicial do homem é a Bíblia. No capítulo primeiro de Gênesis estão as bases para entendermos como era moralmente Adão ao ser criado. Toda a narrativa da criação foi construída para que entendamos o sistema cooperativo de Deus utilizado para construir a Terra. O livro dos Salmos, no capítulo 19, faz referência ao sistema de cooperação quando explica que “Os céus declaram a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra das suas mãos. Um dia faz declaração a outro dia, e uma noite mostra sabedoria a outra noite”. O SDA Bible Commentary explica que “[...] um dia transmite ao dia seguinte o relato do poder de Deus. O testemunho infindável impressiona: sem pausa nem mudança a história maravilhosa segue”, significando a continua relação de cooperação entre os domínios e o povoamento destes. Então, o homem foi trazido ao mundo e envolvido pelo sistema cooperativo de Deus, o qual estava explícito no Éden, para que aprendesse e se mantivesse em tal estado. Logo, a queda foi a escolha moral de um sistema diferente daquele no qual fora trazido à vida.

A santidade é um estado moral no qual os seres humanos voltam ao estado inicial de Adão. Na situação em que se encontrava Adão ao surgir para a vida, não havia tendência para o pecado, uma vez que o sistema moral no qual estava vivendo o mantinha cooperativo. Então, se não havia tendência para o pecado, por que pecou? Pecou porque era um ser moral livre. Tinha liberdade para escolher outro sistema moral. Assim, escolheu. No novo sistema moral, todos os atos são contrários ao sistema no qual estivera antes. Portanto, sua nova tendencia era sempre pecar em relação ao sistema moral anterior. Por essa razão, todos os que nasceram através de Adão no pós-queda, aprendem a pecar porque imitam seus pais. A pergunta que surge é: não podemos escolher não viver no sistema em que nos colocou Adão?

A resposta está em Jesus Cristo. Ele nasceu de uma mulher e, na condição humana, para Ele estavam disponíveis os dois sistemas, o de Deus e o deste mundo, assim como estão disponíveis para todos os humanos.

Como podemos escolher?

Desde a queda, ou seja, desde que Adão pecou, o Céu vem buscando trazer de volta o homem para o sistema de Deus. O próprio Deus ensinou o caminho para regressar ao sistema cooperativo, imolando um cordeiro. O sacrifício tornou-se imprescindível porque o sistema moral para onde caíram os homens requer a competição e a cobiça. O sistema sacrifical ensinava o caminho moral para evitar a competição e a cobiça. Especificamente, doação, sacrifício sempre implica em negação do eu, abnegação. O sistema da competição exalta o eu porque rivalizamos.

Todos os patriarcas do Antigo Testamento usaram o sacrifício como a forma para dizer a Deus da sua opção moral pelo sistema de Deus. Deveriam praticar atos que fossem confirmando a sua escolha, logo, separaram-se dos chamados filhos dos homens para evitar o aprendizado moral da competição e da cobiça, o qual era praticado nas cidades. Então, na natureza, onde o sistema de Deus está operando, mesmo a despeito da queda, seria o ambiente escola onde os patriarcas veriam a cooperação em andamento,  em operação.

Conforme crescia a população humana, foram sendo criados agrupamentos humanos e, nestes ambientes, os jovens aprendiam com os adultos a viver o sistema da competição, logo, tendiam a pecar em relação ao sistema da cooperação. Porém, não lhes estava proibido a prática do sistema da cooperação. Reitero que a tendência para o pecado é, na verdade, o estar mergulhado no sistema antagônico ao de Deus.

Com a vinda do Messias, nascido de mulher, portanto, homem sujeito a todas as circunstâncias humanas, e tendo Ele escolhido não estar no sistema da competição, mas, no da cooperação, teve em sua mãe sua professora. Jesus nasceu numa cidade, onde o sistema da competição comanda moralmente a população. Mas, escolheu não ser educado e nem se utilizar deste sistema. Obviamente, para nós esta possibilidade de escolha de um dos sistemas também existe. No entanto, Jesus não frequentou a escola dos rabinos, portanto, sua educação foi no sistema de Deus. Logo, viveu moralmente de forma muito diferente da dos seus contemporâneos. Por essa razão, Ele é o nosso exemplo.

Para aqueles que nasceram e foram educados no sistema da competição, Jesus ensina como sair e ser reeducado. Na entrevista com Nicodemos Ele enfatiza o novo nascimento. É necessário que seja oferecida a liberdade para que possamos escolher em qual sistema queremos estar. Assim, o batismo nos oferece a grande oportunidade de, em liberdade moral, escolher estar no sistema de Deus. Nascemos no sistema oposto. Uma vez escolhido, iniciamos a reeducação para permanecer no sistema de Deus. Nestas circunstâncias, a igreja deveria ser a escola, para quem está nas cidades. Acrescentamos aqui algo curioso. As sinagogas foram pensadas enquanto os israelitas estavam em Babilônia, com a finalidade de manter a tradição e a Torá, fatos que conservariam a identidade dos judeus. Do mesmo modo, a igreja objetiva manter a tradição do sistema de Deus para que seja criada uma identidade celeste nos membros.

Por que a igreja não efetiva a educação no sistema de Deus?

Vários são os fatores. Um deles é que não é do conhecimento de todos que podemos escolher estar no sistema moral de Deus. Esta noção escapa até mesmo da liderança. Vejam novamente o dialogo com Nicodemos. Jesus lhe advertiu que sendo um mestre não sabia dos fundamentos. Assim, a liderança da igreja não pode educar porque também, em muitos casos, não conhece. O sistema de competição assume vantagem nas igrejas. A vida de Jesus é mostrada, mas, a essência do comportamento de Jesus não é apreendida e nem ensinada. Jesus, quem nunca viveu no sistema da competição, é o modelo cujo viver, segundo alguns crentes, não pode ser copiado pelos homens porque Ele não tinha tendência para pecar, enquanto os homens comuns, a quem foi ensinado o sistema da competição, estão sempre a pecar em relação ao sistema de Deus, e a isso é usual chamar de tendencia ao pecado. Esse erro de abordagem determina que a santidade é inatingível. As exigências de Deus, quanto a santidade, são demasiadas e impossíveis, logo, Deus é injusto.

