terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Por que pessoas inteligentes resistem a Deus?


Um modelo pipeline do desenvolvimento humano e do processo civilizatório à luz do Grande Conflito

1. Introdução

A teologia bíblica apresenta o conflito entre o bem e o mal não como um embate meramente mítico ou cosmológico, mas como uma disputa concreta pelo governo moral da criação. Em 2 Coríntios 10:3–5, o apóstolo Paulo descreve esse conflito como uma guerra espiritual cujo alvo são “fortalezas”, definidas como sofismas e toda altivez que se levanta contra o conhecimento de Deus. Essa linguagem desloca o foco do conflito do campo externo para o interior da experiência humana, indicando que o pecado se organiza como sistema de pensamento, vontade e identidade.

Este artigo parte da premissa de que tais fortalezas não surgem de modo abrupto na vida adulta, mas são construídas progressivamente ao longo do desenvolvimento humano, desde a infância. Paralelamente, sustenta-se que o mesmo princípio de autonomia que estrutura a rebelião individual também se manifesta historicamente no processo civilizatório humano. Assim, o Grande Conflito pode ser compreendido como um fenômeno simultaneamente pessoal e civilizatório.

 2. Metodologia: o pipeline como modelo teológico-analítico

Metodologicamente, este estudo adota um modelo pipeline, entendido não como determinismo psicológico ou sociológico, mas como estrutura analítica progressiva, capaz de integrar antropologia bíblica, teologia paulina, educação cristã e história das ideias.

O pipeline consiste em quatro estágios principais:

  1. Primeira infância (impulso e vontade);
  2. Infância tardia (hábitos e consciência);
  3. Adolescência (sofismas e identidade);
  4. Vida adulta (sistemas morais consolidados).

Esse modelo permite analisar a formação das fortalezas morais em continuidade histórica e existencial; correlacionar desenvolvimento individual e estruturas coletivas; integrar fontes bíblicas e teológicas sem reduzi-las a categorias psicologizantes.

A abordagem é teológico-sistemática, com uso de exegese temática (2Co 10; Gn 3; Rm 7; Rm 12; Cl 3); leitura canônica da história bíblica (Gn–Ap); análise pedagógica a partir dos escritos de Ellen G. White.

3. A queda como desordem do governo da vontade

Biblicamente, a queda não é apresentada apenas como transgressão de uma norma, mas como deslocamento da autoridade. Em Gênesis 3, a tentação se estrutura como uma narrativa alternativa à revelação divina: “sereis como Deus” (Gn 3:5). A essência do pecado é, portanto, a autonomia moral da criatura.

Paulo descreve essa condição como uma ruptura interna entre querer e agir (Rm 7:18–23), revelando que o conflito fundamental não é falta de informação moral, mas desordem da vontade. Ellen G. White identifica a vontade como o centro governante da natureza humana: “A vontade é o poder que governa a natureza humana” (WHITE, 2013a).

Essa compreensão fornece a base antropológica para o modelo pipeline: onde a vontade não é redimida, a autonomia se organiza progressivamente em fortaleza.

4. Primeira infância (0–6 anos): autonomia impulsiva e formação do governo interno

Na primeira infância, a autonomia manifesta-se como impulso. A criança busca satisfação imediata e resiste a limites, não por malícia deliberada, mas como expressão inicial da natureza decaída. Trata-se do estágio embrionário da mesma lógica da queda: o desejo de autogoverno.

Ellen G. White afirma que o lar é a primeira escola moral e espiritual: “O lar deve ser a primeira escola da criança” (WHITE, 2013b).

Ela adverte que a disciplina cristã não deve esmagar a vontade, mas orientá-la: “Quebrar a vontade não é o plano de Deus” (WHITE, 2013a).

Biblicamente, essa fase corresponde à formação do coração como centro decisório (Pv 4:23) e à educação contínua descrita em Deuteronômio 6:4–9. Quando essa etapa é negligenciada, o impulso tende a cristalizar-se em padrão resistente à autoridade.

