Introdução
As doenças
virais transmitidas por insetos representam um importante desafio de saúde
pública nas áreas urbanas do Brasil. Essas viroses vetoriais incluem
tanto arboviroses (vírus transmitidos por mosquitos hematófagos) quanto viroses
de veiculação hídrica/alimentar associadas a insetos sinantrópicos (como
moscas e baratas) que agem como vetores mecânicos. Este relatório
analisa, com base em dados do Sistema Único de Saúde (SUS) e fontes confiáveis,
a prevalência dessas viroses na população urbana brasileira. São identificados
os principais vírus e seus insetos transmissores, quais desses insetos são
sinantrópicos (adaptados ao ambiente urbano humano), o risco de transmissão em
alimentos expostos (como em supermercados) e quais vírus têm maior plausibilidade
de serem veiculados dessa forma. As evidências apresentadas foram extraídas de
estudos epidemiológicos, vigilância sanitária (por exemplo, notas técnicas da
Anvisa e da OMS) e literatura científica recente, visando embasar conclusões e
recomendações.
1.
Principais Viroses Urbanas e Insetos Vetores Associados
Várias
viroses afetam as populações urbanas brasileiras tendo insetos como vetores
(transmissores). A tabela a seguir resume os principais vírus, seus insetos
transmissores e exemplos de dados de prevalência recentes no Brasil:
Vírus (Doença) |
Inseto Vetor |
Contexto Epidemiológico (Brasil) |
Dengue (DENV) |
Mosquito Aedes aegypti (também
A. albopictus) – inseto hematófago urbano. |
Arbovirose epidêmica nas cidades brasileiras. Em 2024 foram
registrados 6,48 milhões de casos prováveis de dengue no país, com
5.972 óbitos. O Aedes aegypti é o principal vetor urbano e prolifera
em criadouros domiciliares. |
Zika (ZIKV) |
Mosquito Aedes aegypti/albopictus. |
Arbovirose emergente; após a epidemia de 2015-2016, mantém transmissão
esporádica. Em 2024, houve cerca de 7.777 casos prováveis de Zika no
Brasil (incidência de 3,8/100 mil), sem óbitos confirmados no período. |
Chikungunya (CHIKV) |
Mosquito Aedes aegypti/albopictus. |
Arbovirose estabelecida no Brasil desde 2014. Em 2024, foram
notificados 253.748 casos prováveis de chikungunya (125 casos/100 mil
hab.), com 162 óbitos confirmados. A maioria das infecções ocorreu em áreas
urbanas do Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste. |
Febre Amarela (vírus amarílico) |
Mosquito Aedes aegypti (ciclo
urbano, potencial) e mosquitos silvestres (Haemagogus, Sabethes
no ciclo silvestre). |
Atualmente no Brasil, os casos de febre amarela têm ocorrido no ciclo
silvestre. Contudo, o risco de reemergência do ciclo urbano (via A.
aegypti) preocupa autoridades. Campanhas de vacinação e vigilância tentam
evitar a transmissão urbana. |
Oropouche (OROV) – “febre do Oropouche” |
Mosquitos e pequenas moscas hematófagas. Vetor principal: Culicoides paraensis (mosquito
pólvora/maruim); há evidências de transmissão também por Culex
quinquefasciatus (pernilongo doméstico) . |
Arbovirose emergente na região Amazônica e Nordeste. Entre as SE 1–34
de 2024, houve 7.848 casos confirmados de febre do Oropouche no
Brasil, incluindo raros casos graves (2 óbitos confirmados). Causa surtos de
febre súbita, cefaleia e, raramente, manifestações neurológicas. |
“Virose da mosca” (gastroenterites virais
agudas) |
Moscas domiciliares (Musca
domestica), baratas (Periplaneta americana, Blattella
germanica) e formigas – vetores mecânicos (transportam o
agente em patas/corpo). |
Termo popular para surtos de doenças diarreicas agudas (DDA)
causadas por vírus entéricos transmitidos por alimentos/água contaminados.