Todavia, a Bíblia está ensinando que é nossa a tarefa de operar a salvação. O conselho é este: “Fiel é a palavra, e isto quero que deveras afirmes, para que os que creem em Deus procurem aplicar-se às boas obras; estas coisas são boas e proveitosas aos homens” (Tito 3:8). Paulo reitera nossa participação no sistema de Deus aconselhando: “Revesti-vos, pois, como eleitos de Deus, santos e amados, de entranhas de misericórdia, de benignidade, humildade, mansidão, longanimidade” (Colossenses 3:12), exatamente o oposto à competição. E outra vez afirma: “Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas” (Efésios 2:10). Também o sábio nos adverte para que guardemos as veredas do juízo, ou seja, sejamos justos e não competidores, e em assim procedendo, o Senhor preservará o caminho dos seus santos (Provérbios 2:8). Então, a santidade não é uma demanda absurda, mas, perfeitamente factível, o que nos obstaculiza é não estar no sistema de Deus. A queda do homem está conexa com a competição, assim, se não for dada a oportunidade para o renascimento no sistema de Deus, não haverá chance para santidade. Finalmente, o salmista pede que sejam buscados os santos, aqueles que fizeram com Deus uma aliança com sacrifícios (Salmos 50:5).

 

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

Confiando na proteção de Deus e adotando sempre as medidas profiláticas

 

A politização da Covid19 expôs de forma insofismável toda a crueldade da injustiça humana. Tornou-se muito evidente o tipo de guerra moral característica no ambiente do grande conflito cósmico. Narrativas oportunistas e eivadas de falsas premissas e falsas conclusões estão em todas as mídias de notícias, tornando quase impossível garimpar o que é puro e verdadeiro. O uso de falsas verdades ou falsas conclusões efetuadas pelo jornalismo aviltado por propinas e ganhos corruptos, repetidas ad infinitum levam a população a muitas conclusões erradias e, portanto, a tomadas de decisões equivocadas. Tudo isso pode resultar em fatalidades, tomadas de posições altamente prejudiciais, dissoluções mortais, genocídio global.

No meio de todo esse caos estão os espertos. Esperteza é o mais elevado desenvolvimento da filosofia satânica. O livro “Backlash: How China’s Agression has Backfired (2020), assinado pela jornalista Helen Raleigh, mostra a esperteza chinesa e suas fragilidades. A referida jornalista fugiu da china comunista, mudou de nome e agora escreve sobre a intimidade política e científica chinesa. Há, evidentemente, muitos avanços tecnológicos, mas, há enormes fragilidades em todo sistema chines de desenvolvimento. A jornalista demonstra que os laboratórios chineses não possuem infraestrutura física semelhante a dos países mais desenvolvidos. Tampouco a expertise cientifica chinesa pode rivalizar com o primeiro mundo. Logo, é provável que o corona vírus que assola o globo poderia ter escapado de algum laboratório, onde experiências com armas biológicas estariam em andamento. Todavia, dificilmente se poderia comprovar, uma vez que, trata-se de um país ditatorial comunista, segundo conclui a autora.

A verdade é que enquanto a economia mundial mostra números negativos, o PIB chines cresceu 10 vezes. A china vendeu mais máscaras faciais do que o Brasil vendeu soja (dados mostrados em entrevista do Ministro Paulo Guedes, 2021). Verifica-se que já havia um estoque de equipamentos de proteção individual (EPI) esperando o momento de desespero mundial. Esse tipo de esperteza, segundo a Bíblia, terá seu dia de ajuste de contas. Em Isaías 14:16-23, o profeta desvela o que acontecerá com as injustiças perpetradas pelos poderosos. Não há como escapar do Senhor, no seu dia, ou seja, quando fizer juízo.

Agora, vejamos o que está ocorrendo no restante do mundo. No processo de administrar seus espaços, governos fazem tudo para salvar, especialmente, suas economias. Várias são as alternativas para que mantenham os lucros. Nestes momentos de estresse econômico, facilmente lança-se mão de meios injustos. Os governos dos países estruturados para pesquisa científica viram uma porta ampla para lucros: a busca de uma vacina. Se tiverem sucesso, então o mundo iniciará uma corrida para buscar comprar esses fármacos, sempre negociados a lucros astronômicos. A corrida para concluir prioritariamente a vacina leva a todo tipo de acelerações de ações. Obviamente que a pressa é inimiga da perfeição.

Vamos raciocinar como pessoas no reino de Deus, onde a justiça e o bem estar do outro é mais importante do que o meu próprio bem estar. Agora, a vacina está sendo comercializada, em meio à politização da pandemia. Aqui no Brasil, há discursos de vários matizes políticos, defendendo esse ou aquele pensamento filosófico/ideológico. Assim, há defesas que priorizam a vacina chinesa, há defesas que priorizam a vacina de Oxford, há os que defendem a vacina russa. Vejam o injusto momento. Todas as defesas são de ordem ideológicas, portanto, injustas. Por traz de cada defesa ideológica, há grandes negócios em andamento. Tudo se resume em “trade”, comércio. Logo, não há como se acreditar cegamente nos argumentos endossados, por causa da injustiça que reveste os raciocínios comerciais. Então, Filhos de Deus devem confiar em Deus.

Nossa posição não é a de negar a eficácia das vacinas. Todavia, alertamos que mesmo vacinas já tradicionalmente testadas e usadas podem causar problemas, às vezes fatais. Ainda persistem muitas controvérsias, especialmente sobre a técnica do RNA, a qual está sendo muito discutida e com contestações apoiadas em documentos científicos. Igualmente, há apologias contrárias pregando a chegada do livramento, mas, as defesas afetam moralmente cientistas que dizem dos problemas, aumentando muito o nível de confusão, isto tudo muito antagônico ao reino de Deus. Porém, não queremos discutir aspectos científicos, mas, a dimensão moral.

Se não há lisura moral na aplicação das vacinas, se a corrida é comercial, se há muita mancha ideológica, então, há problemas morais importantes envolvendo a vacinação. A presidência da república brasileira tem alertado sobre a corrida à vacinação. Certamente, os líderes nacionais sabem de problemas éticos e morais envolvidos, daí a cautela.

