Um modelo
pipeline do desenvolvimento humano e do processo civilizatório à luz do Grande
Conflito
1.
Introdução
A teologia
bíblica apresenta o conflito entre o bem e o mal não como um embate meramente
mítico ou cosmológico, mas como uma disputa concreta pelo governo moral da
criação. Em 2 Coríntios 10:3–5, o apóstolo Paulo descreve esse conflito como
uma guerra espiritual cujo alvo são “fortalezas”, definidas como sofismas e
toda altivez que se levanta contra o conhecimento de Deus. Essa linguagem
desloca o foco do conflito do campo externo para o interior da experiência
humana, indicando que o pecado se organiza como sistema de pensamento, vontade
e identidade.
Este artigo
parte da premissa de que tais fortalezas não surgem de modo abrupto na vida
adulta, mas são construídas progressivamente ao longo do desenvolvimento
humano, desde a infância. Paralelamente, sustenta-se que o mesmo princípio de
autonomia que estrutura a rebelião individual também se manifesta
historicamente no processo civilizatório humano. Assim, o Grande Conflito pode
ser compreendido como um fenômeno simultaneamente pessoal e civilizatório.
2. Metodologia: o pipeline como modelo teológico-analítico
Metodologicamente,
este estudo adota um modelo pipeline, entendido não como determinismo
psicológico ou sociológico, mas como estrutura analítica progressiva,
capaz de integrar antropologia bíblica, teologia paulina, educação cristã e
história das ideias.
O pipeline consiste em quatro estágios
principais:
- Primeira infância (impulso e vontade);
- Infância tardia (hábitos e consciência);
- Adolescência (sofismas e identidade);
- Vida adulta (sistemas morais consolidados).
Esse modelo
permite analisar a formação das fortalezas morais em continuidade
histórica e existencial; correlacionar desenvolvimento individual e estruturas
coletivas; integrar fontes bíblicas e teológicas sem reduzi-las a categorias
psicologizantes.
A abordagem
é teológico-sistemática, com uso de exegese temática (2Co 10; Gn 3; Rm
7; Rm 12; Cl 3); leitura canônica da história bíblica (Gn–Ap); análise
pedagógica a partir dos escritos de Ellen G. White.
3. A queda
como desordem do governo da vontade
Biblicamente,
a queda não é apresentada apenas como transgressão de uma norma, mas como
deslocamento da autoridade. Em Gênesis 3, a tentação se estrutura como uma
narrativa alternativa à revelação divina: “sereis como Deus” (Gn 3:5). A
essência do pecado é, portanto, a autonomia moral da criatura.
Paulo
descreve essa condição como uma ruptura interna entre querer e agir (Rm
7:18–23), revelando que o conflito fundamental não é falta de informação moral,
mas desordem da vontade. Ellen G. White identifica a vontade como o centro
governante da natureza humana: “A vontade é o poder que governa a natureza
humana” (WHITE, 2013a).
Essa
compreensão fornece a base antropológica para o modelo pipeline: onde a vontade
não é redimida, a autonomia se organiza progressivamente em fortaleza.
4. Primeira
infância (0–6 anos): autonomia impulsiva e formação do governo interno
Na primeira
infância, a autonomia manifesta-se como impulso. A criança busca satisfação
imediata e resiste a limites, não por malícia deliberada, mas como expressão
inicial da natureza decaída. Trata-se do estágio embrionário da mesma lógica da
queda: o desejo de autogoverno.
Ellen G.
White afirma que o lar é a primeira escola moral e espiritual: “O lar deve ser
a primeira escola da criança” (WHITE, 2013b).
Ela adverte
que a disciplina cristã não deve esmagar a vontade, mas orientá-la: “Quebrar a
vontade não é o plano de Deus” (WHITE, 2013a).
Biblicamente,
essa fase corresponde à formação do coração como centro decisório (Pv 4:23) e à
educação contínua descrita em Deuteronômio 6:4–9. Quando essa etapa é
negligenciada, o impulso tende a cristalizar-se em padrão resistente à
autoridade.