Esses vírus incluem principalmente norovírus e rotavírus, e
possivelmente adenovírus entéricos e astrovírus. São frequentes em meses
quentes/chuvosos. Ex: apenas em janeiro de 2025, Fortaleza registrou 3.056
atendimentos por gastroenterite aguda (“virose da mosca”). |
Observações: Os mosquitos Aedes respondem pelas principais arboviroses
urbanas (dengue, Zika, chikungunya). Já moscas e baratas, embora não
inoculem patógenos pela picada, atuam como vetores mecânicos, carreando
vírus presentes em material contaminado (fezes, lixo, esgoto) para alimentos ou
superfícies, causando gastroenterites virais – por isso a designação “virose
da mosca” para diarreias sazonais (AMAZONAS, 2024). Além dos exemplos acima, outras viroses menos comuns podem estar
associadas a insetos: p.ex., o vírus do Nilo Ocidental e o vírus da Encefalite
de Saint Louis (detecções ocasionais no Brasil) são transmitidos por mosquitos
Culex (pernilongos urbanos); já Hantavírus e Arenavírus não
são transmitidos por insetos e sim por roedores (via excretas), e vírus da
raiva por morcegos, portanto fora do escopo deste relatório.
2. Insetos
Sinantrópicos e sua Adaptação ao Ambiente Urbano
Insetos sinantrópicos
são aqueles que se adaptaram a viver em estreita associação com o ser humano e
seu ambiente (domicílios, peridomicílios, cidades). Entre os vetores listados
na seção anterior, muitos são sinantrópicos, o que facilita a
transmissão das viroses nas áreas urbanas. Os principais insetos vetores e seu
grau de sinantropia incluem:
- Aedes aegypti (mosquito) – Altamente sinantrópico. Prolifera em ambientes urbanos,
depositando ovos em recipientes artificiais com água parada (caixas d’água
destampadas, pneus, vasos, lixo) encontrados nas casas e arredores. Esse
mosquito tem hábitos domésticos e diurnos, picando
preferencialmente humanos, o que explica sua eficiência na transmissão de
dengue, Zika, chikungunya e outras arboviroses urbanas. O Aedes aegypti
é considerado um dos principais vetores urbanos no Brasil e sua
presença está vinculada à alta densidade populacional e saneamento
inadequado.
·
Culex
quinquefasciatus (pernilongo comum) – Sinantrópico. Mosquito abundante em áreas urbanas, prolifera em água
poluída (valas, esgotos, canais). Tem hábito noturno e pode picar humanos e
aves. É vetor de arbovírus encefalíticos em outras regiões (como o vírus
do Nilo Ocidental), e estudos indicam que pode transmitir o vírus Oropouche em
ambientes urbanos (THE WASHINGTON POST, 2024). . Além disso, é vetor de
filariose (elefantíase) em algumas cidades brasileiras. Sua presença indica
problemas de saneamento; controlar Culex requer manejo de esgoto e águas
estagnadas.
- Mosca doméstica (Musca domestica) – Sinantrópica por excelência. Essas moscas vivem em
estreita associação com a atividade humana, alimentando-se de lixo, fezes
e alimentos expostos. São onipresentes em centros urbanos, especialmente
em ambientes com manejo inadequado de resíduos. Não picam, mas
pousam em superfícies e alimentos, atuando como vetor mecânico de
patógenos. Estudo piloto na Índia detectou norovírus em 50% das
moscas capturadas e rotavírus em ~7%, confirmando que moscas podem
carregar vírus entéricos. No Brasil, surtos de DDA aumentam na quadra
chuvosa, quando a proliferação de moscas é favorecida (AMAZONAS,
2024). Portanto, a mosca doméstica é vetor
importante de viroses gastrointestinais em cenário urbano.
