domingo, 28 de julho de 2013

Assinalando os umbrais com sangue



ASSINALANDO OS UMBRAIS COM SANGUE
O plano da salvação tem sido intuído pela humanidade, às vezes, de forma equivocada. Concebido para operar nas condições de uma humanidade caída, o plano deve ser olhado do ponto de vista do tempo. Esta perspectiva parece clara quando olhamos os dois macros momentos do plano lado a lado com a maneira como a Bíblia foi organizada: Antigo e Novo testamentos. Apenas a título de esclarecimento, a palavra testamento significa o ato pelo qual a pessoa declara a sua vontade; assim, temos na Bíblia a antiga vontade de Deus, assim como a nova vontade de Deus. Por causa destes conceitos, deveríamos ler a Bíblia, ou seja, a vontade de Deus a partir destas perspectivas, buscando saber a vontade de Deus no decorrer do tempo.
Na perspectiva do Antigo Testamento, o culto tinha seu principal argumento no sacrifício de animais. Por essa razão, o santuário hebraico oferecia ininterruptamente sacrifícios que apontavam à vinda futura do Messias e Salvador. Na perspectiva do Novo testamento, o argumento do culto centra-se na Santa Ceia, onde o sacrifício de animais é substituído pelo símbolo do pão e do vinho. Chamamos atenção para os dois momentos do plano da redenção: o primeiro (Velho Testamento) antes de Cristo, e o segundo (Novo Testamento) depois de Cristo. A pergunta que surge agora é: Por que foi necessária a mudança de argumentos, ou seja, o que estaria Jesus ensinando quando substituiu a Páscoa pela Ceia?
Vamos recapitular a Páscoa, para entendermos o que aconteceu. A primeira Páscoa ocorreu na saída do povo Hebreu do Egito. Deus ordenara através de Moisés que na noite que antecedeu a saída, os hebreus matassem um cordeio sem defeitos, assassem a animal inteiro sem quebrar nenhum osso, adicionassem ervas amargas e pão sem levedura, e o comessem de pé prontos para a partida. Além disso, deveriam passar o sangue do animal morto nos umbrais das portas das casas para que o anjo destruidor não matasse os primogênitos hebreus (última das dez pragas no Egito). A palavra hebraica para páscoa é Pessach que significa passar sobre. Ellen White, no seu livro Patriarcas e Profetas, na página 274 explica o seguinte: “Antes da execução desta sentença, o Senhor por meio de Moisés deu instruções aos filhos de Israel relativas à partida do Egito, e especialmente para a sua preservação no juízo por vir. Cada família, sozinha ou ligada com outras, deveria matar um cordeiro ou cabrito "sem mácula", e com um molho de hissopo espargir seu sangue ‘em ambas as ombreiras, e na verga da porta’ da casa, para que o anjo destruidor, vindo à meia-noite, não entrasse naquela habitação”. Neste trecho da sua narração Ellen White esclarece que o ato de aspergir o sangue protegeu os hebreus do juízo que veio sobre o Egito, ou seja, da morte. Ela prossegue dizendo: “O Senhor declarou: Passarei pela terra do Egito esta noite, e ferirei todo o primogênito na terra do Egito, desde os homens até aos animais; e sobre todos os deuses do Egito farei juízos. ... E aquele sangue vos será por sinal nas casas em que estiverdes; vendo Eu sangue, passarei por cima de vós, e não haverá entre vós praga de mortandade, quando Eu ferir a terra do Egito". Novamente surge uma pergunta: Por que o sangue era necessário para proteger os hebreus?
A resposta a esta questão está no Éden. Deus havia sentenciado que se o homem pecasse certamente morreria. Logo após a que do homem, Deus poupou a vida do casal original substituindo a morte deles pela morte de um cordeiro. Ali fora oferecido o primeiro sacrifício animal que apontava para o verdadeiro cordeiro de Deus, o Messias, que viria oportunamente no futuro. Assim, Adão e sua mulher foram poupados da morte imediata. O sangue do cordeiro imolado no Éden fez com que a destruição passasse por sobre o casal. A mesma situação ocorreu no Egito naquela noite quando Deus aplicou juízo sobre o arrogante país. O sangue aspergido nas portas representava a Cristo, a verdadeira páscoa. Vejamos o que diz novamente a escritora Ellen White na página 227 do livro Patriarcas e Profetas: “A páscoa devia ser tanto comemorativa como típica, apontando não somente para o livramento do Egito, mas, no futuro, para o maior livramento que Cristo cumpriria libertando Seu povo do cativeiro do pecado. O cordeiro sacrifical representa o ‘Cordeiro de Deus’, em quem se acha nossa única esperança de salvação. Diz o apóstolo: "Cristo, nossa páscoa, foi sacrificado por nós." I Cor. 5:7. Não bastava que o cordeiro pascal fosse morto, seu sangue devia ser aspergido nas ombreiras; assim os méritos do sangue de Cristo devem ser aplicados à alma. Devemos crer que Ele morreu não somente pelo mundo, mas que morreu por nós individualmente. Devemos tomar para o nosso proveito a virtude do sacrifício expiatório”.
Pelo que vimos acima, a Páscoa é um evento de altíssima seriedade e que não deveria ser negligenciada. Deveríamos destacar algum tempo buscando a compreensão desta cerimônia, considerando que a sua aplicação ou uso nos livra da morte. Outra vez, vejamos o que diz Ellen White: “As regras que Moisés deu concernentes à Páscoa são plenas de significado, e têm aplicação a pais e filhos nesta época em que vivemos [. ...] . O pai devia atuar como sacerdote da família e, se o pai fosse falecido, o filho mais velho devia realizar o solene ato de aspergir os umbrais da porta com o sangue. Esse é um símbolo da obra a ser feita em toda família. Devem os pais reunir os filhos no lar e apresentar Cristo diante deles como sua Páscoa. O pai deve dedicar cada membro da família a Deus e fazer a obra que é representada pela festa da Páscoa. É perigoso deixar esse solene encargo nas mãos de outros. Decidam os pais cristãos que serão leais a Deus, e disponham-se a reunir os filhos no lar consigo e assinalem [simbolicamente] os umbrais com sangue, representando Cristo como o único que pode proteger e salvar, a fim de que o anjo destruidor passe por alto o feliz círculo da família” (Fundamentos do Lar Cristão, p. 129).