Neste
contexto, a primeira infância é o momento em que o coração — entendido como o
centro das decisões morais e espirituais — começa a ser moldado. Provérbios
4:23 orienta: “Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, porque
dele procedem as fontes da vida”, ressaltando que as escolhas fundamentais da
existência têm origem nesse núcleo interior. Deuteronômio 6:4–9 reforça que a
educação contínua, centrada nos princípios divinos, deve ser transmitida desde
cedo, no ambiente familiar, permeando todas as experiências cotidianas. Ellen
G. White complementa: “O lar deve ser a primeira escola da criança”, e adverte
que a disciplina cristã não visa esmagar a vontade, mas orientá-la para o bem
(“Quebrar a vontade não é o plano de Deus”).
Quando essa
etapa é negligenciada, os impulsos naturais tendem a se cristalizar em padrões
resistentes à autoridade, dificultando a formação de uma consciência sensível à
direção divina. Assim, a formação do coração na infância é decisiva para o
desenvolvimento moral e espiritual ao longo da vida, pois estabelece as bases
para a obediência voluntária e o discernimento entre o certo e o errado (Pv
4:23; Dt 6:4–9; WHITE, 2013a, 2013b).
5. Infância
tardia (7–12 anos): hábitos, consciência e estruturação moral
Na infância
tardia, o impulso transforma-se em hábito. A criança passa a compreender
razões, consequências e padrões morais. Aqui se consolida o princípio bíblico
da semeadura e colheita (Gl 6:7–8).
Ellen G.
White observa que a ausência de disciplina coerente nesta fase gera conflitos
posteriores entre vontade humana e autoridade divina. A obediência pode
tornar-se apenas externa, baseada em conveniência ou medo, preparando o terreno
para resistência futura.
Quando a
disciplina na infância é apenas externa, baseada em medo ou conveniência, a
criança aprende a obedecer para evitar punição ou obter recompensas, mas não
desenvolve uma consciência moral genuína. Isso significa que, ao invés de
internalizar valores, o indivíduo pode crescer ajustando seu comportamento
conforme o ambiente, sem verdadeira submissão à autoridade quer seja divina ou
humana.
Esse tipo
de formação favorece a hipocrisia, pois a pessoa aparenta conformidade
enquanto, internamente, resiste ou busca alternativas para manter sua
autonomia. A Escritura adverte contra essa postura: “Este povo honra-me com os
lábios, mas o seu coração está longe de mim” (Mt 15:8). Assim, a ausência de
disciplina coerente resulta em conflitos internos, resistência à autoridade e
uma religiosidade superficial, sustentada pelo medo ou pela busca de aprovação,
e não por convicção.
Este
estágio é crucial, pois hábitos morais repetidos tornam-se estruturas internas,
antecipando aquilo que Paulo chama de fortalezas.
6.
Adolescência (13–18 anos):
sofismas, identidade e fortaleza cognitiva
A adolescência representa um ponto crítico no
pipeline moral. Nessa fase, a autonomia deixa de ser apenas comportamental e se
torna cognitiva e identitária. Paulo descreve esse estágio com precisão ao
afirmar que as fortalezas consistem em “sofismas” e “altivez” contra o
conhecimento de Deus (2Co 10:5).
O adolescente passa
a justificar escolhas, relativizar normas e construir narrativas que legitimam
sua autonomia. Ellen G. White adverte que a condescendência na infância produz
consequências severas nessa fase: “Assim como se inclina o galho, assim cresce
a árvore” (WHITE, 2013b, p. 199).
A ausência de
formação do autogoverno na primeira infância resulta em resistência à
autoridade, inclusive à autoridade divina. Biblicamente, esse fenômeno é
antecipado em Provérbios 14:12, que afirma haver caminhos que parecem retos aos
olhos humanos, mas conduzem à morte.
A fortaleza deixa de ser impulso ou hábito e
se torna cosmovisão. O conflito passa a ser, explicitamente, contra a
autoridade moral de Deus.
Quando desejos não governados se repetem,
a mente cria justificativas; quando essas justificativas se consolidam, nasce
uma cosmovisão autônoma que entra em conflito direto com a autoridade moral de
Deus.
O caminho
da fortaleza parece ocorrer em 5 passos simples. O primeiro passo é o impulso “Eu
quero agora.” É a reação natural do corpo e da emoção, ligada ao prazer, à
sobrevivência ou ao alívio da dor. Aqui ainda não há rebeldia consciente,
apenas desejo.
O segundo
passo é o hábito, ou seja, “Eu faço sempre.” Quando o impulso é atendido
repetidamente, vira padrão automático. A pessoa sabe que não é o melhor, mas
ainda sente culpa.