- Baratas (ex.: Periplaneta americana,
Blatella germanica) –
Insetos altamente sinantrópicos, habitando esgotos, rede de drenagem,
estabelecimentos comerciais e residências (especialmente cozinhas e
despensas). Transitam entre lixo/fezes e alimentos armazenados,
carregando agentes infecciosos aderidos ao corpo e às fezes que deixam
pelo caminho. A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece as baratas
como agentes transmissores de doenças bacterianas e virais –
incluindo poliomielite e hepatite A, ao contaminar alimentos ou
superfícies (KIOTO, 2024). Embora
baratas não sejam vetores biológicos (o patógeno não se multiplica
nelas), funcionam como reservatório e transporte mecânico de vírus
resistentes no ambiente (especialmente vírus entéricos de transmissão
fecal-oral).
- Outros insetos sinantrópicos: Algumas espécies de formigas urbanas (como a formiga-faraó Monomorium
pharaonis ou a Tapinoma spp.) frequentam cozinhas e podem
carregar microorganismos de esgotos e lixo para alimentos – atuando
similarmente a baratas e moscas na contaminação mecânica (embora em geral
sejam mais implicadas com bactérias). Moscas varejeiras (Chrysomya
spp., Lucilia spp.), que também convivem em ambientes urbanos,
podem veicular patógenos ao pousar em carnes ou alimentos expostos. Flebotomíneos
(mosquitos-palha), embora sinantrópicos em certas áreas
(peridomicílio), transmitem principalmente protozoários (leishmaniose) e
não serão detalhados aqui por não veicularem viroses humanas conhecidas.
Em resumo,
mosquitos hematófagos como Aedes e Culex adaptaram-se às
cidades e transmitem vírus de pessoa a pessoa via picadas, enquanto
moscas, baratas e outros sinantrópicos não hematófagos transmitem vírus
por contaminação ambiental, carregando-os sobre o corpo para dentro de
casas, feiras e estabelecimentos alimentícios (AMAZONAS, 2024). Essa adaptação ao convívio humano explica em grande parte a
persistência e magnitude das viroses urbanas no Brasil.
3. Risco de
Transmissão de Viroses em Alimentos Expostos (Supermercados)
É plausível
a transmissão de vírus através de alimentos expostos em supermercados por meio
de insetos vetores mecânicos, especialmente moscas e baratas. Nesses
ambientes, alimentos a granel ou descobertos (frutas, hortaliças, pães em
padarias, alimentos em bancadas de promoção etc.) podem ser ocasionalmente
visitados por pragas urbanas. A contaminação ocorre quando o inseto,
previamente em contato com material infectante, pousa ou caminha sobre o
alimento, depositando partículas virais que podem infectar o consumidor.
Vários fatores sustentam o risco plausível:
- Moscas contaminando alimentos: Moscas domésticas são atraídas por resíduos orgânicos e
frequentemente têm acesso a fezes ou lixo onde vírus entéricos podem estar
presentes (por exemplo, fezes humanas ou de animais contendo norovírus,
rotavírus, hepatite A, etc.). Ao pousarem nesses materiais,
micro-organismos aderem às suas patas, cerdas e aparelho bucal. Ao
pousar posteriormente em um alimento exposto, a mosca pode depositar esses
patógenos, seja por contato das patas ou ao vomitar/regurgitar enzimas
digestivas e posteriormente defecar no local (parte de seu processo
alimentar). Essa transferência mecânica de vírus é bem documentada para
agentes diarreicos: conforme citado, moscas capturadas apresentaram RNA de
norovírus e rotavírus com alta frequência, demonstrando seu papel
na veiculação. Autoridades sanitárias alertam que moscas, ao revirarem
lixo e fezes em busca de alimento, podem ficar com vírus e bactérias
infecciosos e levá-los para dentro dos ambientes onde alimentos estão
expostos (AMAZONAS, 2024) . Ou
seja, uma mosca pousando em frutas ou frios descobertos pode contaminá-los
se estiver carregando vírus infecciosos.
