quinta-feira, 3 de abril de 2025

Relatório: Viroses Transmitidas por Insetos na População Urbana Brasileira

 

Introdução

As doenças virais transmitidas por insetos representam um importante desafio de saúde pública nas áreas urbanas do Brasil. Essas viroses vetoriais incluem tanto arboviroses (vírus transmitidos por mosquitos hematófagos) quanto viroses de veiculação hídrica/alimentar associadas a insetos sinantrópicos (como moscas e baratas) que agem como vetores mecânicos. Este relatório analisa, com base em dados do Sistema Único de Saúde (SUS) e fontes confiáveis, a prevalência dessas viroses na população urbana brasileira. São identificados os principais vírus e seus insetos transmissores, quais desses insetos são sinantrópicos (adaptados ao ambiente urbano humano), o risco de transmissão em alimentos expostos (como em supermercados) e quais vírus têm maior plausibilidade de serem veiculados dessa forma. As evidências apresentadas foram extraídas de estudos epidemiológicos, vigilância sanitária (por exemplo, notas técnicas da Anvisa e da OMS) e literatura científica recente, visando embasar conclusões e recomendações.

1. Principais Viroses Urbanas e Insetos Vetores Associados

Várias viroses afetam as populações urbanas brasileiras tendo insetos como vetores (transmissores). A tabela a seguir resume os principais vírus, seus insetos transmissores e exemplos de dados de prevalência recentes no Brasil:

Vírus (Doença)

Inseto Vetor

Contexto Epidemiológico (Brasil)

Dengue (DENV)

Mosquito Aedes aegypti (também A. albopictus) – inseto hematófago urbano.

Arbovirose epidêmica nas cidades brasileiras. Em 2024 foram registrados 6,48 milhões de casos prováveis de dengue no país, com 5.972 óbitos. O Aedes aegypti é o principal vetor urbano e prolifera em criadouros domiciliares.

Zika (ZIKV)

Mosquito Aedes aegypti/albopictus.

Arbovirose emergente; após a epidemia de 2015-2016, mantém transmissão esporádica. Em 2024, houve cerca de 7.777 casos prováveis de Zika no Brasil (incidência de 3,8/100 mil), sem óbitos confirmados no período.

Chikungunya (CHIKV)

Mosquito Aedes aegypti/albopictus.

Arbovirose estabelecida no Brasil desde 2014. Em 2024, foram notificados 253.748 casos prováveis de chikungunya (125 casos/100 mil hab.), com 162 óbitos confirmados. A maioria das infecções ocorreu em áreas urbanas do Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste.

Febre Amarela (vírus amarílico)

Mosquito Aedes aegypti (ciclo urbano, potencial) e mosquitos silvestres (Haemagogus, Sabethes no ciclo silvestre).

Atualmente no Brasil, os casos de febre amarela têm ocorrido no ciclo silvestre. Contudo, o risco de reemergência do ciclo urbano (via A. aegypti) preocupa autoridades. Campanhas de vacinação e vigilância tentam evitar a transmissão urbana.

Oropouche (OROV) – “febre do Oropouche”

Mosquitos e pequenas moscas hematófagas. Vetor principal: Culicoides paraensis (mosquito pólvora/maruim); há evidências de transmissão também por Culex quinquefasciatus (pernilongo doméstico)​

.

Arbovirose emergente na região Amazônica e Nordeste. Entre as SE 1–34 de 2024, houve 7.848 casos confirmados de febre do Oropouche no Brasil, incluindo raros casos graves (2 óbitos confirmados). Causa surtos de febre súbita, cefaleia e, raramente, manifestações neurológicas.

“Virose da mosca” (gastroenterites virais agudas)

Moscas domiciliares (Musca domestica), baratas (Periplaneta americana, Blattella germanica) e formigas – vetores mecânicos (transportam o agente em patas/corpo).

Termo popular para surtos de doenças diarreicas agudas (DDA) causadas por vírus entéricos transmitidos por alimentos/água contaminados. Esses vírus incluem principalmente norovírus e rotavírus, e possivelmente adenovírus entéricos e astrovírus. São frequentes em meses quentes/chuvosos. Ex: apenas em janeiro de 2025, Fortaleza registrou 3.056 atendimentos por gastroenterite aguda (“virose da mosca”).

Observações: Os mosquitos Aedes respondem pelas principais arboviroses urbanas (dengue, Zika, chikungunya). Já moscas e baratas, embora não inoculem patógenos pela picada, atuam como vetores mecânicos, carreando vírus presentes em material contaminado (fezes, lixo, esgoto) para alimentos ou superfícies, causando gastroenterites virais – por isso a designação “virose da mosca” para diarreias sazonais​ (AMAZONAS, 2024). Além dos exemplos acima, outras viroses menos comuns podem estar associadas a insetos: p.ex., o vírus do Nilo Ocidental e o vírus da Encefalite de Saint Louis (detecções ocasionais no Brasil) são transmitidos por mosquitos Culex (pernilongos urbanos); já Hantavírus e Arenavírus não são transmitidos por insetos e sim por roedores (via excretas), e vírus da raiva por morcegos, portanto fora do escopo deste relatório.