Abrimos aqui um parêntese para explicar algo importante para a compreensão do que virá a seguir. Depois de haver ocorrido o pecado no universo, Jesus se tornou a pessoa da trindade responsável para resolver o problema do pecado e, por esse motivo, tornou-se o interlocutor para o homem. Assim, fora Jesus quem instruíra Moisés quanto ao ritual da Páscoa, sendo que Ele mesmo participou da solenidade enquanto esteve entre os homens. Se a Páscoa é assim de extrema importância e instituída por Jesus, por que ele a substituiu pela Ceia? Jesus teria proibido a Páscoa?
Vejamos o que nos diz a própria Bíblia sobre essa questão. Em I Cor. 11:23-26 lemos: “O Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão; e, tendo dado graças, o partiu e disse: Tomai, comei; isto é o Meu corpo que é partido por vós; fazei isto em memória de Mim. Semelhantemente também, depois de cear, tomou o cálice, dizendo: Este cálice é o Novo Testamento no Meu sangue; fazei isto todas as vezes que beberdes, em memória de Mim. Porque todas as vezes que comerdes este pão e beberdes este cálice anunciais a morte do Senhor, até que venha" . No livro Desejado de Todas as Nações (pag.652, 653) Ellen White diz que “Cristo se achava no ponto de transição entre dois sistemas e suas duas grandes festas. Ele, o imaculado Cordeiro de Deus, estava para se apresentar como oferta pelo pecado, e queria assim levar a termo o sistema de símbolos e cerimônias que por quatro mil anos apontara à Sua morte. Ao comer a páscoa com Seus discípulos, instituiu em seu lugar o serviço que havia de comemorar Seu grande sacrifício. Passaria para sempre a festa nacional dos judeus. O serviço que Cristo estabeleceu devia ser observado por seus seguidores em todas as terras e por todos os séculos. A páscoa fora instituída para comemorar a libertação de Israel da servidão egípcia. Deus ordenara que, de ano em ano, quando os filhos perguntassem a significação desta ordenança, a história desse acontecimento fosse repetida. Assim o maravilhoso livramento se conservaria vivo na memória de todos. A ordenança da ceia do Senhor foi dada para comemorar a grande libertação operada  em resultado da morte de Cristo. Até que Ele venha a segunda vez em poder e glória, há de ser celebrada esta ordenança. É o meio pelo qual Sua grande obra em nosso favor deve ser conservada viva em nossa memória”.
A Santa Ceia representa o mesmo que os sacrifícios de animais representaram no Antigo Testamento. Para a época antes de Cristo, o sangue de animais apontava para o Messias vindouro e pela fé, os antigos se apoderavam da salvação. Na Ceia os símbolos são, do mesmo modo, uma poderosa demonstração de fé. Assim como os antigos hebreus comeram a carne do cordeiro morto, ao comermos o pão (símbolo do corpo) comemos o cordeiro. Do mesmo modo, aos antigos passarem o sangue de um cordeiro nos umbrais das suas portas, significando que criam no sacrifício expiatório e substituto de Cristo no futuro, sendo libertos da morte, hoje, ao tomarmos o vinho (símbolo do sangue), estamos passando o sangue nos umbrais das nossas almas, ou nos umbrais das nossas casas que são nossos corpos e, deste modo somos também libertos da morte. Conforme vimos, a ceia passa a ser a páscoa, pois Jesus, o Messias prometido, veio e cumpriu a promessa feita a Adão sendo nosso substituto e, portanto, a nossa páscoa. Cristãos sem a Ceia correm sério perigo de vida, jamais deveríamos negligenciar a participação na Ceia porque não sabemos quando passará o anjo destruidor.
Mas, ainda resta algo de grande importância que não abordamos e que está relacionado com a Ceia. Vejamos mais uma afirmação de Ellen White no livro Desejado de Todas as Nações (pág. 659): “Participando com os discípulos do pão e do vinho, Cristo Se empenhou para com eles, como seu Redentor. Confiou-lhes o novo concerto, pelo qual todos os que o recebem se tornam filhos de Deus, e co-herdeiros de Cristo. Por esse concerto pertencia-lhes toda bênção que o Céu podia conceder para esta vida e a futura. Esse ato de concerto devia ser ratificado com o sangue de Cristo. E a ministração do sacramento havia de conservar diante dos discípulos o infinito sacrifício feito por cada um deles individualmente, como parte do grande todo da caída humanidade”. O texto enfatiza que a Santa Ceia é o ritual que confere ao cristão o status de filho de Deus, e co-herdeiros de Cristo. Então, não participar da Ceia significa desistir da salvação. Porém, Ellen White afirma também que através da Ceia, toda benção que o céu pode conceder será concedida. É uma promessa valiosa que precisa ser entendida. Em Isaias 58:14 lemos “[...] e te sustentarei com a herança de teu pai Jacó; porque a boca do SENHOR o disse”. Este verso é a resposta que precisamos para entender a promessa concedida através da Ceia. Porém, qual é a herança de Jacó? Jacó era filho de Isaac, o qual, por sua vez era filho de Abraão. Assim, a herança de Jacó veio de Abraão seu avô e podemos encontra-la em Genesis 12:2,3 onde lemos: “E far-te-ei uma grande nação, e abençoar-te-ei e engrandecerei o teu nome; e tu serás uma bênção. E abençoarei os que te abençoarem, e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; e em ti serão benditas todas as famílias da terra”.
A benção dada a Abraão é que ele seria uma bênção e, por consequência, todas as  famílias seriam benditas. Jacó recebeu esta mesma benção quando lutou com Deus no vale de Jaboque. Tal benção está à nossa disposição através da Ceia. Ser uma benção significa viver completamente de acordo com Lei de Deus. Em João 13:35 lemos: “Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros”. O raciocínio dos textos acima nos mostra que através da Ceia somos habilitados a guardar os mandamentos e consequentemente seremos uma benção ao mundo. Para abençoar nosso semelhante é necessário que tenhamos para oferecer, assim, receberemos dos céus todas as virtudes necessárias para que sejamos uma benção.