- Baratas em superfícies alimentares: Baratas possuem comportamento noturno e exploratório, podendo perambular
por prateleiras, depósitos e mesmo gôndolas de supermercados durante a
noite. Se houver infestação, elas podem caminhar sobre pães, grãos ou
quaisquer alimentos mal acondicionados. Estudos mostram que baratas
carregam em seu intestino e superfície diversos patógenos de importância
em saúde pública (BIOCONSER, 2024). No
caso de vírus, evidências indicam que baratas podem disseminar poliovírus
e vírus da hepatite A – por exemplo, surtos históricos de poliomielite já
foram associados à presença de baratas como veículos mecânicos, carregando
o vírus de esgoto para alimentos armazenados. De forma semelhante, o
vírus da hepatite A (VHA), que sobrevive por longos períodos no ambiente, pode
ser transportado por baratas e depositado em comida, levando à
infecção quando alguém a consome sem adequada higienização (KIOTO,
2024). Cabe ressaltar que em supermercados, as
baratas podem se esconder em embalagens de papelão, frestas e sistemas de
esgoto interno, tendo acesso tanto às áreas de estoque quanto
eventualmente às prateleiras de exposição.
- Superfícies de corte e utensílios: Mesmo quando os alimentos estão embalados, existe risco indireto:
moscas ou baratas podem contaminar equipamentos e utensílios
(facas, pegadores, balcões) que entrem em contato com alimentos. Se frutas
ou frios são fatiados em área exposta onde pousou uma mosca contaminada, o
vírus pode transferir-se para o alimento via superfície. Por isso, as Boas
Práticas de Manipulação exigem rigor na higiene ambiental e no
controle de pragas. A Anvisa, por exemplo, determina na RDC nº 216/2004
(item 4.3.1) que as instalações de serviços de alimentação devem ser
livres de vetores e pragas urbanas, mantendo ações contínuas para
impedir sua atração e proliferação (KIOTO, 2024). Essa norma se aplica também a supermercados que comercializam
alimentos in natura ou prontos para consumo, visando prevenir
contaminações.
- Evidências sanitárias e epidemiológicas: Embora seja difícil rastrear surtos alimentares diretamente a uma
mosca ou barata (devido à complexidade de fatores), autoridades de saúde
frequentemente relacionam aumento de viroses gastrointestinais com a
maior presença de insetos. Por exemplo, boletins municipais no
Nordeste atribuem a “virose da mosca” à contaminação de água ou alimentos
por vírus através de vetores como moscas e baratas (AMAZONAS, 2024). Durante períodos de surto, reforça-se a orientação de proteger
alimentos do contato com esses insetos e melhorar a limpeza. Um caso
notório de vigilância ocorreu no Amazonas (FVS-AM) esclarecendo à
população que a virose da mosca é transmitida pela ingestão de alimentos
contaminados por vírus carregados por moscas, enfatizando a necessidade de
manter ambientes limpos e alimentos protegidos (AMAZONAS,
2024). Ou seja, existe reconhecimento oficial
de que insetos sinantrópicos em ambientes de preparação/venda de alimentos
representam um risco plausível de transmissão viral.
- Transmissão mecânica de vírus não
entéricos: Em teoria, qualquer vírus presente no
ambiente pode aderir a um inseto. No contexto de supermercado, além de
vírus entéricos, poder-se-ia questionar vírus respiratórios (p.ex.
SARS-CoV-2 causador da COVID-19). Estudos durante a pandemia indicaram que
moscas domésticas podem abrigar partículas de SARS-CoV-2 por até 24
horas após a exposição, mantendo RNA viral detectável. Isso sugere
que, se uma mosca pousasse em superfícies contaminadas com secreções
respiratórias (por ex., um lenço descartado) e depois em alimentos,
poderia depositar o vírus. No entanto, a viabilidade de infecção por esse
meio é incerta – diferentemente dos norovírus, o SARS-CoV-2 não demonstrou
capacidade de replicar em insetos ou persistir ativamente neles. Assim, apesar
de possível, a transmissão de vírus respiratórios via contaminação de
alimentos por insetos é considerada pouco provável. O foco principal
de risco em supermercados recai sobre os vírus entéricos mesmo.