2. Insetos Sinantrópicos e sua Adaptação ao Ambiente Urbano

Insetos sinantrópicos são aqueles que se adaptaram a viver em estreita associação com o ser humano e seu ambiente (domicílios, peridomicílios, cidades). Entre os vetores listados na seção anterior, muitos são sinantrópicos, o que facilita a transmissão das viroses nas áreas urbanas. Os principais insetos vetores e seu grau de sinantropia incluem:

  • Aedes aegypti (mosquito) – Altamente sinantrópico. Prolifera em ambientes urbanos, depositando ovos em recipientes artificiais com água parada (caixas d’água destampadas, pneus, vasos, lixo) encontrados nas casas e arredores. Esse mosquito tem hábitos domésticos e diurnos, picando preferencialmente humanos, o que explica sua eficiência na transmissão de dengue, Zika, chikungunya e outras arboviroses urbanas. O Aedes aegypti é considerado um dos principais vetores urbanos no Brasil e sua presença está vinculada à alta densidade populacional e saneamento inadequado.

·        Culex quinquefasciatus (pernilongo comum) – Sinantrópico. Mosquito abundante em áreas urbanas, prolifera em água poluída (valas, esgotos, canais). Tem hábito noturno e pode picar humanos e aves. É vetor de arbovírus encefalíticos em outras regiões (como o vírus do Nilo Ocidental), e estudos indicam que pode transmitir o vírus Oropouche em ambientes urbanos​ (THE WASHINGTON POST, 2024). . Além disso, é vetor de filariose (elefantíase) em algumas cidades brasileiras. Sua presença indica problemas de saneamento; controlar Culex requer manejo de esgoto e águas estagnadas.

  • Mosca doméstica (Musca domestica) – Sinantrópica por excelência. Essas moscas vivem em estreita associação com a atividade humana, alimentando-se de lixo, fezes e alimentos expostos. São onipresentes em centros urbanos, especialmente em ambientes com manejo inadequado de resíduos. Não picam, mas pousam em superfícies e alimentos, atuando como vetor mecânico de patógenos. Estudo piloto na Índia detectou norovírus em 50% das moscas capturadas e rotavírus em ~7%, confirmando que moscas podem carregar vírus entéricos. No Brasil, surtos de DDA aumentam na quadra chuvosa, quando a proliferação de moscas é favorecida​ (AMAZONAS, 2024). Portanto, a mosca doméstica é vetor importante de viroses gastrointestinais em cenário urbano.
  • Baratas (ex.: Periplaneta americana, Blatella germanica) – Insetos altamente sinantrópicos, habitando esgotos, rede de drenagem, estabelecimentos comerciais e residências (especialmente cozinhas e despensas). Transitam entre lixo/fezes e alimentos armazenados, carregando agentes infecciosos aderidos ao corpo e às fezes que deixam pelo caminho. A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece as baratas como agentes transmissores de doenças bacterianas e virais – incluindo poliomielite e hepatite A, ao contaminar alimentos ou superfícies​ (KIOTO, 2024). Embora baratas não sejam vetores biológicos (o patógeno não se multiplica nelas), funcionam como reservatório e transporte mecânico de vírus resistentes no ambiente (especialmente vírus entéricos de transmissão fecal-oral).
  • Outros insetos sinantrópicos: Algumas espécies de formigas urbanas (como a formiga-faraó Monomorium pharaonis ou a Tapinoma spp.) frequentam cozinhas e podem carregar microorganismos de esgotos e lixo para alimentos – atuando similarmente a baratas e moscas na contaminação mecânica (embora em geral sejam mais implicadas com bactérias). Moscas varejeiras (Chrysomya spp., Lucilia spp.), que também convivem em ambientes urbanos, podem veicular patógenos ao pousar em carnes ou alimentos expostos. Flebotomíneos (mosquitos-palha), embora sinantrópicos em certas áreas (peridomicílio), transmitem principalmente protozoários (leishmaniose) e não serão detalhados aqui por não veicularem viroses humanas conhecidas.

Em resumo, mosquitos hematófagos como Aedes e Culex adaptaram-se às cidades e transmitem vírus de pessoa a pessoa via picadas, enquanto moscas, baratas e outros sinantrópicos não hematófagos transmitem vírus por contaminação ambiental, carregando-os sobre o corpo para dentro de casas, feiras e estabelecimentos alimentícios​ (AMAZONAS, 2024). Essa adaptação ao convívio humano explica em grande parte a persistência e magnitude das viroses urbanas no Brasil.