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terça-feira, 28 de maio de 2013

Pesquisador do Inpa contesta reportagem sobre baixa produção científica na região amazônica


No dia 13 de maio, o Jornal GGN publicou reportagem da agência de notícias espanhola EFE,  Países amazônicos querem romper dependência científica, cujo texto sustentava que a maior parte dos estudos científicos sobre a região era feita por estrangeiros.

No artigo que segue, o pesquisador Claudio Ruy Fonseca, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), revela outro lado da história - o de que a maioria dos pesquisadores de fora que estudam a região não a conhece e usa imagens de satélites ou dados coletados e publicados por pesquisadores da Amazônia.


Veja o artigo abaixo:

Claudio Ruy Fonseca

A Amazônia atrai grande quantidade de estudiosos que se debruçam sobre os variados aspectos que envolvem essa complexa região. Cientistas de todas as partes escrevem sobre as características regionais e, no caso de estrangeiros, a maioria nunca veio à Amazônia.

Consequentemente, seus trabalhos estão baseados em dados secundários interpretados a partir de informações de imagens de satélite ou de dados coletados de publicações realizadas por pesquisadores que de fato conhecem a realidade regional, ou seja, a chamada verdade de solo.

Tal situação demonstra que, embora a quantidade de informação publicada por estrangeiros, quando comparada com a informação produzida por autores autóctones, possa parecer superior, a base dessas informações é necessariamente originária das pesquisas realizadas no solo amazônico.

De outro lado, o número de pesquisadores residentes e formalmente inseridos nas instituições amazônicas (pan-amazônia) não ultrapassa os 300 mil, um contingente ínfimo em relação ao restante do mundo. É como dizer que ainda que os pesquisadores publicassem 300 mil trabalhos por ano, não poderiam ultrapassar a quantidade de impressos sobre a Amazônia que tem origem no resto do planeta.


No caso do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), os resultados já publicados são a parte mais importante e substancial das interpretações científicas publicadas por autores estrangeiros. O acervo de informações produzidas no Inpa tem orientado politicas públicas críticas, tais como o Código Florestal. Além disso, a reunião mundial de Ciência e Tecnologia que ocorrerá este ano no Rio de Janeiro teve uma das reuniões preparatórias no Inpa - a esse instituto caberá uma mesa-redonda sobre a Amazônia na referida reunião, o que demonstra a densidade das informações cientificas geradas.

Fizemos um exercício que poderá dar  uma ideia sobre nossa capacidade de produzir informações sobre a Amazônia: Utilizando o Google acadêmico, ao se usar a palavra "Amazônia", a busca derivou em aproximadamente 322 mil resultados, refletindo o que já foi publicado pela academia em língua portuguesa. Quando se utilizou a palavra "Amazon", obteve-se aproximadamente 732 mil resultados, representando o dobro de trabalhos acadêmicos em língua estrangeira.

Tais números são autoexplicáveis, considerando que a massa crítica de pesquisadores que publicam em português não pode ser comparada com o restante do mundo. Também é preciso não negligenciar que muitos trabalhos em língua estrangeira, cujos autores são estrangeiros, usam referências de pesquisadores brasileiros. Além disso, por sua vez, muitos pesquisadores brasileiros estão, via de regra, publicando em inglês.


Quando olhamos o número de pesquisadores que estão formalmente locados nas instituições nacionais amazônicas encontramos que dos 8,304 mil pesquisadores apenas 3,877 mil possuem titulação em nível de doutorado, cifras que indicam capacidade regional ainda em construção para produzir informação robusta e em quantidade. Todavia, a região Norte publicou entre 2007 e 2010, 10,8 mil trabalhos em periódicos científicos de circulação nacional, mas, publicou também 9,978 mil trabalhos em periódicos científicos de circulação internacional - acrescente-se ainda 6,626 mil capítulos de livros e 1,152 mil livros completos.

Apenas para completar o raciocínio, se somarmos as quantidades de publicações nos periódicos temos um total de 20,778 mil trabalhos que, se for calculada a média utilizando-se o total de pesquisadores (8,304 mil) dará 2,5 trabalhos por pesquisador em três anos. Se a média for calculada apenas para os doutores (3,877 mil), resultará em 5,3 trabalhos por pesquisador, uma média muito elevada. É dizer que estamos publicando a pleno vapor, mas, nosso esforço jamais suplantará o que o mundo poderá produzir.


*Doutor em Ciências Biológicas (Zoologia) pela Universidade de São Paulo (1988); Coordenador de Biodiversidade e pesquisador titular do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa); membro do conselho curador da Fundação para Desenvolvimento da Biodiversidade; diretor geral da Associação Brasileira para o uso Sustentável da Biodiversidade da Amazônia e professor da Universidade do Estado do Amazonas (UEA).

domingo, 12 de maio de 2013

UM ANO SEM O PAPAI


UM ANO SEM O PAPAI

Hoje (01.05.2013) o dia amanheceu lindo. O céu estava vestido de azul cristalino, quase sem nuvens, aparentava limpidez e clareza, parecia anunciar que há alegria no futuro. O firmamento como que comunicava algo de alvissareiro apesar da tristeza e do vazio de um ano sem a brandura e a força de um grande pai e um grande líder. A frase dita por ele momentos antes da sua morte permanece viva e audível, como a infundir certeza: “não tenha medo!”.
Foi, talvez, por conta da frase que interpretei o ambiente externo do dia como que inspirando esperança. No entanto, sinto muito a falta de nosso pai; seus conselhos sempre solícitos, sua maneira amiga e carinhosa de falar conosco, seu amor incondicional. A sua falta significa um imenso abismo aberto em nossa existência o qual não poderá ser preenchido.