Medidas de
Controle: Diante do exposto, fica clara a importância
de controle rigoroso de pragas em locais que armazenam ou vendem
alimentos. Supermercados devem seguir as normas sanitárias (como a RDC 216 e
outras boas práticas), realizando ações preventivas: instalação de telas em
portas e janelas, manejo correto de lixo (bem fechado e retirado com
frequência) (AMAZONAS, 2024), dedetização profissional
periódica, inspeção de mercadorias para evitar trazer infestação, e manutenção
dos alimentos protegidos (cobrir ou embalar produtos a granel, silos fechados
para grãos, vitrines para pães etc.). Essas medidas reduzem o acesso de moscas
e baratas aos itens alimentícios, quebrando a rota de transmissão mecânica.
Do ponto de vista do consumidor, recomenda-se lavar frutas e verduras antes do
consumo e observar a higiene do local (evitar adquirir produtos expostos onde
se veem moscas), diminuindo o risco de ingestão de algo contaminado.
4. Viroses
com Maior Viabilidade de Veiculação por Insetos em Alimentos
Nem todos
os vírus possuem o mesmo potencial de ser transmitido via contaminação de
alimentos por insetos. Os fatores-chave incluem: resistência do vírus no
ambiente, dose infecciosa (quantos vírus são necessários para causar
doença) e prevalência ambiental (quão comum é o vírus em fontes que os
insetos visitam). Com base em estudos e diretrizes, destacam-se as seguintes
viroses como as mais viáveis de serem veiculadas dessa forma em um ambiente de
supermercado:
- Norovírus: É considerado o principal agente de surtos de gastroenterite não
bacteriana no mundo e no Brasil (UOL, 2025).
Extremamente contagioso, causa vômitos e diarreia e possui dose
infecciosa baixíssima (bastam poucas partículas virais para infectar).
Norovírus são não envelopados, o que lhes confere grande
resistência em superfícies e no ambiente (podem sobreviver dias fora do
hospedeiro). Estudos já detectaram norovírus em moscas domésticas
em áreas endêmicas, indicando que o vírus suporta a transferência via
vetor mecânico. Em um supermercado, um norovírus presente em restos de
alimentos no lixo ou em esgoto poderia aderir a uma barata ou mosca e ser
depositado em alimentos expostos. Dado que a transmissão fecal-oral do
norovírus requer ingestão de quantidade mínima de partículas (UOL,
2025), essa rota é bastante plausível. De
fato, surtos de “virose da mosca” em comunidades muitas vezes têm por trás
norovírus circulando entre as pessoas (como confirmado em surtos de
viroses no litoral de SP em 2025 (UOL, 2025).
Portanto, norovírus encabeça a lista de viroses viáveis por insetos
em alimentos.
- Rotavírus: Tradicionalmente, o rotavírus foi a principal causa de diarreia
grave em crianças pequenas. Com a vacinação, a incidência diminuiu, mas
ele ainda circula. É um vírus não envelopado, bastante resistente no meio
ambiente e transmitido por via fecal-oral, semelhante ao norovírus. Moscas
podem carrear rotavírus – conforme citado, amostras de moscas em estudo
detectaram o RNA rotaviral. Em ambientes urbanos, o rotavírus pode estar
presente em fraldas descartadas no lixo, esgotos ou em superfícies
contaminadas por fezes de crianças doentes. Assim, rotavírus pode
ser mecanicamente veiculado a alimentos por vetores sinantrópicos. Caso um
alimento contaminado seja ingerido, especialmente por crianças não
vacinadas, há risco de infecção e quadro de gastroenterite aguda (diarreia
aquosa, vômitos, febre). Cabe lembrar que rotavírus tem alta infectividade
em populações susceptíveis, embora hoje exista proteção parcial da
população infantil via vacina.
- Vírus da Hepatite A (VHA): Causa hepatite viral aguda transmitida via fecal-oral, geralmente
por água ou alimentos contaminados. O VHA é um vírus não envelopado e
ambientalmente estável, podendo resistir em ambiente externo por semanas.