No meio de tal confusão, qual deverá ser a atitude moral de um filho de Deus? O capítulo 25 de Isaías informa que [...] Deus abaterá o ímpeto dos estranhos...destruirá o véu que encobre todas as nações...no meio disto estenderão as nações as mãos, como as estende o nadador, para nadar, mas o Senhor lhes abaterá a altivez, não obstante a perícia das suas mãos. Em outras palavras, confiar no conhecimento humano como salvaguarda a um juízo que se está movendo, implica em achar que, apesar das promessas bíblicas, temos que achar um meio de escape. Assim, fizeram os israelitas derrotados do passado.

Sair correndo para buscar o auxílio humano, ainda que oremos a Deus pedindo que não venham agravamentos por mal sucesso da vacina, somente demonstra o quanto estamos agarrados ao salva-vidas humano. Como sobreviveremos quando nenhuma infraestrutura humana estiver disponível no futuro? A atual vacinação é muitíssimo diferente das outras que durante nosso lapso de vida temos presenciado. Lembramos a luta do Dr. Albert Sabin, pesquisador que desenvolveu a vacina oral para poliomielite, nos idos de 1955. Não lucrou com sua descoberta, a não ser honrarias acadêmicas, sendo sua vacina uma benção ao mundo. A situação hoje é muito invertida, porque há enormes lucros envolvidos e, este comportamento gera narrativas contra fármacos baratos que poderiam ser utilizados em escala mundial, mas sem lucros para países.

Seguramente, podemos inferir, que orar a Deus para que essa vacina enxarcada de problemas ideológicos e morais tenha sua benção, talvez seja presumir e tentar Deus. Pedimos que atentem cuidadosamente para a lógica do que estamos mostrando. Logo que a gana pelo lucro estiver arrefecida e, portanto, as injustiças amainadas, nosso Deus fará com que inteligências semelhantes ao Dr. Sabin apareçam e tornem possível as bençãos de Deus. Por enquanto, o mais prudente seria esperar um pouco confiando na proteção de Deus e adotando sempre as medidas profiláticas para evitar a contaminação.


quinta-feira, 21 de janeiro de 2021

Uma população assustada aceita qualquer forma de esperança

 Quando 2020 terminava, a humanidade tinha esperanças de que 2021 poderia ser, emblematicamente, um novo tempo, deixando para trás os fantasmas que assustaram em 2020. Chegou janeiro de 2021 e o medo recrudesceu. Nossa cidade, Manaus, entrou em pânico e registrou uma onda de moléstia e mortes, ainda mais assustadora do que em 2020. Para piorar, o sistema de saúde local, o qual já era precário, logo entrou em colapso, não havia vagas nos hospitais, a produção de oxigênio se mostrou insuficiente para a demanda dos enfermos, as equipes médicas ficaram imediatamente exaustas, ficando claro que há necessidade de formação de mais profissionais e com mais qualidade. Muitos médicos pararam os seus serviços, receosos pela força viral da pandemia. As farmácias tiveram seus estoques esgotados e os remédios específicos não estavam disponíveis. O caos estava instalado. Muitos doentes e muitos mortos. Que começo de ano decepcionante.

Situações assim são oportunidades para testagem do caráter moral de uma população. Muitos comerciantes se tornaram assaltantes do povo que apavorado buscava comprar o que pudesse para sentir segurança. Logo, os preços se alteraram. Itens essenciais, como é o caso das garrafas para oxigênio, desapareceram e foram oferecidas no cambio negro. Por outro lado, políticos moralmente degradados começaram a oferecer esperanças prometendo vacinas e atacando outros políticos. Uma população assustada vai aceitando qualquer forma de esperança, o raciocínio e a razão encurtam muito, ficam como um rebanho facilmente conduzidos pelas narrativas políticas. Nestas circunstâncias, igrejas passam a ser tábuas de salvação, mas, o misticismo pouco pode ajudar, a não ser precário socorro psicológico muito breve.

Porém, há uma única esperança que, se observada, poderá mitigar o medo e devolver a paz. A palavra escrita de Deus. Esta palavra, chamada Bíblia, contém todas as instruções necessárias para diminuir o alto estresse provocado pela situação epidêmica. Por que não é consultada?

Nosso mundo, criado por Deus, com toda a sua estrutura a qual chamamos natureza, está cheio com a glória de Deus. O caráter de Deus pode ser visto e estudado na natureza. Quando observada, ela revela um complexo sistema de cooperação, um importante coadjuvante que auxilia na manutenção da vida na superfície da terra. Por que isso é tão importante? Porque esse sistema de cooperação demonstra a justiça que há em Deus. Esse enorme e complexo sistema de cooperação trabalha para bons e maus, espelhando como Deus opera administrando o universo.

Deus deixou sob a responsabilidade humana a construção do mundo social. Essa construção, ao longo das eras, espelha o caráter egoísta no qual a humanidade se desenvolveu. Diferentemente de Deus, não se construiu uma sociedade justa, com inclusão de todos. Nem todos têm direito a tudo, porque o mundo social é melhor para alguns e indiferente para outros.

Quando olhamos para nosso país, vemos uma situação completamente injusta. Vemos que a riqueza flui para quem não trabalha, mas negocia com favores. Muitos estão enriquecendo pelo suborno e pela influência, mais do que pelo trabalho. As leis não protegem a população, mas, protegem os corruptos do possível ataque do povo escravo. A corrupção tem recompensas e a honestidade é punida. Tal nível de injustiça clama por punição.

Em Levítico 19:35 Deus instrui o povo, o qual é responsável pelo mundo social, de que não deverá cometer injustiça no juízo, nem na vara, nem no peso, nem na medida. Em Ezequiel 18:8, novamente o povo é advertido quanto ao seu trato com o dinheiro: “Não dando o seu dinheiro à usura, e não recebendo demais, desviando a sua mão da injustiça, e fazendo verdadeiro juízo entre homem e homem”.

Ora, se estas são as demandas de Deus sobre a justiça no mundo social, obviamente espera-se que se não forem cumpridas, logo virá juízo. Assim, está escrito em Isaías 57:17: “Pela iniquidade da sua avareza me indignei, e o feri; escondi-me, e indignei-me; contudo, rebelde, seguiu o caminho do seu coração”. Vemos, outra vez Deus reprovando a injustiça social nas palavras do profeta Ezequiel (22:12): “Presentes receberam no meio de ti para derramarem sangue; usura e juros ilícitos tomaste, e usaste de avareza com o teu próximo, oprimindo-o; mas de mim te esqueceste, diz o Senhor DEUS”. Essa parece ser a situação das nações atuais. Dizem que a China está lucrando montanhas de dólares vendendo equipamento hospitalares, itens de proteção individual para profissionais da saúde e populações. Se é verdade que a China fabricou essa pandemia, a expectativa é que experimentará fortes juízos. Por outro lado, desunião política e diplomática internacional tem agravado o combate ao Covid 19.