3. Risco de Transmissão de Viroses em Alimentos Expostos (Supermercados)

É plausível a transmissão de vírus através de alimentos expostos em supermercados por meio de insetos vetores mecânicos, especialmente moscas e baratas. Nesses ambientes, alimentos a granel ou descobertos (frutas, hortaliças, pães em padarias, alimentos em bancadas de promoção etc.) podem ser ocasionalmente visitados por pragas urbanas. A contaminação ocorre quando o inseto, previamente em contato com material infectante, pousa ou caminha sobre o alimento, depositando partículas virais que podem infectar o consumidor. Vários fatores sustentam o risco plausível:

  • Moscas contaminando alimentos: Moscas domésticas são atraídas por resíduos orgânicos e frequentemente têm acesso a fezes ou lixo onde vírus entéricos podem estar presentes (por exemplo, fezes humanas ou de animais contendo norovírus, rotavírus, hepatite A, etc.). Ao pousarem nesses materiais, micro-organismos aderem às suas patas, cerdas e aparelho bucal. Ao pousar posteriormente em um alimento exposto, a mosca pode depositar esses patógenos, seja por contato das patas ou ao vomitar/regurgitar enzimas digestivas e posteriormente defecar no local (parte de seu processo alimentar). Essa transferência mecânica de vírus é bem documentada para agentes diarreicos: conforme citado, moscas capturadas apresentaram RNA de norovírus e rotavírus com alta frequência, demonstrando seu papel na veiculação. Autoridades sanitárias alertam que moscas, ao revirarem lixo e fezes em busca de alimento, podem ficar com vírus e bactérias infecciosos e levá-los para dentro dos ambientes onde alimentos estão expostos​ (AMAZONAS, 2024) . Ou seja, uma mosca pousando em frutas ou frios descobertos pode contaminá-los se estiver carregando vírus infecciosos.
  • Baratas em superfícies alimentares: Baratas possuem comportamento noturno e exploratório, podendo perambular por prateleiras, depósitos e mesmo gôndolas de supermercados durante a noite. Se houver infestação, elas podem caminhar sobre pães, grãos ou quaisquer alimentos mal acondicionados. Estudos mostram que baratas carregam em seu intestino e superfície diversos patógenos de importância em saúde pública​ (BIOCONSER, 2024). No caso de vírus, evidências indicam que baratas podem disseminar poliovírus e vírus da hepatite A – por exemplo, surtos históricos de poliomielite já foram associados à presença de baratas como veículos mecânicos, carregando o vírus de esgoto para alimentos armazenados​. De forma semelhante, o vírus da hepatite A (VHA), que sobrevive por longos períodos no ambiente, pode ser transportado por baratas e depositado em comida, levando à infecção quando alguém a consome sem adequada higienização​ (KIOTO, 2024). Cabe ressaltar que em supermercados, as baratas podem se esconder em embalagens de papelão, frestas e sistemas de esgoto interno, tendo acesso tanto às áreas de estoque quanto eventualmente às prateleiras de exposição.
  • Superfícies de corte e utensílios: Mesmo quando os alimentos estão embalados, existe risco indireto: moscas ou baratas podem contaminar equipamentos e utensílios (facas, pegadores, balcões) que entrem em contato com alimentos. Se frutas ou frios são fatiados em área exposta onde pousou uma mosca contaminada, o vírus pode transferir-se para o alimento via superfície. Por isso, as Boas Práticas de Manipulação exigem rigor na higiene ambiental e no controle de pragas. A Anvisa, por exemplo, determina na RDC nº 216/2004 (item 4.3.1) que as instalações de serviços de alimentação devem ser livres de vetores e pragas urbanas, mantendo ações contínuas para impedir sua atração e proliferação​ (KIOTO, 2024). Essa norma se aplica também a supermercados que comercializam alimentos in natura ou prontos para consumo, visando prevenir contaminações.
  • Evidências sanitárias e epidemiológicas: Embora seja difícil rastrear surtos alimentares diretamente a uma mosca ou barata (devido à complexidade de fatores), autoridades de saúde frequentemente relacionam aumento de viroses gastrointestinais com a maior presença de insetos. Por exemplo, boletins municipais no Nordeste atribuem a “virose da mosca” à contaminação de água ou alimentos por vírus através de vetores como moscas e baratas​ (AMAZONAS, 2024). Durante períodos de surto, reforça-se a orientação de proteger alimentos do contato com esses insetos e melhorar a limpeza. Um caso notório de vigilância ocorreu no Amazonas (FVS-AM) esclarecendo à população que a virose da mosca é transmitida pela ingestão de alimentos contaminados por vírus carregados por moscas, enfatizando a necessidade de manter ambientes limpos e alimentos protegidos(AMAZONAS, 2024). Ou seja, existe reconhecimento oficial de que insetos sinantrópicos em ambientes de preparação/venda de alimentos representam um risco plausível de transmissão viral.
  • Transmissão mecânica de vírus não entéricos: Em teoria, qualquer vírus presente no ambiente pode aderir a um inseto. No contexto de supermercado, além de vírus entéricos, poder-se-ia questionar vírus respiratórios (p.ex. SARS-CoV-2 causador da COVID-19). Estudos durante a pandemia indicaram que moscas domésticas podem abrigar partículas de SARS-CoV-2 por até 24 horas após a exposição, mantendo RNA viral detectável. Isso sugere que, se uma mosca pousasse em superfícies contaminadas com secreções respiratórias (por ex., um lenço descartado) e depois em alimentos, poderia depositar o vírus. No entanto, a viabilidade de infecção por esse meio é incerta – diferentemente dos norovírus, o SARS-CoV-2 não demonstrou capacidade de replicar em insetos ou persistir ativamente neles. Assim, apesar de possível, a transmissão de vírus respiratórios via contaminação de alimentos por insetos é considerada pouco provável. O foco principal de risco em supermercados recai sobre os vírus entéricos mesmo.