É plausível que moscas e baratas contribuam para espalhar o VHA em
ambientes onde haja contaminação fecal. Autoridades de saúde já admitiram
a possibilidade de baratas veicularem hepatite A (KIOTO, 2024). Em supermercados, a contaminação de alimentos prontos (p.ex.,
saladas, frutas secas, confeitaria) por baratas infectadas com VHA oriundo
de esgoto ou lixo infectado poderia levar consumidores à infecção. Embora
surtos de hepatite A sejam mais comumente associados a água não tratada e
alimentos manipulados por pessoas infectadas, a via mecânica por insetos
não pode ser descartada em condições de higiene precária. Diante do surto
de hepatite A em Curitiba (2024), reforçou-se que a contaminação se dá
pelo contato de fezes com a boca, incluindo alimentos mal higienizados (CURITIBA,
2024) – o que inclui contaminação ambiental
possivelmente ampliada por vetores.
- Enterovírus (Poliovírus e outros): Poliovírus (agente da poliomielite) é um enterovírus que pode ser eliminado em fezes e transmitido por via fecal-oral. Embora o Brasil esteja livre de poliovírus selvagem há décadas, cepas vacinais ainda circulam em ambiente de esgoto. As baratas historicamente são implicadas em dispersar poliovírus: evidências mostram poliovírus isolados de baratas em áreas com circulação viral, e a OMS inclui poliomielite entre as doenças potencialmente veiculadas por baratas (KIOTO, 2024; BIOCONSER, 2024) . Além da pólio, outros enterovírus humanos (Echovírus, Coxsackievírus) poderiam seguir dinâmica parecida se presentes. Em contexto de supermercado, essa via teria importância caso haja contaminação viral no entorno (por exemplo, esgoto a céu aberto próximo, ou esgoto sanitário retornando pelo ralo), mas dado o alto nível de imunização contra poliomielite, casos reais são raros. De qualquer forma, enterovírus resistentes no ambiente têm potencial de ser transportados por vetores urbanos.
- Adenovírus entéricos e Astrovírus: São agentes também de gastroenterites virais (adenovírus tipos 40/41 causam diarreia em crianças; astrovírus acometem crianças e idosos). Ambos são não envelopados e estáveis fora do hospedeiro, podendo persistir em água ou superfícies. Assim, analogamente aos anteriores, poderiam ser carregados mecanicamente. Não há tantos estudos específicos com moscas/baratas para esses vírus, mas pela biologia deles, é viável a transmissão passiva. Em surtos de DDA onde rotavírus e norovírus são negativos, frequentemente astrovírus ou adenovírus são encontrados, o que sugere que a “virose da mosca” pode abranger também esses agentes em menor proporção.
- Vírus emergentes de interesse: SARS-CoV-2 (COVID-19) e Influenza (gripe) foram considerados na pandemia sob o ângulo de possível transmissão por fômites e insetos. Como mencionado, moscas conseguem carregar temporariamente o coronavírus, porém não há evidência de que isso tenha causado casos de COVID-19; a transmissão é principalmente respiratória direta. No caso de influenza, a sobrevivência do vírus em superfícies é menor e a dose infecciosa é mais alta para ingestão, tornando improvável adquirir gripe por alimento contaminado por um inseto. HIV e outros vírus sanguíneos não sobrevivem no trato de insetos, e não se transmitem por vetores mecânicos (além disso, não contaminam alimentos). Portanto, do ponto de vista de alimentos em supermercados, é razoável focar nas viroses entéricas mencionadas (Noro/Rota/Hep A/enterovírus) como as de maior viabilidade.