Neste contexto, a primeira infância é o momento em que o coração — entendido como o centro das decisões morais e espirituais — começa a ser moldado. Provérbios 4:23 orienta: “Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as fontes da vida”, ressaltando que as escolhas fundamentais da existência têm origem nesse núcleo interior. Deuteronômio 6:4–9 reforça que a educação contínua, centrada nos princípios divinos, deve ser transmitida desde cedo, no ambiente familiar, permeando todas as experiências cotidianas. Ellen G. White complementa: “O lar deve ser a primeira escola da criança”, e adverte que a disciplina cristã não visa esmagar a vontade, mas orientá-la para o bem (“Quebrar a vontade não é o plano de Deus”).

Quando essa etapa é negligenciada, os impulsos naturais tendem a se cristalizar em padrões resistentes à autoridade, dificultando a formação de uma consciência sensível à direção divina. Assim, a formação do coração na infância é decisiva para o desenvolvimento moral e espiritual ao longo da vida, pois estabelece as bases para a obediência voluntária e o discernimento entre o certo e o errado (Pv 4:23; Dt 6:4–9; WHITE, 2013a, 2013b).

5. Infância tardia (7–12 anos): hábitos, consciência e estruturação moral

Na infância tardia, o impulso transforma-se em hábito. A criança passa a compreender razões, consequências e padrões morais. Aqui se consolida o princípio bíblico da semeadura e colheita (Gl 6:7–8).

Ellen G. White observa que a ausência de disciplina coerente nesta fase gera conflitos posteriores entre vontade humana e autoridade divina. A obediência pode tornar-se apenas externa, baseada em conveniência ou medo, preparando o terreno para resistência futura.

Quando a disciplina na infância é apenas externa, baseada em medo ou conveniência, a criança aprende a obedecer para evitar punição ou obter recompensas, mas não desenvolve uma consciência moral genuína. Isso significa que, ao invés de internalizar valores, o indivíduo pode crescer ajustando seu comportamento conforme o ambiente, sem verdadeira submissão à autoridade quer seja divina ou humana.

Esse tipo de formação favorece a hipocrisia, pois a pessoa aparenta conformidade enquanto, internamente, resiste ou busca alternativas para manter sua autonomia. A Escritura adverte contra essa postura: “Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim” (Mt 15:8). Assim, a ausência de disciplina coerente resulta em conflitos internos, resistência à autoridade e uma religiosidade superficial, sustentada pelo medo ou pela busca de aprovação, e não por convicção.

 

Este estágio é crucial, pois hábitos morais repetidos tornam-se estruturas internas, antecipando aquilo que Paulo chama de fortalezas.

6.   Adolescência (13–18 anos): sofismas, identidade e fortaleza cognitiva

A adolescência representa um ponto crítico no pipeline moral. Nessa fase, a autonomia deixa de ser apenas comportamental e se torna cognitiva e identitária. Paulo descreve esse estágio com precisão ao afirmar que as fortalezas consistem em “sofismas” e “altivez” contra o conhecimento de Deus (2Co 10:5).

O adolescente passa a justificar escolhas, relativizar normas e construir narrativas que legitimam sua autonomia. Ellen G. White adverte que a condescendência na infância produz consequências severas nessa fase: “Assim como se inclina o galho, assim cresce a árvore” (WHITE, 2013b, p. 199).

A ausência de formação do autogoverno na primeira infância resulta em resistência à autoridade, inclusive à autoridade divina. Biblicamente, esse fenômeno é antecipado em Provérbios 14:12, que afirma haver caminhos que parecem retos aos olhos humanos, mas conduzem à morte.

A fortaleza deixa de ser impulso ou hábito e se torna cosmovisão. O conflito passa a ser, explicitamente, contra a autoridade moral de Deus.

Quando desejos não governados se repetem, a mente cria justificativas; quando essas justificativas se consolidam, nasce uma cosmovisão autônoma que entra em conflito direto com a autoridade moral de Deus.

O caminho da fortaleza parece ocorrer em 5 passos simples. O primeiro passo é o impulso “Eu quero agora.” É a reação natural do corpo e da emoção, ligada ao prazer, à sobrevivência ou ao alívio da dor. Aqui ainda não há rebeldia consciente, apenas desejo.

O segundo passo é o hábito, ou seja, “Eu faço sempre.” Quando o impulso é atendido repetidamente, vira padrão automático. A pessoa sabe que não é o melhor, mas ainda sente culpa.