Nas cidades não há possibilidades de ver o sistema de cooperação de Deus, o que está visível é o sistema egoísta humano. Os jovens são educados nesse sistema humano e tornam-se ainda mais egoístas que os pais. Essa construção social, estranha a Deus, vai para o interior do sistema cristão. Jeremias (6:13) fala desse assunto quando observa que “desde o menor deles até ao maior, cada um se dá à avareza; e desde o profeta até ao sacerdote, cada um usa de falsidade”. Esse estado de degradação social está visível no Brasil, há pastores evangélicos que enriqueceram e apregoam que a benção se materializa em bens materiais. Tal conceito leva ao raciocínio de que nossa segurança está na posse de bens materiais, contrariando o princípio bíblico de que a justiça nos fará entrar para vida eterna. Jesus, falando sobre o assunto disse: “Acautelai-vos e guardai-vos da avareza; porque a vida de qualquer não consiste na abundância do que possui” (Lucas 12:15).

O que estamos presenciando aqui e agora, bem diante dos nossos olhos, é a ausência da aplicação do princípio da igualdade e justiça na construção social do mundo e, muito atrevidamente no Brasil. Ora, se Deus ferirá, sempre que estiver sobrepujando a iniquidade, logo, podemos inferir que a pandemia que se alastrou significa juízo. Portanto, o caminho seguro para estancar a pandemia é estabelecer parâmetros sociais muito mais justos.

Com o começo da vacinação, o que estamos assistindo é mais injustiça. As vacinas, ainda que insuficientes, estão sendo aplicadas inicialmente em uns poucos privilegiados e não no público-alvo consensuado. Certamente há subornos em pecúnia e em influência. Verifica-se, atonitamente, que há uma segunda onda viral para a qual a tão almejada vacina não será mais eficaz. É como se Deus estivesse dizendo: enquanto não forem restabelecidos os parâmetros igualitários, não haverá esperança. É o naufrágio do Titanic. No momento mais crucial os ricos pagaram para ficar nos barcos salva vidas.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

Amazônia: Teologia e Sociologia da Sustentabilidade

 

 

 (Este artigo foi publicado em 17/11/2020 no Blog Brasil Amazônia  Agora)

 

A população amazônida, sem saber por certo os seus benefícios diretos e indiretos, sem métricas que possam indicar o cumprimento das suas expectativas, carecem de motivações plenas para participar ativamente em uma empreitada que possa, de fato, lhe trazer benefícios.

Estevão Monteiro de Paula

Cláudio Ruy Fonseca
_________________________________

Esquecem de combinar com o Russos

Era um dia de 1958. Feola, grande técnico da seleção de futebol brasileira, explicava à sua seleção como vencer a mais recente e mais forte adversária do campeonato, a seleção russa. A estratégia de Feola era complicada mostrando como o time marcaria seus gols. Na explicação Feola descrevia os passes de jogador para jogador que deviam ser feitos considerando as posições dos jogadores adversários.  Quando acabou a sua explicação, o Garrincha, um dos melhores jogadores da história do futebol do Brasil, pergunta: “Tá legal, seu Feola… mas o senhor já combinou tudo isso com os russos?”

Assim, são as questões relacionadas ao desenvolvimento sustentável na Amazônia. Intelectuais, formadores de opiniões e tantos outros dos mais diferentes lugares do mundo discutem essas questões sem combinar com as populações locais. Tentativas de implementação de receitas prontas já ocorreram sem considerar-se quais são os anseios destas populações – esquecem-se de combinar o futuro da Amazônia com os Amazônidas!

Que sem saber por certo os seus benefícios diretos e indiretos, sem métricas que possam indicar o cumprimento das suas expectativas, carecem de motivações plenas para participar ativamente em uma empreitada que possa, de fato, lhe trazer benefícios.

Racionalidade ambiental clarificada pela fé

Os fatores motivacionais do ser humano, impulsionados pela satisfação de suas necessidades, de acordo com a teoria das necessidades de Maslow (1907-1970), e depois aperfeiçoada pelo Alderfer (1973) como a teoria ERG, baseiam-se em 3 grupos motivacionais: existência, relacionamento e crescimento. A existência, são as necessidades psicológicas e materiais; o relacionamento, trata do compartilhamento mútuo de ideias e sentimentos; o crescimento, é o desejo de ter influência criativa e produtiva.

Para isto, é preciso dar musculatura aos indivíduos através do coletivo por meio do compartilhamento dos desejos baseados em princípios éticos e valores morais. Neste sentido, a religião pode ter um papel importante na promoção de autonomia social, na sobrevivência do indivíduo e na construção de subsídios para sua existência.

A racionalidade ambiental clarificada pela fé pode ser um elemento motivador para a construção de modelos econômicos de desenvolvimento sustentável, tendo como pressuposto que a fé, através da religião, pode unificar os indivíduos no fortalecimento de comunidades e no compartilhamento de trabalhos por causa de princípios éticos e valores morais universais.

O saber teológico e os processos sociais com a problemática ambiental

O lado ocidental do planeta teve, em seu processo civilizatório, forte influência dos princípios judaicos, os quais estão plasmados, de forma indelével, na formação da igreja cristã, a mesma que formatou o que entendemos ocidentalmente por moralidade. Nem poderia ser diferente, uma vez que a igreja cristã deriva necessariamente do judaísmo. Assim, todos  os conceitos judaicos sobre moral individual e coletiva estão nos catecismos e manuais cristãos, por força da base de tudo, a qual é a Bíblia, e nesta estão incluídos a Torá (os cinco primeiros livros mosaicos: Gênesis, Êxodo, levítico, Números e Deuteronômio), os profetas e os escritos, sendo esse conjunto conhecido como Velho Testamento (VT), além do Novo Testamento (NT) que inclui os evangelhos e os escritos paulinos e mais algumas cartas de Pedro, João e Judas, terminando com o Apocalipse ou revelação. O NT trata da transição do judaísmo para a igreja cristã, mas, os conceitos do VT deram formato ao moralismo do NT.