Em síntese,
os vírus entéricos não envelopados destacam-se como os candidatos mais
prováveis a serem veiculados por moscas e baratas em ambiente de supermercado,
pois toleram condições adversas e requerem porta de entrada digestiva –
exatamente o cenário de ingestão de alimento contaminado. Já os arbovírus
transmitidos por mosquitos (dengue, Zika etc.) não representam risco por
alimentos, pois sua transmissão requer a picada do inseto inoculando o
vírus na corrente sanguínea. Assim, embora Aedes aegypti circule em um
mercado e possa picar clientes (transmitindo dengue diretamente pela picada),
ele não vai contaminar os alimentos com esses vírus de forma eficaz,
pois arbovírus não sobrevivem por longo tempo fora do vetor e geralmente não
infectam via trato gastrointestinal humano. A Tabela 1 a seguir resume
as viroses de maior risco de veiculação em alimentos por insetos sinantrópicos:
Vírus (Doença) |
Transmissão Primária |
Resistência ambiental? |
Potencial de transmissão via insetos em
alimentos? |
Norovírus (gastroenterite viral) |
Fecal-oral direta; água/alimentos contaminados. |
Alta – sobrevive dias em superfícies. |
Muito alto: Pequena dose infectante e moscas
comprovadamente carregam-no. Principal causa de surtos de DDA (“virose da
mosca”). |
Rotavírus (diarreia aguda) |
Fecal-oral direta; objetos contaminados. |
Alta – estável no ambiente (dias a semanas). |
Alto: Vírus não envelopado resistente; moscas
podem carregá-lo. Importante em DDA infantil, embora mitigado por vacina. |
Hepatite A (VHA) |
Fecal-oral (água/alimento); contato pessoal. |
Alta – sobrevive semanas em água/alimento. |
Alto: Evidências de carreamento por baratas . Risco especialmente se higiene for precária; causa surtos
alimentares. |
Enterovírus (poliovírus) |
Fecal-oral; água/alimento contaminados. |
Alta – poliovírus resiste dias a semanas. |
Moderado: Reconhecido que baratas podem transportar
poliovírus. Apesar da baixa circulação atual, permanece teórico vetor
mecânico. |
Adenovírus entéricos |
Fecal-oral; contato mãos-boca. |
Alta – não envelopado, estável. |
Moderado: Podem ser carregados similarmente, embora
menos documentado. |
Astrovírus (diarreia viral) |
Fecal-oral. |
Moderada – resiste dias. |
Moderado: Possível veiculação mecânica, dado seu modo
de transmissão semelhante. |
Dengue, Zika, Chikungunya |
Vetor biológico (picada de mosquito Aedes). |
Baixa – envelopados, frágeis fora do hospedeiro. |
Nulo por alimentos:
Necessitam da picada para infecção. Não se transmitem por comida contaminada;
mosquitos não depositam o vírus em superfícies alimentares. |
SARS-CoV-2 (COVID-19) |
Aerossóis/ gotículas respiratórias; contato superfícies. |
Moderada – horas em superfícies. |
Muito baixo: Moscas podem carregar RNA viral por algumas
horas, mas sem evidência de infecção por ingestão. |
Influenza (gripe) |
Aerossóis; contato superfícies. |
Baixa – horas em superfícies. |
Muito baixo: Pouco provável contrair influenza de
alimento contaminado por inseto; vírus sensível e dose alta necessária. |
Nota: A tabela enfatiza que Norovírus e Rotavírus são os
patógenos com maior preocupação em termos de veiculação por moscas e baratas,
seguidos do VHA (hepatite A). Esses agentes causam exatamente os quadros
de gastroenterite e hepatite que os órgãos de saúde veem aumentar quando há
falhas de higiene e proliferação de pragas, corroborando a conexão.
5.