Medidas de Controle: Diante do exposto, fica clara a importância de controle rigoroso de pragas em locais que armazenam ou vendem alimentos. Supermercados devem seguir as normas sanitárias (como a RDC 216 e outras boas práticas), realizando ações preventivas: instalação de telas em portas e janelas, manejo correto de lixo (bem fechado e retirado com frequência)​ (AMAZONAS, 2024), dedetização profissional periódica, inspeção de mercadorias para evitar trazer infestação, e manutenção dos alimentos protegidos (cobrir ou embalar produtos a granel, silos fechados para grãos, vitrines para pães etc.). Essas medidas reduzem o acesso de moscas e baratas aos itens alimentícios, quebrando a rota de transmissão mecânica. Do ponto de vista do consumidor, recomenda-se lavar frutas e verduras antes do consumo e observar a higiene do local (evitar adquirir produtos expostos onde se veem moscas), diminuindo o risco de ingestão de algo contaminado.

4. Viroses com Maior Viabilidade de Veiculação por Insetos em Alimentos

Nem todos os vírus possuem o mesmo potencial de ser transmitido via contaminação de alimentos por insetos. Os fatores-chave incluem: resistência do vírus no ambiente, dose infecciosa (quantos vírus são necessários para causar doença) e prevalência ambiental (quão comum é o vírus em fontes que os insetos visitam). Com base em estudos e diretrizes, destacam-se as seguintes viroses como as mais viáveis de serem veiculadas dessa forma em um ambiente de supermercado:

  • Norovírus: É considerado o principal agente de surtos de gastroenterite não bacteriana no mundo e no Brasil​ (UOL, 2025). Extremamente contagioso, causa vômitos e diarreia e possui dose infecciosa baixíssima (bastam poucas partículas virais para infectar). Norovírus são não envelopados, o que lhes confere grande resistência em superfícies e no ambiente (podem sobreviver dias fora do hospedeiro). Estudos já detectaram norovírus em moscas domésticas em áreas endêmicas, indicando que o vírus suporta a transferência via vetor mecânico. Em um supermercado, um norovírus presente em restos de alimentos no lixo ou em esgoto poderia aderir a uma barata ou mosca e ser depositado em alimentos expostos. Dado que a transmissão fecal-oral do norovírus requer ingestão de quantidade mínima de partículas​ (UOL, 2025), essa rota é bastante plausível. De fato, surtos de “virose da mosca” em comunidades muitas vezes têm por trás norovírus circulando entre as pessoas (como confirmado em surtos de viroses no litoral de SP em 2025 (UOL, 2025). Portanto, norovírus encabeça a lista de viroses viáveis por insetos em alimentos.
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  • Rotavírus: Tradicionalmente, o rotavírus foi a principal causa de diarreia grave em crianças pequenas. Com a vacinação, a incidência diminuiu, mas ele ainda circula. É um vírus não envelopado, bastante resistente no meio ambiente e transmitido por via fecal-oral, semelhante ao norovírus. Moscas podem carrear rotavírus – conforme citado, amostras de moscas em estudo detectaram o RNA rotaviral. Em ambientes urbanos, o rotavírus pode estar presente em fraldas descartadas no lixo, esgotos ou em superfícies contaminadas por fezes de crianças doentes. Assim, rotavírus pode ser mecanicamente veiculado a alimentos por vetores sinantrópicos. Caso um alimento contaminado seja ingerido, especialmente por crianças não vacinadas, há risco de infecção e quadro de gastroenterite aguda (diarreia aquosa, vômitos, febre). Cabe lembrar que rotavírus tem alta infectividade em populações susceptíveis, embora hoje exista proteção parcial da população infantil via vacina.
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  • Vírus da Hepatite A (VHA): Causa hepatite viral aguda transmitida via fecal-oral, geralmente por água ou alimentos contaminados. O VHA é um vírus não envelopado e ambientalmente estável, podendo resistir em ambiente externo por semanas. É plausível que moscas e baratas contribuam para espalhar o VHA em ambientes onde haja contaminação fecal. Autoridades de saúde já admitiram a possibilidade de baratas veicularem hepatite A​ (KIOTO, 2024). Em supermercados, a contaminação de alimentos prontos (p.ex., saladas, frutas secas, confeitaria) por baratas infectadas com VHA oriundo de esgoto ou lixo infectado poderia levar consumidores à infecção. Embora surtos de hepatite A sejam mais comumente associados a água não tratada e alimentos manipulados por pessoas infectadas, a via mecânica por insetos não pode ser descartada em condições de higiene precária. Diante do surto de hepatite A em Curitiba (2024), reforçou-se que a contaminação se dá pelo contato de fezes com a boca, incluindo alimentos mal higienizados​ (CURITIBA, 2024) – o que inclui contaminação ambiental possivelmente ampliada por vetores.
  •  Enterovírus (Poliovírus e outros): Poliovírus (agente da poliomielite) é um enterovírus que pode ser eliminado em fezes e transmitido por via fecal-oral. Embora o Brasil esteja livre de poliovírus selvagem há décadas, cepas vacinais ainda circulam em ambiente de esgoto. As baratas historicamente são implicadas em dispersar poliovírus: evidências mostram poliovírus isolados de baratas em áreas com circulação viral, e a OMS inclui poliomielite entre as doenças potencialmente veiculadas por baratas​ (KIOTO, 2024; BIOCONSER, 2024) . Além da pólio, outros enterovírus humanos (Echovírus, Coxsackievírus) poderiam seguir dinâmica parecida se presentes. Em contexto de supermercado, essa via teria importância caso haja contaminação viral no entorno (por exemplo, esgoto a céu aberto próximo, ou esgoto sanitário retornando pelo ralo), mas dado o alto nível de imunização contra poliomielite, casos reais são raros. De qualquer forma, enterovírus resistentes no ambiente têm potencial de ser transportados por vetores urbanos.
  •  Adenovírus entéricos e Astrovírus: São agentes também de gastroenterites virais (adenovírus tipos 40/41 causam diarreia em crianças; astrovírus acometem crianças e idosos). Ambos são não envelopados e estáveis fora do hospedeiro, podendo persistir em água ou superfícies. Assim, analogamente aos anteriores, poderiam ser carregados mecanicamente. Não há tantos estudos específicos com moscas/baratas para esses vírus, mas pela biologia deles, é viável a transmissão passiva. Em surtos de DDA onde rotavírus e norovírus são negativos, frequentemente astrovírus ou adenovírus são encontrados, o que sugere que a “virose da mosca” pode abranger também esses agentes em menor proporção.
  •  Vírus emergentes de interesse: SARS-CoV-2 (COVID-19) e Influenza (gripe) foram considerados na pandemia sob o ângulo de possível transmissão por fômites e insetos. Como mencionado, moscas conseguem carregar temporariamente o coronavírus, porém não há evidência de que isso tenha causado casos de COVID-19; a transmissão é principalmente respiratória direta. No caso de influenza, a sobrevivência do vírus em superfícies é menor e a dose infecciosa é mais alta para ingestão, tornando improvável adquirir gripe por alimento contaminado por um inseto. HIV e outros vírus sanguíneos não sobrevivem no trato de insetos, e não se transmitem por vetores mecânicos (além disso, não contaminam alimentos). Portanto, do ponto de vista de alimentos em supermercados, é razoável focar nas viroses entéricas mencionadas (Noro/Rota/Hep A/enterovírus) como as de maior viabilidade.