Moralismo considera a moral como valor universal e necessário à percepção da realidade. Assim, a Torá é a fonte moral, e nesta condição, orienta o conjunto de valores compartilhados que constituem o senso coletivo do que é correto. Para o cristianismo, o indivíduo tem responsabilidades com os direitos alheios, os quais deverão ser considerados com mais empenho do que os do próprio indivíduo. Essa percepção torna a família, as comunidades, os bairros, as cidades, muito mais seguras, em virtude da preservação dos direitos alheios. Se a preocupação está no bem estar do próximo, então cessam ações violentas.

As bases teológicas da civilização

O ocidente produziu um arcabouço legal baseado no princípio judaico do amor ao próximo. Em todos os marcos legais nos diversos países há preceitos e impedimentos que determinam o respeito pelo bem estar do outro, sob pena de punições asseguradas pelos Estados.

No que diz respeito ao desenvolvimento sustentável, a Torá indica que deverão ser realizadas ações que tornem evidente a materialização da justiça, esta, sendo imprescindível à diminuição das desigualdades. Por exemplo, a cada sete dias, portanto no sábado (shabat), as fazendas deveriam permitir que os pobres, as viúvas, os órfãos e os estrangeiros colhessem alimentos para seu sustento. Também era costume, durante a época da colheita de alguma lavoura, que não se fizesse a coleta dos alimentos nos cantos dos terrenos, para que os desafortunados acima descritos pudessem colher também. Eram contornos sociais para diminuir as desigualdades. Além disso, as dívidas assumidas eram perdoadas a cada sete anos e, a cada 50 anos, todas as terras vendidas voltavam ao seu dono original.

O sistema acima não veio para igreja cristã atual, embora tivesse sido praticado pela igreja cristã primitiva, aquela do primeiro século DC. O discurso de igualdade, fraternidade e liberdade é apenas retórico. Fala-se em desenvolvimento sustentável ou sustentabilidade, como sendo um processo de transformações e mudanças, em aperfeiçoamento contínuo, envolvendo múltiplas dimensões (econômica, social, ambiental), que visam diminuir as desigualdades, mas, na realidade, o acesso a bens e serviços essenciais não está disponível indiscriminadamente, daí a violência social dos nossos dias.

A ascensão do individualismo

A igreja cristã tem responsabilidade direta na manutenção das desigualdades, por consequência das interpretações dos textos e posições dos seus líderes. Na reforma empreendida por Lutero, tendo em vista desfazer o totalitarismo eclesiástico, ele teve a intenção de realocar a autoridade de uma instituição externa, para o crente individual e seu encontro direto com Deus através de leitura particular de textos sagrados e abertura pessoal para a graça divina. Logo, os teólogos que os sucederam viram no individualismo algo que poderia ser aplicado na liberdade em relação às instituições, assumindo que ninguém pode impor aos indivíduos qualquer decisão. Nada, na cultura ou estrutura social pode aliviar a pessoa de sua responsabilidade final de decidir como viver e no que acreditar. Tudo depende do indivíduo. Este é um ponto decisivo. Formava-se a consciência de que o eu era superior ao nós.

Descartes (1596-1650), pai da filosofia moderna, em sua tentativa de construir uma narrativa da ciência humana sobre a base de ceticismo radical, impôs o questionamento sistemático de tudo. Ele concluiu que o indivíduo era dominante: Penso, logo, existo. O Rabino Jonathan Sacks, em sua obra Morality argumenta que o que tornou isto um ponto decisivo foi a herança religiosa do ocidente que tinha, como um dos seus fundamentos, o momento em que Moisés, diante da sarça ardente, perguntou o nome de Deus, e Deus replicou, Eu Sou o que Sou. A natureza revolucionária do método cartesiano está embasada no movimento do divino “Eu sou” para o humano “Eu sou” – da visão da realidade do teocentrismo para o antropocentrismo. Esta mudança de visão teve implicações que seriam mais tarde articuladas com força despedaçadora por Friedrich Nietzsch (1844-1900).

Transvalorização

Nietzsche, é diretamente lembrado como o iminente genitor do pós-modernismo. Seus escritos permitem uma infinita gama de interpretações, mas o centro do seu trabalho foi sua percepção de que a completa visão da moralidade, como tem sido compreendida através da história do cristianismo, deveria ser substituída pelo que ele chamou de “transvalorização de valores”.

Sua visão era de que a herança moral judaico-cristã não passava de uma vingança dos sem poder contra os poderosos; a retribuição exigida pelos escravos contra os seus antigos senhores; um exercício sustentável pelo ressentimento. Tudo o que fora reputado como virtude, compaixão, bondade, era, de fato, uma maneira de castrar a realidade, moldada e dominada pela vontade do poder. Tal interpretação é um verdadeiro vitupério à Torá.

Na competição por poder, muitas pessoas falham, mas algumas obtém sucesso e impõem sua vontade sobre outros. A tais pessoas Nietzsche chamou de um Ubermensch (super homem). O cristianismo se opõe à competição, uma vez que esta estimula injustiça e desigualdade.  Mas, Nietzsche não disse o que aconteceria com o resto da humanidade num mundo governado por super homens. Para Nietzsche, os vencedores contam, perdedores não. Um mundo governado pela vontade de poder não é um mundo moral como o reconhecemos.

A influência de Nietzsche no mundo contemporâneo é devastadora. Ele foi um dos primeiros a crer que a linguagem e as ideias eram meramente uma máscara escondendo numa subjacente batalha de vontades, uma luta pelo poder. Assim, ele se tornou o originador, mais tarde seguido por Marx e Freud, da hermenêutica da suspeita. Não há verdades, disse ele, apenas interpretações.

Fundamentos de uma outra moral

Nietzsche destruiu, eficientemente, os fundamentos da moralidade tal como concebidos e mantidos no ocidente através dos séculos. Propôs em seu lugar uma visão profundamente subjetiva da vida moral, na qual a escolha particular era a essência. O indivíduo tornou-se a figura marcante do drama moral, mas também seu autor, o escritor das regras.