Considerações Finais e Recomendações
A análise
dos dados do SUS, literatura científica e diretrizes oficiais confirma que viroses
transmitidas por insetos continuam de elevada prevalência nas áreas urbanas
brasileiras. As arboviroses como dengue, Zika e chikungunya, veiculadas por
mosquitos Aedes sinantrópicos, atingem milhares a milhões de pessoas
anualmente, exigindo vigilância constante e controle vetorial comunitário
(eliminação de criadouros, campanhas de conscientização e, futuramente, uso de
vacinas – como no caso da dengue – para reduzir o impacto). Simultaneamente,
viroses entéricas frequentemente rotuladas popularmente como “virose da mosca”
persistem como causa importante de morbidade, especialmente nos meses chuvosos
de verão. A associação entre más condições sanitárias, infestação de
moscas/baratas e surtos de diarreia viral é bem estabelecida,
indicando que intervenções simples de higiene ambiental podem prevenir inúmeros
casos (AMAZONAS, 2024). No que tange ao ambiente de supermercados
e estabelecimentos alimentícios, a principal implicação é a necessidade de adesão
estrita às boas práticas de higiene e controle de pragas. A legislação
sanitária brasileira (Anvisa) já prevê que esses locais mantenham-se livres
de vetores urbanos através de medidas contínuas. Este relatório reforça
que tal exigência não é meramente burocrática, mas sim fundamental para
prevenir doenças potencialmente graves nos consumidores. Moscas e baratas em
áreas de alimentos não são apenas indesejáveis – elas podem efetivamente
transmitir vírus causadores de enfermidades gastrointestinais e outras
infecções, como demonstrado por achados científicos.
Recomendações
específicas incluem: armazenamento adequado de alimentos
(preferir vitrines fechadas ou embalagens para itens prontos para consumo),
manutenção de lixeiras tampadas e limpeza frequente para não atrair moscas,
monitoramento de pontos críticos (depósitos, caixas de gordura, ralos) para
evitar abrigo de baratas, e contratação de empresas especializadas em controle
de pragas seguindo as normas (RDC 52/2009 da Anvisa, por exemplo, regulamenta a
atuação de dedetizadoras). Do ponto de vista da vigilância epidemiológica, é
importante notificar surtos de DDA e investigar suas causas – em alguns
casos, isso permitirá identificar falhas em supermercados, feiras ou
restaurantes, e confirmar a via de transmissão, direcionando ações
corretivas.
Por fim,
alinham-se com as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) e
do Ministério da Saúde para enfrentamento dessas viroses: melhorar o saneamento
básico (reduzindo criadouros de Aedes e exposição fecal que alimenta
moscas), educação em saúde para cuidados de higiene (lavagem das mãos,
proteção dos alimentos, descarte sanitário de resíduos) e fortalecimento da
vigilância integrada de doenças transmitidas por vetores. A abordagem
integrada (One Health) reconhece que controlar insetos sinantrópicos nas
cidades traz benefícios não só para reduzir viroses, mas também doenças
bacterianas e parasitárias associadas. Portanto, as evidências apontam que
investimentos em infraestrutura urbana (água tratada, coleta de lixo, manejo de
esgoto) e em controle vetorial têm retorno direto na redução da carga
dessas viroses na população urbana brasileira.
Referências Utilizadas:
AMAZONAS. Secretaria de Estado de Saúde. ‘Virose da mosca’: Saúde do
Amazonas esclarece sobre doença. Manaus: SES-AM, 2024. Disponível em:
https://www.saude.am.gov.br/virose-da-mosca-saude-do-amazonas-esclarece-sobre-doenca/.
Acesso em: 3 abr. 2025.
BIOCONSER. Quais são as doenças transmitidas
por baratas? Bioconser, 2024. Disponível em:
https://bioconser.com.br/quais-sao-as-doencas-transmitidas-por-baratas/. Acesso
em: 3 abr. 2025.
CURITIBA. Surto de Hepatite A em Curitiba tem transmissão de pessoa a
pessoa; são 255 casos e 5 mortes confirmadas em 2024. Prefeitura Municipal de
Curitiba, 26 fev. 2024. Disponível em:
https://www.curitiba.pr.gov.br/noticias/surto-de-hepatite-a-em-curitiba-tem-transmissao-de-pessoa-a-pessoa-sao-255-casos-e-5-mortes-confirmadas-em-2024/73751.
Acesso em: 3 abr. 2025.
KIOTO. Doenças que podem ser causadas por
baratas. Dedetizadora Kioto, 2024. Disponível em:
https://dedetizadorakioto.com.br/doencas-que-podem-ser-causadas-por-baratas/.
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