O terceiro passo é o sofisma, ou seja, “Não é tão errado assim.” Para reduzir a culpa, a mente começa a defender o hábito. Há vários exemplos: “Deus entende”; “Todo mundo faz”; “É só uma fase” “Eu mereço”. Aqui nasce a fortaleza mental (2Co 10:5).

O quarto passo é a identidade; “Isso sou eu.” O comportamento passa a definir quem a pessoa é. Qualquer correção agora parece ataque pessoal.

Finalmente vem o quinto passo, a cosmovisão; “Quem decide o certo e o errado sou eu.” Agora tem-se um sistema completo: um deus funcional (prazer, autonomia, pertencimento), uma moral própria, uma definição de liberdade, uma teoria de verdade (“verdade é o que funciona para mim”). O conflito deixa de ser com regras e passa a ser com a autoridade de Deus. Porque toda cosmovisão precisa de uma autoridade final.

Se Deus tiver autoridade o eu perde o trono. Então a mente faz uma das seguintes coisas: reduz Deus (“Ele não exige”), redefine Deus (“amor sem verdade”), desloca a autoridade (“minha consciência manda”), desacredita a lei (“isso é cultural”), ataca a fonte (“a igreja é hipócrita”). Não é ódio a Deus. É defesa do autogoverno.

A carne, em Paulo, é a vida governada pelo desejo e pela autopreservação, sem submissão a Deus. Ela começa como necessidade legítima (comer, prazer, segurança), e vira lei absoluta (“se isso me preserva, é bom”). Por isso a carne “guerreia” contra o Espírito (Gl 5:17).

Por que a fortaleza é tão difícil de romper depois? Porque ela não é só comportamento, é mente treinada, é identidade protegida, é sistema de defesa. A pessoa não sente que está errada; sente que está ameaçada.

Paulo propõe a cura (2Co 10). Paulo não diz “controle melhor o comportamento”. Ele diz para destruir sofismas, derrubar altivez, levar o pensamento cativo a Cristo. Ou seja, desmontar as justificativas, trocar o “deus funcional”, restaurar a autoridade de Deus no coração.

Se a criança aprende cedo limites com amor, obediência como segurança, desejo não é rei, então, o impulso não vira hábito, o hábito não vira sofisma, o sofisma não vira cosmovisão. Educação cristã é prevenção de fortalezas. O pecado começa como desejo, cresce como hábito, se defende como ideia, se fixa como identidade e termina como cosmovisão que rejeita a autoridade de Deus.

7. Vida adulta: religiosidade sem rendição e a fortaleza sistêmica

Quando a autonomia não é redimida, a vida adulta tende a consolidar uma fortaleza civilizada. O indivíduo pode manter aparência religiosa, atividade e linguagem teológica, mas resistir à submissão plena à vontade de Deus.

Paulo descreve esse estado como “forma de piedade, negando-lhe o poder” (2Tm 3:5). Ellen G. White adverte que erros na formação inicial podem acompanhar a pessoa por toda a vida espiritual: “Erros cometidos na infância podem acompanhar a pessoa até a eternidade” (WHITE, 2013b).

Nesse estágio, a fortaleza é sistêmica: hábitos, identidade, interesses e justificativas convergem para preservar a autonomia.

8. A escatologia bíblica não elimina a carne — ela elimina a ameaça

A esperança bíblica não é a libertação da matéria, mas a redenção da materialidade. Paulo afirma que aguardamos “a redenção do nosso corpo” (Rm 8:23), não sua anulação. Isso significa que o problema último nunca foi o corpo em si, mas o estado de ameaça permanente sob o qual o corpo passou a existir após a queda.

Enquanto houver morte, decadência e separação da Fonte da vida, o corpo vive sob urgência, reage defensivamente, e tende a absolutizar a autopreservação. A escatologia bíblica resolve exatamente esse ponto: remove a finitude ameaçadora, não a corporeidade.

Na Nova Terra, a hierarquia original é plenamente restaurada: Deus → Espírito vivificado → vontade plenamente livre → corpo plenamente seguro.