Em síntese, os vírus entéricos não envelopados destacam-se como os candidatos mais prováveis a serem veiculados por moscas e baratas em ambiente de supermercado, pois toleram condições adversas e requerem porta de entrada digestiva – exatamente o cenário de ingestão de alimento contaminado. Já os arbovírus transmitidos por mosquitos (dengue, Zika etc.) não representam risco por alimentos, pois sua transmissão requer a picada do inseto inoculando o vírus na corrente sanguínea. Assim, embora Aedes aegypti circule em um mercado e possa picar clientes (transmitindo dengue diretamente pela picada), ele não vai contaminar os alimentos com esses vírus de forma eficaz, pois arbovírus não sobrevivem por longo tempo fora do vetor e geralmente não infectam via trato gastrointestinal humano. A Tabela 1 a seguir resume as viroses de maior risco de veiculação em alimentos por insetos sinantrópicos:

Vírus (Doença)

Transmissão Primária

Resistência ambiental?

Potencial de transmissão via insetos em alimentos?

Norovírus (gastroenterite viral)

Fecal-oral direta; água/alimentos contaminados.

Alta – sobrevive dias em superfícies.

Muito alto: Pequena dose infectante e moscas comprovadamente carregam-no. Principal causa de surtos de DDA (“virose da mosca”).

Rotavírus (diarreia aguda)

Fecal-oral direta; objetos contaminados.

Alta – estável no ambiente (dias a semanas).

Alto: Vírus não envelopado resistente; moscas podem carregá-lo. Importante em DDA infantil, embora mitigado por vacina.

Hepatite A (VHA)

Fecal-oral (água/alimento); contato pessoal.

Alta – sobrevive semanas em água/alimento.

Alto: Evidências de carreamento por baratas​

. Risco especialmente se higiene for precária; causa surtos alimentares.

Enterovírus (poliovírus)

Fecal-oral; água/alimento contaminados.

Alta – poliovírus resiste dias a semanas.

Moderado: Reconhecido que baratas podem transportar poliovírus​. Apesar da baixa circulação atual, permanece teórico vetor mecânico.

Adenovírus entéricos

Fecal-oral; contato mãos-boca.

Alta – não envelopado, estável.

Moderado: Podem ser carregados similarmente, embora menos documentado.

Astrovírus (diarreia viral)

Fecal-oral.

Moderada – resiste dias.

Moderado: Possível veiculação mecânica, dado seu modo de transmissão semelhante.

Dengue, Zika, Chikungunya

Vetor biológico (picada de mosquito Aedes).

Baixa – envelopados, frágeis fora do hospedeiro.

Nulo por alimentos: Necessitam da picada para infecção. Não se transmitem por comida contaminada; mosquitos não depositam o vírus em superfícies alimentares.

SARS-CoV-2 (COVID-19)

Aerossóis/ gotículas respiratórias; contato superfícies.

Moderada – horas em superfícies.