Isto foi incluído, de muitas formas, em diferentes culturas. Na França tornou-se o existencialismo, como explicado por Sartre e Camus. Nós estamos aqui para ser nós mesmos, não atores dirigidos pela consciência coletiva. Mais tarde, isto se tornou o movimento conhecido como pós-modernismo, liderado por Foucault, Derrida e outros.

Moralidade assim cessou de ser o que tinha usualmente sido percebido como um bem, ou seja, o compartilhado código pelo qual se regulam os membros de um grupo, para tornar-se uma mera questão de gosto pessoal.

O resultado foi uma ética sem princípios acordados ou verdades objetivas. O mundo do relativismo, subjetivismo, e uma nova ideia dominante, chamada autenticidade, ou como é, às vezes chamada, individualismo expressivo. A moral imperativa, diferente em substância para cada um de nós, é o que chamam de tornarmo-nos nós mesmos.

Moral individualista e os limites da democracia

O atual conceito de moralidade torna-se um perigo às democracias, pois, as pessoas simplesmente deixaram de se interessar pelo bem estar dos outros, transferindo essa responsabilidade para o Estado, que cresce, cada vez mais, até se tornar uma espécie de tirania benigna. Decisões coletivas são terceirizadas para o Estado, dando ensejo ao surgimento de regimes de exceção.

Vivendo à parte, as pessoas se tornam como estranhas em relação ao destino de todos os outros; a humanidade fica restrita aos seus filhos e seus amigos particulares. Quanto ao resto dos seus concidadãos, estão perto, mas não os veem; podem tocá-los, mas não os sentem, porque só existem para si mesmas. Neste caso, é como se o país estivesse dissolvido, não havendo o sentido da comunidade nacional, do patriotismo, da luta pelo ideal compartilhado. Esse é o meio ambiente para o surgimento de tiranias.

O perigo da terceirização é que ao se deixar o que não nos concerne pessoalmente para responsabilidade do Estado, assumimos o risco do sequestro da liberdade democrática. A única coisa que nos protege deste resultado é o fortalecimento das famílias, comunidades, igrejas e organizações de caridade. Em outras palavras, no ambiente moral compartilhado as pessoas ativamente cuidam umas das outras. Perder os ambientes do encontro face a face, onde o senso moral é exercitado levará à perda da liberdade.

O ocidente construiu um pano de fundo social que frustra iniciativas que obrigam cooperação. Por esse motivo, qualquer planejamento para alcançar níveis superiores de sustentabilidade tende a não se concretizar. Sustentabilidade requer ação conjunta social, política, educacional, religiosa, entre outras. Na medida em que a sociedade pós-moderna aprimora o individualismo, não há como pensar em cooperacionismo. Essa impossibilidade se dá nos níveis internacionais, mas, também no nível nacional, estadual, municipal, etc. (assistimos hoje a descoordenação dos países, dos estados no caso brasileiro, no enfrentamento ao covid 19).

A individualidade na produção do conhecimento

O sistema filosófico atual é o grande empecilho ao desenvolvimento sustentável. Será necessária a superação desse modelo. Os jovens cientistas brasileiros terão que entrar em contato com a realidade da operação coletiva, sob pena da permanência do sonho do desenvolvimento sustentável continuar no discurso.

Os conflitos sociais existentes, as polaridades das crenças e da política, os ceticismos nas informações recebidas e a individualidade crescentemente alimentada pelo isolamento social do ser humano, dificultam a produção de conhecimentos robustos que possam atender aos anseios de uma sociedade ávida para desenvolver-se de forma sustentável.

Atualmente, muitas entidades representativas do setor empresarial, da academia e pensadores têm se manifestado sobre o fato de que o ser humano deve aprender a trabalhar em grupo e ter inteligência emocional. Isto provoca certa agitação em alguns setores científicos acostumados ainda ao isolamento nas suas pesquisas.

A multidisciplinaridade, a interdisciplinaridade e a transdisciplinaridade são imprescindíveis na produção de conhecimentos científicos voltados ao ser humano, ao meio ambiente e ao desenvolvimento sustentável. Atento a esta postura, os editais publicados pelos fomentadores oficiais, visando o financiamento de projetos de pesquisas exigem parcerias. O ambiente científico passou a dar mais créditos às publicações com grande número de pesquisadores e o pensamento holístico começou a ser internalizado na comunidade científica. Interessante exemplificar os Programas de Pesquisas Translacionais inicialmente utilizados na área da saúde, mas, atualmente este tipo de programa está sendo aplicado nas mais diferentes áreas. Este programa integra cientistas das de diferentes áreas de conhecimento, instituições de desenvolvimento e de produção de insumo. Em outras palavras, aplicação de cadeia de conhecimento na cadeia de produção. Toda a cadeia de produção é estudada simultaneamente. Isto é, a ciência atual persegue a diminuição entre o tempo para a produção de conhecimento e a sua apropriação pela humanidade, almejando que, num futuro próximo, o conhecimento seja convertido em bem de consumo imediatamente. Por esta razão, pode-se esperar que o remédio para COVID-19 seja encontrado e implantado em um tempo bastante rápido.

O Desenvolvimento depende da Ciência

Na área médica a informação e disseminação do conhecimento cresce exponencialmente; a estimativa diz que em 2012 foram publicados mais de 1 milhão de artigos científicos no espaço de um ano. Além disso a velocidade em que as descobertas médicas têm alcançado a prática médica nos últimos dois mil anos é de impressionar.  Pesquisadores estudaram a velocidade com que o conhecimento chega a aplicação medica nos últimos 150 anos, e chegaram a uma relação linear decrescente; de acordo com a pesquisa, a continuar essa linearidade (é o que se espera), nos próximos 20 anos a translação entre a descoberta médica e sua aplicabilidade será praticamente imediata. Isto se dará devido progresso computacional observado com a Lei de Moore e o crescimento das arquiteturas de computação que, de acordo com Ray Kurzweil, em 2045, o ano da singularidade, haverá uma “explosão de inteligência”. Portanto, não acreditamos ser temeroso utilizar remédios desenvolvidos rapidamente para combater pandemias.