Essa ordem é decisiva. O corpo deixa de ser regido pelo medo porque não há mais morte (Ap 21:4), não há mais separação da Fonte da vida, não há mais escassez ontológica. Quando a ameaça desaparece, a “carne” deixa de ter razão para guerrear. O instinto de sobrevivência deixa de ser defesa e volta a ser expressão natural da vida plena. Portanto, a guerra entre carne e Espírito não é eterna; ela é histórica, limitada à condição pós-queda.

Um ponto teológico profundo emerge aqui: a obediência não será fruto de repressão, mas de segurança ontológica. Enquanto o ser humano teme perder a vida, a submissão parece risco. Quando a vida é plenamente garantida em Deus, a submissão se torna descanso. Isso resolve uma objeção clássica de Lúcifer no Grande Conflito: “A lei de Deus é opressiva.”

A Nova Terra prova o contrário: a lei do amor só parece opressiva quando a criatura vive sob ameaça. Sem ameaça, a obediência é espontânea.

O erro de todas as antropologias não bíblicas. Aqui o argumento desse artigo alcança potência filosófica:

·       Materialismo: tenta salvar o homem pela maximização da sobrevivência → produz egoísmo estrutural.

·       Ascetismo/gnosticismo: tenta salvar o homem negando a matéria → nega o projeto criacional.

·       Moralismo: tenta conter a carne sem curar a ameaça → gera repressão e hipocrisia.

·       Humanismo autônomo: promete segurança sem Deus → repete Babel.

A Bíblia propõe outra via: vida garantida em Deus → desejos reordenados → obediência livre.

Jesus é antítese da autonomia da carne, e a cruz é o ponto decisivo da derrota da carne. A cruz é o lugar onde a carne chega ao limite da ameaça (morte), e ainda assim não governa. Cristo entrega a vida sem tentar preservá-la a qualquer custo. Isso derrota a lógica da carne no seu ponto mais forte: o medo da morte. Por isso, Hebreus afirma que Cristo liberta os que “pelo medo da morte estavam sujeitos à escravidão por toda a vida” (Hb 2:14–15). Aqui está o elo definitivo da tese que está sendo defendida: a carne escraviza porque a morte ameaça.

Ellen G. White, baseada na Bíblia, mostra com extrema clareza que o plano da redenção visa restaurar completamente o ser humano, o corpo será glorificado, e a obediência será fruto de amor e confiança, não de coerção. Ela conecta a vitória sobre o apetite e os desejos agora com a preparação para a eternidade, onde tais desejos existirão sem desordem, pois a vida não estará mais ameaçada. Isso confirma que temperança e domínio próprio não são fins morais em si, mas antecipações pedagógicas da ordem eterna.

A “carne”, para Paulo, não é a materialidade em si, mas o regime existencial da criatura separada da Fonte da vida, vivendo sob a pressão da finitude. Nessa condição, o instinto de sobrevivência tende a absolutizar-se, tornando-se princípio moral e estruturando um egoísmo funcional que se opõe ao governo do Espírito. Essa absolutização da autopreservação constitui a fortaleza descrita por Paulo. A redenção, inaugurada na cruz e consumada na restauração final, não elimina a carne, mas remove a ameaça que a tornou dominante. Ao garantir plenamente a vida, Deus restaura a hierarquia do ser humano, reconciliando materialidade e espiritualidade em perfeita harmonia.

9. O processo civilizatório como externalização histórica da autonomia

A mesma lógica que estrutura a fortaleza individual manifesta-se historicamente no processo civilizatório. Desde Caim, que edifica uma cidade após romper com Deus (Gn 4:17), a civilização surge como tentativa de segurança, identidade e continuidade fora da dependência divina.

Em Babel (Gn 11), essa dinâmica torna-se explícita: “façamos um nome”. A autonomia passa a definir identidade, unidade e destino. Trata-se de uma fortaleza coletiva, no sentido paulino.

O livro de Juízes demonstra o resultado social da autonomia moral: “cada um fazia o que parecia certo aos seus olhos” (Jz 21:25), produzindo fragmentação e violência. Daniel e Apocalipse aprofundam essa crítica ao retratar impérios absolutizados como bestas, isto é, poderes que se autoerigem como soberania final.

A modernidade intensifica o projeto babilônico ao estruturar a ordem social sobre a razão autônoma, o progresso técnico e a moral desvinculada da transcendência. Ciência, tecnologia e instituições não são intrinsecamente malignas; tornam-se fortalezas quando assumem função redentiva.