A personalidade do Papai era inconfundível. Pastor por excelência gostava de ser assim e dizia que encerraria seus dias sendo pastor, porque não poderia negar a Deus nenhum momento, uma vez que Dele viera tudo o que possuía. Viveu sem parar o seu privilégio de ser pastor e, por seu turno, Deus o recompensou com a maior honraria que um homem pode receber: ser um honorável entre os homens. Sua dedicação e boa vontade o tornaram um conselheiro de primeiro momento, fez parte dos conselhos administrativos da igreja até o fim da sua vida. Foi pastor honrado e, até certo ponto, venerado por suas ovelhas, respeitado pelos pares e amado por seus filhos. Antes de falecer reuniu a família, pregou seu último sermão exortando o amor a Deus e o amor fraterno no seio familiar. Jamais esquecerei o seu último sermão!       
Papai era também um professor excelente. Sua disciplina favorita era história e gostava de ser reconhecido como conhecedor da história. Aprendi a interpretar o mundo através do seu olhar crítico e perscrutador, sendo sempre confiante nas profecias e nos comandos de Deus. Na qualidade de professor foi um grande construtor de almas que voltaram muitas vezes em reconhecimento por sua influência. Um educador dedicado que ajudou a construir a infraestrutura educacional da igreja em Belém, Pará, tendo sido departamental de educação e JA, além de diretor e professor no Instituto Adventista Grão Pará - IAGP, fundado enquanto fora departamental da União Norte Brasileira. Hoje, o reconhecimento por sua dedicação está explícito na biblioteca do IAGP, a qual tem o seu nome. Aprendi muito com sua maneira de conduzir problemas; era um homem de saúde frágil, mas um Hércules em questões morais e espirituais. Nunca vi meu pai vacilar por falta de fé, e jamais ouvi dele um murmúrio sequer diante das dificuldades enfrentadas, especialmente no ambiente do pastorado. Amava a Deus e encerrou seus dias dedicando ainda mais amor a Ele.

Em casa, sempre foi muito atencioso conosco e muito preocupado com a nossa educação. Sinto com muito carinho seu amor ao proporcionar o melhor ambiente de aprendizado que havia quando eu ainda estava em formação. Pude estudar nas melhores escolas e minha educação alcançou nível de sofisticação alto; falo três idiomas, conheço música com profundidade e sou capaz de interpretar textos complexos. Papai nos brindou com um ambiente doméstico venturoso e divertido, com direito a saraus nos domingos à tarde: Mamãe no piano, Papai no violino e alguns amigos que vinham para tocar outros instrumentos.  Papai possuía uma boa coleção de discos clássicos com os quais aprendi a gostar de música erudita. Além disso, possuía grande afinidade com literatura, chegou a comprar coleções com os clássicos da literatura universal para que tivéssemos acesso aos autores importantes e aprendêssemos com a boa literatura. Penso que a proximidade com estes livros me deu bom conhecimento do mundo e do nosso idioma.
Lembro que quando era criança ele gostava de brincar comigo e tínhamos contato físico sempre depois do almoço quando deitava em sua rede para dialogar e brincar. Gostava de mecânica e carpintaria e, por esse motivo, também me interesso por mecânica. Papai gostava de dar tratos aos seus automóveis e aos seus sapatos e esse comportamento foi transferido para mim. Gostava igualmente de construção civil e, de certa forma, eu também. Papai era um homem de muitos dotes e qualidades, tinha bom gosto nas roupas e me ensinou a saber vestir e dar nó de gravata. Sabia ser orador e creio que usava esse dom para dialogar com Deus e persuadi-lo sobre questões importantes. Sei que Deus o tinha em alta consideração, pois lhe deu longa e proveitosa vida, apesar de sua frágil saúde.  Embora eu tenha buscado aprender essa arte da oratória, não consigo chegar aos seus pés. Lembro que em muitas ocasiões chegava eu sem avisá-lo ao seu escritório e era surpreendido com o papai de joelhos suplicando por seu trabalho e por soluções aos problemas e desencantos profissionais. Deus tinha em seu exército humano um grande e leal soldado. Meu pai era amável com todos, esta era a sua principal característica, nunca afastava ninguém que o procurasse sob qualquer pretexto, até aos desafetos procurava encaminhá-los de alguma maneira. Por ser bom orador, sempre era convidado para eventos sociais importantes, era o casamenteiro mais assediado, um conselheiro experiente e sábio, além de ser espirituoso e alegre. Sempre pronto a receber os amigos para uma refeição transformava nossa casa em lar para muitos e abrigo seguro para solitários.

Nos últimos anos passei a representar um interlocutor importante para o Papai. Trocávamos informações sobre assuntos variados e especialmente teologia. Tínhamos diálogos de longas horas sobre questões bíblicas importantes e, apesar de sua experiência insuperável, com humildade ouvia minhas ponderações e idéias com a avidez de um aprendiz. Há dois anos passei uma semana palestrando numa espécie de semana de oração para os funcionários do Hospital Adventista de Belém, no qual ele era um tipo de conselheiro. Preparei alguns temas bastante chamativos e as reuniões foram muito concorridas de ouvintes. Papai não tinha tido anteriormente nenhuma experiência comigo como orador e, no final daquele evento, ouvi dele algo que me mostrou o grau de orgulho e satisfação por ver sua obra de construção de um filho: ele me chamou particularmente em casa e disse-me que durante muito tempo ele fora o meu pastor, mas agora eu me transformara no pastor dele. Esta frase me enterneceu profundamente, e me deixou ver um pouco da grandeza de um homem especial que sabia ser humilde para aprender, até mesmo com alguém menor, com o próprio filho.
Na verdade um homem não morre porque suas obras o seguem, e no caso do meu pai sei que não estarei só por causa do seu exemplo. Sigo meu passo em direção ao futuro buscando atender o repto lançado instantes antes de ele dormir: Não tenha medo! Hoje ao acordar e olhar para o céu azul transparente, claro e vívido, tive a sensação de que Deus mandou um recado para mim imprimindo confiança e dizendo que está ao leme. Vou seguir em frente com muita energia, procurando terminar a minha expiação para que possa estar em paz com Deus e possa encontrar com o meu pai naquele dia quando tudo estará terminado e a morte não mais existirá. Estou há um ano sem a presença física do meu pai, mas ele estará eternamente dentro em mim, pois sou produto dos seus desejos, das suas ordens e da sua compreensão de missão. Vou seguindo pelo mundo pondo sempre os meus pés sobre as pegadas que ele deixou para mim.
Claudio Ruy Vasconcelos da Fonseca,Dr.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

BARRADOS PELA CIRCUNCISÃO?!