Nas academias brasileiras há tentativas para construir trabalho coletivo, todavia, as expectativas não foram satisfeitas. O Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, por exemplo, redesenhou sua estrutura orgânica para que seus pesquisadores trabalhassem em grupos de pesquisas. Entretanto, toda a geração atual de pesquisadores aprendeu com seus mestres o trabalho individual. Como consequência, formaram-se grupos artificiais de pesquisas que sequer produzem projetos coletivos e, as publicações permanecem individuais, determinando resultados com aplicabilidade restrita, por causa da deficiência de interpretações transdisciplinares dos fatos.

Assim como na área da saúde as demais áreas de conhecimentos terão disponibilizados aparatos tecnológicos capazes de armazenar quantidades significativas de informação, com capacidade computacional jamais imaginadas pelo ser humano. Portanto, será imprescindível que o sucesso de quaisquer empreitadas cientificas sejam dependentes de grupos de pesquisadores e outros atores importantes no processo.

No campo da teologia aparece uma disciplina denominada de ecoteologia, a qual objetiva novas leituras a respeito dos relatos da criação, com reflexões teológicos em diálogo com a ciência, em um novo paradigma pós-antropocêntrico.

A racionalidade ecológica das igrejas

A carência das lideranças políticas e referências econômicas e sociais, o ceticismo em relação à probidade e honestidade das lideranças políticas são fatos que desagregam a sociedade, polarizam a ideologia e promovem o crescimento da individualidade; é provável que, nos dias de hoje, uma das poucas realidades que oportunizam a união, com capacidade para estabelecer foco, construir padrões de comportamentos sociais únicos seja a igreja. Como diz o Papa na sua carta relativa as questões ambientais:

 “Todavia, para se resolver uma situação tão complexa como esta que enfrenta o mundo atual, não basta que cada um seja melhor. Os indivíduos isolados podem perder a capacidade e a liberdade de vencer a lógica da razão instrumental e acabam por sucumbir a um consumismo sem ética nem sentido social e ambiental. Aos problemas sociais responde-se, não com a mera soma de bens individuais, mas com redes comunitárias:”

As mais diferentes religiões estão se manifestando quanto às questões ambientais, estabelecendo percepções sobre a relação e reponsabilidade do ser humano com o meio ambiente. A mais recente foi da religião católica que resultou em um documento chamado CARTA ENCÍCLICA LAUDATO SI DO SANTO PADRE FRANCISCO SOBRE O CUIDADO DA CASA COMUM editado pela Santa Sé. Nela a igreja recomenda a “conversão ecológica” que alerta a reponsabilidade atribuída à fé, para as questões sociais e ambientais.  Assim, o documento manifesta-se: “Convido todos os cristãos a explicitar esta dimensão da sua conversão, permitindo que a força e a luz da graça recebida se estendam também à relação com as outras criaturas e com o mundo que os rodeia, e suscite aquela sublime fraternidade com a criação inteira que viveu, de maneira tão elucidativa, São Francisco de Assis.”

“Ser Cristão é ser Sustentável”?

As preocupações ambientais também chegaram nas igrejas evangélicas. No ano de 2010 a igreja luterana realizou oficinas para discutir a responsabilidade ambiental no 42º Congresso Nacional da Juventude Evangélica Luterana do Brasil (JELB). Três anos depois inaugura em Porto Alegre o Instituto Sustentabilidade. No ano de 2013, a igreja Metodista da Terceira Região Eclesiástica de São Paulo lançou a cartilha “Ser Cristão é ser Sustentável”. 

Nem todas as linhas das igrejas evangélicas estão preocupadas com as questões ambientais. Alguns líderes pastores alertam que a terra será destruída por Deus; portanto, envolver os crentes em projetos de sustentabilidade é um erro; como disse o Pastor americano Mark Driscoll “que os cristãos não devem se preocupar com o meio ambiente ou com o aquecimento global porque Jesus estaria prestes a arrebatar a Igreja.”

Posição contrária a manifestação de Driscoll se observou com o encontro de aproximadamente 4000 líderes evangélicos de 200 países, na cidade do Cabo em 2010, quando escreveram e assinaram o Pacto de Laussane III assumindo o compromisso das igrejas com a preservação da criação de Deus, a natureza.

Força Política das Igrejas

Os adventistas expressaram seu posicionamento em documento desde 1996. Em nível mundial, reiteram que a humanidade foi criada à imagem de Deus, portanto, Deus a responsabilizou quanto ao domínio do planeta, para administrar o ambiente natural como mordomos, ou seja, tendo apenas o usufruto, com a responsabilidade de garantir às gerações futuras, o uso das facilidades feitas por Deus. Também entendem que preservar a natureza pereniza o segundo livro (o primeiro é a Bíblia) onde o caráter de Deus está revelado, assim, as gerações futuras aprenderão a confiar em Deus. A questão maior a entender é: qual a percepção das igrejas em relação ao meio ambiente? Como se manifestarão os cristãos nos próximos anos em relação aos recursos naturais? Como o chamado evangelho pode interferir na sustentabilidade e na segurança social?

Qual será o reflexo na economia, na qualidade de vida do cidadão da Amazônia se seguirem rigorosamente a recomendação da cartilha Ser Cristão é ser Sustentável, quando afirma que: “cabe a cada um fazer sua parte para que o mundo que conhecemos permaneça por muitas e muitas gerações o mais intacto possível evitando, assim, que muito do que hoje existe não se transforme em peça de museu ou extinto da face da Terra por falta de uma preocupação com o que nos cerca”. Todavia, a ressalva “[….] o mais intacto possível” pode parecer utópica.

É indiscutível a força política das Igrejas nos dias de hoje. São capazes de eleger políticos e têm forte liderança em todas as esferas governamentais do Brasil. Além disso, é provável que a igreja seja, hodiernamente, a única referência que, grande parte da população brasileira acompanhada por iniciativa própria. Assim, é de se acreditar que construir projetos de desenvolvimento sustentável com as igrejas nas suas áreas de influência, respeitando seus valores e princípios morais, possa constituir uma iniciativa promissora e de sucesso para melhoria da qualidade vida do cidadão da Amazônia.


 

segunda-feira, 23 de novembro de 2020

Somos Equilibristas em Verdade

 

Por qual razão Adão e Eva não foram destruídos, conforme Deus asseverou? Em João 3:16-17 está a resposta: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Porque Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que condenasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele”.

Depois de ler o texto acima, surge outra pergunta: Por que Deus resolveu salvar o mundo?