Ellen G. White adverte que o conhecimento sem temor de Deus fortalece o orgulho humano e amplia o conflito moral (Ciência do Bom Viver). A civilização passa, assim, a catequizar o indivíduo para a autossuficiência, transformando autonomia em virtude suprema.

Parece haver um paralelismo entre indivíduo e civilização, o qual pode ser sintetizado assim:

  • Impulso → cultura do desejo
  • Hábito → instituições normalizadoras
  • Sofisma → ideologias
  • Fortaleza pessoal → sistemas civilizatórios
  • Religiosidade sem rendição → moralidade pública sem transcendência

Ambos refletem a mesma escolha pós-queda: viver sem submissão voluntária à autoridade divina.

A narrativa da queda em Gênesis 3 descreve a transgressão não apenas como violação de um preceito, mas como ruptura de confiança e deslocamento de autoridade (“sereis como Deus”, Gn 3:5). O resultado imediato inclui a perda do acesso à “árvore da vida” (Gn 3:22–24), introduzindo a experiência histórica da finitude, isto é, a vida humana sob a pressão da mortalidade. Paulo interpreta essa nova condição como submissão da criação à “corrupção” e “vaidade” (Rm 8:20–23), indicando uma degradação progressiva que atinge corpo, ambiente e temporalidade.

Dentro desse quadro, a “carne” (sarx) paulina pode ser entendida como um regime existencial marcado pela urgência da autopreservação, pela ansiedade do limite e pelo deslocamento do eixo de confiança do Criador para o “eu”. Essa leitura não implica que matéria e corpo sejam maus em si; antes, afirma que, sob a queda, a dimensão corpórea passa a operar sob vulnerabilidade aumentada e desejos mais ruidosos, os quais, quando absolutizados, assumem função de “lei”.

A educação cristã não visa apenas adaptar o indivíduo à civilização, mas capacitá-lo a discerni-la criticamente. A igreja atua como espaço pedagógico contracultural, onde os princípios do Reino de Deus são restaurados parcialmente enquanto se aguarda a restauração final.

Paulo não propõe isolamento cultural, mas discernimento espiritual: destruir fortalezas e levar o pensamento cativo a Cristo (2Co 10:5).

A distinção central aqui é entre necessidade e soberania. Em sua constituição original, necessidades como alimentação, repouso e proteção foram dadas como parte da vida criada “muito boa”. Contudo, sob a queda, a finitude e a ameaça transformam a necessidade em imperativo moral autônomo.

O processo pode ser descrito em sequência: (1) vulnerabilidade → (2) ansiedade → (3) controle → (4) autonomia → (5) justificativas (sofismas) → (6) fortaleza.

Esse encadeamento explica o ponto teológico importante: “os impulsos carnais são sobrevivência; tornam-se a lei que governa”. Em termos paulinos, isso se manifesta quando a mente passa a servir como “advogada” do desejo — exatamente o que Paulo chama de “sofismas” e “altivez” contra o conhecimento de Deus (2Co 10:4–5). A “carne”, assim, não é meramente sensualidade, mas o princípio do eu que define o bem como aquilo que preserva sua própria vida, prazer, controle e reputação.

Ellen G. White oferece uma formulação particularmente convergente com essa leitura ao tratar o apetite como ponto estratégico do conflito moral. Ela afirma que Cristo venceu Satanás “no ponto do apetite”, e que essa vitória abriu possibilidade real de superação humana “em Seu nome” sobre a força do apetite. Ao mesmo tempo, ela sustenta que o processo educativo deve começar cedo, ensinando “abnegação e domínio próprio” desde a primeira infância, e declara explicitamente que “o apetite deve ser mantido em sujeição à vontade”, e que a vontade deve ser governada pela “razão calma e inteligente”.

Duas conclusões teológico-pedagógicas decorrem disso:

  1. A carnalidade é, frequentemente, a absolutização do apetite (não apenas comida, mas todo desejo que exige primazia).
  2. O caminho da redenção passa por reordenar o governo interno, onde a vontade (como poder decisório) retoma a liderança sob Deus.