BARRADOS PELA CIRCUNCISÃO?!


Em Romanos 4:12 lemos que foi Deus quem pediu a Abraão que aplicasse a circuncisão: E fosse pai da circuncisão, daqueles que não somente são da circuncisão. Se Deus ordenou a circuncisão, este assunto é atual e importante.

Para entendermos a razão da ordem de Deus temos que retornar ao Éden, no período anterior a queda do homem. Ali, a harmonia com a lei eterna de Deus era absoluta, segundo a escritora Ellen White “sendo a lei do amor o fundamento do governo de Deus, a felicidade de todos os seres inteligentes depende da perfeita harmonia, com seus grandes princípios de justiça. Deus deseja de todas as Suas criaturas o serviço de amor, serviço que brote de uma apreciação de Seu caráter” (Patriarcas e Profetas, p.34). Mas, o homem caiu levando-o a um estado de desarmonia com a lei e, consequente separação de Deus. Deus é um soberano (Sal.93), portanto, nossa relação com o seu governo se dá pela observância dos dez mandamentos, a constituição do seu governo.

Na era patriarcal Encontramos Abraão, a quem Deus chama para sair da sua terra e viajar para um lugar que Ele, o Senhor, iria indicar. E como indicativo de sua fé deveria circuncidar-se. E assim foi. Abraão também circuncidou Isaque seu filho, e este circuncidou a Jacó e este aos doze patriarcas (Atos 7:8).

Quando Deus chamou a Moisés para dirigir a saída de Israel do Egito, indo o mesmo a caminho de cumprir a missão, hospedou-se numa estalagem, e alí o Senhor o encontrou e quis mata-lo. A razão é que Moisés não havia circuncidado aos filhos e isto ofendeu a Deus (Ex. 4:22-26). O relato acima é algo preocupante: Se Deus quis matar Moisés por não haver circuncidado aos filhos, então, circuncisão é assunto muito sério. Por qual razão os cristãos modernos não praticam a circuncisão?

O relato histórico informa que no oitavo dia após seu nascimento Jesus fora circuncidado conforme o costume judaico. Novamente, se Jesus foi circuncidado, por que não os cristãos? Sabemos através do relato de Atos 11 ter havido uma polêmica sobre a necessidade da circuncisão e Paulo, o apóstolo responsável pela transição entre o judaísmo e o cristianismo, advoga que os gentios não estavam obrigados ao rito circuncidatório. Todavia, o que motivou o apóstolo a se inclinar por esta postura? A explicação está em Isaías 9:6 “Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu, e o principado está sobre os seus ombros, e se chamará o seu nome: Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz”.

Um filho se nos deu é a frase mais importante no verso acima, significando que Jesus é filho do homem, isto é, um de nós. Acrescente-se que sobre ele estava o principado ou a representação humana aquele que deverá operar em favor do homem o que este não tem capacidade para operar por si mesmo. O príncipe, o principal, aquele que importa. Este conceito é fundamental e por ele entenderemos algo extraordinário: “Cerca de quarenta dias depois do nascimento de Cristo, José e Maria levaram-nO a Jerusalém, para O apresentar ao Senhor, e oferecer sacrifício. Isso estava de acordo com a lei judaica e, como substituto do homem, Cristo Se devia conformar com a lei em todos os particulares. Já havia sido submetido ao rito da circuncisão, como penhor de Sua submissão à lei”. Desejado de Todas as Nações, p.50.

O ato da circuncisão representava a garantia de que o circuncidado estaria submetido à observância da lei. Doar o prepúcio a Deus simbolizava um compromisso de observar a lei, e tal rito era muito importante no período pré-Messiânico, considerando que aquele que tornaria possível a todos os homens guardarem a lei ainda não tinha vindo. Note-se que o reino da graça – o qual havia sido inaugurado após a queda no Éden – ainda não estava totalmente implantado. Jesus, o nosso exemplo, estava por vir e neste cenário, a aliança feita conosco era que devíamos ser “uma benção”, todavia o único parâmetro para comparação era a lei à qual todo filho de Deus estaria submetido, sendo a prova da submissão a circuncisão. Com a vinda do Príncipe dos homens, essa necessidade da circuncisão desaparece em virtude de que Jesus, a luz do mundo, veio para cumprir os reclamos da lei, morrendo e ressuscitando, além de deixar-nos o exemplo de como devem viver àqueles que desejam estar ligados ao céu. A imitação do comportamento e do caráter de Jesus por seus seguidores é o caminho seguro para a guarda da lei e, nestas circunstâncias, a garantia não é mais o prepúcio, mas, Cristo.

O Seven Day Adventist Bible Commentary diz o que segue: “Era chegado o tempo para ser introduzida pela igreja de Cristo uma fase de trabalho inteiramente nova. A porta que muitos dos judeus conversos haviam fechado aos gentios devia agora ser aberta de par em par. E os gentios que aceitassem o evangelho deviam ser tidos no mesmo pé de igualdade com os discípulos judeus, sem a necessidade de observar o rito da circuncisão. Os gentios, e especialmente os gregos, eram extremamente licenciosos, e havia o perigo de que alguns, não convertidos de coração, fizessem uma profissão de fé sem renunciar as suas más práticas, Os cristãos judeus não podiam tolerar a imoralidade, que nem mesmo era considerada crime pelos pagãos. Os judeus, portanto, consideravam como altamente próprio que a circuncisão e a observância da lei cerimonial fossem impostas aos conversos gentios como um teste de sua sinceridade e devoção. Isto criam eles, poderia impedir que se aliassem à igreja os que, adotando a fé sem verdadeira conversão de coração, pudessem mais tarde trazer opróbrio sobre a causa por imoralidade e excesso. Nesta ocasião parece ter sido escolhido Tiago para anunciar a decisão tomada pelo concílio. E sua sentença foi que a lei cerimonial, e especialmente a ordenança da circuncisão, não deveriam ser impostas aos gentios, ou a eles sequer recomendadas. Tiago procurou impressionar a mente de seus irmãos com o fato de que, em se convertendo a Deus, os gentios tinham feito grande mudança em sua vida, e que se deveria usar muita cautela para não perturbá-los com assuntos embaraçantes e duvidosos de somenos importância, para que não desanimassem em seguir a Cristo. Os conversos gentios, porém, deviam abandonar os costumes incoerentes com os princípios do cristianismo. Os apóstolos e anciãos, portanto, concordaram em instruir por carta os gentios a se absterem de carnes sacrificadas aos ídolos, da prostituição, do que é sufocado e do sangue. Deviam ser instigados a guardar os mandamentos, e a levar vida santa. Deviam também estar certos de que os que declaravam ser a circuncisão obrigatória não estavam autorizados a fazê-lo em nome dos apóstolos”.