O terceiro
passo é o sofisma, ou seja, “Não é tão errado assim.” Para reduzir a
culpa, a mente começa a defender o hábito. Há vários exemplos: “Deus entende”; “Todo
mundo faz”; “É só uma fase” “Eu mereço”. Aqui nasce a fortaleza mental
(2Co 10:5).
O quarto
passo é a identidade; “Isso sou eu.” O comportamento passa a definir
quem a pessoa é. Qualquer correção agora parece ataque pessoal.
Finalmente
vem o quinto passo, a cosmovisão; “Quem decide o certo e o errado sou eu.”
Agora tem-se um sistema completo: um deus funcional (prazer, autonomia,
pertencimento), uma moral própria, uma definição de liberdade, uma
teoria de verdade (“verdade é o que funciona para mim”). O conflito
deixa de ser com regras e passa a ser com a autoridade de Deus. Porque toda
cosmovisão precisa de uma autoridade final.
Se Deus
tiver autoridade o eu perde o trono. Então a mente faz uma das seguintes
coisas: reduz Deus (“Ele não exige”), redefine Deus (“amor sem verdade”), desloca
a autoridade (“minha consciência manda”), desacredita a lei (“isso é
cultural”), ataca a fonte (“a igreja é hipócrita”). Não é ódio a Deus. É defesa
do autogoverno.
A carne, em
Paulo, é a vida governada pelo desejo e pela autopreservação, sem submissão a
Deus. Ela começa como necessidade legítima (comer, prazer, segurança), e
vira lei absoluta (“se isso me preserva, é bom”). Por isso a carne “guerreia”
contra o Espírito (Gl 5:17).
Por que a fortaleza é tão difícil de romper
depois? Porque ela não é só comportamento, é mente
treinada, é identidade protegida, é sistema de defesa. A pessoa não sente que
está errada; sente que está ameaçada.
Paulo
propõe a cura (2Co 10). Paulo não diz “controle melhor o comportamento”. Ele
diz para destruir sofismas, derrubar altivez, levar o pensamento cativo a
Cristo. Ou seja, desmontar as justificativas, trocar o “deus funcional”, restaurar
a autoridade de Deus no coração.
Se a
criança aprende cedo limites com amor, obediência como segurança, desejo não é
rei, então, o impulso não vira hábito, o hábito não vira sofisma, o sofisma não
vira cosmovisão. Educação cristã é prevenção de fortalezas. O pecado
começa como desejo, cresce como hábito, se defende como ideia, se fixa como
identidade e termina como cosmovisão que rejeita a autoridade de Deus.
7. Vida
adulta: religiosidade sem rendição e a fortaleza sistêmica
Quando a
autonomia não é redimida, a vida adulta tende a consolidar uma fortaleza
civilizada. O indivíduo pode manter aparência religiosa, atividade e linguagem
teológica, mas resistir à submissão plena à vontade de Deus.
Paulo
descreve esse estado como “forma de piedade, negando-lhe o poder” (2Tm 3:5).
Ellen G. White adverte que erros na formação inicial podem acompanhar a pessoa
por toda a vida espiritual: “Erros cometidos na infância podem acompanhar a
pessoa até a eternidade” (WHITE, 2013b).
Nesse
estágio, a fortaleza é sistêmica: hábitos, identidade, interesses e
justificativas convergem para preservar a autonomia.
8. A
escatologia bíblica não elimina a carne — ela elimina a ameaça
A esperança
bíblica não é a libertação da matéria, mas a redenção da materialidade. Paulo
afirma que aguardamos “a redenção do nosso corpo” (Rm 8:23), não sua anulação.
Isso significa que o problema último nunca foi o corpo em si, mas o estado de
ameaça permanente sob o qual o corpo passou a existir após a queda.
Enquanto
houver morte, decadência e separação da Fonte da vida, o corpo vive sob
urgência, reage defensivamente, e tende a absolutizar a autopreservação. A
escatologia bíblica resolve exatamente esse ponto: remove a finitude ameaçadora,
não a corporeidade.
Na Nova Terra, a hierarquia original é plenamente restaurada: Deus →
Espírito vivificado → vontade plenamente livre → corpo plenamente seguro.
Essa ordem é
decisiva. O corpo deixa de ser regido pelo medo porque não há mais morte (Ap
21:4), não há mais separação da Fonte da vida, não há mais escassez ontológica.