O Reino dos Céus está suportado pela Lei dos Dez Mandamentos. Esta tem como princípio duas máximas: “[...] Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todas as tuas forças, e de todo o teu entendimento, e ao teu próximo como a ti mesmo” (Lucas 10:27).

 Uma representação bastante didática do funcionamento do Reino dos Céus pode se dar através de uma rede de relacionamentos. Imaginemos uma rede, onde na intersecção dos fios da rede, encontram-se nós, que são os homens. Cada um dos nós são locais onde energia (bençãos) chega. Cada nó que recebe energia, se acumula, torna-se obeso e logo estará em desorganização intrínseca, chegando ao falecimento. Por outro lado, se a energia chega ao nó e este a difunde, toda rede ficará energizada e viva. Tal maneira de administração permeia todo o universo. Energia chega aos nós e deve ser difundida. Nós difusores estão vivos e tornam viva a rede.

Agora, vamos pensar no arranjo planejado pelo Céu para que Adão não morresse. Deus poderia ter deixado morrer o homem, mas, por que não o fez?

Ora, se o substrato que sustenta o Reino dos Céus é o amor, ou seja, o interesse pelo bem estar das criaturas, a morte imediata de Adão teria abalado o referido substrato e, mais dúvidas entrariam na mente das criaturas inteligentes. Logo, o Céu não poderia agir de forma diferente, uma vez que Deus é amor.

 A liberdade que Deus outorgou aos seus filhos é a condição essencial para que o amor exista. Não se demonstra amor, a não ser em condições de liberdade, porque as ações no império do amor não podem ser obrigatórias, resultando de exigências forçosas. Somente em liberdade se pode demonstrar cabalmente o amor. Por essa razão, Adão teve espaço para servir ou não às leis do Céu. Então, o Céu não teria como matá-lo imediatamente, sob pena de induzir à compreensão de que Deus era vingativo e, portanto, injusto.

 

Por outro lado, Deus buscou o homem logo depois da queda. Se o Céu tivesse deixado Adão sozinho e demonstrasse menosprezo e afastamento, logo ficaria claro que Deus é intolerante com quem diverge, portanto, injusto, faccioso, sendo que estaria destruindo a arquitetura do seu próprio governo, a rede de relacionamentos. Por esse motivo, Deus amou o mundo.

Por amor ao nome de Deus (misericordioso e piedoso, tardio em irar-se e grande em beneficência e verdade (Êxodo 34:6)), o Céu buscou alcançar o homem caído. Importante que se diga que os nós da rede também devem ser misericordiosos, piedosos, tardios em irar-se, grande em beneficência e verdade. Além disso, é essencial lembrar que a palavra verdade, no contexto do Reino de Deus, significa prática, através de ações, das virtudes citadas. Jesus explicou que devemos adorar a Deus em espírito e em verdade, significando que ao entendermos as demandas de Deus, devemos praticá-las. Por esse motivo, porque Deus não apenas possui virtudes, mas, as materializa com ações, não destruiu Adão, mas, buscou salvá-lo. Assim, também os nós da rede não acumulam a energia que recebem.

O que estamos verificando é que o homem, em si mesmo, não tem grande valor, ele poderia ser deixado a morrer, mas, era necessária  a demonstração física do caráter de Deus, bem como todos os princípios do seu reino, entregando Ele o Seu Filho para poder salvar o homem. Por outro lado, o homem que fora criado à imagem de Deus, portanto, capaz de realizar ações como as de Deus, uma vez tendo descaído da sua condição, não poderia ser tratado como um ser descartável, para o qual estariam levantadas todas as barreiras, sendo incompatível com o próprio ser de Deus: Ele é amor e no amor não há barreiras; nesta condição, Deus não teria como deixá-lo para morrer. Se Deus abandonasse Adão, estaria demonstrada a injustiça. Logo, no Reino de Deus, todos importam, porém são livres. Assim, Deus amou o mundo e não o odiou, porque Deus é amor.

Dízimos e ofertas no sistema do amor

Agora, vamos oferecer uma perspectiva sobre como o homem, feito à imagem de Deus, portanto, capaz de agir de forma semelhante a Deus, pode demonstrar justiça e verdade, na sua relação com a Lei dos Dez Mandamentos e seus dois princípios.

Há no ideário cristão o entendimento de que a devolução dos dízimos é obrigatória, mas, que ofertar é uma questão liberal. Na verdade, não está de todo errada tal compreensão, considerando que ao entrarmos na relação membro/igreja, assumimos tal compromisso; compromissos são obrigações. No entanto, se o Reino de Deus é uma rede onde os nós estão em relacionamento de benignidade e verdade uns com os outros e com Deus, e esses relacionamentos estão regidos pelo amor, então, minha relação com Deus não é uma obrigação, mas, uma experiência amorosa, uma troca de solicitudes, onde a energia flui livremente. Ponderando que Deus nos enche com bençãos, e reconhecendo que tudo o que temos vem dEle, e que por esse motivo temos energia para agir, e que não temos nada que traga origem em nossa própria força e poder, então a devolução dos dízimos torna-se uma ação materializadora do amor e fé que confessamos com os lábios, sendo a demonstração da nossa verdade. Deus é o doador de todas as coisas (Neemias 9:17); se não temos como satisfazer nossas expectativas, mas, recebemos de Deus para que tais expectativas se realizem, então, é justo que devolvamos, em gratidão e amor, um pouco do que recebemos.

 É dessa forma que mantemos nossos relacionamentos sociais. Se reconhecemos que um amigo nos beneficia, tratamos de oferecer-lhe algum presente como materialização do nosso reconhecimento amoroso do benefício que recebemos, em virtude da doação que o amigo efetua. Por esse raciocínio, o dízimo não é uma obrigação, mas, nossa devolução amorosa e nossa explicitação de confiança em Deus, nossa adoração em verdade.

Dizimar nos coloca na rede de relacionamentos do Céu, pois nos ligamos a Deus. Já as ofertas, são nossa demonstração material do quanto estamos interessados no bem estar do nosso semelhante. Se queremos estar inteiramente na rede que é o Reino do Céu, teremos que ser difusores de bençãos. Mais do que isso, praticantes da justiça e da verdade. Equilibrar-se na rede de relacionamentos do Céu exige difusão de energia.