Em linguagem que se aproxima diretamente de 2Co 10, White identifica a vontade como o “poder governante” na natureza humana, responsável por conduzir o ser humano à obediência ou desobediência. Dessa forma, a “força da carne” não se reduz a biologia: é o senhorio do desejo sobre a vontade, e a subsequente instrumentalização da mente para legitimar esse senhorio. A fortaleza moral, portanto, aparece quando a autopreservação (ou qualquer desejo correlato) se torna “rei” e, por isso, não aceita correção nem submissão.

A expressão “egoísmo do bem” é uma boa síntese: a carne raramente se apresenta como “quero o mal”, mas como “preciso me proteger”, “preciso garantir minha vida”, “preciso preservar meu valor”. O problema, biblicamente, é que isso pode se tornar uma forma de autossalvação: o eu tenta produzir segurança e sentido independentemente de Deus, repetindo o princípio de Gn 3. Nesse ponto, a carnalidade pode assumir formas “respeitáveis”: controle, acúmulo, reputação, trabalho como idolatria, religiosidade como escudo. Ainda assim, permanece carnal porque mantém o eu como eixo.

Na teologia do conflito, Cristo é o contraste perfeito: Ele experimenta necessidades reais e pressões de sobrevivência, mas não permite que a necessidade se converta em soberania moral. Ellen White (Testemunhos Seletos v.1) disserta sobre a perfeição de Jesus dizendo: “Uma das mais vigorosas tentações que o homem tem de enfrentar, é quanto ao apetite. [...] Se a condescendência com o apetite era tão forte sobre a raça humana que, para derribar-lhe o poder, foi exigido do divino Filho de Deus que jejuasse por cerca de seis semanas, em favor do homem, que obra se acha diante do cristão a fim de ele poder vencer da maneira por que Cristo venceu! A força da tentação para satisfazer o apetite pervertido só pode ser avaliada em face da inexprimível agonia de Cristo naquele prolongado jejum no deserto.”

Assim, a carne não é “inferior” por ser corpo, mas porque não pode governar corretamente. Ela reage, mas não discerne; preserva, mas não redime; protege a vida biológica, mas não pode gerar vida eterna.

A redenção não destrói a materialidade: ela reordena o humano. O corpo permanece, mas deixa de governar; o desejo permanece, mas deixa de ser lei.

A Escritura jamais descreve a materialidade como intrinsecamente má. Ao contrário, o ser humano é criado como unidade indivisível de materialidade e sopro divino, e essa condição é declarada “muito boa” (Gn 1:31). A inferioridade da carne, portanto, não é ontológica (não diz respeito ao que o corpo é), mas relacional e funcional (diz respeito a como ele governa e a quem ele responde).

Conclusão

O processo civilizatório humano reflete, em escala histórica, o mesmo princípio que inaugura o Grande Conflito: a autonomia moral da criatura. As fortalezas descritas por Paulo são construídas progressivamente no indivíduo e externalizadas em sistemas culturais e civilizatórios.

A redenção, portanto, visa restaurar o governo de Deus no coração humano, preparando uma humanidade reconciliada para um Reino em que civilização e submissão não estarão em tensão, mas em perfeita harmonia.

Referências

BÍBLIA. Bíblia Sagrada. Tradução de João Ferreira de Almeida. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2011.

WHITE, Ellen G. Educação. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 2013a.

WHITE, Ellen G. Orientação da Criança. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 2013b.

WHITE, Ellen G. Testemunhos para a Igreja, v. 3. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 2014.

WHITE, Ellen G. A Ciência do Bom Viver. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 2006, p. 409-410)

WHITE, Ellen G. Testemunhos Seletos, v. 1. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, p. 415-416

WHITE, Ellen G. Testimonies for the Church, v. 5. Mountain View, CA: Pacific Press, 1889. (Seção sobre a vontade como poder governante).

WHITE ESTATE. Devotional compilations (MLT; HP; SD). (Compilações com citações de Youth’s Instructor, Sufferings/ST, Manuscripts sobre vontade e apetite).

WHITE, Ellen G. Temperance. Washington, DC: Review and Herald Publishing Association, 1949. (Trechos: ensino de domínio próprio desde a infância; vitória de Cristo no ponto do apetite).

 

 

 

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