Muito baixo: Moscas podem carregar RNA viral por algumas horas, mas sem evidência de infecção por ingestão.

Influenza (gripe)

Aerossóis; contato superfícies.

Baixa – horas em superfícies.

Muito baixo: Pouco provável contrair influenza de alimento contaminado por inseto; vírus sensível e dose alta necessária.

Nota: A tabela enfatiza que Norovírus e Rotavírus são os patógenos com maior preocupação em termos de veiculação por moscas e baratas, seguidos do VHA (hepatite A). Esses agentes causam exatamente os quadros de gastroenterite e hepatite que os órgãos de saúde veem aumentar quando há falhas de higiene e proliferação de pragas, corroborando a conexão.

5. Considerações Finais e Recomendações

A análise dos dados do SUS, literatura científica e diretrizes oficiais confirma que viroses transmitidas por insetos continuam de elevada prevalência nas áreas urbanas brasileiras. As arboviroses como dengue, Zika e chikungunya, veiculadas por mosquitos Aedes sinantrópicos, atingem milhares a milhões de pessoas anualmente, exigindo vigilância constante e controle vetorial comunitário (eliminação de criadouros, campanhas de conscientização e, futuramente, uso de vacinas – como no caso da dengue – para reduzir o impacto). Simultaneamente, viroses entéricas frequentemente rotuladas popularmente como “virose da mosca” persistem como causa importante de morbidade, especialmente nos meses chuvosos de verão. A associação entre más condições sanitárias, infestação de moscas/baratas e surtos de diarreia viral é bem estabelecida, indicando que intervenções simples de higiene ambiental podem prevenir inúmeros casos​ (AMAZONAS, 2024). No que tange ao ambiente de supermercados e estabelecimentos alimentícios, a principal implicação é a necessidade de adesão estrita às boas práticas de higiene e controle de pragas. A legislação sanitária brasileira (Anvisa) já prevê que esses locais mantenham-se livres de vetores urbanos através de medidas contínuas​. Este relatório reforça que tal exigência não é meramente burocrática, mas sim fundamental para prevenir doenças potencialmente graves nos consumidores. Moscas e baratas em áreas de alimentos não são apenas indesejáveis – elas podem efetivamente transmitir vírus causadores de enfermidades gastrointestinais e outras infecções, como demonstrado por achados científicos.

Recomendações específicas incluem: armazenamento adequado de alimentos (preferir vitrines fechadas ou embalagens para itens prontos para consumo), manutenção de lixeiras tampadas e limpeza frequente para não atrair moscas, monitoramento de pontos críticos (depósitos, caixas de gordura, ralos) para evitar abrigo de baratas, e contratação de empresas especializadas em controle de pragas seguindo as normas (RDC 52/2009 da Anvisa, por exemplo, regulamenta a atuação de dedetizadoras). Do ponto de vista da vigilância epidemiológica, é importante notificar surtos de DDA e investigar suas causas – em alguns casos, isso permitirá identificar falhas em supermercados, feiras ou restaurantes, e confirmar a via de transmissão, direcionando ações corretivas.

Por fim, alinham-se com as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do Ministério da Saúde para enfrentamento dessas viroses: melhorar o saneamento básico (reduzindo criadouros de Aedes e exposição fecal que alimenta moscas), educação em saúde para cuidados de higiene (lavagem das mãos, proteção dos alimentos, descarte sanitário de resíduos) e fortalecimento da vigilância integrada de doenças transmitidas por vetores. A abordagem integrada (One Health) reconhece que controlar insetos sinantrópicos nas cidades traz benefícios não só para reduzir viroses, mas também doenças bacterianas e parasitárias associadas. Portanto, as evidências apontam que investimentos em infraestrutura urbana (água tratada, coleta de lixo, manejo de esgoto) e em controle vetorial têm retorno direto na redução da carga dessas viroses na população urbana brasileira.

Referências Utilizadas:

AMAZONAS. Secretaria de Estado de Saúde. ‘Virose da mosca’: Saúde do Amazonas esclarece sobre doença. Manaus: SES-AM, 2024. Disponível em: https://www.saude.am.gov.br/virose-da-mosca-saude-do-amazonas-esclarece-sobre-doenca/. Acesso em: 3 abr. 2025.

BIOCONSER. Quais são as doenças transmitidas por baratas? Bioconser, 2024. Disponível em: https://bioconser.com.br/quais-sao-as-doencas-transmitidas-por-baratas/. Acesso em: 3 abr. 2025.

CURITIBA. Surto de Hepatite A em Curitiba tem transmissão de pessoa a pessoa; são 255 casos e 5 mortes confirmadas em 2024. Prefeitura Municipal de Curitiba, 26 fev. 2024. Disponível em: https://www.curitiba.pr.gov.br/noticias/surto-de-hepatite-a-em-curitiba-tem-transmissao-de-pessoa-a-pessoa-sao-255-casos-e-5-mortes-confirmadas-em-2024/73751. Acesso em: 3 abr. 2025.

KIOTO. Doenças que podem ser causadas por baratas. Dedetizadora Kioto, 2024. Disponível em: https://dedetizadorakioto.com.br/doencas-que-podem-ser-causadas-por-baratas/. Acesso em: 3 abr. 2025.