Pelo acima exposto, podemos entender o que o apóstolo Paulo afirmou quando disse “Se, pois, a incircuncisão guardar os preceitos da lei, porventura a incircuncisão não será reputada como circuncisão?” Rom. 2:26. E depois quando ensinou que “Porque em Jesus Cristo nem a circuncisão nem a incircuncisão tem valor algum; mas sim a fé que opera pelo amor”. Gál. 5:6. Na verdade, a circuncisão era um ato de fé no vindouro Messias. Sendo que o Messias veio e habitou conosco, mostrou-nos como entrar e permanecer no reino de Deus, consolidando o reino da graça (graça significa conhecimento), sendo ele mesmo a maior graça recebida pelos humanos, nossa conformidade com a lei passa a ser garantida pela imitação do caráter do Messias, o qual é a expressão dos princípios da lei. Assim, nossa garantia de conformidade com lei não depende do ato da circuncisão física como prova de fé (Rom.2:25), mas, depende do ato da circuncisão espiritual pela imitação do comportamento de Cristo, conforme Paulo descreve em Rom. 2:28 e 29 e 3:30, a circuncisão do coração. Assim, a observância da lei por meio de Cristo se torna a circuncisão atual (I Cor.7:19) para a qual todo professo filho de Deus deve se submeter. O resultado da circuncisão espiritual pode-se ver no diagrama abaixo:



 Tal diagrama está descrito em Gálatas 5:22 e 23. A obra do Santo Espírito na vida de alguém opera a circuncisão do coração e isto produz a santidade o resultado final do evangelho do Reino. Sem coração circuncidado não será possível agradar a Deus.

terça-feira, 15 de maio de 2012

SISTEMA DE CIÊNCIA E TECNOLOGIA AMAZÔNICO


 Publicado na REVISTA T&C AMAZÔNIA Nº21

O ÁRDUO CAMINHO PARA A CONSOLIDAÇÃO DO SISTEMA DE CIÊNCIA E TECNOLOGIA AMAZÔNICO


Autor:
Claudio Ruy Vasconcelos da Fonseca

Resumo

Ciência e tecnologia são avaliadas como grandes empreendimentos que, no caso brasileiro, ainda necessitam de investimentos para incremento do capital humano equiparado aos níveis internacionais, além da consolidação de uma infraestrutura para permitir que trabalhos científicos suscitem patentes e produtos, aumentando o nível da riqueza social.

 Introdução

A formação de capital humano é o começo da conversa quando o assunto é pesquisa e desenvolvimento. No último quarto do século passado, já havia universidades estatais em todos os estados da Região Norte, além de centros privados de ensino universitário. Esse novo panorama educacional promoveu o incremento de capital humano, mas, ainda, não é suficiente para entrada nas universidades de jovens de todos os extratos sociais. Além disso, permanecem assimetrias relacionadas à densidade dos programas cursados quando comparados com os centros de maior densidade intelectual, o que determina lacunas na formação regional de capital humano para áreas estratégicas, a exemplo de engenharia e biologia.

A academia Brasileira de Ciências (ABC), no fim de 2008, publicou um documento onde estão algumas prioridades que deveriam ser consentidas para a expansão amazônica no século XXI. Entre os tópicos relevantes estão: i)”[...]Seu potencial, pelo gigantismo, pelo surpreendente e inédito que comporta, pela variedade que absorve, somente será desvendado de forma segura com a interveniência de cientistas e tecnólogos; ii) [...] Tornou-se obrigatoriamente grande centro de interesse da Ciência e da Tecnologia. Dos cientistas especializados no setor, espera-se a orientação sensata para transformar a Amazônia em esteio do futuro brasileiro. Não é exagero dizer que será um fator medular da sustentação também do próprio planeta; iii) [...] A Amazônia é uma questão global, regional e, sobretudo, nacional. Como tal, o desafio de promover o seu desenvolvimento é uma questão de Estado a ser debatida pelo governo e por toda a sociedade do País. À Ciência, Tecnologia e Inovação, cabem contribuições cruciais no enfrentamento desse desafio”.

No seio das recomendações do referido documento está a percepção de que a “Amazônia brasileira surge como um importante polo de atração política, de oportunidades econômicas e de integração com seus vizinhos. O Brasil dispõe de um complexo sistema de ciência e tecnologia, que gera crescentes oportunidades e múltiplas possibilidades de ações. Esforço político deve ser feito no sentido de se estreitarem laços com os países vizinhos, de forma a se explorarem vantagens competitivas regionais que permitam alavancar o processo de desenvolvimento”.
 
Em muitos momentos, ações (nacionais e locais) foram executadas no sentido de prover a Região Amazônica de estruturas de planejamento para dotá-la de eficácia própria e governabilidade. Quase todas essas iniciativas foram descontinuadas, e muitas delas sequer tiveram a consolidação dos planejamentos que executaram. Tal situação tem sido recorrente no cenário regional, fato que tem impedido o desenvolvimento vigoroso das instituições, deixando fragilizada a governança local, bem como a continuidade de programas das quais somente o tempo pode acarretar a necessária maturação e as consequências refletidamente planejadas.
 
Segundo a ABC (2008) persistem desafios estruturais que continuam clamando por atendimento:
 
Criação de novas universidades públicas, atendendo às mesorregiões que possuem densidades populacionais que justifiquem tal investimento.
Criação de institutos científico-tecnológicos associados ao ensino e pesquisa tecnológica, descentralizando a infraestrutura de C&T e permitindo a articulação de uma rede de grande capilaridade.
 