Quando a ameaça desaparece, a “carne” deixa de ter razão para guerrear. O
instinto de sobrevivência deixa de ser defesa e volta a ser expressão
natural da vida plena. Portanto, a guerra entre carne e
Espírito não é eterna; ela é histórica, limitada à condição
pós-queda.
Um ponto teológico profundo emerge aqui: a obediência não
será fruto de repressão, mas de segurança ontológica. Enquanto
o ser humano teme perder a vida, a submissão parece risco. Quando a vida é
plenamente garantida em Deus, a submissão se torna descanso. Isso resolve uma
objeção clássica de Lúcifer no Grande Conflito: “A lei de Deus é opressiva.”
A Nova Terra prova
o contrário: a lei do amor só parece opressiva quando a criatura vive sob ameaça.
Sem ameaça, a obediência é espontânea.
O erro de todas as antropologias não bíblicas. Aqui o argumento desse artigo
alcança potência filosófica:
·
Materialismo:
tenta salvar o homem pela maximização da sobrevivência → produz egoísmo
estrutural.
·
Ascetismo/gnosticismo:
tenta salvar o homem negando a matéria → nega o projeto criacional.
·
Moralismo:
tenta conter a carne sem curar a ameaça → gera repressão e hipocrisia.
·
Humanismo
autônomo: promete segurança sem Deus → repete Babel.
A Bíblia propõe outra via: vida garantida
em Deus → desejos reordenados → obediência livre.
Jesus é antítese da autonomia da carne, e a cruz é o ponto decisivo da
derrota da carne. A cruz é o lugar onde a carne chega ao limite da ameaça
(morte), e ainda assim não governa. Cristo entrega a vida sem tentar
preservá-la a qualquer custo. Isso derrota a lógica da carne no seu ponto mais
forte: o medo da morte. Por isso, Hebreus afirma que Cristo liberta os que
“pelo medo da morte estavam sujeitos à escravidão por toda a vida” (Hb
2:14–15). Aqui está o elo definitivo da tese que está sendo defendida: a carne
escraviza porque a morte ameaça.
Ellen G. White, baseada na Bíblia, mostra com extrema
clareza que o plano da redenção visa restaurar completamente o
ser humano, o corpo será glorificado, e a obediência será fruto de amor e
confiança, não de coerção. Ela conecta a vitória sobre o apetite e os desejos
agora com a preparação para a eternidade, onde tais desejos existirão sem desordem, pois a vida não estará
mais ameaçada. Isso confirma que temperança e domínio próprio não são fins
morais em si, mas antecipações pedagógicas da ordem eterna.
A “carne”, para Paulo, não é a materialidade em
si, mas o regime existencial da criatura separada da Fonte da vida, vivendo sob
a pressão da finitude. Nessa condição, o instinto de sobrevivência tende a
absolutizar-se, tornando-se princípio moral e estruturando um egoísmo funcional
que se opõe ao governo do Espírito. Essa absolutização da autopreservação
constitui a fortaleza descrita por Paulo. A redenção, inaugurada na cruz e
consumada na restauração final, não elimina a carne, mas remove a ameaça que a
tornou dominante. Ao garantir plenamente a vida, Deus restaura a hierarquia do
ser humano, reconciliando materialidade e espiritualidade em perfeita harmonia.
9. O processo
civilizatório como externalização histórica da autonomia
A mesma
lógica que estrutura a fortaleza individual manifesta-se historicamente no
processo civilizatório. Desde Caim, que edifica uma cidade após romper com Deus
(Gn 4:17), a civilização surge como tentativa de segurança, identidade e
continuidade fora da dependência divina.
Em Babel
(Gn 11), essa dinâmica torna-se explícita: “façamos um nome”. A autonomia passa
a definir identidade, unidade e destino. Trata-se de uma fortaleza coletiva, no
sentido paulino.
O livro de
Juízes demonstra o resultado social da autonomia moral: “cada um fazia o que
parecia certo aos seus olhos” (Jz 21:25), produzindo fragmentação e violência.
Daniel e Apocalipse aprofundam essa crítica ao retratar impérios absolutizados
como bestas, isto é, poderes que se autoerigem como soberania final.
A
modernidade intensifica o projeto babilônico ao estruturar a ordem social sobre
a razão autônoma, o progresso técnico e a moral desvinculada da transcendência.
Ciência, tecnologia e instituições não são intrinsecamente malignas; tornam-se
fortalezas quando assumem função redentiva.