THE WASHINGTON POST. ‘Sloth fever’: What to know about the Oropouche virus. 28 ago. 2024. Disponível em: https://www.washingtonpost.com/health/2024/08/28/sloth-fever-oropouche-virus-symptoms-treatments-what-to-know/. Acesso em: 3 abr. 2025.

UOL. Pesadelo dos cruzeiros: o que é o vírus que está por trás de viroses. VivaBem, 9 jan. 2025. Disponível em: https://www.uol.com.br/vivabem/noticias/redacao/2025/01/09/pesadelo-dos-cruzeiros-o-que-e-o-virus-que-esta-por-tras-de-viroses.htm. Acesso em: 3 abr. 2025.

 

sexta-feira, 21 de março de 2025

Pensar, Obedecer e Vencer: O Caminho dos Preceitos

 

O uso parcial da língua — ou seja, o uso limitado, superficial ou desorganizado da linguagem — tem impactos profundos sobre o pensamento, o entendimento de conceitos e até mesmo a capacidade de seguir comandos essenciais para o bem-estar e o sucesso pessoal e social. A língua não serve apenas para comunicar ideias — ela é o meio pelo qual pensamos. Quando nosso vocabulário é pobre ou usamos a linguagem de forma imprecisa, nossa capacidade de pensar claramente também é afetada. Conceitos como justiça, amor, honra, responsabilidade, autoridade ou propósito só existem porque há palavras que os nomeiam e descrevem.

Quando a linguagem é usada de forma rasa (slogans, gírias genéricas, frases feitas), ela empobrece os conceitos. Isso dificulta: 1) Distinguir o que é certo do que é errado; 2) Compreender o valor de um princípio; 3) Julgar situações complexas com clareza moral e intelectual.

Deus, por exemplo, não dá comandos sem propósito. Seus comandos são convites à vida e à prosperidade (Deuteronômio 30:19). Mas para obedecer a um comando divino como “honra teu pai e tua mãe” ou “não cobiçarás”, é necessário mais do que saber ler — é preciso entender o conceito, refletir sobre ele, e integrá-lo à vida.

Em muitos livros e passagens bíblicos estão informações importantes que, se mal compreendidas podem gerar desordem e desconforto pessoal. Abaixo, estão algumas informações bíblicas nas quais a palavra preceitos aparece em vários contextos:

Salmos 19: 8 - Os preceitos do Senhor são retos e alegram o coração; o mandamento do Senhor é puro, e ilumina os olhos.

Salmos 89:31 - Se profanarem os meus preceitos, e não guardarem os meus mandamentos,

Salmos 119:15 - Meditarei nos teus preceitos, e terei respeito aos teus caminhos.

Lucas 1:6 - E eram ambos justos perante Deus, andando sem repreensão em todos os mandamentos e preceitos do Senhor.

A palavra "preceito" vem do latim praeceptum, que significa literalmente "ordem, regra, ensinamento". Essa palavra é derivada do verbo praecipere, que significa "ordenar, aconselhar, ensinar, instruir", e é composta por duas partes:

  • prae = "antes"
  • capere = "tomar, pegar"

Portanto, etimologicamente, praecipere pode ser entendido como "tomar antecipadamente" ou "dar instruções previamente", e praeceptum (preceito) seria algo que foi ensinado ou ordenado de antemão, uma norma ou princípio dado como guia de conduta.

A expressão "preceitos da lei" refere-se às normas, regras ou mandamentos específicos que compõem um sistema legal — seja ele religioso, moral ou civil.

O significado básico: Preceito: como vimos, é uma instrução, ordem ou mandamento. Lei: é o conjunto de princípios ou normas que regulam comportamentos dentro de uma sociedade ou religião.

Logo, preceitos da lei são os detalhamentos práticos daquilo que a lei exige, ou seja, os deveres específicos que devem ser observados para cumprir a lei como um todo.

No contexto jurídico, os "preceitos da lei" são os artigos e incisos que descrevem condutas obrigatórias ou proibidas. Exemplo: o Código Penal contém preceitos que proíbem o homicídio, o roubo etc.

No contexto bíblico/religioso, os "preceitos da Lei de Deus" são os mandamentos e orientações específicas dados por Deus para guiar o comportamento moral e espiritual do povo. Exemplo: os Dez Mandamentos são preceitos da Lei divina (amor a Deus e amor ao próximo), assim como várias instruções dadas na Torá.

Em sentido mais profundo, chamar algo de “preceito da lei” não é só dizer que é uma regra, mas destacar que tem autoridade normativa, foi ordenado por uma instância superior (Deus, o Estado etc.) e deve ser obedecido como parte do cumprimento da justiça ou da vontade dessa autoridade.

Vamos aprofundar o significado de “preceitos da lei” à luz da teologia bíblica, especialmente em sua relação com a graça, a salvação e o caráter de Deus.

Na Bíblia, os preceitos da Lei não são apenas regras externas ou arbitrárias; eles expressam o próprio caráter de Deus. Por exemplo, “Sede santos, porque Eu sou santo” (Levítico 19:2). Os mandamentos revelam atributos como justiça, amor, fidelidade, misericórdia e verdade. Assim, obedecer aos preceitos da Lei é refletir a imagem de Deus, e desobedecer é distorcer essa imagem.