Ampliação e fortalecimento da Pós-Graduação, expandindo de forma expressiva a formação, a atração e a fixação de pessoal altamente qualificado em C,T&I.
 
Fortalecimento das redes de informação na região, dotando-a de uma rede com banda mínima de 2 Gbps.
 
Os reptos acima são a evidente causa das assimetrias entre Norte e Sul no Brasil. Mas, antes de prosseguirmos, vejamos como vem ocorrendo o investimento em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) na América Latina.
 
Panorama do investimento na América Latina
 
A partir dos anos 1980 o investimento em ciência e tecnologia, na maioria dos países do mundo desenvolvido, se tornou ainda mais intenso, ou seja, um empreendimento planejado, estimulado e com resultados calculados. Na América Latina houve também forte interesse em financiar pesquisas, resultando no aumento do percentual do PIB investido em P&D, o chamado GERD (gross domestic expenditure on R&D), acima de 100% entre 1997 e 2007. O Brasil investiu 63,5% do GERD latino-americano, seguido pelo México, 15,3% e Argentina, 5,8% (UNESCO, 2010). No caso brasileiro, o governo federal constituiu os chamados Fundos Setoriais, os quais se tornaram ferramenta capital para financiar pesquisas. Além disso, os governos estaduais estruturaram seus sistemas de P&D, estabelecendo as Fundações de Amparo à Pesquisa (FAP), que capturam recursos do Estado dirigindo-os às suas prioridades científicas particulares. Tal arcabouço proporcionou melhora significativa na qualidade da pesquisa produzida, além de gerar acréscimo e fixação de capital humano de alta habilidade intelectual.

O efeito desse esforço foi a ampliação do número de pesquisadores brasileiros, que passou de 64.002 em 2000 para 124.882 em 2007, correspondendo atualmente a 1,7% do total mundial (UNESCO, 2010). Todavia essa somatória de pesquisadores ainda está aquém das demandas e, quando comparada com países como os Estados Unidos (cerca de 1.500.000; 25% do total mundial) e a China (1.400.000, 19%), se mostra irrisória.
 
O acréscimo nos investimentos no sistema de ciência e tecnologia (C&T) brasileiro é robusto: passamos de R$ 470 milhões em 1994 para R$ 1,3 bilhão em 2009 (UNESCO, 2010). Quando olhamos a América Latina, verificamos que os países empreenderam esforços para melhorar o equilíbrio com o mundo chamado desenvolvido. Malgrado os déficits educacional e social, tem-se atualmente a percepção de que a saída para melhorar os países emergentes passa pela estruturação de sistemas de C&T fortes, de modo a permitir a apropriação da riqueza mineral e biológica em seu território e sua transformação por meio de tecnologias autóctones. Esse desafio não prescinde de sistemas de universidades de nível mundial, e, do mesmo modo, será necessário um sistema de investimentos imunes às descontinuidades.
 
A participação do setor privado no financiamento do sistema de P&D na América Latina ainda não é cultural. Os setores econômicos necessitam de políticas de incentivo ao investimento, sem o que não será admitida a incorporação de metas mais ambiciosas. O financiamento do sistema de P&D nos países latino-americanos ainda é muito dependente dos recursos governamentais (entre 40% e 60% no Brasil, México, Argentina e Chile), sendo essa uma das razões do baixo número de solicitação de patentes, porém outro pretexto é a insuficientíssima demanda por inovação por parte do setor produtivo, que prefere importar tecnologias.
 
 Formação de capital humano no Brasil
 
O cenário da formação de recursos humanos para pesquisa tem sido construído com significativo esforço das esferas administrativas federal e estadual, de forma que em alguns estados, o investimento local chega a ser superior ao federal. Tal é o caso do Estado do Paraná, onde uma rede de universidades estaduais foi implantada nas chamadas mesorregiões, causando alterações estruturais e sociais de alta complexidade.

Importante salientar que mesmo nas regiões brasileiras com menor índice de desenvolvimento, tem havido investimentos na instalação de universidades estatais. Recentemente, na Amazônia, foi implantada a primeira universidade federal fora do eixo das capitais, na cidade de Santarém, Pará, cuja concepção pedagógica deverá ser inovadora para os padrões locais e nacionais, trazendo esperança ao preenchimento de lacunas educacionais e científicas que, ao longo de décadas, têm fragilizado o sonho de desenvolvimento em áreas consideradas remotas. Porém outras iniciativas têm buscado amenizar o déficit e as assimetrias na aglutinação do capital humano nacional, tais como as redes de pesquisa, cujo objetivo é agrupar massa crítica em áreas estratégicas, possibilitando interação profissional, compartilhamento de equipamentos, formação de pesquisadores, discussão de programas de pesquisas, respaldo às políticas públicas, entre outras atividades.

De acordo com o MCTI, os quantitativos de pesquisadores envolvidos no sistema de C&T nacional até 2008 mostram 69.232 doutores e 85.910 mestres em tempo integral nas instituições públicas e privadas. As titulações em nível de doutoramento, em 2009, alcançaram o total de 11.368. O número de alunos graduados no sistema universitário nacional foi de 826.928, no mesmo ano; por meio de um algebrismo simples, observa-se que apenas 1,37% dos graduados buscam doutoramento. Esse percentual, aliado à ausência de política para fixação de doutores, em especial nas regiões de menor índice de desenvolvimento, representa uma forte barreira ao progresso, já que existe uma relação direta entre o PIB e o número de doutores. A sociedade parece não enxergar a pesquisa como ferramenta para geração de riqueza, havendo defasagem entre o discurso político nacional e a realidade. Estamos diante de um ciclo pernicioso que não consentirá, no caso amazônico, o atendimento das prioridades içadas pela ABC. A fixação de doutores ou profissionais de maior aptidão intelectual somente ocorrerá se houver algum diferencial para atração. São necessários adicionais aos salários ou recompensas, tais como possibilidades concretas de intercâmbio científico, melhores condições de comunicabilidade, facilidades na importação de insumos e material para pesquisa, entre outros.