Ellen G.
White adverte que o conhecimento sem temor de Deus fortalece o orgulho humano e
amplia o conflito moral (Ciência do Bom Viver). A civilização passa, assim, a
catequizar o indivíduo para a autossuficiência, transformando autonomia em
virtude suprema.
Parece
haver um paralelismo entre indivíduo e civilização, o qual pode ser sintetizado
assim:
- Impulso → cultura do desejo
- Hábito → instituições normalizadoras
- Sofisma → ideologias
- Fortaleza pessoal → sistemas civilizatórios
- Religiosidade sem rendição → moralidade pública sem transcendência
Ambos
refletem a mesma escolha pós-queda: viver sem submissão voluntária à autoridade
divina.
A narrativa
da queda em Gênesis 3 descreve a transgressão não apenas como violação de um
preceito, mas como ruptura de confiança e deslocamento de autoridade (“sereis
como Deus”, Gn 3:5). O resultado imediato inclui a perda do acesso à “árvore da
vida” (Gn 3:22–24), introduzindo a experiência histórica da finitude, isto é, a
vida humana sob a pressão da mortalidade. Paulo interpreta essa nova condição
como submissão da criação à “corrupção” e “vaidade” (Rm 8:20–23), indicando uma
degradação progressiva que atinge corpo, ambiente e temporalidade.
Dentro
desse quadro, a “carne” (sarx) paulina pode ser entendida como um regime
existencial marcado pela urgência da autopreservação, pela ansiedade do limite
e pelo deslocamento do eixo de confiança do Criador para o “eu”. Essa leitura
não implica que matéria e corpo sejam maus em si; antes, afirma que, sob a
queda, a dimensão corpórea passa a operar sob vulnerabilidade aumentada e
desejos mais ruidosos, os quais, quando absolutizados, assumem função de “lei”.
A educação
cristã não visa apenas adaptar o indivíduo à civilização, mas capacitá-lo a
discerni-la criticamente. A igreja atua como espaço pedagógico contracultural,
onde os princípios do Reino de Deus são restaurados parcialmente enquanto se
aguarda a restauração final.
Paulo não
propõe isolamento cultural, mas discernimento espiritual: destruir fortalezas e
levar o pensamento cativo a Cristo (2Co 10:5).
A distinção
central aqui é entre necessidade e soberania. Em sua constituição
original, necessidades como alimentação, repouso e proteção foram dadas como
parte da vida criada “muito boa”. Contudo, sob a queda, a finitude e a ameaça
transformam a necessidade em imperativo moral autônomo.
O processo pode
ser descrito em sequência: (1) vulnerabilidade → (2) ansiedade → (3) controle →
(4) autonomia → (5) justificativas (sofismas) → (6) fortaleza.
Esse
encadeamento explica o ponto teológico importante: “os impulsos carnais são
sobrevivência; tornam-se a lei que governa”. Em termos paulinos, isso se
manifesta quando a mente passa a servir como “advogada” do desejo — exatamente
o que Paulo chama de “sofismas” e “altivez” contra o conhecimento de Deus (2Co
10:4–5). A “carne”, assim, não é meramente sensualidade, mas o princípio do
eu que define o bem como aquilo que preserva sua própria vida, prazer,
controle e reputação.
Ellen G.
White oferece uma formulação particularmente convergente com essa leitura ao
tratar o apetite como ponto estratégico do conflito moral. Ela afirma
que Cristo venceu Satanás “no ponto do apetite”, e que essa vitória abriu
possibilidade real de superação humana “em Seu nome” sobre a força do apetite. Ao
mesmo tempo, ela sustenta que o processo educativo deve começar cedo, ensinando
“abnegação e domínio próprio” desde a primeira infância, e declara
explicitamente que “o apetite deve ser mantido em sujeição à vontade”, e que a
vontade deve ser governada pela “razão calma e inteligente”.
Duas conclusões teológico-pedagógicas decorrem
disso:
- A carnalidade é, frequentemente, a
absolutização do apetite (não
apenas comida, mas todo desejo que exige primazia).
- O caminho da redenção passa por reordenar
o governo interno, onde
a vontade (como poder decisório) retoma a liderança sob Deus.