À primeira vista, pode parecer que graça (favor imerecido) e lei (mandamentos e exigências) estão em conflito. Mas biblicamente, elas são complementares. A Lei revela o padrão de justiça de Deus. A Graça oferece o meio pelo qual o ser humano pode alcançar esse padrão, não por méritos próprios, mas pela ação divina no coração (ver Ezequiel 36:26-27; Hebreus 8:10). Ou seja, os preceitos da Lei mostram o ideal, e a graça capacita o homem a viver esse ideal.

A salvação não é conquistada por guardar os preceitos da Lei (Efésios 2:8-9), mas a salvação leva o ser humano à obediência como fruto da transformação operada por Deus (Tiago 2:17, Romanos 3:31). Jesus afirmou: “Se me amais, guardareis os meus mandamentos” (João 14:15). Aqui, os preceitos da Lei são evidência de um relacionamento de amor, não o caminho para obter esse relacionamento.

Paulo afirma que a Lei é como um “aio” ou pedagogo (Gálatas 3:24), que conduz o ser humano a Cristo, revelando a pecaminosidade do coração (Romanos 7:7) e a necessidade de um Redentor.

Os preceitos da Lei, no contexto bíblico, são mais do que mandamentos frios. Eles são uma expressão do caráter de Deus, um espelho que revela nossa condição, um mapa moral para uma vida plena e um resultado natural da obra da graça no coração humano. Portanto, quando alguém, pela fé, aceita a salvação e se rende ao Espírito, a obediência aos preceitos da Lei deixa de ser um fardo e se torna um prazer espiritual, uma resposta de amor e gratidão a Deus.

Preceitos da Lei no centro do conflito final

A Bíblia apresenta, especialmente no Apocalipse, a ideia de que os preceitos da Lei de Deus (particularmente os Dez Mandamentos) serão um ponto de divisão entre os verdadeiros adoradores e os enganados por Babilônia.

  • Apocalipse 12:17: "Os que guardam os mandamentos de Deus e têm o testemunho de Jesus."
  • Apocalipse 14:12: "Aqui está a perseverança dos santos, os que guardam os mandamentos de Deus e a fé em Jesus."

Esses textos indicam que, no fim dos tempos, o remanescente fiel será reconhecido por duas marcas: Obediência aos preceitos da Lei; fé viva e confiante em Cristo.

Nos escritos de Ellen G. White, os preceitos da Lei — em especial o quarto mandamento (o sábado) — serão o centro da prova de lealdade a Deus nos últimos dias. “A Lei de Deus é tão sagrada como o próprio Deus. É uma revelação de Sua vontade, uma transcrição de Seu caráter...” (O Grande Conflito, p. 434). Assim, atacar os preceitos da Lei é, em última instância, atacar o próprio caráter e governo de Deus.

“A questão decisiva será a obediência aos mandamentos de Deus ou aos mandamentos dos homens.” (O Grande Conflito, p. 604). A fidelidade aos preceitos da Lei será o teste que separará os fiéis dos rebeldes, não como meio de salvação, mas como sinal de quem está do lado do governo de Deus.

O sábado, como preceito do quarto mandamento, é descrito por Ellen White como o selo de Deus — o sinal externo de uma lealdade interna: “O selo da Lei de Deus se encontra no quarto mandamento. Somente esse, dos dez, contém o nome e título do Legislador...” (O Grande Conflito, p. 452)

Mesmo em meio ao conflito, a salvação continua sendo pela graça e mediante a fé em Jesus. A obediência aos preceitos da Lei não é legalismo, mas é a evidência do reinado de Cristo no coração.

Assim como Abraão obedeceu porque creu (Hebreus 11:8), o povo de Deus no fim dos tempos será obediente porque confia, porque ama, porque foi transformado.

Síntese escatológica-teológica é:

  • Os preceitos da Lei são eternos princípios morais, não abolidos nem relativizados pela graça.
  • No fim dos tempos, Deus terá um povo que reflete Seu caráter por meio da obediência voluntária.
  • A crise final será entre a adoração verdadeira (fundada na Lei de Deus) e a adoração falsa (fundada em tradições humanas).
  • Os mandamentos se tornam marcas visíveis de identidade espiritual, mas apenas aqueles que têm a fé em Jesus e estão selados pelo Espírito permanecerão fiéis.

Referências Bibliográficas

A Bíblia Sagrada. Diversas passagens utilizadas ao longo do texto, especialmente dos livros de Salmos, Levítico, Êxodo, Romanos, Gálatas, Efésios, João e Apocalipse. Tradução recomendada: Almeida Revista e Atualizada ou Almeida Corrigida Fiel.

WHITE, Ellen G. O Grande Conflito. Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2012.

WHITE, Ellen G. Mente, Caráter e Personalidade, vol. 1. Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1986.

FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.

HOUAISS, Antônio. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.

STOTT, John. A Mensagem de Romanos. São Paulo: ABU Editora, 1996.

VINE, W. E. Dicionário Vine: Expositivo de Palavras do Antigo e do Novo Testamento. Rio de Janeiro: CPAD, 2002.