Investimento amazônico em P&D

Não se poderia ponderar em dar oportunidade à Amazônia sem um olhar crítico ao sistema universitário regional. Há centros de excelência nas várias universidades federais amazônicas, mas os números da produção científica indicam restar um longo e árduo caminho para a consolidação dessas instituições como centros de análises e discussões das demandas desenvolvimentistas.


Segundo o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico -CNPq (Tabela 1), dos 68.748 autores nacionais que publicaram no período entre 2005 a 2008, apenas 2.613 (3,8%) estão na Região Norte do Brasil.Dos 229.368 artigos publicados por pesquisadores brasileiros em periódicos de circulação internacional no período entre 2005 a 2008, apenas 6.396 (2,7%) vieram da Região Norte, sendo a menor contribuição em termos regionais. É importante evidenciar que a Região Norte publicou 7.502 artigos em revistas de circulação nacional no mesmo período, todavia essa realidade não é alvissareira, pois evidencia que, possivelmente, os níveis de generalizações nas informações publicadas não atingem as exigências dos periódicos internacionais de alto fator de impacto, sendo, por isso, publicadas preferencialmente em periódicos de circulação regional. Há, porém, nesses resultados outras variáveis importantes. Os números relativos à Região Norte refletem também o grande esforço dos 2.863 doutores que estão formalmente nas instituições de pesquisa. A quase totalidade dos doutores publicou 4.632 artigos por ano, o que perfaz uma média de 1,6 artigo por pesquisador/ano. Comparando com a produção científica da Região Sudeste, por exemplo (2,5 artigos/pesquisador/ano), a média não está tão díspare, ou seja, nas condições atuais, o esforço de publicação para o Norte do País está a satisfatório, não sendo de nenhum modo desprezível. Resta ainda uma questão: quanto do conhecimento produzido está sendo convertido em inovação? O Brasil, em 2009, obteve 148 concessões de patentes junto ao escritório ao escritório norte-americano de patentes (USPTO), enquanto a Coreia do Sul obteve 9.566 concessões. Os números indicam que o conhecimento produzido pelos pesquisadores nacionais parece ainda distante da demanda do setor produtivo, levando à indagação sobre o acerto dos investimentos em C&T.

Considerando que a ABC (2008) sugere como prioridade a “ampliação e fortalecimento da Pós-Graduação, expandindo de forma expressiva a formação, atração e fixação de pessoal altamente qualificado em C,T&I, torna-se condição sine qua non que o sistema universitário regional assuma postura mais consentânea com o ambiente acadêmico de nível mundial. Universidades passam a fazer jus a esse título quando, necessariamente, estão lecionando sobre o conhecimento que produzem. O paradoxo regional é que a produção do conhecimento local não é capaz de comunicar alterações nas grades estruturais dos cursos acadêmicos e, nessas circunstâncias, as universidades operam como refletores do conhecimento gerado em outras partes do mundo, resultando em influência tangencial na realidade local.

De outro lado, o setor produtivo amazônico demanda mais inovação nas engenharias, contrapondo-se ao cerne da produção científica regional voltado para biologia. Resta decifrarmos a contradição que nos oprime: a Amazônia é uma região considerada megadiversa, mas o setor produtivo regional não se desenvolve em torno da biodiversidade, ou seja, ratificamos a indagação se estaríamos aplicando corretamente os recursos disponíveis para P&D. Algumas variáveis insistem na manutenção do status quo regional: i) inadequada distribuição geográfica das competências regionais; ii) carência de infraestrutura de C&T nas instituições; iii) investimento amazônico inadequado em P&D. Esse cenário leva à baixa capilaridade de ação das Instituições de C&T na Região, resultando em baixa formação de pesquisadores e de capital humano para atuar em pesquisa, desenvolvimento e inovação. A consequência última dessa cadeia de fatos é a reduzida produção, difusão e utilização do conhecimento e de tecnologias que contribuam para o desenvolvimento sustentável da Amazônia.

Apesar de continuarem as assimetrias regionais, na última década tem havido interesse por parte do governo federal em redefinir os percentuais destinados à atividade de P&D nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Há uma determinação para que 30% dos recursos de editais sejam destinados às referidas regiões, onde estão concentrados 25% da massa crítica nacional para pesquisa. Isso tem permitido ampliação na infraestrutura para grupos de pesquisa emergentes, abrindo janelas para a produção científica e para o adensamento da massa crítica.
Por outro lado, os sistemas estaduais de C,T&I contam com fundamental apoio das FAPs, aumentando a possibilidade para o desdobramento científico nos estados.
  
O total geral das receitas dos estados da Amazônia, segundo os números do Ministério da Fazenda para 2010, é em torno de R$ 14 trilhões. Se 1% desse total fosse investido no sistema de C,T&I desses mesmos estados, os recursos seriam da ordem de 145 bilhões de Reais, soma que daria para criar um fundo regional de investimentos e para financiar sucessivamente programas de pesquisas induzidos pela sociedade local. No caso específico da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (FAPEAM), foram investidos entre 2003 e 2009 R$ 39.309.375,00, montante que corresponde a 0,6% da arrecadação estadual em 2009 (FAPEAM, 2010). Ainda que as FAPs estejam ativas, os recursos para permitir metas mais ambiciosas ainda são limitados. No entanto, se bem entendido o papel estratégico das FAPs, poderá haver indução de pesquisas que esquadrinhem soluções aos gargalos locais, ampliando espaços para parcerias entre academias e o setor produtivo, um casamento que poderá trazer uma prolífica sucessão de resultados importantes.



 Bibliografia

ACADEMIA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS .2008. Amazônia: desafio brasileiro do século XXI/Academia Brasileira de Ciências. São Paulo:Fundação Conrado Wessel, 32 p.

FAPEAM. 2008. Realtório de atividades 2003-2008. www.fapeam.am.gov.br

UNESCO .2010. UNESCO SCIENCE REPORT. UNESCO Publishing.
www.unesco.org/publishing

Claudio Ruy Vasconcelos da Fonseca - Doutor em zoologia, Pesquisador Titular do INPA, Professor da Universidade do Estado do Amazonas.