Em
linguagem que se aproxima diretamente de 2Co 10, White identifica a vontade
como o “poder governante” na natureza humana, responsável por conduzir o ser
humano à obediência ou desobediência. Dessa forma, a “força da carne” não se
reduz a biologia: é o senhorio do desejo sobre a vontade, e a
subsequente instrumentalização da mente para legitimar esse senhorio. A
fortaleza moral, portanto, aparece quando a autopreservação (ou qualquer desejo
correlato) se torna “rei” e, por isso, não aceita correção nem submissão.
A expressão
“egoísmo do bem” é uma boa síntese: a carne raramente se apresenta como “quero
o mal”, mas como “preciso me proteger”, “preciso garantir minha vida”, “preciso
preservar meu valor”. O problema, biblicamente, é que isso pode se tornar uma
forma de autossalvação: o eu tenta produzir segurança e sentido
independentemente de Deus, repetindo o princípio de Gn 3. Nesse ponto, a
carnalidade pode assumir formas “respeitáveis”: controle, acúmulo, reputação,
trabalho como idolatria, religiosidade como escudo. Ainda assim, permanece
carnal porque mantém o eu como eixo.
Na teologia do conflito, Cristo é o contraste perfeito: Ele experimenta
necessidades reais e pressões de sobrevivência, mas não permite que a
necessidade se converta em soberania moral. Ellen White (Testemunhos Seletos
v.1) disserta sobre a perfeição de Jesus dizendo: “Uma das mais vigorosas tentações que o homem tem de enfrentar, é quanto
ao apetite. [...] Se a condescendência com o apetite era tão forte sobre a raça
humana que, para derribar-lhe o poder, foi exigido do divino Filho de Deus que
jejuasse por cerca de seis semanas, em favor do homem, que obra se acha diante
do cristão a fim de ele poder vencer da maneira por que Cristo venceu! A força
da tentação para satisfazer o apetite pervertido só pode ser avaliada em face
da inexprimível agonia de Cristo naquele prolongado jejum no deserto.”
Assim, a
carne não é “inferior” por ser corpo, mas porque não pode governar
corretamente. Ela reage, mas não discerne; preserva, mas não redime;
protege a vida biológica, mas não pode gerar vida eterna.
A redenção
não destrói a materialidade: ela reordena o humano. O corpo permanece,
mas deixa de governar; o desejo permanece, mas deixa de ser lei.
A Escritura
jamais descreve a materialidade como intrinsecamente má. Ao contrário, o ser
humano é criado como unidade indivisível de materialidade e sopro divino, e
essa condição é declarada “muito boa” (Gn 1:31). A inferioridade da carne,
portanto, não é ontológica (não diz respeito ao que o corpo é), mas relacional
e funcional (diz respeito a como ele governa e a quem ele responde).
Conclusão
O processo
civilizatório humano reflete, em escala histórica, o mesmo princípio que
inaugura o Grande Conflito: a autonomia moral da criatura. As fortalezas
descritas por Paulo são construídas progressivamente no indivíduo e
externalizadas em sistemas culturais e civilizatórios.
A redenção,
portanto, visa restaurar o governo de Deus no coração humano, preparando uma
humanidade reconciliada para um Reino em que civilização e submissão não
estarão em tensão, mas em perfeita harmonia.
Referências
BÍBLIA. Bíblia Sagrada. Tradução de
João Ferreira de Almeida. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2011.
WHITE, Ellen G. Educação. Tatuí: Casa
Publicadora Brasileira, 2013a.
WHITE, Ellen G. Orientação da Criança.
Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 2013b.
WHITE, Ellen G. Testemunhos para a Igreja,
v. 3. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 2014.
WHITE, Ellen G. A Ciência do Bom Viver. Tatuí:
Casa Publicadora Brasileira, 2006, p. 409-410)
WHITE, Ellen G. Testemunhos Seletos, v. 1. Tatuí:
Casa Publicadora Brasileira, p. 415-416
WHITE, Ellen G. Testimonies
for the Church, v. 5. Mountain View, CA: Pacific Press, 1889. (Seção sobre a vontade como poder governante).
WHITE ESTATE. Devotional compilations
(MLT; HP; SD). (Compilações com citações de Youth’s Instructor, Sufferings/ST,
Manuscripts sobre vontade e apetite).
WHITE, Ellen G. Temperance.
Washington, DC: Review and Herald Publishing Association, 1949. (Trechos: ensino de domínio próprio desde a infância; vitória de Cristo
no ponto do apetite).
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